sábado, 19 de dezembro de 2020

 

ANSIEDADES DUMA VELHA - VII ( E VIII)

Judite hoje deu-lhe para meditar numa pergunta que lhe fazem amiudadas vezes, de diversas formas e em diferentes tons.

_Então, o que fazes agora na aposentação?

Judite dá a resposta no sentido de indicar as atividades de voluntariado a que costuma dedicar-se e outras em que participa para exclusivo deleite próprio.

_Então, o que é que fazes?

Tantas coisas... ou talvez tão poucas, que o tempo passa muito depressa, em especial para quem não se dedica a algo específico e notável.

_ Mas o que é que tu fazes em casa todo o dia?

Todo o dia é diferente de todos os dias.

_ Então e agora... que estás em casa...

Sim ... também. Mas não só.

 _ Não te aborrece de estar em casa sem fazer nada?!...

Sem fazer nada? Sinceramente não compreendo esta pergunta. O que será não fazer nada. Há umas décadas, quando trabalhar fora de casa para as mulheres não era a generalidade, quando se perguntava o que fazia fulana: não faz nada, está em casa. E essa mulher que não fazia nada, matava-se a trabalhar mantendo a casa limpa, as roupas cuidadas, cozinhando, cuidando dos filhos, às vezes ainda dos pais, e quando caía na cama era cansaço de verdadeiro trabalho, mesmo não fazendo nada. Quando Judite pensa em alguém que possa não fazer nada, mesmo assim ainda imagina que alguém que apenas cuida de si mesma ocupa muitas horas do dia, e se não quiser fazer mesmo mais nada, ou apenas ver televisão, levar horas ao telefone com as amigas ou navegar na internet, tem já um dia sobrecarregado, por isso não fazer nada é um mundo, quase sempre trabalhoso e, sobretudo cansativo.

Claro que na maioria das vezes trata-se duma pergunta inocente, mas no caso da última, Judite pensa aconselhar essas perguntantes a lerem um dos contos de Guerra Junqueiro, "Os Pequenos no Bosque ", em que três miúdos, um dia em vez de irem para a escola, resolveram ir brincar com os animais que viviam no bosque. Convidaram para brincar desde a formiga, o rato, a pomba, a lebre, o regato e o pintassilgo e não encontraram nenhum totalmente livre de tarefas. E olhem que bem poderíamos pensar, como as crianças, que a natureza não tem nada para fazer, mas é bom não esquecermos que fazemos parte dela. Judite evoca, na sua infância, o padre a pregar na missa que os lírios no campo e os passarinhos não se preocupam com o dia de amanhã. Talvez não, mas tudo fazem para substituir a cada dia, que os têm, alguns, bem difíceis, e aparenta que não fazem nada. Ao que parece é uma frase capitalista: “Se não estás a trabalhar, então não estás a fazer nada", de tal modo as pessoas a entranharam que agora têm dificuldade em, literalmente, “não fazer nada". Judite, numa época em que trabalhava demais e que, com o andar dos anos, concluiu que não podia continuar a fazê-lo, comprou um livro intitulado " A arte de não fazer nada" que, por falta de tempo, não chegou a utilizar. Porém há dias soube que na Coreia do Sul " fazer nada" é um desporto. Se o desporto fosse um dos seus interesses iria juntá-los à lista de como não fazer nada, que até para não fazer, há listas. Mas há mais: descobriu que existe o Niksen, que é a capacidade de desligar completamente do mundo que nos rodeia e até de nós próprios. Esta última frase assusta Judite: desligarmo-nos de nós próprios é coisa “do último dia". Dizem os praticantes de Niksen, ou seja, os inactivos, que reduz a ansiedade, o stress e que fortalece o sistema imunitário. Ao que dizem, esta prática, como todas, tem de ser aprendida, ter autodisciplina e persistência para ver e sentir os resultados. É provável que isto de “não fazer nada” dê muito trabalho, conclui Judite. E que depois de tanto esforço, o mais provável é que não lhe apetecesse fazer mesmo nada. O melhor é ir trabalhando um pouco para desanuviar, porque tudo o que é demais, já diziam as nossas avós, não presta. E Judite acrescenta: e também cansa.

 

Outubro 2020

                                                     

ANSIEDADES DE UMA VELHA _ VIII

Quando a pandemia começou e se seguiu o primeiro confinamento onde imperava o terror do desconhecido, Judite pensava nas vidas sentimentalmente ameaçadas ou arruinadas, fisicamente separadas e, no entanto, livres para amar à distância.

Já conhecera tempos remotos em que a distância imposta pela guerra colonial separara os que se tinham escolhido para a vida; uns resistiram, outros menos. Com a imigração aconteceu quase outro tanto; quase, porque a decisão, apesar de não poder ser outra, partia de, pelo menos, um dos lados.

 Mas os tempos decorreram e atrás desses outros e outros e chegaram estes em que a vida sentimental e sexual é mais livre e, por que não o dizer, não sabe se mais libertina e mais acessível, com a facilidade de locomoção e de comunicação. E mais traiçoeira e atraiçoada, para não dizer banalizada: amigo trai melhor amigo, amiga trai melhor, ou pior, amiga. Claro que sempre assim foi, mas parece ter-se banalizado.

Com estes tempos de pandemia, muitas foram as separações, e outros que, por fidelidade ou incapacidade de lidar com a situação, não tiveram outro remédio senão pôr os dados na mesa e erguer a bandeira branca a pedir tréguas. Os mais hábeis conseguiram pontos a seu favor e até encontraram algum encanto no que tinham desdenhado, enquanto outros descobriram desencantos por quem se tinham encantado. É a vida, sempre a abrir umas janelas, a fechar outras, a embaciar e a partir algumas, pelo menos numa altura em que as portas tinham que estar fechadas, até que se abriram.

Tantas histórias recompostas, tantas outras amarrotadas entre as rasgadas.

É, sobretudo, no segundo e mais duro confinamento que Judite medita, mormente no confinamento psicológico, sentimental e sexual, nem sempre atenuado pelos práticos meios actuais, e que afectam tanto ou mais do que o físico, em relação ao ambiente interdito.

Quando começa a discorrer mentalmente, Judite perde-se nos labirintos das questões, sem conseguir vislumbrar o modo de como ficarão tantas mentes afectadas muito para além do vírus e das perdas por não vírus, mas devido à ditadura nunca antes conhecida noutros tempos em que não se podia falar: agora não se pode quase andar.

Fev/2021

 ANSIEDADES DUMA VELHA - VI

 Judite foi à praia; uma praia onde costumava estar sem vizinhos mais de  cento e cinquenta metros para cada lado e não se espantou de ver que já não há "praias desertas". Outrora, junto aos apoios de praia as pessoas "amontoavam-se" porque gostavam disso e deixavam a praia propriamente dita para os verdadeiros amantes da beira-mar e do lazer e agora vêem num futuro não imaginado e têm que espraiar-se em quase toda a vastidão.

Judite pragueja contra o coronavírus 19:  malvado,  que me estragaste a praia. Já não sabe uma velha  onde se há-de meter! Sim, porque os tais cento e cinquenta metros ou mais que a distanciava dos demais,  transformou-se em pouco mais de dez metros, que isso para ela é estar amontoada. Contara fazer uma pequena caminhada, chapinhando no manso rebentar das ondas, mas os magotes que caminhavam na orla em longas filas, como se marchassem pitorescamente para uma guerra perdida e desordenada, desencorajaram-na. Ficaria para mais tarde, quando o formigueiro se desvanecesse. 

Valeu-lhe a habitual boia de salvação que a salva de (quase) tudo: um livro, um instrumento que lhe permite tornar-se quase insensível a hostilidades externas, encontrar o conforto do encontro com um grande amigo e esquecer o temor constante do amanhã.

Também lhe parece que o tal malvado terá  estragado a praia dos tais amontoamentos que reuniam famílias, ruas e cidades a jogar às cartas, a contar anedotas e discutir futebol, a fazer croché, a jogar à bola na maré baixa. Agora, apesar da idade, têm  de se contentar com o telemóvel, falando alto, incomodando menos os vizinhos pelo afastamento imposto, talvez remendando algum par de meias se não tiveram ainda  "coragem" para irem aos chineses.

O que valeu a Judite foi o vento que soprou tão forte e frio que fez a maioria desabelhar. Dali a pouco amainou, o sol brilhou e aqueceu e quem acreditou ficou no paraíso, usufruindo de uns bons cem metros de desafogo, que detesta o termo distância social.


