ANSIEDADES
DE UMA VELHA
Viver numa
época de culto da juventude, onde reina a beleza e o vigor paralelos ao culto
do anti-envelhecimento, onde só a simples palavra velho causa asco, arrepios, é
mesmo uma autêntica e incansável labuta permanente.
Fingir que
temos boa memória, o que se consegue falando, sem parar, de coisas do passado
de que se é a "única" a lembrar e as amigas a concordar, para não
parecerem ché chés. Até que é divertido e puxa à imaginação: lembram-se do
vestido verde que a Georgina usou no exame do quinto ano dos liceus, cheio de
folhos e que a fazia parecer uma baleia, que gorda já ela era. Ninguém se
lembra, nem ela; coisa inventada de momento. E todas riem, satisfeitas e
acrescentam pormenores ao que nunca aconteceu.
Foi preciso
uma hecatombe para deitar tudo isto abaixo, agora que engavetaram os velhos.
Nem percebe como deixaram que isso acontecesse! Se há velhos tão valorosos,
deviam ter dito: Não! Nós sabemos cumprir normas, já que passámos uma vida a
cumpri-las e não queremos vegetar. Pois bem, não se aproximem de nós, que
faremos outro tanto.
Como será o
próximo verão? Velhos ficam em casa?! Vão deixar-se cozer no forno das
casas? Uma asfixia total!
Ela, a
velha, nos dias quentes, gosta de usufruir da aragem e da frescura da
praia, porém não gosta de "obrigar" os outros à contemplação
das peles descaídas dos braços e das pernas, do cabelo ralo e das manchas da
idade e procura ir para zonas menos frequentadas, porém, depois de lá
estar esquece-se completamente do seu desgraçado aspecto e percorre o areal de
lés-a-lés, alternando com longos tempos de leitura e de mergulhos. E volta a
questionar: Como será o próximo verão? Velhos ficam em casa?! Oh! NÃO!!!!!!!!
Se tivesse uma piscina talvez não se importasse tanto …, mas não pode
contentar-se apenas com a banheira ou, no máximo, montar no quintal uma piscina
de criança.
Ah, e os
bailes dos velhos; como serão os futuros bailes de velhos, a dançar com dois
metros de distância, dançando o ié íe, que muitos dançaram e é como andar de
bicicleta, não se esquece, mesmo velho. Mas se os bailes para velhos forem
encerrados?! Bem, depois de se terem habituado a fazer exercício físico em
frente da televisão, é provável que já não tenham tanta necessidade dos bailes
para manterem o aprumo e a elasticidade física. Quanto às toiletes e
acessórios, fazem-se almofadas para substituir as que ultimamente têm sido tão maltratadas
com o sofajar, ou seja, o hábito de estar no sofá, e … máscaras.
Até lhe
vinha a calhar esta coisa das máscaras; tinha-se-lhe partido a placa postiça do
maxilar inferior, que a do superior fora toda atarraxada, numa época de vacas
gordas, que era o que agora lhe valia. Agora quando tiver de sair à rua já não
é problemático, ao que ainda há pouco tempo não se atreveria.
Quantos aos
acessórios das toiletes, brincos e colares com que se ornamentava como uma
árvore de natal, ficam muito bem nas bainhas das toalhas de mesa; pendem muito
melhor e se forem colocados numa mesa no quintal ou na varanda servem de pesos,
para que a toalha não vá pelos ares em dias ventosos.
Se for
escapando, tudo isto terá utilidade.
