quarta-feira, 6 de maio de 2020


OS ANIMAIS NO CENTRO DA ESTRELINHA


Era uma vez uma Estrelinha muito endiabrada que gostava de brincar em cima das fofas nuvens, enquanto todas as outras estrelas dormiam.

Naquele dia, a nuvem onde brincava tinha apanhado uma corrente de ar frio, constipou-se, deu um espirro e a Estrelinha escorregou por ali abaixo e foi parar a uma pradaria, onde, alegres e sem cuidados, corriam cinco crianças: quatro meninas e um menino que, quando a viram, pararam de brincar e exclamaram uns para os outros:

_ Olha! uma estrela cadente!

_ Não sou nada uma estrela cadente. Sou uma estrela cintilante!

_ Então se não és cadente, por que é que caíste e por que é que não cintilas?

_Caí porque a nuvem deu um espirro e não tive tempo de me agarrar e não cintilo agora porque as estrelas só cintilam à noite.

_Está bem. Queres vir brincar connosco?

_ Sim.

_ Vamos jogar ao agarra e fica ao meio.

Estrelinha era uma estrela de cinco pontas, por isso cada um pegou numa ponta e correram até encontrar o gato Tobias, dormitando ao sol, que ficou no centro da estrela e todos começaram a andar à roda e a cantarolar, até que o gato abriu um olho e, vendo tudo a rodar, pensou estar com tonturas, abriu o outro e a mesma coisa: tudo à roda. E miou.

Todos se riram, levantaram a estrelinha em pontas e foram à procura do cão que dormitava à sombra. Este ficou no centro da estrela e os meninos começaram a andar à sua volta, cantarolando. O cão abriu um olho, depois o outro, abriu a bocarra, sacudiu as orelhas e, feliz por ter brincadeira, levantou-se, soltando um sonoro ão ão.

Ergueram a estrela e foram à procura do galo, que andava de olho nas galinhas, e lá conseguiram que ficasse no centro da estrela, porém, o galo pensando que o iam fechar na capoeira, não gostou nada e fez um chinfrim: Cocorocó cocorocó.

Todos riram muito alto. Soltaram-no e foram à procura da cabrinha Judite, que estava encarrapitada num arbusto já meio comido e disseram-lhe: Judite salta aqui para o meio da Estrelinha! E a cabrinha saltou e ficou a olhar para todos os meninos, enquanto remoía os ramos que ainda tinha na boca. Quando o animal começou aos pinotes, soltaram-no e foram à procura do porco que andava a comer bolotas que iam caindo da azinheira. O porquinho Jeremias ficou no meio da estrela e dos meninos, mas começou a grunhir tanto que o libertaram logo.

O pato Quá-quá, que se refrescava num charco mesmo ali, logo foi caçado para o meio, mas fez tão grande grasnada que, sem demora, por entre gritinhos e risadas, o soltaram.

Ainda faltava a ovelha Choné que tudo tinha observado, discretamente, enquanto remoía a erva verdinha do prado e que soltou muitos memés até ficar no centro da estrela, ora olhando para as crianças, ora observando as nuvens, muito branquinhas, que lá no alto a faziam lembrar umas amigas, que de vez em quando apareciam por ali a pastar.

O sol começava já a declinar quando a Estrelinha, de um pulo, se pôs de pé sobre duas pontas, com outras duas abraçou as crianças e a ovelha Choné e disse: Obrigada por este dia maravilhoso, mas agora tenho de me ir embora; não tarda é noite e eu tenho que ir cintilar no tecto do mundo, único tecto de muitos meninos que me estarão a contemplar e que, quando adormecerem, lhes vou iluminar os sonhos.

Num ápice, a Estrelinha voltou para o firmamento, onde não tardaria a cintilar, brilhando entre miríades de tantas estrelas inspiradoras dos sonhadores e dos poetas.


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