Agosto 2020

sábado, 26 de setembro de 2020



DESILUSÕES 

Desprezou-lhe os sonhos. De que se podia ela agora queixar; de que ele lhos matara? Alguma vez lhe ocorreu que também ele poderia ter sonhos? Cuidou que os seus e os dele fossem os mesmos: de entre outros, mais discutíveis, o primeiro, o primordial, possuir uma casa, já que a palavra "casamento" deriva de casa. Os anos, as décadas, longas décadas passaram e, iludida com os seus sonhos, não logrou indagar os dele que, afinal, ao que lhe parece, se limitavam a usufruir o momento: nada fazer, não fazer nada e, em alternativa, pouco fazer, porque, de vez em quando, é preciso mostrar trabalho, neste mundo de aparências e de quando em vez vestir-se de concreto. Ter uma casa fora uma ilusão; uma desilusão. A sua vida uma ilusão, uma desilusão, uma dor. Um habitáculo que, em vez de vida, era desabitado ou mal-habitado. 
Nem um nem outro estava feliz, vendo no outro o próprio retrato amarelecido pelo tempo e emoldurado por algo que fora sonho e que se desfazia, tal como a vida. Dois simulacros de vida, que acordavam como espectros, andavam como gente que sabe que o chão lhes foge debaixo dos pés e se deitavam como moribundos. 
Os dias cinzentos, embora de sol, áridos desertos onde já vive o esquecimento, melhor que o desânimo ou a inquietação duma alma habitada por ilusões, numa vida onde a razão não passou de um sonho, de uma aspiração juvenil que se prolongou, como uma angústia ou como um ardente amor que se teima em não perder. 
Agora que esse amor morreu, levou consigo a coragem nem sabe de quê, de uma espécie de tempo e de vida provisória perdidos; todas as conversas lhe são indiferentes, sem vontade de participação, numa subtil sensação de mediocridade, de tristeza intensa, de quase ausência de pensamento. 
Mas os dias, esses, continuam a nascer; nascem manhãs, crescem como tardes e envelhecem como noites sem madrugada. Sucedem-se, inclementes, cruéis, patéticos. 
Apetece-lhe que não sejam reais, que seja antes invadida por uma calma indefinida, mesmo que próxima da apatia, numa fidelidade à triste inércia.

domingo, 12 de julho de 2020



CRÓNICA DESSINCRONIZADA
(Exposição sobre o plástico na Ria Formosa)
Quarta-feira. Manhã. Abro a porta da Biblioteca-Museu do Jornal A avezinha e deparo-me, à entrada, com uns folhetos de design diferente dos habituais e, como todas as quartas-feiras de manhã, verifico se se adaptam ao local: PLASTIQUE SENSE(A)CTION - Exposição de Mateus Verde e Sara Mendes Vicente. Ah! Exclamo para comigo; uma exposição do Rui! A Sara não conheço. O que quer dizer que, pelo menos ele, o Rui Mateus, de nome artístico Mateus Verde, esteve cá. Tenho pena de não me ter encontrado com ele. É um rapaz raro, uma preciosidade e um artista, claro. Poderia dizer que lhe está no sangue: a avó é, por excelência, a poetisa cá da terra. Viva, graças a Deus. Ambos artistas, cada um com as suas artes. 
Dou voltas ao folheto; onde é a exposição? Não refere, talvez por erro de impressão, embora conclua, pelos apoios indicados, que será em Loulé ou pelo menos no concelho de Loulé, mas em que local? Vou à internet e encontro um artigo da Sul Informação, onde refere a exposição na " Folha de Medronho", Associação de Artes Performativas, em Loulé. 
Desconhecendo, procuro no mapa e parece-me próximo do Largo de São Francisco. Pronto, já estou situada. 
Por coincidência, como é o uso dizer-se, nessa quarta-feira tinha encontro de “Grupo de Escrita”, na Casa da Cultura de Loulé, mais precisamente por baixo da dita, no Bar 8100, por se tratar da última sessão do ano e querermos fazer um lanchinho de Natal. Saí um pouco antes do final por ter um compromisso familiar nessa noite e, regressando, passei pelo Largo de São Francisco, só para me certificar do local da “Folha de medronho”, mas sem descer do carro porque não me podia atrasar, tanto mais que àquela hora, cerca das 18:30 já teriam encerrado, porém, ao entrar na rua, à esquerda da Igreja de São Francisco, verifico que, quase em frente à dita, há ainda um estabelecimento iluminado, onde se encontra uma rapariga à secretária. Mesmo duvidando, porque não tinha memorizado o horário inserido no folheto e porque não queria chegar tarde ao compromisso, páro o carro e, com os quatro piscas ligados, empurro a porta envidraçada, sobre a qual leio o letreiro “Folha do Medronho” e pergunto se ainda são horas de ver a exposição. Que sim, até às 19:30, diz a rapariga que se levanta, com prontidão, sorrindo e se dirige a mim, pedindo-me permissão para me abraçar, que também são “uma associação de afectos”, sublinha, continuando a sorrir. Aquiesço, deixo-me abraçar e estranho que uma rapariga nova tenha o cabelo totalmente grisalho, mas já há muito quem se tenha rendido ao natural, vou eu pensando. 
Olhei à minha volta; onde está a exposição? É aqui na Sala de Ensaios, diz dirigindo-se a uma sala onde reina a escuridão, à excepção das luzes que incidem e permitem visualizar os elementos construídos pelos artistas, com materiais do dito lixo de plástico, recolhidos na Ria Formosa, numa parceria com o RIAS (Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens, num alerta divertido para quem ainda não tenha despertado para o assunto. Não sendo possível fazer uma exaustiva observação dos objectos construídos, entre outros achei interessante a abelha e muito original o aquário, não de peixes, mas de objetos de plástico. Tendo de me retirar mais apressadamente do que desejaria, e do que aconselha a boa educação, verifiquei ainda que sobre as mesas existiam livros recentemente apresentados, de que não pude tomar nota por falta de tempo. Apesar da minha pressa Xana, (Alexandra Diogo,) ainda me quis oferecer chá, rosto que figura num folheto que vi sobre a mesa, um espetáculo de teatro de que fez parte e que foi levado à cena no Cine Louletano, baseado no clássico “Antígona”, de Sófocles, onde aparece com cabelo loiro. Fazendo eu o reparo, em vista dos panfletos, diz-me que teve depois de o descolorar para o outro papel que assim o exigia. Ossos do ofício. “Encanecer”, título da dita peça teatral e de acordo com o grisalho, quase branco, do cabelo, agora compreendido. Muito tinha ainda para me contar e mostrar se de tempo eu dispusesse. Fiquei de lá voltar para me inteirar de tudo com mais pormenor. E tirar algumas fotografias. O que não aconteceu ainda. 

A exposição, essa, pode agora ser vista na delegação de Faro do IPJ (Instituto Português da Juventude)

Paderne, 25 de Fevereiro de 2020

sexta-feira, 10 de julho de 2020



                                                    CALENDÁRIO

 Espanta-se como o calendário corre pressuroso, avaro de sentimentos para com o tempo que o percorre e o possui; o calendário é descartável, não sente o sabor acre das vidas que controla, não se desforra de infidelidades, de chantagens.
São números, datas que foram vidas repletas de sentimentos complexos, aturdidas pela juventude e por palavras inúteis.
Cada um tem o seu calendário pessoal: nascimentos, aniversários, casamentos, mortes, não necessariamente por esta ordem. Alegrias voláteis, como aves marinhas pousando sobre as vagas, dramas íntimos emaranhados nas contradições, dores agudas, nostalgias, sentimentos complexos, amores e desprezos. Calendários carregados de vidas que as chamas do tempo chamuscam e acabam por queimar sob a incompreensão ou a estupidez, às vezes do amor, mas tão pouco.


           CARTA DE PRESENÇA (AMOR)

Não precisava de te escrever esta carta; podia dizer-to cara a cara ou lado a lado, como nos desse mais jeito, mas escrito fica mais bonito, embora saiba que não ligas a estas coisas. Se bem que isto de eu “saber”, posso estar enganada, como tantas vezes estou, e afinal tu gostares; só que gostas de te armar em durão; achas que fica bem a um homem, porém isto são deduções. Estamos juntos há mais de cinquenta anos e poderíamos contar com outros cinquenta, que continuaríamos a fazer deduções a respeito um do outro, que isso das certezas não é connosco: pelo menos não é comigo. Creio que é esse "desconhecimento" um do outro, não total, claro, que nos mantém, que nos alimenta, como se não nos pudéssemos separar de alguém que queremos conhecer melhor, mas sem muitas perguntas e isso leva décadas, muito mais de cinco.
Poderia começar por citar Nietzshe e dizer que o amor possibilita ver as coisas de outra maneira, que há sempre alguma loucura no amor, porque afinal é uma carta de amor que tenho que te escrever, mas o que quero, e todos os dias demonstro, é agradecer-te por estares vivo; podias ter arranjado maneira de te safares desta tarefa de me aturares, de já não estares por aqui; é isso que aprecio em ti: é estares presente sempre. Que nada é mais difícil de que viver com outra pessoa todos os dias. E mesmo assim, sorrir.
Podes não ter contribuído financeiramente como devias, mas estavas presente para mim, para os teus filhos. Podia ter sido ao contrário: teres-nos dado tudo, com excepção da tua presença. E foi ela, como continua a ser, que nos alimenta a existência. E isso, se calhar, é que é o amor, porque se não fosse, que coisa seria essa de nos mantermos vivos todos os dias, sem um motivo de maior?
Por isso, esta carta de amor não é uma carta lamechas nem sequer saudosa, que estes tempos continuam a ser os nossos tempos; só tens de te manter vivo. E isso não será mais difícil do que até agora, pois apesar de continuarmos com os nossos defeitos e diferenças, haverá sempre a intervenção da tolerância e, por que não, do amor?
Não te mando beijos nem abraços, porque não é preciso mandar. Estás aqui mesmo. Posso dar-tos sempre que quiser.

E ver-te sorrir. 


