sexta-feira, 1 de maio de 2020




DESCOBERTA A AUTORIA MORAL DO DITO



Os animais cansaram-se de serem tratados como animais. Há muito que queriam experienciar ser gente, frequentar os cafés, os ginásios, as piscinas, os estádios, os parques infantis, fazer skate, fotografar os humanos ... impossível enumerar as  mais de duas mil e duzentas actividades de lazer das pessoas.

Basta lembrarem-se eles mesmos das inúmeras e fracassadas tentativas de apropriação por todo o globo; aqui mais perto e a mais antiga conhecida, remonta ao Leão de Rio Maior, logo reprimida pelo homem e a mais recente a Cobra Piton, encontrada na Fonte da Benémola, no concelho de Loulé e logo enjaulada no Zoo de Lagos.

Mas porque não tentar novamente e em grande? pensou o animalzinho. E foi então que, por acaso, falou assim no assunto, só por falar, a um mais lustroso e bem falante, que logo agarrou no assunto, tanta vez debatido e que logo esmorecia,  e contactou um outro, mais sagaz e venenoso, que  fez propagar por todo o planeta, como uma ideia sua, deslumbrando uns, subjugando outros, corrompendo outros e ainda convencendo outros tantos, de que conquistariam a terra aos humanos muito em breve e que então seriam donos do planeta, sem mortes nem perseguições.

Aquela sugestão era só uma brincadeira! disse, já um pouco assustado, o animalzinho, que não tardou muito a desaparecer da circulação. Mas também quem é que se importava com isso. 

A ideia foi minha! reivindicou o lustroso! Outro que levou sumiço num abrir e fechar de olhos. E ninguém deu por conta.

O sagaz e venenoso conhecia um outro, não menos oportunista e não menos manhoso, que conhecia outro, que conhecia outro que sabia da existência duma coisa, que nem sequer era um deles, uma coisa secreta, microscópica mas poderosa como um exército, capaz de dominar quem considerasse inimigo ou que para tal lhe pagassem, E a coisa aceitou. Ela mesma se encarregaria de enjaular e açaimar os humanos, pelo menos a maior parte, porque tal como os animais, também os há rebeldes e astutos.

E foi assim que, passado algum tempo, no mundo animal foi proclamada a Confederação Mundial dos Animais, através de viciosos animais, manobrados insidiosamente  por diversas e astuciosas espécies, com a garantia duma revolução inaudita em todos os tempos.

Quem não foi na conversa até porque, entretanto, esqueceram, por falta de uso, a língua universal dos animais, foram os cães e os gatos que nem por nada trocariam o bem-estar em que se encontram actualmente por uma qualquer revolução, de que nunca se sabe o desfecho.

A Confederação bem os ameaçou de represálias quando estivessem no centro do poder, mas por falta de tradutor automático a mesma parece ter-se perdido.

Ao que consta, também muitas aves não terão aderido totalmente à revolução; vendo bem que ganhariam elas com isso: afinal os ares são delas, pousam na terra quando querem e algumas estavam já estão habituados à passagem constante dos seus homónimos aviões que, quando estes cessaram de passar sobre os seus lagos, se reuniram, confusos, para averiguar da situação. É que aquelas aves metálicas nunca tinham emigrado: andavam sempre num frenético vaivém e estas já nem se incomodavam com isso, como qualquer espécie não se incomoda com o grasnar de um bando de patos bravos, o apelo dos flamingos ou o pissitar dos estorninhos imitadores, desde que daí não lhes advenha prejuízo; que cada um é como é, e aquela espécie é assim: como um trovão.

Os pardais das cidades e do litoral também fizeram ouvidos moucos. Então iam deixar de encher o papinho, sem custo, pelas esplanadas dos cafés.

Mas estas micro decisões não afectaram grande coisa a revolução em curso; há muitos entusiasmos, como o  das zebras, logo que lhes chegou a notícia da revolução, foi o culminar dos seus sonhos: entrarem na Zara e vestirem-se de xadrez ou às bolinhas. Riscas, nunca mais, mesmo que estejam na moda: já lhes basta vestirem-se assim desde que se lembram.  A euforia geral é tanta que se pode calcular pelo número de vídeos que circulam por toda a parte, obtidos pelos humanos através das vitrines das suas jaulas e gaiolas, onde se vêm avestruzes a pedalar nas bicicletas dos parques geriátricos, jiboias enroladas na polémica escultura, dita fálica, de João Cutileiro, tubarões nas piscinas municipais e olímpicas, enquanto os hipopótamos se apropriaram das piscinas dos empreendimentos turísticos e foi mesmo visto um urso branco a dormir a sesta sobre as arcas frigoríficas, de gelados, da Makro; enfim, todo o tipo de animais ditos selvagens está já a desfrutar das cidades, entediados que estavam de viver confinadas às florestas, aos desertos ou os rios e mesmo aos oceanos.

Pois, pois, um dia as coisas haviam de mudar. 

A Confederação já fez uma proposta para a colocação, no centro do mundo, de uma estátua que chegue até a lua, representando o animal que teve a ideia genial de contratar um vírus para paralisar os humanos.

Até à data não há notícia de que tenham chegado ao herói, embora tenham surgido candidatos oportunistas de várias espécies, que acabam por desaparecer, misteriosamente.

Para além da Reconquista da terra, todos ignoram ainda os verdadeiros intentos da Confederação, cujo movimento já é conhecido entre eles como a Revolução pelo Vírus.


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