CRÓNICA DESSINCRONIZADA
(Exposição sobre o plástico na Ria Formosa)
Quarta-feira. Manhã. Abro a porta da Biblioteca-Museu do Jornal A avezinha e deparo-me, à entrada, com uns folhetos de design diferente dos habituais e, como todas as quartas-feiras de manhã, verifico se se adaptam ao local: PLASTIQUE SENSE(A)CTION - Exposição de Mateus Verde e Sara Mendes Vicente. Ah! Exclamo para comigo; uma exposição do Rui! A Sara não conheço. O que quer dizer que, pelo menos ele, o Rui Mateus, de nome artístico Mateus Verde, esteve cá. Tenho pena de não me ter encontrado com ele. É um rapaz raro, uma preciosidade e um artista, claro. Poderia dizer que lhe está no sangue: a avó é, por excelência, a poetisa cá da terra. Viva, graças a Deus. Ambos artistas, cada um com as suas artes.
Dou voltas ao folheto; onde é a exposição? Não refere, talvez por erro de impressão, embora conclua, pelos apoios indicados, que será em Loulé ou pelo menos no concelho de Loulé, mas em que local? Vou à internet e encontro um artigo da Sul Informação, onde refere a exposição na " Folha de Medronho", Associação de Artes Performativas, em Loulé.
Desconhecendo, procuro no mapa e parece-me próximo do Largo de São Francisco. Pronto, já estou situada.
Por coincidência, como é o uso dizer-se, nessa quarta-feira tinha encontro de “Grupo de Escrita”, na Casa da Cultura de Loulé, mais precisamente por baixo da dita, no Bar 8100, por se tratar da última sessão do ano e querermos fazer um lanchinho de Natal. Saí um pouco antes do final por ter um compromisso familiar nessa noite e, regressando, passei pelo Largo de São Francisco, só para me certificar do local da “Folha de medronho”, mas sem descer do carro porque não me podia atrasar, tanto mais que àquela hora, cerca das 18:30 já teriam encerrado, porém, ao entrar na rua, à esquerda da Igreja de São Francisco, verifico que, quase em frente à dita, há ainda um estabelecimento iluminado, onde se encontra uma rapariga à secretária. Mesmo duvidando, porque não tinha memorizado o horário inserido no folheto e porque não queria chegar tarde ao compromisso, páro o carro e, com os quatro piscas ligados, empurro a porta envidraçada, sobre a qual leio o letreiro “Folha do Medronho” e pergunto se ainda são horas de ver a exposição. Que sim, até às 19:30, diz a rapariga que se levanta, com prontidão, sorrindo e se dirige a mim, pedindo-me permissão para me abraçar, que também são “uma associação de afectos”, sublinha, continuando a sorrir. Aquiesço, deixo-me abraçar e estranho que uma rapariga nova tenha o cabelo totalmente grisalho, mas já há muito quem se tenha rendido ao natural, vou eu pensando.
Olhei à minha volta; onde está a exposição? É aqui na Sala de Ensaios, diz dirigindo-se a uma sala onde reina a escuridão, à excepção das luzes que incidem e permitem visualizar os elementos construídos pelos artistas, com materiais do dito lixo de plástico, recolhidos na Ria Formosa, numa parceria com o RIAS (Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens, num alerta divertido para quem ainda não tenha despertado para o assunto. Não sendo possível fazer uma exaustiva observação dos objectos construídos, entre outros achei interessante a abelha e muito original o aquário, não de peixes, mas de objetos de plástico. Tendo de me retirar mais apressadamente do que desejaria, e do que aconselha a boa educação, verifiquei ainda que sobre as mesas existiam livros recentemente apresentados, de que não pude tomar nota por falta de tempo. Apesar da minha pressa Xana, (Alexandra Diogo,) ainda me quis oferecer chá, rosto que figura num folheto que vi sobre a mesa, um espetáculo de teatro de que fez parte e que foi levado à cena no Cine Louletano, baseado no clássico “Antígona”, de Sófocles, onde aparece com cabelo loiro. Fazendo eu o reparo, em vista dos panfletos, diz-me que teve depois de o descolorar para o outro papel que assim o exigia. Ossos do ofício. “Encanecer”, título da dita peça teatral e de acordo com o grisalho, quase branco, do cabelo, agora compreendido. Muito tinha ainda para me contar e mostrar se de tempo eu dispusesse. Fiquei de lá voltar para me inteirar de tudo com mais pormenor. E tirar algumas fotografias. O que não aconteceu ainda.
A exposição, essa, pode agora ser vista na delegação de Faro do IPJ (Instituto Português da Juventude)
Paderne, 25 de Fevereiro de 2020
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