Publicada no Volume III da Colectânea de Cartas de Amor, da Chiado Books, em Fevereiro 2020

sábado, 27 de junho de 2020



ANSIEDADES DE UMA VELHA – V 
À DESCOBERTA 


Judite persiste na descoberta dos ditos benefícios do vírus; se dizem que os há, é uma questão de não desanimar e de procurá-los, nem que primeiro se chegue às Índias Ocidentais e se chame índios aos indígenas da América descoberta por Cristóvão Colombo e que anos depois se verifique que o caminho ,afinal, era para a esquerda.
O vírus dignificou o funcionário público, aquele que dá a cara, que ganha mal, que informa o pobre público dos direitos que tem e dos que não tem, e este, o povo não quer saber: exige os direitos que o pobre funcionário não pode dar e é, Não, era ameaçado. Dias e épocas em que o pobre funcionário não podia respirar, nem sequer dali sair para comer, porque primeiro os direitos do povo, que não tinha culpa que o funcionário fosse de carne e osso.
O funcionário pode agora fazer o seu trabalho dignamente, sem barulhos, sem exigências, sem ouvir reclamar que alguém passou à frente.
Agora, um de cada vez, no sossego que um trabalho atento e eficaz exige. Finalmente! Foi preciso tanto, para tão pouco.
E a que custo! Para todos. Ou quase.
O vírus impõe máscaras para ambas as partes. Ambos açaimados, praticamente irreconhecíveis, sem que se possa adivinhar o esboço dum sorriso empático, por vezes tão benéfico, e o restante público lá fora, chamado através de marcação prévia, ao sol, ao vento, à chuva. Por falar em chuva, a primavera “viral” trouxe dias fantásticos para agricultura, para a jardinagem, para ir às farmácias e ser atendido ao guichê, aos correios, aos serviços públicos, aos bancos, tudo um de cada vez, perfeitamente distanciados, como convém para o bem colectivo.
É para renovar o CC. Só com marcação, e olhe que tem de ir a Beja. A Beja? Sim, no Algarve nem tão cedo. Faça a marcação.
Fica mas é em casa. Porque se não estiveres doente, ficas. Não vás. Fica em casa. Ninguém morre se não fores aos CTTs, ao banco, à farmácia, ao registo civil, à segurança social. O mundo não acaba. E se acabar, é só para ti. E depois, quem sabem … talvez existam mais mundos!
Com a canícula, se não forem umas arvorezitas nas imediações, é de ficar com os miolos torrados quer pelo sol quer pela paciência, se, entretanto, não for acometido por uma congestão cerebral, coisa comum nas paradas militares. Se o militar desmaia, ainda se salva.
Que importa se tiveres uma descida de glicémia, uma subida de tensão, um joelho que não se aguenta. O melhor é desmaiar. Mas cuidado que o chão está sujo, as pessoas, passadas horas, vomitam, urinam atrás das pilastras.
É só para levantar um documento. Tem de marcar. Mas recebi informação para vir levantar …. Só com marcação.

sexta-feira, 26 de junho de 2020



A EMPATIA DE FREDERICO
Frederico regressava da escola sempre a saltitar, feliz, com um sorriso aberto, porém, naquele dia vinha a passo vagaroso, taciturno, macambúzio. O que se terá passado, interrogou-se a mãe; alguma briga com um companheiro. Não lhe perguntaria nada ainda; ele mesmo acabaria por fazê-lo de moto-próprio, sem pressões. Quando estivesse pronto.
Quando chegou a hora do jantar, a criança continuava assim calada, introvertida, tristonha mesmo. Afastando o prato com o braço, disse que era muita comida; não tinha fome. A mãe estranhou. Frederico sempre comia bem. Que se passa, atreveu-se, por fim, a perguntar. A professora hoje disse que há muita fome no mundo; que todos os dias morrem muitos meninos sem comida, que até ficam cegos por falta de alimentos que contenham vitaminas. É verdade, respondeu a mãe, também ela agora entristecida. Então se eu der metade desta comida a um desses meninos, ele já não fica com tanta fome e eu fico bem na mesma. Meninos cegos! Que horror! Frederico sofria. A professora tinha feito bem o seu papel: é preciso consciencializar as crianças logo no banco da escola, antes que se tornem indiferentes. Essa triste e vergonhosa realidade, esse flagelo, passa-se muito longe daqui, disse a mãe, os meninos deste país não passam fome, porque há o banco alimentar e outras organizações que não deixam que isso aconteça.
_Isso eu sei, porque sei que a mãe faz voluntariado nessas organizações; um dia até fui contigo, lembras-te mãe?
_ Claro que me lembro. esses meninos e toda a população, que está a adoecer e a morrer por falta de alimento suficiente, estão em continentes muito distantes: em África, na Ásia, na América Latina, por exemplo, e há organizações a trabalhar para minimizar essa tragédia, mas nunca é suficiente; é preciso muito mais empenhamento dos governos e nem sempre isso acontece. E agora, antes que fique frio, vamos lá mas é a comer o jantar e continuar a fazer o nosso melhor para minimizar essa calamidade. Já a minha avó dizia: muitos poucos fazem muito.
_ Quando for grande, quero ser distribuidor de comida nesses países todos, para que ninguém tenha fome e fique cego, disse Frederico, sentindo-se mais animado com esta resolução e começando a comer a sopa com apetite, para ser grande mais depressa, acrescentou.
Quem ficou muito pensativa foi a mãe. Por seu lado fazia o que podia, mas não era por isso que podia dormir descansada a esse respeito. Sabe bem que a concentração da riqueza está nas mãos de poucos, dos que nunca sentiram a fome ou se a sentiram, têm vergonha disso e só a querem esquecer, incapazes de se colocar no lugar do outro, de sentir empatia por esses mártires que são aos milhões, vítimas anónimas e ignoradas, impotentes para se revoltarem. A economia mundial e quem a governa tem na mão a faca e o queijo que devoram até ao vómito, sem solidariedade, aceitando o flagelo da miséria e da fome come se fossem uma fatalidade, quando está nas mãos deles estancá-la.
Do lado do vulgo alimentado, não bastam os bons sentimentos: é preciso deixar de silenciar a fome e a morte só para que não lhes perturbem o sono, enquanto os vampiros do mundo económico sugam tudo o que podem e não abdicam de nada. Os famintos não são gente, exclamam!
Dum lado flores, sedas, perfumes, diamantes, peles, rendas, whisky, comida que vomitam por excesso, no outro lado, que pode ser literalmente ao lado, gemidos de fome, lamentos de dor e de angústia de mãe que nada tem, nem mesmo as gotas de sal que se lhe desprendiam dos olhos, secaram há muito.
Como pode o sol continuar a brilhar para as crianças saudáveis e bem nutridas, se perde a luz e o brilho para as famigeradas doentes e famintas, na contingência de deixarem simplesmente de Ser.
Dormiu pouco e mal, ecoando-lhe na cabeça alguns versos de uma canção de Zeca Afonso: Eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada!
Quando acordou, a primeira palavra que articulou, quase inconscientemente foi: Vampiros. Era o nome da canção.
Ao que parece os vampiros continuam por todo o lado, sequiosos, mas não cegos e famintos.
Ao pequeno-almoço, Frederico parecia mais pálido do que era habitual; também ele não teria dormido bem. 
_Mãe, _disse,_ a professora também contou que esses meninos não vão à escola, porque não têm saúde nem força para isso. _Infelizmente, meu filho, as crianças dessas famílias em estado de pobreza raramente frequentam a escola, por diversas razões e por vezes nem as há ou ficam a distâncias enormes. 
_Então como é que lêem os livros de histórias?_ espanta-se Frederico. 
_Não lêem, não tem livros de histórias, salvo os que periodicamente recolhemos e enviamos aos Centros de Ajuda; creio que serão sempre insuficientes. 
_Ó mãe, será que, quando crescer e for distribuidor de comida nesses países, posso levar os meus livros de histórias e ler para os meninos? _Sabes, Frederico, tenho esperança de que haja uma grande mudança no mundo, que haja investimento inteligente na educação dessas crianças, que é uma forma de as retirar da pobreza, e que tal já não seja necessário quando fores crescido; mas despacha-te para chegarmos a horas.
A professora tivera uma atitude pedagógica e, diria mesmo, profilática. Dar-lhe-ei os parabéns hoje mesmo e, quem sabe, se não faremos uma reunião de pais e de ideias para ajudar a debelar a fome por este mundo afora. Ia a mãe pensando, enquanto segurava pela mão um menino com empatia pelo sofrimento de outros meninos. Já a sua avó dizia: “de pequenino se torce o pepino”. Compreendia o sentido, mas nunca tinha percebido isso do torcer. Coisas antigas, certamente, mas que conservam um fundo verdadeiro, sempre actual.


2019

terça-feira, 16 de junho de 2020

"É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."
Fernando Pessoa


SÃO ÀS CETENAS
São às centenas. Velhos, menos velhos, menos jovens, brancos, pretos, castanhos, outras cores, várias nacionalidades. As filas são de quilómetros, que a distância social impõe margem maior entre eles. Esperam horas por um prato de sopa. Alguns sentam-se no chão, não vão eles cair, desmaiar, e perder o lugar que tanto custa a manter. Um leva consigo uma velha cadeira de plástico, que arrasta a cada dois metros e onde se senta, diz ele, por problemas nos joelhos.
Impossível saber o que pensam, enquanto esperam. Nem se sabe o que esperam depois da sopa. Talvez outra sopa. Talvez que o melhor seja ingressar logo noutra fila para o jantar, já que também não têm para onde ir. Enquanto o que fazem, porventura algum pensará: “Não sou o único, mas isto é terrível, além de degradante. Todo o ser humano deveria ter o suficiente para comer, para viver.” 
Já que os homens não o pretendem fazer, quem sabe se não é esse o equilíbrio que a sábia natureza tenta manter, com diferentes calamidades, terramotos, pestes, guerras, que estas sendo de natureza humana não deixam de ser “plantadas” na sua génese para o mesmo fim.
O escritor Alberto Moravia, na sua obra “O Desprezo”, escreveu que todos os homens deveriam ter, “naturalmente”, uma casa, e foi nessa ânsia de o conseguir, que levou o protagonista ao desespero, tudo perdendo: a família e a própria vida.
Um homem moreno, de compleição média, olha, quiçá sem ver, dois jacarandás em flor ou lembrará a própria terra de onde terão vindo, ele e a planta, actuando a lembrança como que um filtro, para escapar à angústia duma existência que, de momento, lhe parece cristalizada no tempo, cativa de circunstâncias globais. 
Ainda não há muito, quando tinha trabalho, passava por aquela rua, sem saber da existência dos jacarandás, como se esse hábito os camuflasse; agora não pode ignorá-los: a seus pés, um manto roxo liberta um líquido pegajoso e os seus sapatos ficam presos à calçada, tal como a sua vida. Tenta manter afastados aqueles pensamentos de desamparo, olhando de vez em quando para os escassos passantes, onde sobressai uma rapariga de ancas ondulantes e, quem sabe, bonita. Pensou na mulher; no seu amor sossegado, com um contentamento triste, e na filha, que dependem dele, lá longe. A fila espaçada, vai avançando e isso distrai-o, para que as lágrimas não molhem a máscara, o que não evita que murmure: “e se nunca mais poder ir-me embora? “.
Sente-se prisioneiro, numa impotência e solidão que se adensam no ambiente pesado da aceitação sem consolo. Precisa de viver; precisa de um prato de sopa para continuar a abrigar em si um fiapo de esperança, povoada de recordações, fantasias, talvez, mas necessárias para não cair no medo, quando tudo parece boiar numa angústia dolorosa dum homem só.
Um dia, um velho quase andrajoso, que o antecedia na fila, comentara, muito alto, que “dantes” isto não era nada assim, que mesmo as afinidades entre eles eram diferentes, que se riam, que contavam anedotas e até combinavam “coisas” ali mesmo. Agora já não. Era tudo um desconforto, “tudo num silêncio que não se aguenta”.
Ao ouvi-lo, não conseguiu sentir pelo outro nem repulsa nem simpatia, apesar de, por “obra do destino” e, quem sabe, de muitos “mal” acasos, estar à espera de um prato de sopa da mesma panela. Talvez nem pelos outros, de aparências tão diversas, distanciados nos dois metros regulamentares, de feições sem relevo debaixo das máscaras. Dói-lhe “sentir” apenas a sua vida e não se condoer com aqueles destinos, simultaneamente comuns, porém, com certeza, tão diversos. “Dantes” ter-se-ia condoído.
O sol brilhava, sem vergonha, e no placard de uma farmácia indica 23 graus, mas ele tirita dentro do blusão, como se sentisse a vida a escorrer, muda. E sem respostas.
De súbito, num qualquer segundo andar dos prédios fronteiros, a música brotou, como se quisesse desabafar sobre eles. Era uma canção alegre, e aquela vibração teve o condão de lhe apertar o peito cheio de lembranças.
A fila avançava, mas ele parou: a solidão envolveu-o ainda mais, e na memória não encontrou passado nem futuro: estava preso ao chão. Ao tempo. A uma eternidade. 
_Então, amigo, se não avança, avanço eu.