No meio
destas suposições, acha cada vez mais piada ao espelho, seu amigo a quem todos
os dias antes de sair para a irrequieta vida social lhe perguntava: espelho
meu, quem é mais bela do que eu? e nem precisava esperar resposta, de convicta
que estava da mesma. Pois bem, o ingrato agora não a reconhece. E, diga-se de
passagem, ela também não. O cabelo, tão bem pintado quinzenalmente no
cabeleireiro que ninguém se apercebia de que a cor não era natural, tem já dois
centímetros e meio de lista branca, que mais parece uma bandolete e não tarda
ou o corta à tesourada ou em breve fará umas trancinhas, que irá rematar com
uma fitas cor de rosa. Acha que vai ter piada e como ninguém vê, não fica
ridícula e talvez lhes coloque umas fitas cor de rosa no remate. E que importância
tem, se já não a deixam ir às compras. Se bem que por vezes fuja e vá: põe uma
touca, um açaime, quer dizer uma máscara e uns óculos escuros e fica pronta
para assaltar qualquer banco. De qualquer modo o espelho já não a reconhece,
nem de uma maneira nem de outra. Quando diz foge e vai, é que gosta de
determinadas subtilezas que nem sempre é capaz de indicar para lhe trazerem,
como por exemplo um determinado chocolate de que não sabe o nome, mas que chega
ao supermercado e a mão vai lá tirar aquele mesmo, quando não escolhe outro que
lhe pareça atractivo. E as geleias, leva uns dez minutos a examinar os frascos
até escolher a que imagina que gostará e que terá menos açúcar e os chás,
também gosta de examinar e decidir, os iogurtes, gosta de variar de marca, mas
não para um qualquer; e a própria fruta, ela é que sabe a que lhe vai apetecer.
É por isso que acha triste comer nos lares, onde não há escolha, e ela
então que detesta sopa; só de caldo verde, mas parece que essa coisa de depósito
de velhos também não vai ser fácil. Com o vírus à solta, alguns ficarão
desertos e a lotação já não será a mesma, mas como também não há vacina para a
velhice em breve ficarão novamente lotados e excederão a lotação até a próxima
epidemia, em que surgirão novas regras. Talvez surjam projetos género Jardim de
Velhos, cada um na sua casota, jaulas individuais, ajardinadas, onde cada velho
possa jardinar, com direito a apanhar sol a determinada hora, terão televisão
com câmara, mais para serem vigiados e orientados do que para lazer. com uma
porta do género persiana, que abre e fecha automaticamente ou com controlo
remoto no posto de vigia, a determina hora e outros procedimentos semelhantes,
apenas com um vigilante humano, que se passeia entre gaiolas, ainda douradas
porque são novas e a tentar perceber qual escolheria para si quando for
velhinho, dali a séculos, porque tem ainda quarenta anos e se eventualmente
tiver opção de escolha, o que agora lhe parece duvidoso, mas com esperança de
que o mundo melhore.
A velha olha
para as unhas, a duas cores e que quase se quebram ao meio. Nunca teve jeito
para estas coisas da manicure e demais as amigas tinham por norma fazer
marcações para duas ou três delas e era uma festa que armavam no gabinete da
velha amiga, e amiga velha, esteticista desencartada, onde inclusivamente
faziam chá e levavam bolinhos; quer dizer, a Virgulina tinha lá sempre
escondida, atrás da estante, uma garrafinha em que, a bem dizer, nunca reparou
bem, mas que pelos efeitos seria aguardente de medronho, porventura para
aguentar o tratamento dos calos, que por qualquer anomalia lhe cresciam muito. Ainda
bem que não tem calos, porque se os tivesse como a Virgulina, agora teria de
lançar mão duma faca afiada e com a sua falta de jeito, o mais provável era que
ficasse sem um pé.
Por falar em
pé, já nem quer saber como estará a Franquelina, sozinha num T0, em que só lá
punha um pé, que o outro era para sair logo, como a própria dizia. Nunca parava
em casa, sempre em viagem, para onde conseguia arrastar a maioria das colegas,
pelo menos as mais endinheiradas, que às outras, a bem dizer, pouca atenção lhes
dava. A velha era uma das que conseguia arrastar muitas vezes, em cruzeiros e
excursões que na maioria dos casos tinham pouco interessante: era uma igreja,
um museu, uma catedral, uma sinagoga, da parte da manhã, com intervalo para um
almoço, que na maioria das vezes nem se compunha de pratos da região, e à tarde
eram umas ruínas, romanas, árabes ou outras, uma catedral, um museu, uma igreja,
que acabavam confundidas com as centenas já visitadas e cujas histórias já não
conseguiam reter.
