segunda-feira, 27 de abril de 2020


ANSIEDADES DE UMA VELHA


Viver numa época de culto da juventude, onde reina a beleza e o vigor paralelos ao culto do anti-envelhecimento, onde só a simples palavra velho causa asco, arrepios, é mesmo uma autêntica e incansável labuta permanente. 

Fingir que temos boa memória, o que se consegue falando, sem parar, de coisas do passado de que se é a "única" a lembrar e as amigas a concordar, para não parecerem ché chés. Até que é divertido e puxa à imaginação: lembram-se do vestido verde que a Georgina usou no exame do quinto ano dos liceus, cheio de folhos e que a fazia parecer uma baleia, que gorda já ela era. Ninguém se lembra, nem ela; coisa inventada de momento. E todas riem, satisfeitas e acrescentam pormenores ao que nunca aconteceu.



Foi preciso uma hecatombe para deitar tudo isto abaixo, agora que engavetaram os velhos. Nem percebe como deixaram que isso acontecesse! Se há velhos tão valorosos, deviam ter dito: Não! Nós sabemos cumprir normas, já que passámos uma vida a cumpri-las e não queremos vegetar. Pois bem, não se aproximem de nós, que faremos outro tanto. 

Como será o próximo verão? Velhos ficam em casa?! Vão deixar-se cozer no forno das casas? Uma asfixia total!

Ela, a velha, nos dias quentes, gosta de usufruir da aragem e da frescura da praia,  porém não gosta de "obrigar" os outros à contemplação das peles descaídas dos braços e das pernas, do cabelo ralo e das manchas da idade e procura ir para zonas menos frequentadas, porém,  depois de lá estar esquece-se completamente do seu desgraçado aspecto e percorre o areal de lés-a-lés, alternando com longos tempos de leitura e de mergulhos. E volta a questionar: Como será o próximo verão? Velhos ficam em casa?! Oh! NÃO!!!!!!!! Se tivesse uma piscina talvez não se importasse tanto …, mas não pode contentar-se apenas com a banheira ou, no máximo, montar no quintal uma piscina de criança.

Ah, e os bailes dos velhos; como serão os futuros bailes de velhos, a dançar com dois metros de distância, dançando o ié íe, que muitos dançaram e é como andar de bicicleta, não se esquece, mesmo velho. Mas se os bailes para velhos forem encerrados?! Bem, depois de se terem habituado a fazer exercício físico em frente da televisão, é provável que já não tenham tanta necessidade dos bailes para manterem o aprumo e a elasticidade física.  Quanto às toiletes e acessórios, fazem-se almofadas para substituir as que ultimamente têm sido tão maltratadas com o sofajar, ou seja, o hábito de estar no sofá, e … máscaras. 

Até lhe vinha a calhar esta coisa das máscaras; tinha-se-lhe partido a placa postiça do maxilar inferior, que a do superior fora toda atarraxada, numa época de vacas gordas, que era o que agora lhe valia. Agora quando tiver de sair à rua já não é problemático, ao que ainda há pouco tempo não se atreveria. 

Quantos aos acessórios das toiletes, brincos e colares com que se ornamentava como uma árvore de natal, ficam muito bem nas bainhas das toalhas de mesa; pendem muito melhor e se forem colocados numa mesa no quintal ou na varanda servem de pesos, para que a toalha não vá pelos ares em dias ventosos.

Se for escapando, tudo isto terá utilidade.