sábado, 6 de junho de 2020



ANSIEDADES DE UMA VELHA – III – A PRIMEIRA SAÍDA CONVÍVIO ( e IV)

Judite não tem piscina e mora longe da praia, por isso tenta descobrir o melhor local da casa, o mais fresco, para passar o verão, que antecipou a chegada e já se mostra tão ardente como uma donzela com cio.

Agora que as portas para a vida foram abertas, a juventude e os adultos jovens desabelharam logo; enchem praias, albufeiras, estacadas, rios e ribeiras, riachos, canais, nascentes: tudo onde possam encontrar água.

Ela e as amigas, velhas como ela, encontraram-se, tristemente, num primeiro e breve convívio e, embora quisessem aparentar uma grande alegria de se reverem, não lhe pareceu suficientemente genuína.

Eram cinco, tiveram que se espalhar por uma esplanada, que não sendo grande, já estava ocupada por quatro pessoas: duas em cada mesa, ao centro da esplanada, e elas as cinco tiveram que se dividir em dois grupos: três numa ponta, duas noutra.

Uma reunião-convívio sem graça, sem saberem o que dizer, já que não valia a pena falar no passado, muito menos no futuro e quanto ao presente, para os velhos, é o que se vê.

Pareceram-lhe cansadas, psicologicamente esgotadas, como unidades militares abandonadas à sua sorte e um pouco desnorteadas.

Acabaram por se juntar numa única mesa: ficaram de comparecer dez e afinal eram só cinco. As outras não vieram por não conseguirem ainda, ou antes, já, sair do buraco: treme-lhes as pernas quando chegam à porta. Os automóveis de umas avariaram, de outras têm a bateria descarregada, desculpa, talvez, outras ainda nem se atreveram a arrancar, lembrando umas adolescentes vacilantes antes do primeiro encontro amoroso, não controlam o tremelique que lhes toma conta das mãos, e os dentes, que tentam manter apertados, batem desobedientes. O coração, desse nem se fala, descompassado, a garganta apertada, deram meia volta e enfiaram-se de novo no buraco; talvez para a próxima. A ver vamos.

Às que compareceram, faltou-lhes a espontaneidade habitual: as máscaras pareciam causar uma barreira; a Georgina ainda se atreveu a contar uma piada, mas os sorrisos, ocultos pelas máscaras, e o olhar pelos óculos de sol, não estimularam uma enfiada de ditos jocosas, como era hábito.

A Laurinda que é dura de ouvido e que, para perceber alguma coisa, tem de fixar o olhar nos lábios do falante, sentiu-se perdida, ausente, excluída.

Enfim, uma reunião-convívio sem graça, sem saberem já o que dizer.

Aquela batalha sem frente visível, com um inimigo que se entretém a fazer fosquinhas, tirou-lhes a alegria do abraço.

Aparentava mais uma primeira saída, cautelosa, depois de uma longa convalescença.

É preciso recomeçar, olear as rodas enferrujadas e para isso não há como a amizade e a alegria de viver.

Não há idade para recomeçar. Por isso, Judite está já a alinhavar o próximo encontro: uma tertúlia, ao ar livre, num local com pré-marcação, de preferência só para as dez; têm de vir todas. Se sobreviveram ao mais difícil … há que sair da toca. A união faz a força. A amizade faz o resto.

Haverá histórias contadas, histórias e poemas lidos. E talvez um teatrinho.

O que Judite espera que já esteja em produção cosmética, é um baton com brilho, para que, depois da máscara retirada, o brilho dos lábios se mantenha e o sorriso das amigas, e o seu, fique mais brilhante. Enquanto não o encontrar à venda, vai sugerir que levem viseiras e assim podem usar o baton normal. E o respectivo sorriso.

20.05.2020

 



ANSIEDADES DUMA VELHA - IV

Judite, como todas as velhas, para não ficar maluca a pensar na própria vida, por vezes põe-se a magicar na vida dos outros; não propriamente na vida de X ou de Y, mas no geral:  ontem à noite deu-lhe para magicar na situação duma específica classe profissional, cujos “trabalhadores” viram a sua vida totalmente suspensa durante a fase mais agressiva da pandemia, porém, pensou: nesse ínterim terão certamente aproveitado o tempo para converter  ou reconverter a actividade  ou efectuado sérias alterações. Depois de matutar um bocado,  deu-lhe para se fixar a sério nessa classe que se vê agora tão desprotegida, que é a  dos carteiristas: grandes grupos, bem organizados e estruturados, altamente profissionais e profissionalizados, envolvendo tanta gente, que de um dia para o outro, num abrir e fechar de olhos, assim sem mais nem menos ... viram a vidinha a fugir-lhes debaixo dos pés ... devem ter tido ganas de se suicidarem!  Tão hábil treino assim perdido, tanta gente "desempregada" ... que lhes fazer? Formariam empresas ou estariam, cada um por si, inscritos nas Finanças e na Segurança Social como trabalhadores independentes? Por outro lado, Judite sossega:  a maioria teria certamente um bom pé de meia e não deixaria de acudir aos habilidosos mais recentes, que sempre são uma mais-valia para o que der e vier. Terão sido uns meses de reestruturação noutros moldes, porque mesmo com a abertura dos centros comerciais a distância social não facilita a descrição com que o trabalho era tão impecavelmente executado. Também nas passadeiras de peões nas grandes cidades, o negócio já não vai ser o mesmo, pelo menos por enquanto. Canseiras ...

Ainda começou por colocar a hipótese de "caçarem" à  linha, mas para isso teriam que alugar vários primeiros andares, em sítios estratégicos: vem uma pessoa a passar "caçam-lhe” a mala com uma cana de pesca especial,  a pessoa olha à volta à procura da mala e não vê nada; então com a máscara ainda menos, que, parecendo que não, rouba uma boa percentagem da visibilidade.  Mas esta deve ser uma daquelas hipóteses muito parvas ...

E principiou a divagar como encontraria outras nuances para os coitados dos carteiristas, que nem era pessoal agressivo … pelo contrário, sempre muito educados, pedindo sempre desculpa por qualquer encontrão mais rijo.

Daí passou à cata dos tão apregoados “benefícios” que o vírus veio mostrar …, mas adormeceu antes mesmo de ter encontrado algum … a não ser …Já não dá. Adormeceu mesmo! Parece que esta técnica resulta. Enfim, uma técnica como outra qualquer.

terça-feira, 2 de junho de 2020


TEORIA “COISA” DA NATUREZA?
A célebre frase “O homem é o lobo do homem”, "homo homini lupus", frase do dramaturgo romano Plautus, (254-184 a.C.) embora continue, infelizmente, verdadeira tem uma nova versão: o homem é o vírus do homem. Se sabíamos já que cada humano pode albergar em si um assassino latente, ideia que causa perplexidade, porque repugnante e transpõe a fronteira moral, hoje já não restam dúvidas da potencial letalidade que encerra qualquer humano portador do mais moderno e potente vírus. Pode, numa conjuntura negra, apenas pela sua existência e proximidade, contagiar e, assim, eventualmente “assassinar” pai, mãe, filho, uma família inteira, antes de se “suicidar” involuntariamente, e tudo isto numa ignorância própria de uma humanidade que tudo sabe, que teima em não aceitar poder ser joguete do que quer que seja, e que se tem visto agora subjugado à tal “coisa”, como se cometesse aqueles “assassinatos” e o próprio suicídio, enquanto sonha ou sonambula.
É o que se chama uma coisa tramada. Não no sentido figurativo. Foi tramada e estamos tramados, de uma maneira ou de outra. Por quem ou por “quens” … soubéssemos nós … Ou será melhor deambularmos pelo território “inocente” das hipóteses, quiçá parvas, todavia certas?
E se for coisa “apenas” da natureza, que tem a capacidade de nos maravilhar e também de nos horrorizar, nesta existência tão precária como é a humana, em que a criatura “desaparece” e tudo continua como se continuasse vivente? Será que a crueldade que vive no subsolo do ser humano é “herdada” da natureza da Mãe Terra ou doutra? Será ela, a natureza, tão perversa ou estará só a lutar pelos seus direitos, eliminando quem lhe fizer frente, tal como o pode ter feito com os dinossauros?
Mais uma hipótese parva, que diferença faz!? Os desvaneios da imaginação não têm limites e a parvoíce também não, porque, ao que parece, ambos são induzidos pela insensatez.

terça-feira, 26 de maio de 2020

TEORIA, A DA SÉTIMA ARTE
Aqui há uns tempos, por diversão, escrevi isto: 
Que filme
Estou dentro dum filme
Como vim aqui parar?!
Não sei o guião!
Desconheço o tema!

