Um velho
comete o crime de ficar viúvo aos 80 anos
Não pode
estar sozinho, pai, e eu não posso cá vir senão de longe em longe. Quem é que
vai às compras, quem é que faz a comida, quem é que lava a roupa e arruma a
casa? "Eu. Eu faço isso. Não tenho mais nada para fazer." E se cair
quem o vem levantar? "Levanto-me eu, se puder. Se não puder, telefono para
o 112." E se não estiver em condições de ligar ao 112? "Então também
não estarei em condições de mais nada e o resto não importa." Importa-me a
mim. Vão dizer que o abandonei. "Mas eu sei que não me abandonaste e que
não me vais aprisionar, que me consideras uma pessoa, neste caso, o teu pai;
que ser filho não é fácil." Não, não! O pai tem que ficar num local seguro,
para que eu possa dormir descansado. "Sem te importares que eu não."
Não o quê? "Que não possa dormir descansado."Então fica sozinho, à
experiência, durante um mês, que é quando volto cá. "É
contigo". Claro que é comigo, com quem havia de ser?" A tua mãe
abandonou-me". Que disparate! A mãe morreu." É a mesma coisa; eu sou
mais velho e nunca lhe faria tal coisa". E o pai, por acaso, sabe
cozinhar? "Melhor com que tu julgas; quando cá vinhas a casa, na maioria
das vezes, era eu que cozinhava o que comíamos; a tua mãe já não podia".
"Na
verdade não tenho qualquer vontade nem empenho em fazer nada do que disse que
fazia. Nem me apetece estar em casa sozinho, com a Eduarda a andar pela casa,
embora vagarosamente, varrendo, impando, pondo a roupa na máquina,
impando, estendendo a roupa que eu já não levo para perto do estendal,
mas mesmo assim, impando. Às vezes cantarolando, quem sabe para não chorar. E
sorrindo, por vezes, para não impar.
Cozinhar não
me importo, mesmo ouvindo ímpar, mas o certo é que ela já não limpa a porcaria
que sempre faço quando cozinho.
Como não
assinei nenhum contrato nem fiz nenhum juramento não me vai pesar na
consciência nada fazer.
Passei a
vida a cumprir regras e honrar compromissos; é tempo de descumprir. Imagine-se
chegar às portas do outro mundo com uma folha de serviço Imaculada; duas coisas
poderiam acontecer: perguntarem-me quem é que eu tinha corrompido para apagar
as faltas cometidas, que o mesmo é rotularem-me de corrupto ou corruptor ou, na
pior das hipóteses , rotularem-me de santo. Tal um, tal outro, são rótulos que
não me ficam bem; sou uma pessoa comum, que não gosta de chatices, por isso
cumpre, tal qual alguns funcionários de Hitler: o que eles não queriam era
chatices: é para gazear, é para gazear, é para isto, é para isto, é para
aquilo, é para aquilo. Felizmente nunca foi preciso amordaçar a consciência. E
se fosse? Nunca pensei nisso: fazer peças eletrónicas nunca me pesou na
consciência. Ainda pode pesar: aquelas peças eram para fogões e esquentadores.
E se afinal não fossem? Agora é tarde para me questionar. e também
está a ficar tarde para me deitar. Reconsiderando a questão, a minha empresa é
das poucas que paga a reforma na totalidade como se a pessoa estivesse a
trabalhar ou seja paga um complemento à reforma da Segurança Social para
perfazer o salário. Ora, só isso já seria suspeito, mas ao fim de tanto tempo o
melhor é calar-me, calar a consciência, de contrário diriam que estou maluco;
não estariam muito longe da verdade, porque sempre me considerei um pouco doido,
sem contar a ninguém, sempre considerado pessoa de bem ou melhor boa pessoa.
Ser boa pessoa é perigoso, na medida em que de um momento para o outro se deixa
de o ser. É só ler os jornais. Há outra maneira de ser "boa pessoa",
que o somos quase todos, depois de mortos.
Agora vou
dormir. Amanhã quem sabe se serei boa pessoa, de uma maneira ou de outra".
Sem comentários:
Enviar um comentário