No meio destas suposições, acha cada vez mais piada ao espelho, seu amigo a quem todos os dias antes de sair para a irrequieta vida social lhe perguntava: espelho meu, quem é mais bela do que eu? e nem precisava esperar resposta, de convicta que estava da mesma. Pois bem, o ingrato agora não a reconhece. E, diga-se de passagem, ela também não. O cabelo, tão bem pintado  quinzenalmente no cabeleireiro que ninguém se apercebia de que a cor não era natural, tem já dois centímetros e meio de lista branca, que mais parece uma bandolete e não tarda ou o corta à tesourada ou em breve fará umas trancinhas, que irá rematar com uma fitas cor de rosa. Acha que vai ter piada e como ninguém vê, não fica ridícula e talvez lhes coloque umas fitas cor de rosa no remate. E que importância tem, se já não a deixam ir às compras. Se bem que por vezes fuja e vá: põe uma touca, um açaime, quer dizer uma máscara e uns óculos escuros e fica pronta para assaltar qualquer banco. De qualquer modo o espelho já não a reconhece, nem de uma maneira nem de outra. Quando diz foge e vai, é que gosta de determinadas subtilezas que nem sempre é capaz de indicar para lhe trazerem, como por exemplo um determinado chocolate de que não sabe o nome, mas que chega ao supermercado e a mão vai lá tirar aquele mesmo, quando não escolhe outro que lhe pareça atractivo. E as geleias, leva uns dez minutos a examinar os frascos até escolher a que imagina que gostará e que terá menos açúcar e os chás, também gosta de examinar e decidir, os iogurtes, gosta de variar de marca, mas não para um qualquer; e a própria fruta, ela é que sabe a que lhe vai apetecer. É por isso que acha triste comer nos lares, onde não há escolha, e ela então que detesta sopa; só de caldo verde, mas parece que essa coisa de depósito de velhos também não vai ser fácil. Com o vírus à solta, alguns ficarão desertos e a lotação já não será a mesma, mas como também não há vacina para a velhice em breve ficarão novamente lotados e excederão a lotação até a próxima epidemia, em que surgirão novas regras. Talvez surjam projetos género Jardim de Velhos, cada um na sua casota, jaulas individuais, ajardinadas, onde cada velho possa jardinar, com direito a apanhar sol a determinada hora, terão televisão com câmara, mais para serem vigiados e orientados do que para lazer. com uma porta do género persiana, que abre e fecha automaticamente ou com controlo remoto no posto de vigia, a determina hora e outros procedimentos semelhantes, apenas com um vigilante humano, que se passeia entre gaiolas, ainda douradas porque são novas e a tentar perceber qual escolheria para si quando for velhinho, dali a séculos, porque tem ainda quarenta anos e se eventualmente tiver opção de escolha, o que agora lhe parece duvidoso, mas com esperança de que o mundo melhore. 

A velha olha para as unhas, a duas cores e que quase se quebram ao meio. Nunca teve jeito para estas coisas da manicure e demais as amigas tinham por norma fazer marcações para duas ou três delas e era uma festa que armavam no gabinete da velha amiga, e amiga velha, esteticista desencartada, onde inclusivamente faziam chá e levavam bolinhos; quer dizer, a Virgulina tinha lá sempre escondida, atrás da estante, uma garrafinha em que, a bem dizer, nunca reparou bem, mas que pelos efeitos seria aguardente de medronho, porventura para aguentar o tratamento dos calos, que por qualquer anomalia lhe cresciam muito. Ainda bem que não tem calos, porque se os tivesse como a Virgulina, agora teria de lançar mão duma faca afiada e com a sua falta de jeito, o mais provável era que ficasse sem um pé.

Por falar em pé, já nem quer saber como estará a Franquelina, sozinha num T0, em que só lá punha um pé, que o outro era para sair logo, como a própria dizia. Nunca parava em casa, sempre em viagem, para onde conseguia arrastar a maioria das colegas, pelo menos as mais endinheiradas, que às outras, a bem dizer, pouca atenção lhes dava. A velha era uma das que conseguia arrastar muitas vezes, em cruzeiros e excursões que na maioria dos casos tinham pouco interessante: era uma igreja, um museu, uma catedral, uma sinagoga, da parte da manhã, com intervalo para um almoço, que na maioria das vezes nem se compunha de pratos da região, e à tarde eram umas ruínas, romanas, árabes ou outras, uma catedral, um museu, uma igreja, que acabavam confundidas com as centenas já visitadas e cujas histórias já não conseguiam reter.