Não me atrevo a sair
Mesmo quando detesto a cena
Estou presa na película

Se dela me descolar
Já me disseram:
Não podes voltar a entrar!

E eu lá vou ficando
Já me aborrece este filme
E mais, de assistir a tantos,
Tantos outros!

Actuo, assisto
Assisto, actuo

Até quando?!
Mal sabia eu, que os filmes são reais e que filmes como “Branca de Neve”, de que muitos se lembrarão, que por acaso é quase todo a preto e o realizador transforma os espectadores em espectáculo, poderia um dia proliferar por aí, em milhares de cópias exactamente como um vírus, que se replica e que, por acaso,  também não se vê, como o filme, onde, porém, irrompe, por vezes, luz e cor, o que não está a acontecer neste filme que estamos a “rodar”, e replicado, embora alguns “abençoados” consigam percepcionar essa “luz”.

 No filme acima mencionado, o espectador é “obrigado” a fechar os olhos e a “entrar” no vazio (ou escuro) da tela e a duvidar, nem sabe bem de quê. Como “neste”. Só que “neste” ninguém sabe se é apenas espectador, figurante ou se é chamado para protagonista.

Sempre ouvi dizer, aqui e ali, que a vida é complicada, que é difícil, que é isto, que é aquilo, mas raramente que é ficção e muito menos científica ou cinematográfica. Tão pouco experimental. Nem milhões na mesma tela, numa cena mundial; todos já para casa, ou querem ser …?! Não é que funcionou mesmo! Claro que há sempre uns espectadores, ou mesmo figurantes, assim como umas ovelhas tresmalhadas, que as há em todos os rebanhos, mas de resto, rico e pobre, mau e bom, ateu, agnóstico, cristão ou outra, ingressou nas suas cavernas, umas apinhadas e sem condições, outros nem buraco quanto mais cavernas, mas outros em autênticas cavernas de Ali Babá, com jardins invisíveis ao comum dos mortais que não façam parte dos quarenta ladrões, e suspensos, como se estivessem no Éden. Enfim, figurantes privilegiados. Há-os sempre. E em todo o lado.

E muitos solitários. Uns deleitaram-se. Outros vegetaram.  Ainda outros, soçobraram, tal Titanic. Muitos sobreviveram. É a vida; em filme.

Muita gente já terá visto aquelas fitas em que os monstros se replicam, surgem de todo o lado, em qualquer parte e vão devorando tudo e todos, e, só mesmo, mesmo no final, quando tudo parece perdido, há um herói que os consegue ludibriar, precisamente por ter escapado à percepção daqueles, vence-os e liberta as populações que se tinham refugiado nas catacumbas e das quais, concentrados em tanto monstro a atacar, como espectadores já nem nos lembrávamos. Para resolver situações, que parecem insolúveis, há sempre pelo menos um herói, por vezes dois, um casal de preferência e se beijam no grande final, que agora todos se deixaram de beijar, embora se acredite que não há vírus capaz de separar os que o verdadeiro amor uniu.

Só se for no próximo filme.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Teoria de ficção
Teorias sobre o que está a acontecer não faltam, por isso, mais uma menos uma, não fará diferença às próprias teorias. A de hoje é que alguns (muitos) humanos podem estar a ser vítimas de livros de ficção, com muitas personagens, daqueles com muitas páginas e foram lá metidos como personagens, umas principais, mas a maioria secundárias e mesmo laterais; estas últimas, uma espécie de palha ou de encher chouriços, para tornar o livro mais volumoso. Basta colocarmo-nos na vulgar situação de leitores: apaixonarmo-nos por umas personagens, detestamos outras e algumas pouca atenção nos despertam. Utilizamos a literatura como entretenimento, como veículo de aprendizagem por excelência, mas também como passaporte para viajarmos onde nunca iremos ou reviver viagens próprias,  para sentirmos o que as pessoas sentem sem que tenhamos termos que passar pela situação real, para constatarmos que há personagens que sentem o mesmo que nós, para descobrirmos as sementes da inimaginável maldade humana e mais um milhão de razões, tantas quantos os leitores, o dia e a hora.
E foi então que aí pelo ano de 1981, o escritor americano Dean Koontz lançou um livro de terror, " Os Olhos da Escuridão" em que existe uma arma biológica denominada Wuhan-400 ou seja o nome da cidade chinesa onde começou este pesadelo "real". Não vou fazer o resumo porque não aprecio livros de terror. Não me fazem falta.
Em 2014, Melissa Tobias, escritora brasileira, lançou um romance de ficção científica e ,"A Realidade de Madhu" que, segundo algumas opiniões, descreve cenas perto do cenário actual.
Ora querem  lá ver que, como personagens de uma ficção, ficamos presos nalguns daqueles ou outros livros? Se assim for, que estamos estão confusos que já acreditamos em tudo, que tempo levará um suposto leitor a terminar aquelas terrificas ou fantasiosas leituras, para nos soltar? É que sem a leitura terminada … estamos presos!  E depois temos que contar que há leitores compulsivos que rapidamente os devoram e "libertam" as personagens e outros que gostam de "mastiga-los".
 Entretanto somos personagens, na maioria dos casos sem importância,  mas necessários para relevar as personagens principais. Vamos lá agora saber o desfecho da ficção em que estamos metidos! É que também há leitores que começam pelo fim, depois vão lendo pelo meio aqui e ali … e, por vezes o início e aí, sim, é que começam a "verdadeira" leitura. Enfim, estamos no meio do acaso do livro e do leitor que nos calhou! Boas leituras!

escrito e publicado no FB em 2 de abril de 2020

quarta-feira, 20 de maio de 2020




ANSIEDADES DUMA VELHA – II

Judite amava os longos passeios solitários, mas na sua agitada vida social tinham sido relegados para um dia, ou para um nunca e, ao ser enviada por decreto para a clausura, que julgava tornar-se insuportável, que viu que afinal se encontrava no centro de um maravilhoso vazio, onde as horas passavam muito depressa e a noite chegava, como por milagre. 

Uma das janelas da casa tinha um largo parapeito exterior, onde uma criatura de brilhante pêlo cor cinza-prateado e formosos olhos cor de mel, sombreados por um olhar oriental, aveludado e aristocrático, um gato, vinha apanhar sol todas as manhãs. Quanto tempo haveria que aquele animal escolhera o parapeito da sua janela para apanhar a sua dose de vitamina D?! Raramente a abria; “dantes” não tinha tempo para isso e nos primeiros dias de introspecção enroscara-se sobre si mesma, como o gato, e redescobrindo na sua vida interior uma capacidade de contemplação do azul do céu noturno, sem lirismo e sem música; apenas o indiscritível.

Outro dia, encantou-se, como nunca o tinha feito, com a sua colecção de pedras semipreciosas e observou-as, com atenção, nas suas mãos mais habituadas a manipular cosméticos, vernizes e adereços.

Escutou o ruído das folhas secas, que se desprendiam das árvores e a serem arrastadas na calçada por um vento rumorejante.

Deu consigo a mirar pormenores em quadros que tinha há cinquenta anos. Comprara-os porque gostara deles, mas só os olhava quando alguma visita lhes fazia algum elogio, a que não ligava muito, por estar sempre de sobreaviso quando o elogio lhe cheirava a “verbo de encher” numa conversa oca.

Sem saber como, passou a ver em cada coisa um infinito de pormenores e particularidades. E tão embrenhada estava em pequenas coisas, que mais raramente pegava num dos comprimidos milagrosos, que são os livros, e só o fazia quando se deparava com um daqueles que tinha posto de parte, como se estivesse à espera do desabrochar duma semente há muito em germinação, que só  uma visceral necessidade pudesse fazer brotar, como uma verdade esperada.

Nas manhãs em que uma tristeza cinzenta tingia o céu, o gato não aparecia. Então, recordou-se daquela tão antiga história ilustrada, que lera em criança; não se lembra de tudo, mas recorda que a Velha e o Gato fizeram um pacto, ditado pelo Gato, claro: “Deixas-me estar à janela quando há sol e eu aqueço-te os pés nos dias de inverno”. “Está bem”, respondeu a Velha. É como se diante dela estivessem as duas ilustrações, com os azuis de Monet. A da proposta: o Gato à janela; e a da concretização: a Velha, sentada numa cadeira de balouço, com uma manta de xadrez cobrindo-lhe os joelhos e o Gato colado às pantufas, aquecendo-lhe os pés.

Ocorre-lhe que isto de ser velha, só se manifesta no plano físico; teria sete ou oito anos, porém, a história ilustrada ainda ali está. Daqui infere que o plano físico, uma vez inscrito na mente, ou no espírito, é dispensável. Mesmo que a memória tenha pintado tudo de outros tons.

