terça-feira, 12 de maio de 2020

AVISO: ISTO NÃO É UMA FOTOGRAFIA

Leio alguns “escritos” e comentários sobre os "benefícios" que o vírus trouxe à humanidade e, para além do óbvio, há os que defendem que veio mostrar (isto a quem não a tenha visto antes) a Igualdade na morte e, sobretudo, através do uso da máscara. Esta, sim, leio, torna os humanos mais iguais, logo em vida, porém, a cada dia que passa se vê uma maior diversidade de máscaras, de acrílicos, de viseiras. São os materiais, as cores, as formas: a imaginação humana é infinita (tal como outra coisa em que estamos a pensar), e, se não morrer antes, ainda as verei incrustadas de ouro, diamantes, pérolas e afins.
Logo esta da Igualdade, e foquei apenas um pormenor, acessório quase obrigatório, a máscara, não a consigo ainda ver como benefício, antes uma necessidade, momentânea, esperemos. Mas a minha invisibilidade é normal e, tal como num pós-guerra, que afinal é duma guerra que se trata, poderá mesmo passar uma geração, ou mais, até que os aclamados “benefícios” sejam visíveis, porém, nós, humanos, queremos tudo para já. E vamos ter de esperar por eles. Quem tiver vida e saúde para isso.
Bem, mas não foi para isto que coloquei uma poupa, uma ave bem bonita que há uns tempos bem curtos poderia estar viva, esvoaçando pelos campos e teve o azar de algo  lhe ter acontecido nestes tempos de “benefícios” do vírus e os Centros de Recuperação de Aves estarem fechados e, a agravar ou não, ser fim de semana, em que os veterinários não fazem atendimento. “Noutros tempos”, talvez possa dizer noutra vida, numa bela tarde de verão, aconteceu-me ter salvo um albatroz, na praia, (foi mesmo noutra vida), que estava enleado num pedaço de rede de pesca, e mesmo sendo num final de domingo de Agosto, consegui que o fossem buscar e recuperar, já que os ferimentos causados pela tentativa de libertação, não tinham sido graves, devido à nossa pronta actuação. Pois esta linda ave, não. Como alguém dizia há dias, mesmo para morrer é preciso ter sorte.
Isto fez-me pensar na dificuldade que é agora socorrer um humano, alguém que cai, até se perceber se foi uma síncope, o que se tiver máscara se torna mais difícil de perceber, se escorregou, etc.. E socorro instantâneo, aquele de dar "uma mão", para que não se estatele na lama, não se afogue ou coisa semelhante, já não há. Cada um que se cuide; se se desequilibrar, paciência: quebre-se, fique ferido. A distância não o salvará. Só do vírus. Porque ninguém tem um braço de dois metros e depois só se tiver a sorte de se deparar com um salvador altruísta, que ainda os há, que todos os mais se afastam, como se todos, mas todos, tivéssemos lepra. E daí, quem sabe.
E aqueles procedimentos que aprendemos nos primeiros socorros: encoste o ouvido, encoste a mão, tome o pulso … isto agora serve para quê. O Manual dos Primeiros Socorros tem de ser reescrito. Ou talvez não. Seria tempo perdido. Dali a três dias teriam de escrever outro. Tudo tão efémero. Ora aí está: um “benefício” do vírus. Mostrar, aos incrédulos e distraídos, que tudo é efémero.
Mas havemos de ir aos poucos descobrindo-lhe mais “benefícios”, como os de um ambiente mais limpo e puro, e outros igualmente óbvios, como o teletrabalho: tempo poupado em favor da família, menos gastos em combustível logo menor pegada ecológica, melhor alimentação, melhor saúde, mais poupança no vestuário, no calçado, nos adereços, no perfume, no aftershave. Só tem um contra: o ódio, que era dirigido aos colegas invejosos e à cara do chefe maldisposto, foi em parte transferido, sem mais nem menos, para a família, que não tem culpa nenhuma e onde, há ainda tão pouco tempo, muitos encontravam refúgio e consolo.
Decididamente o ser humano não tem onde se refugiar; nunca se sabe onde está o vírus. Este que agora tanto nos atormenta ou outro qualquer.
“O benefício” é que acabamos por perceber que, a qualquer momento, podemos valer mais ou menos o mesmo que o animal da fotografia. 


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