CARTA DE PRESENÇA (AMOR)
Não precisava de te escrever esta carta; podia dizer-to cara a cara ou lado a lado, como nos desse mais jeito, mas escrito fica mais bonito, embora saiba que não ligas a estas coisas. Se bem que isto de eu “saber”, posso estar enganada, como tantas vezes estou, e afinal tu gostares; só que gostas de te armar em durão; achas que fica bem a um homem, porém isto são deduções. Estamos juntos há mais de cinquenta anos e poderíamos contar com outros cinquenta, que continuaríamos a fazer deduções a respeito um do outro, que isso das certezas não é connosco: pelo menos não é comigo. Creio que é esse "desconhecimento" um do outro, não total, claro, que nos mantém, que nos alimenta, como se não nos pudéssemos separar de alguém que queremos conhecer melhor, mas sem muitas perguntas e isso leva décadas, muito mais de cinco.
Poderia começar por citar Nietzshe e dizer que o amor possibilita ver as coisas de outra maneira, que há sempre alguma loucura no amor, porque afinal é uma carta de amor que tenho que te escrever, mas o que quero, e todos os dias demonstro, é agradecer-te por estares vivo; podias ter arranjado maneira de te safares desta tarefa de me aturares, de já não estares por aqui; é isso que aprecio em ti: é estares presente sempre. Que nada é mais difícil de que viver com outra pessoa todos os dias. E mesmo assim, sorrir.
Podes não ter contribuído financeiramente como devias, mas estavas presente para mim, para os teus filhos. Podia ter sido ao contrário: teres-nos dado tudo, com excepção da tua presença. E foi ela, como continua a ser, que nos alimenta a existência. E isso, se calhar, é que é o amor, porque se não fosse, que coisa seria essa de nos mantermos vivos todos os dias, sem um motivo de maior?
Por isso, esta carta de amor não é uma carta lamechas nem sequer saudosa, que estes tempos continuam a ser os nossos tempos; só tens de te manter vivo. E isso não será mais difícil do que até agora, pois apesar de continuarmos com os nossos defeitos e diferenças, haverá sempre a intervenção da tolerância e, por que não, do amor?
Não te mando beijos nem abraços, porque não é preciso mandar. Estás aqui mesmo. Posso dar-tos sempre que quiser.
E ver-te sorrir.
Publicada no Volume III da Colectânea de Cartas de Amor, da Chiado Books, em Fevereiro 2020
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