Este gato, o da sua janela, talvez aqueça os pés duma velha que não tenha janela com sol. A ela, aquece-lhe a alma. E nos dias de chuva há-de continuar a vê-lo ali, sem se atrever a estender a mão para lhe afagar o pêlo sedoso, não vá ele fugir para os pés da dona.


domingo, 17 de maio de 2020




IN “REFLEXÕES SEM TRAMBELHO”

"Estávamos melhor, quando estávamos pior"

Li esta frase num livro de Giovanni Papini, "O Passado Remoto”, publicado em 1948, e esta frase faz tanto sentido, se compararmos as nossas “vidinhas" A. CV., (quer dizer antes da “coisa”) com as nossas semi-vidas, pós, ou durante, CV.
Curiosamente, também o título do livro não pode deixar de evocar o passado "remoto" de uma humanidade outra, sendo, porém, a mesma, mas tão outra, passados dois meses. Quanta diferença e, todavia, sem diferença nenhuma.
No quê diz respeito ao confinamento, faz lembrar as tão criticadas atitudes de alguns participantes dos Big Brother, para os quais, a sua permanência na casa, mesmo por poucos dias, segundo os próprios, equivalia a meses ou anos, consoante o tempo de estadia, assim é para nós o tempo, conforme a situação de cada um no isolamento. E o seu comportamento, o dos tais participantes, se muitas pessoas agora o compararem com o próprio, em termos de confinamento, talvez não se sintam orgulhosos do mesmo. O que no primeiro caso era voluntário, o confinamento, termo então desusado, tornou-se de súbito, como uma nuvem negra no horizonte, obrigatório para quase todos.
E a propósito de “estarmos pior”: a humanidade é uma “raça”, na verdade, muito versátil; levou tanto, tanto tempo a adquirir o hábito de fazer reciclagem e, quando parecia que já tinha “encarrilhado”, especialmente depois de ver a devolução que os mares estavam a fazer dos desperdícios que lhe tínhamos ofertado, envenenando-os, o que levou a uma interdição de louça descartável nas escolas e em outras instituições estatais, eis que, por artes virulentas, esse uso tornou-se, num abrir e fechar de olhos, de proibido a obrigatório, por exemplo nos cafés, onde raramente o material descartável era utilizado, está agora na ordem do dia, tornado, entretanto o único possível ou pelo menos, viável. E pronto, lá se foi toda a “boa vontade” para “acabar com o plástico” e com o desperdício de papel. E parte da reciclagem a ser feita também não está no bom caminho: as luvas e máscaras amedrontam as empresas de reciclagem, temendo que estejam infectadas, como se o dito cujo lá permanecesse para todo o sempre.
Porque será que os “benefícios” da “coisa” são tão complicados.
A propósito disso, lembrei-me de duas estrofes da “Ode Marítima”, de Álvaro de Campos:
Ando espiando um crime numa mala,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Se nos pesa um crime que cometemos, não por requinte, mas por estupidez, inércia ou, quiçá, por alguma ganância, a inteligência, já não digo a humana, mas a Universal, podia fazer o favor de levantar um pouco o véu, para que não andássemos assim, quase todos com os miolos às voltas, sim, quase todos, que há gente “firme”, e nos alumiasse o caminho um pouco mais longe, e não só os parcos centímetros onde pousamos o pé, quase a medo. Não, com medo.
Assim sendo, a frase “estávamos melhor, quando estávamos pior”, parecendo (e é-o no contexto do livro) uma frase reacionária, constitui, porém, nos dias de hoje, uma frase reflexiva.
Que não leva a lado nenhum.
Falta-nos uma lanterna de longo alcance.
Falta-nos sempre qualquer coisa.



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A importância da insignificância

A humanidade tinha chegado a um grau de beleza, felicidade, perfeição, conhecimento, conforto, abundância, criatividade, avanço tecnológico e científico imparáveis e inigualáveis, quando uma invisível minudência resolveu dar um ar de sua graça; afinal também se considerava gente, embora o não fosse.

E o que estragou tudo foi o facto da humanidade ligar a determinadas coisas pequenas, dar importância a insignificâncias. Se o não tivesse feito, a coisa insignificante, e por demais, invisível, não teria feito os estragos que fez, como uma criança que toda a gente fica a ver fazer traquinices quando devia o progenitor pegar-lhe numa orelha e acabar com a história, ou se a traquinice fosse inócua fingir ignorá-la, mas continuando atento, que isto de não ligar no princípio pode ter consequências imprevisíveis. Pois ao que parece ter-se-ão passado ambas as situações; os pais não são todos iguais e, uns por questões de individualismo não vão em imitações, enquanto outros, por instinto de rebanho, o fazem. Para tudo, em particular nos pormenores, é preciso usar um pouco de inteligência; não há que ter medo: não se gasta, pelo contrário, quanto mais se usa mais se desenvolve.

 

 Dezembro de 2000

 


terça-feira, 12 de maio de 2020

AVISO: ISTO NÃO É UMA FOTOGRAFIA

Leio alguns “escritos” e comentários sobre os "benefícios" que o vírus trouxe à humanidade e, para além do óbvio, há os que defendem que veio mostrar (isto a quem não a tenha visto antes) a Igualdade na morte e, sobretudo, através do uso da máscara. Esta, sim, leio, torna os humanos mais iguais, logo em vida, porém, a cada dia que passa se vê uma maior diversidade de máscaras, de acrílicos, de viseiras. São os materiais, as cores, as formas: a imaginação humana é infinita (tal como outra coisa em que estamos a pensar), e, se não morrer antes, ainda as verei incrustadas de ouro, diamantes, pérolas e afins.
Logo esta da Igualdade, e foquei apenas um pormenor, acessório quase obrigatório, a máscara, não a consigo ainda ver como benefício, antes uma necessidade, momentânea, esperemos. Mas a minha invisibilidade é normal e, tal como num pós-guerra, que afinal é duma guerra que se trata, poderá mesmo passar uma geração, ou mais, até que os aclamados “benefícios” sejam visíveis, porém, nós, humanos, queremos tudo para já. E vamos ter de esperar por eles. Quem tiver vida e saúde para isso.
Bem, mas não foi para isto que coloquei uma poupa, uma ave bem bonita que há uns tempos bem curtos poderia estar viva, esvoaçando pelos campos e teve o azar de algo  lhe ter acontecido nestes tempos de “benefícios” do vírus e os Centros de Recuperação de Aves estarem fechados e, a agravar ou não, ser fim de semana, em que os veterinários não fazem atendimento. “Noutros tempos”, talvez possa dizer noutra vida, numa bela tarde de verão, aconteceu-me ter salvo um albatroz, na praia, (foi mesmo noutra vida), que estava enleado num pedaço de rede de pesca, e mesmo sendo num final de domingo de Agosto, consegui que o fossem buscar e recuperar, já que os ferimentos causados pela tentativa de libertação, não tinham sido graves, devido à nossa pronta actuação. Pois esta linda ave, não. Como alguém dizia há dias, mesmo para morrer é preciso ter sorte.
Isto fez-me pensar na dificuldade que é agora socorrer um humano, alguém que cai, até se perceber se foi uma síncope, o que se tiver máscara se torna mais difícil de perceber, se escorregou, etc.. E socorro instantâneo, aquele de dar "uma mão", para que não se estatele na lama, não se afogue ou coisa semelhante, já não há. Cada um que se cuide; se se desequilibrar, paciência: quebre-se, fique ferido. A distância não o salvará. Só do vírus. Porque ninguém tem um braço de dois metros e depois só se tiver a sorte de se deparar com um salvador altruísta, que ainda os há, que todos os mais se afastam, como se todos, mas todos, tivéssemos lepra. E daí, quem sabe.
E aqueles procedimentos que aprendemos nos primeiros socorros: encoste o ouvido, encoste a mão, tome o pulso … isto agora serve para quê. O Manual dos Primeiros Socorros tem de ser reescrito. Ou talvez não. Seria tempo perdido. Dali a três dias teriam de escrever outro. Tudo tão efémero. Ora aí está: um “benefício” do vírus. Mostrar, aos incrédulos e distraídos, que tudo é efémero.
Mas havemos de ir aos poucos descobrindo-lhe mais “benefícios”, como os de um ambiente mais limpo e puro, e outros igualmente óbvios, como o teletrabalho: tempo poupado em favor da família, menos gastos em combustível logo menor pegada ecológica, melhor alimentação, melhor saúde, mais poupança no vestuário, no calçado, nos adereços, no perfume, no aftershave. Só tem um contra: o ódio, que era dirigido aos colegas invejosos e à cara do chefe maldisposto, foi em parte transferido, sem mais nem menos, para a família, que não tem culpa nenhuma e onde, há ainda tão pouco tempo, muitos encontravam refúgio e consolo.
Decididamente o ser humano não tem onde se refugiar; nunca se sabe onde está o vírus. Este que agora tanto nos atormenta ou outro qualquer.
“O benefício” é que acabamos por perceber que, a qualquer momento, podemos valer mais ou menos o mesmo que o animal da fotografia. 


quarta-feira, 6 de maio de 2020


OS ANIMAIS NO CENTRO DA ESTRELINHA


Era uma vez uma Estrelinha muito endiabrada que gostava de brincar em cima das fofas nuvens, enquanto todas as outras estrelas dormiam.

Naquele dia, a nuvem onde brincava tinha apanhado uma corrente de ar frio, constipou-se, deu um espirro e a Estrelinha escorregou por ali abaixo e foi parar a uma pradaria, onde, alegres e sem cuidados, corriam cinco crianças: quatro meninas e um menino que, quando a viram, pararam de brincar e exclamaram uns para os outros:

_ Olha! uma estrela cadente!

_ Não sou nada uma estrela cadente. Sou uma estrela cintilante!

_ Então se não és cadente, por que é que caíste e por que é que não cintilas?

_Caí porque a nuvem deu um espirro e não tive tempo de me agarrar e não cintilo agora porque as estrelas só cintilam à noite.

_Está bem. Queres vir brincar connosco?

_ Sim.

_ Vamos jogar ao agarra e fica ao meio.