Ao fim de
seis meses, se perguntassem o que tinham visto ali e acolá a maioria, para não
meter os pés pela cabeça, respondia que era muito bonito e que valia a pena lá
ir. Quanto a ela, descobria sempre romances, históricos ou não, relacionados
com essas regiões ou cidades, introduzia-se numa personagem e vivia a
verdadeira aventura que não tinha conseguido pela pouca permanência que se
permitiam ficar em qualquer local e revia os locais evocados como se lá
estivesse estado realmente, dado que apenas tivera um vislumbre ao vivo e pouco
mais; pois que tempo tinham para estabelecer alguma empatia com um autóctone
real, compreender o que efectivamente se passava naquele local que não fosse o
que o guia lhes impingia. Estava estafada daquelas viagens, tentava
esquivar-se..., mas era difícil; se tivesse medo de andar de avião,
escapava-se; mas não: até gostava. Se tentasse dizer que estava adoentada logo
lhe invadiam a casa ou queriam levá-la ao médico, o que a cansava ainda mais e
acabava alinhando quando, nem por nada, as conseguia ludibriar. Gostava de
viajar, sim; não de turistar.
Finalmente
pode agora escutar-se; não muito, para não ouvir disparates de si própria, mas
é um luxo a que não estava habituada, por andar sempre numa roda viva. Sim,
constacta que estar só é um luxo.
Felizmente
que os telefonemas têm rareado; já não telefonam tanto, preocupadas, como no
início. Ou se habituaram ou morreram. Morreram, não; que não são pessoas para
se deixarem morrer por dá cá aquela palha, tanto mais que as mensagens,
daquelas que não querem dizer nada, continuam a chover às dezenas e às
vintenas. Mas estar só é diferente de estar em clausura forçada. Isso é que Não
quer admitir que esteja a acontecer!
Diziam que
quem não é visto, é esquecido e com os novos acessórios: chapéu, óculos, máscara,
luvas, é como se não fosse vista, mas isso até que vem a calhar; não tarda
poucos se lembrarão que existiu. E nem falta isso lhe vai fazer; também deixou
de ter medo de desmaiar ou de ter um AVC e que as vizinhas ou as amigas lhe
entrem pela porta adentro e a vejam nesse estado, porque agora é menos provável
vir a acontecer: vêm os bombeiros, arrombam a porta e mesmo que haja algum
mirone, só de longe, nada de lhe mirarem a fúcia desfigurada.
Ah, tomar estes
banhos relaxantes …, com sais ou ervas aromáticas, umas gotas de óleos
essenciais, música clássica ou relaxante, conforme a hora do dia … que na “outra
vida” eram difíceis de encaixar, agora pode fazê-lo sempre que de tal sinta
necessidade ou daí possa tirar vantagem.
E quando
chegar o calor, poderá andar em casa só de cueca; uau! Até que enfim que não
espera visitas. E se morrer assim despida, o Correio da Manhã já não dará a
bombástica notícia: encontrada em casa idosa de sessenta anos, morta e nua. Que
já a pessoa não pode morrer nua, descansada. Achava isto ignóbil! Então uma
pessoa não pode sair da banheira e a seguir morrer, ou morrer antes de entrar
na banheira. Já ninguém pode morrer descansada, sem o stress de ter de vestir
logo o robe.
O que lhe fará
muito jeito, a ela, é ninguém ir destapar-lhe a cara depois de morta; uma
preocupação a menos: se a agência teria o cuidado de lhe fazer uma maquilhagem “natural”.
Pelo menos
não irá “ouvir” comentários do género: Está tal e qual, parece que está a
dormir! Ou em alternativa: Ai, nem parece ela!
Nem as
amigas terão de fingir desgosto, enquanto exclamam interiormente: a mim não me
vão apanhar tão cedo, não! Concorda. Não deixa de ser um lugar incerto, apesar
de certo.
E por falar
em maquilhagem, essa é outra tarefa a esquecer; com a máscara o baton ficaria
todo esborratado. Protector solar, nicles. Enfim, vai ser uma poupança: é no
café, nos bolos, nos almoços, no cinema, nos concertos, nos teatros, na
piscina, na gasolina …
Não tarda
fica uma velha rica, em substituição da rica velha, que era. E de quem tem
saudades!
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