quinta-feira, 9 de abril de 2020


Um velho comete o crime de ficar viúvo aos 80 anos

Não pode estar sozinho, pai, e eu não posso cá vir senão de longe em longe. Quem é que vai às compras, quem é que faz a comida, quem é que lava a roupa e arruma a casa? "Eu. Eu faço isso. Não tenho mais nada para fazer." E se cair quem o vem levantar? "Levanto-me eu, se puder. Se não puder, telefono para o 112." E se não estiver em condições de ligar ao 112? "Então também não estarei em condições de mais nada e o resto não importa." Importa-me a mim. Vão dizer que o abandonei. "Mas eu sei que não me abandonaste e que não me vais aprisionar, que me consideras uma pessoa, neste caso, o teu pai; que ser filho não é fácil." Não, não! O pai tem que ficar num local seguro, para que eu possa dormir descansado. "Sem te importares que eu não." Não o quê? "Que não possa dormir descansado."Então fica sozinho, à experiência, durante um mês, que é quando volto cá. "É  contigo". Claro que é comigo, com quem havia de ser?" A tua mãe abandonou-me". Que disparate! A mãe morreu." É a mesma coisa; eu sou mais velho e nunca lhe faria tal coisa". E o pai, por acaso, sabe cozinhar? "Melhor com que tu julgas; quando cá vinhas a casa, na maioria das vezes, era eu que cozinhava o que comíamos; a tua mãe já não podia".



"Na verdade não tenho qualquer vontade nem empenho em fazer nada do que disse que fazia. Nem me apetece estar em casa sozinho, com a Eduarda a andar pela casa, embora vagarosamente, varrendo, impando,  pondo a roupa na máquina, impando,  estendendo a roupa que eu já não levo para perto do estendal, mas mesmo assim, impando. Às vezes cantarolando, quem sabe para não chorar. E sorrindo, por vezes, para não impar.

Cozinhar não me importo, mesmo ouvindo ímpar, mas o certo é que ela já não limpa a porcaria que sempre faço quando cozinho.

Como não assinei nenhum contrato nem fiz nenhum juramento não me vai pesar na consciência nada  fazer. 

Passei a vida a cumprir regras e honrar compromissos; é tempo de descumprir. Imagine-se chegar às portas do outro mundo com uma folha de serviço Imaculada; duas coisas poderiam acontecer: perguntarem-me quem é que eu tinha corrompido para apagar as faltas cometidas, que o mesmo é rotularem-me de corrupto ou corruptor ou, na pior das hipóteses , rotularem-me de santo. Tal um, tal outro, são rótulos que não me ficam bem; sou uma pessoa comum, que não gosta de chatices, por isso cumpre, tal qual alguns funcionários de Hitler: o que eles não queriam era chatices: é para gazear, é para gazear, é para isto, é para isto, é para aquilo, é para aquilo. Felizmente nunca foi preciso amordaçar a consciência. E se fosse? Nunca pensei nisso: fazer peças eletrónicas nunca me pesou na consciência. Ainda pode pesar: aquelas peças eram para fogões e esquentadores. E se afinal não fossem?  Agora é tarde para me questionar.  e também está a ficar tarde para me deitar. Reconsiderando a questão, a minha empresa é das poucas que paga a reforma na totalidade como se a pessoa estivesse a trabalhar ou seja paga um complemento à reforma da Segurança Social para perfazer o salário. Ora, só isso já seria suspeito, mas ao fim de tanto tempo o melhor é calar-me, calar a consciência, de contrário diriam que estou maluco; não estariam muito longe da verdade, porque sempre me considerei um pouco doido, sem contar a ninguém, sempre considerado pessoa de bem ou melhor boa pessoa. Ser boa pessoa é perigoso, na medida em que de um momento para o outro se deixa de o ser. É só ler os jornais. Há outra maneira de ser "boa pessoa", que o somos quase todos, depois de mortos.

Agora vou dormir. Amanhã quem sabe se serei boa pessoa, de uma maneira ou de outra".


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