Estrelinha era uma estrela de cinco pontas, por isso cada um pegou numa ponta e correram até encontrar o gato Tobias, dormitando ao sol, que ficou no centro da estrela e todos começaram a andar à roda e a cantarolar, até que o gato abriu um olho e, vendo tudo a rodar, pensou estar com tonturas, abriu o outro e a mesma coisa: tudo à roda. E miou.

Todos se riram, levantaram a estrelinha em pontas e foram à procura do cão que dormitava à sombra. Este ficou no centro da estrela e os meninos começaram a andar à sua volta, cantarolando. O cão abriu um olho, depois o outro, abriu a bocarra, sacudiu as orelhas e, feliz por ter brincadeira, levantou-se, soltando um sonoro ão ão.

Ergueram a estrela e foram à procura do galo, que andava de olho nas galinhas, e lá conseguiram que ficasse no centro da estrela, porém, o galo pensando que o iam fechar na capoeira, não gostou nada e fez um chinfrim: Cocorocó cocorocó.

Todos riram muito alto. Soltaram-no e foram à procura da cabrinha Judite, que estava encarrapitada num arbusto já meio comido e disseram-lhe: Judite salta aqui para o meio da Estrelinha! E a cabrinha saltou e ficou a olhar para todos os meninos, enquanto remoía os ramos que ainda tinha na boca. Quando o animal começou aos pinotes, soltaram-no e foram à procura do porco que andava a comer bolotas que iam caindo da azinheira. O porquinho Jeremias ficou no meio da estrela e dos meninos, mas começou a grunhir tanto que o libertaram logo.

O pato Quá-quá, que se refrescava num charco mesmo ali, logo foi caçado para o meio, mas fez tão grande grasnada que, sem demora, por entre gritinhos e risadas, o soltaram.

Ainda faltava a ovelha Choné que tudo tinha observado, discretamente, enquanto remoía a erva verdinha do prado e que soltou muitos memés até ficar no centro da estrela, ora olhando para as crianças, ora observando as nuvens, muito branquinhas, que lá no alto a faziam lembrar umas amigas, que de vez em quando apareciam por ali a pastar.

O sol começava já a declinar quando a Estrelinha, de um pulo, se pôs de pé sobre duas pontas, com outras duas abraçou as crianças e a ovelha Choné e disse: Obrigada por este dia maravilhoso, mas agora tenho de me ir embora; não tarda é noite e eu tenho que ir cintilar no tecto do mundo, único tecto de muitos meninos que me estarão a contemplar e que, quando adormecerem, lhes vou iluminar os sonhos.

Num ápice, a Estrelinha voltou para o firmamento, onde não tardaria a cintilar, brilhando entre miríades de tantas estrelas inspiradoras dos sonhadores e dos poetas.


sexta-feira, 1 de maio de 2020




DESCOBERTA A AUTORIA MORAL DO DITO



Os animais cansaram-se de serem tratados como animais. Há muito que queriam experienciar ser gente, frequentar os cafés, os ginásios, as piscinas, os estádios, os parques infantis, fazer skate, fotografar os humanos ... impossível enumerar as  mais de duas mil e duzentas actividades de lazer das pessoas.

Basta lembrarem-se eles mesmos das inúmeras e fracassadas tentativas de apropriação por todo o globo; aqui mais perto e a mais antiga conhecida, remonta ao Leão de Rio Maior, logo reprimida pelo homem e a mais recente a Cobra Piton, encontrada na Fonte da Benémola, no concelho de Loulé e logo enjaulada no Zoo de Lagos.

Mas porque não tentar novamente e em grande? pensou o animalzinho. E foi então que, por acaso, falou assim no assunto, só por falar, a um mais lustroso e bem falante, que logo agarrou no assunto, tanta vez debatido e que logo esmorecia,  e contactou um outro, mais sagaz e venenoso, que  fez propagar por todo o planeta, como uma ideia sua, deslumbrando uns, subjugando outros, corrompendo outros e ainda convencendo outros tantos, de que conquistariam a terra aos humanos muito em breve e que então seriam donos do planeta, sem mortes nem perseguições.

Aquela sugestão era só uma brincadeira! disse, já um pouco assustado, o animalzinho, que não tardou muito a desaparecer da circulação. Mas também quem é que se importava com isso. 

A ideia foi minha! reivindicou o lustroso! Outro que levou sumiço num abrir e fechar de olhos. E ninguém deu por conta.

O sagaz e venenoso conhecia um outro, não menos oportunista e não menos manhoso, que conhecia outro, que conhecia outro que sabia da existência duma coisa, que nem sequer era um deles, uma coisa secreta, microscópica mas poderosa como um exército, capaz de dominar quem considerasse inimigo ou que para tal lhe pagassem, E a coisa aceitou. Ela mesma se encarregaria de enjaular e açaimar os humanos, pelo menos a maior parte, porque tal como os animais, também os há rebeldes e astutos.

E foi assim que, passado algum tempo, no mundo animal foi proclamada a Confederação Mundial dos Animais, através de viciosos animais, manobrados insidiosamente  por diversas e astuciosas espécies, com a garantia duma revolução inaudita em todos os tempos.

Quem não foi na conversa até porque, entretanto, esqueceram, por falta de uso, a língua universal dos animais, foram os cães e os gatos que nem por nada trocariam o bem-estar em que se encontram actualmente por uma qualquer revolução, de que nunca se sabe o desfecho.

A Confederação bem os ameaçou de represálias quando estivessem no centro do poder, mas por falta de tradutor automático a mesma parece ter-se perdido.

Ao que consta, também muitas aves não terão aderido totalmente à revolução; vendo bem que ganhariam elas com isso: afinal os ares são delas, pousam na terra quando querem e algumas estavam já estão habituados à passagem constante dos seus homónimos aviões que, quando estes cessaram de passar sobre os seus lagos, se reuniram, confusos, para averiguar da situação. É que aquelas aves metálicas nunca tinham emigrado: andavam sempre num frenético vaivém e estas já nem se incomodavam com isso, como qualquer espécie não se incomoda com o grasnar de um bando de patos bravos, o apelo dos flamingos ou o pissitar dos estorninhos imitadores, desde que daí não lhes advenha prejuízo; que cada um é como é, e aquela espécie é assim: como um trovão.

Os pardais das cidades e do litoral também fizeram ouvidos moucos. Então iam deixar de encher o papinho, sem custo, pelas esplanadas dos cafés.

Mas estas micro decisões não afectaram grande coisa a revolução em curso; há muitos entusiasmos, como o  das zebras, logo que lhes chegou a notícia da revolução, foi o culminar dos seus sonhos: entrarem na Zara e vestirem-se de xadrez ou às bolinhas. Riscas, nunca mais, mesmo que estejam na moda: já lhes basta vestirem-se assim desde que se lembram.  A euforia geral é tanta que se pode calcular pelo número de vídeos que circulam por toda a parte, obtidos pelos humanos através das vitrines das suas jaulas e gaiolas, onde se vêm avestruzes a pedalar nas bicicletas dos parques geriátricos, jiboias enroladas na polémica escultura, dita fálica, de João Cutileiro, tubarões nas piscinas municipais e olímpicas, enquanto os hipopótamos se apropriaram das piscinas dos empreendimentos turísticos e foi mesmo visto um urso branco a dormir a sesta sobre as arcas frigoríficas, de gelados, da Makro; enfim, todo o tipo de animais ditos selvagens está já a desfrutar das cidades, entediados que estavam de viver confinadas às florestas, aos desertos ou os rios e mesmo aos oceanos.

Pois, pois, um dia as coisas haviam de mudar. 

A Confederação já fez uma proposta para a colocação, no centro do mundo, de uma estátua que chegue até a lua, representando o animal que teve a ideia genial de contratar um vírus para paralisar os humanos.

Até à data não há notícia de que tenham chegado ao herói, embora tenham surgido candidatos oportunistas de várias espécies, que acabam por desaparecer, misteriosamente.

Para além da Reconquista da terra, todos ignoram ainda os verdadeiros intentos da Confederação, cujo movimento já é conhecido entre eles como a Revolução pelo Vírus.


segunda-feira, 27 de abril de 2020


ANSIEDADES DE UMA VELHA


Viver numa época de culto da juventude, onde reina a beleza e o vigor paralelos ao culto do anti-envelhecimento, onde só a simples palavra velho causa asco, arrepios, é mesmo uma autêntica e incansável labuta permanente. 

Fingir que temos boa memória, o que se consegue falando, sem parar, de coisas do passado de que se é a "única" a lembrar e as amigas a concordar, para não parecerem ché chés. Até que é divertido e puxa à imaginação: lembram-se do vestido verde que a Georgina usou no exame do quinto ano dos liceus, cheio de folhos e que a fazia parecer uma baleia, que gorda já ela era. Ninguém se lembra, nem ela; coisa inventada de momento. E todas riem, satisfeitas e acrescentam pormenores ao que nunca aconteceu.



Foi preciso uma hecatombe para deitar tudo isto abaixo, agora que engavetaram os velhos. Nem percebe como deixaram que isso acontecesse! Se há velhos tão valorosos, deviam ter dito: Não! Nós sabemos cumprir normas, já que passámos uma vida a cumpri-las e não queremos vegetar. Pois bem, não se aproximem de nós, que faremos outro tanto. 

Como será o próximo verão? Velhos ficam em casa?! Vão deixar-se cozer no forno das casas? Uma asfixia total!

Ela, a velha, nos dias quentes, gosta de usufruir da aragem e da frescura da praia,  porém não gosta de "obrigar" os outros à contemplação das peles descaídas dos braços e das pernas, do cabelo ralo e das manchas da idade e procura ir para zonas menos frequentadas, porém,  depois de lá estar esquece-se completamente do seu desgraçado aspecto e percorre o areal de lés-a-lés, alternando com longos tempos de leitura e de mergulhos. E volta a questionar: Como será o próximo verão? Velhos ficam em casa?! Oh! NÃO!!!!!!!! Se tivesse uma piscina talvez não se importasse tanto …, mas não pode contentar-se apenas com a banheira ou, no máximo, montar no quintal uma piscina de criança.

