Era uma vez uma Estrelinha muito endiabrada que gostava de brincar em cima das fofas nuvens, enquanto todas as outras estrelas dormiam.
Naquele dia, a nuvem onde brincava tinha apanhado uma corrente de ar frio, constipou-se, deu um espirro e a Estrelinha escorregou por ali abaixo e foi parar a uma pradaria, onde, alegres e sem cuidados, corriam cinco crianças: quatro meninas e um menino que, quando a viram, pararam de brincar e exclamaram uns para os outros:
_ Olha! uma estrela cadente!
_ Não sou nada uma estrela cadente. Sou uma estrela cintilante!
_ Então se não és cadente, por que é que caíste e por que é que não cintilas?
_Caí porque a nuvem deu um espirro e não tive tempo de me agarrar e não cintilo agora porque as estrelas só cintilam à noite.
_Está bem. Queres vir brincar connosco?
_ Sim.
_ Vamos jogar ao agarra e fica ao meio.
Estrelinha era uma estrela de cinco pontas, por isso cada um pegou numa ponta e correram até encontrar o gato Tobias, dormitando ao sol, que ficou no centro da estrela e todos começaram a andar à roda e a cantarolar, até que o gato abriu um olho e, vendo tudo a rodar, pensou estar com tonturas, abriu o outro e a mesma coisa: tudo à roda. E miou.
Todos se riram, levantaram a estrelinha em pontas e foram à procura do cão que dormitava à sombra. Este ficou no centro da estrela e os meninos começaram a andar à sua volta, cantarolando. O cão abriu um olho, depois o outro, abriu a bocarra, sacudiu as orelhas e, feliz por ter brincadeira, levantou-se, soltando um sonoro ão ão.
Ergueram a estrela e foram à procura do galo, que andava de olho nas galinhas, e lá conseguiram que ficasse no centro da estrela, porém, o galo pensando que o iam fechar na capoeira, não gostou nada e fez um chinfrim: Cocorocó cocorocó.
Todos riram muito alto. Soltaram-no e foram à procura da cabrinha Judite, que estava encarrapitada num arbusto já meio comido e disseram-lhe: Judite salta aqui para o meio da Estrelinha! E a cabrinha saltou e ficou a olhar para todos os meninos, enquanto remoía os ramos que ainda tinha na boca. Quando o animal começou aos pinotes, soltaram-no e foram à procura do porco que andava a comer bolotas que iam caindo da azinheira. O porquinho Jeremias ficou no meio da estrela e dos meninos, mas começou a grunhir tanto que o libertaram logo.
O pato Quá-quá, que se refrescava num charco mesmo ali, logo foi caçado para o meio, mas fez tão grande grasnada que, sem demora, por entre gritinhos e risadas, o soltaram.
Ainda faltava a ovelha Choné que tudo tinha observado, discretamente, enquanto remoía a erva verdinha do prado e que soltou muitos memés até ficar no centro da estrela, ora olhando para as crianças, ora observando as nuvens, muito branquinhas, que lá no alto a faziam lembrar umas amigas, que de vez em quando apareciam por ali a pastar.
O sol começava já a declinar quando a Estrelinha, de um pulo, se pôs de pé sobre duas pontas, com outras duas abraçou as crianças e a ovelha Choné e disse: Obrigada por este dia maravilhoso, mas agora tenho de me ir embora; não tarda é noite e eu tenho que ir cintilar no tecto do mundo, único tecto de muitos meninos que me estarão a contemplar e que, quando adormecerem, lhes vou iluminar os sonhos.
Num ápice, a Estrelinha voltou para o firmamento, onde não tardaria a cintilar, brilhando entre miríades de tantas estrelas inspiradoras dos sonhadores e dos poetas.
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