Ao fim de seis meses, se perguntassem o que tinham visto ali e acolá a maioria, para não meter os pés pela cabeça, respondia que era muito bonito e que valia a pena lá ir. Quanto a ela, descobria sempre romances, históricos ou não, relacionados com essas regiões ou cidades, introduzia-se numa personagem e vivia a verdadeira aventura que não tinha conseguido pela pouca permanência que se permitiam ficar em qualquer local e revia os locais evocados como se lá estivesse estado realmente, dado que apenas tivera um vislumbre ao vivo e pouco mais; pois que tempo tinham para estabelecer alguma empatia com um autóctone real, compreender o que efectivamente se passava naquele local que não fosse o que o guia lhes impingia.  Estava estafada daquelas viagens, tentava esquivar-se..., mas era difícil; se tivesse medo de andar de avião, escapava-se; mas não: até gostava. Se tentasse dizer que estava adoentada logo lhe invadiam a casa ou queriam levá-la ao médico, o que a cansava ainda mais e acabava alinhando quando, nem por nada, as conseguia ludibriar. Gostava de viajar, sim; não de turistar.

Finalmente pode agora escutar-se; não muito, para não ouvir disparates de si própria, mas é um luxo a que não estava habituada, por andar sempre numa roda viva. Sim, constacta que estar só é um luxo. 

Felizmente que os telefonemas têm rareado; já não telefonam tanto, preocupadas, como no início. Ou se habituaram ou morreram. Morreram, não; que não são pessoas para se deixarem morrer por dá cá aquela palha, tanto mais que as mensagens, daquelas que não querem dizer nada, continuam a chover às dezenas e às vintenas. Mas estar só é diferente de estar em clausura forçada. Isso é que Não quer admitir que esteja a acontecer!

Diziam que quem não é visto, é esquecido e com os novos acessórios: chapéu, óculos, máscara, luvas, é como se não fosse vista, mas isso até que vem a calhar; não tarda poucos se lembrarão que existiu. E nem falta isso lhe vai fazer; também deixou de ter medo de desmaiar ou de ter um AVC e que as vizinhas ou as amigas lhe entrem pela porta adentro e a vejam nesse estado, porque agora é menos provável vir a acontecer: vêm os bombeiros, arrombam a porta e mesmo que haja algum mirone, só de longe, nada de lhe mirarem a fúcia desfigurada.

Ah, tomar estes banhos relaxantes …, com sais ou ervas aromáticas, umas gotas de óleos essenciais, música clássica ou relaxante, conforme a hora do dia … que na “outra vida” eram difíceis de encaixar, agora pode fazê-lo sempre que de tal sinta necessidade ou daí possa tirar vantagem.

E quando chegar o calor, poderá andar em casa só de cueca; uau! Até que enfim que não espera visitas. E se morrer assim despida, o Correio da Manhã já não dará a bombástica notícia: encontrada em casa idosa de sessenta anos, morta e nua. Que já a pessoa não pode morrer nua, descansada. Achava isto ignóbil! Então uma pessoa não pode sair da banheira e a seguir morrer, ou morrer antes de entrar na banheira. Já ninguém pode morrer descansada, sem o stress de ter de vestir logo o robe.

O que lhe fará muito jeito, a ela, é ninguém ir destapar-lhe a cara depois de morta; uma preocupação a menos: se a agência teria o cuidado de lhe fazer uma maquilhagem “natural”.

Pelo menos não irá “ouvir” comentários do género: Está tal e qual, parece que está a dormir! Ou em alternativa: Ai, nem parece ela!

Nem as amigas terão de fingir desgosto, enquanto exclamam interiormente: a mim não me vão apanhar tão cedo, não! Concorda. Não deixa de ser um lugar incerto, apesar de certo.

E por falar em maquilhagem, essa é outra tarefa a esquecer; com a máscara o baton ficaria todo esborratado. Protector solar, nicles. Enfim, vai ser uma poupança: é no café, nos bolos, nos almoços, no cinema, nos concertos, nos teatros, na piscina, na gasolina …

Não tarda fica uma velha rica, em substituição da rica velha, que era. E de quem tem saudades!


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