Ah, e os bailes dos velhos; como serão os futuros bailes de velhos, a dançar com dois metros de distância, dançando o ié íe, que muitos dançaram e é como andar de bicicleta, não se esquece, mesmo velho. Mas se os bailes para velhos forem encerrados?! Bem, depois de se terem habituado a fazer exercício físico em frente da televisão, é provável que já não tenham tanta necessidade dos bailes para manterem o aprumo e a elasticidade física.  Quanto às toiletes e acessórios, fazem-se almofadas para substituir as que ultimamente têm sido tão maltratadas com o sofajar, ou seja, o hábito de estar no sofá, e … máscaras. 

Até lhe vinha a calhar esta coisa das máscaras; tinha-se-lhe partido a placa postiça do maxilar inferior, que a do superior fora toda atarraxada, numa época de vacas gordas, que era o que agora lhe valia. Agora quando tiver de sair à rua já não é problemático, ao que ainda há pouco tempo não se atreveria. 

Quantos aos acessórios das toiletes, brincos e colares com que se ornamentava como uma árvore de natal, ficam muito bem nas bainhas das toalhas de mesa; pendem muito melhor e se forem colocados numa mesa no quintal ou na varanda servem de pesos, para que a toalha não vá pelos ares em dias ventosos.

Se for escapando, tudo isto terá utilidade.

No meio destas suposições, acha cada vez mais piada ao espelho, seu amigo a quem todos os dias antes de sair para a irrequieta vida social lhe perguntava: espelho meu, quem é mais bela do que eu? e nem precisava esperar resposta, de convicta que estava da mesma. Pois bem, o ingrato agora não a reconhece. E, diga-se de passagem, ela também não. O cabelo, tão bem pintado  quinzenalmente no cabeleireiro que ninguém se apercebia de que a cor não era natural, tem já dois centímetros e meio de lista branca, que mais parece uma bandolete e não tarda ou o corta à tesourada ou em breve fará umas trancinhas, que irá rematar com uma fitas cor de rosa. Acha que vai ter piada e como ninguém vê, não fica ridícula e talvez lhes coloque umas fitas cor de rosa no remate. E que importância tem, se já não a deixam ir às compras. Se bem que por vezes fuja e vá: põe uma touca, um açaime, quer dizer uma máscara e uns óculos escuros e fica pronta para assaltar qualquer banco. De qualquer modo o espelho já não a reconhece, nem de uma maneira nem de outra. Quando diz foge e vai, é que gosta de determinadas subtilezas que nem sempre é capaz de indicar para lhe trazerem, como por exemplo um determinado chocolate de que não sabe o nome, mas que chega ao supermercado e a mão vai lá tirar aquele mesmo, quando não escolhe outro que lhe pareça atractivo. E as geleias, leva uns dez minutos a examinar os frascos até escolher a que imagina que gostará e que terá menos açúcar e os chás, também gosta de examinar e decidir, os iogurtes, gosta de variar de marca, mas não para um qualquer; e a própria fruta, ela é que sabe a que lhe vai apetecer. É por isso que acha triste comer nos lares, onde não há escolha, e ela então que detesta sopa; só de caldo verde, mas parece que essa coisa de depósito de velhos também não vai ser fácil. Com o vírus à solta, alguns ficarão desertos e a lotação já não será a mesma, mas como também não há vacina para a velhice em breve ficarão novamente lotados e excederão a lotação até a próxima epidemia, em que surgirão novas regras. Talvez surjam projetos género Jardim de Velhos, cada um na sua casota, jaulas individuais, ajardinadas, onde cada velho possa jardinar, com direito a apanhar sol a determinada hora, terão televisão com câmara, mais para serem vigiados e orientados do que para lazer. com uma porta do género persiana, que abre e fecha automaticamente ou com controlo remoto no posto de vigia, a determina hora e outros procedimentos semelhantes, apenas com um vigilante humano, que se passeia entre gaiolas, ainda douradas porque são novas e a tentar perceber qual escolheria para si quando for velhinho, dali a séculos, porque tem ainda quarenta anos e se eventualmente tiver opção de escolha, o que agora lhe parece duvidoso, mas com esperança de que o mundo melhore. 

A velha olha para as unhas, a duas cores e que quase se quebram ao meio. Nunca teve jeito para estas coisas da manicure e demais as amigas tinham por norma fazer marcações para duas ou três delas e era uma festa que armavam no gabinete da velha amiga, e amiga velha, esteticista desencartada, onde inclusivamente faziam chá e levavam bolinhos; quer dizer, a Virgulina tinha lá sempre escondida, atrás da estante, uma garrafinha em que, a bem dizer, nunca reparou bem, mas que pelos efeitos seria aguardente de medronho, porventura para aguentar o tratamento dos calos, que por qualquer anomalia lhe cresciam muito. Ainda bem que não tem calos, porque se os tivesse como a Virgulina, agora teria de lançar mão duma faca afiada e com a sua falta de jeito, o mais provável era que ficasse sem um pé.

Por falar em pé, já nem quer saber como estará a Franquelina, sozinha num T0, em que só lá punha um pé, que o outro era para sair logo, como a própria dizia. Nunca parava em casa, sempre em viagem, para onde conseguia arrastar a maioria das colegas, pelo menos as mais endinheiradas, que às outras, a bem dizer, pouca atenção lhes dava. A velha era uma das que conseguia arrastar muitas vezes, em cruzeiros e excursões que na maioria dos casos tinham pouco interessante: era uma igreja, um museu, uma catedral, uma sinagoga, da parte da manhã, com intervalo para um almoço, que na maioria das vezes nem se compunha de pratos da região, e à tarde eram umas ruínas, romanas, árabes ou outras, uma catedral, um museu, uma igreja, que acabavam confundidas com as centenas já visitadas e cujas histórias já não conseguiam reter.

Ao fim de seis meses, se perguntassem o que tinham visto ali e acolá a maioria, para não meter os pés pela cabeça, respondia que era muito bonito e que valia a pena lá ir. Quanto a ela, descobria sempre romances, históricos ou não, relacionados com essas regiões ou cidades, introduzia-se numa personagem e vivia a verdadeira aventura que não tinha conseguido pela pouca permanência que se permitiam ficar em qualquer local e revia os locais evocados como se lá estivesse estado realmente, dado que apenas tivera um vislumbre ao vivo e pouco mais; pois que tempo tinham para estabelecer alguma empatia com um autóctone real, compreender o que efectivamente se passava naquele local que não fosse o que o guia lhes impingia.  Estava estafada daquelas viagens, tentava esquivar-se..., mas era difícil; se tivesse medo de andar de avião, escapava-se; mas não: até gostava. Se tentasse dizer que estava adoentada logo lhe invadiam a casa ou queriam levá-la ao médico, o que a cansava ainda mais e acabava alinhando quando, nem por nada, as conseguia ludibriar. Gostava de viajar, sim; não de turistar.

Finalmente pode agora escutar-se; não muito, para não ouvir disparates de si própria, mas é um luxo a que não estava habituada, por andar sempre numa roda viva. Sim, constacta que estar só é um luxo. 

Felizmente que os telefonemas têm rareado; já não telefonam tanto, preocupadas, como no início. Ou se habituaram ou morreram. Morreram, não; que não são pessoas para se deixarem morrer por dá cá aquela palha, tanto mais que as mensagens, daquelas que não querem dizer nada, continuam a chover às dezenas e às vintenas. Mas estar só é diferente de estar em clausura forçada. Isso é que Não quer admitir que esteja a acontecer!

Diziam que quem não é visto, é esquecido e com os novos acessórios: chapéu, óculos, máscara, luvas, é como se não fosse vista, mas isso até que vem a calhar; não tarda poucos se lembrarão que existiu. E nem falta isso lhe vai fazer; também deixou de ter medo de desmaiar ou de ter um AVC e que as vizinhas ou as amigas lhe entrem pela porta adentro e a vejam nesse estado, porque agora é menos provável vir a acontecer: vêm os bombeiros, arrombam a porta e mesmo que haja algum mirone, só de longe, nada de lhe mirarem a fúcia desfigurada.

Ah, tomar estes banhos relaxantes …, com sais ou ervas aromáticas, umas gotas de óleos essenciais, música clássica ou relaxante, conforme a hora do dia … que na “outra vida” eram difíceis de encaixar, agora pode fazê-lo sempre que de tal sinta necessidade ou daí possa tirar vantagem.

E quando chegar o calor, poderá andar em casa só de cueca; uau! Até que enfim que não espera visitas. E se morrer assim despida, o Correio da Manhã já não dará a bombástica notícia: encontrada em casa idosa de sessenta anos, morta e nua. Que já a pessoa não pode morrer nua, descansada. Achava isto ignóbil! Então uma pessoa não pode sair da banheira e a seguir morrer, ou morrer antes de entrar na banheira. Já ninguém pode morrer descansada, sem o stress de ter de vestir logo o robe.

O que lhe fará muito jeito, a ela, é ninguém ir destapar-lhe a cara depois de morta; uma preocupação a menos: se a agência teria o cuidado de lhe fazer uma maquilhagem “natural”.

Pelo menos não irá “ouvir” comentários do género: Está tal e qual, parece que está a dormir! Ou em alternativa: Ai, nem parece ela!

Nem as amigas terão de fingir desgosto, enquanto exclamam interiormente: a mim não me vão apanhar tão cedo, não! Concorda. Não deixa de ser um lugar incerto, apesar de certo.

E por falar em maquilhagem, essa é outra tarefa a esquecer; com a máscara o baton ficaria todo esborratado. Protector solar, nicles. Enfim, vai ser uma poupança: é no café, nos bolos, nos almoços, no cinema, nos concertos, nos teatros, na piscina, na gasolina …

Não tarda fica uma velha rica, em substituição da rica velha, que era. E de quem tem saudades!