quarta-feira, 15 de abril de 2020


UM QUALQUER PASSEIO

Nos passeios pelos campos, vinda do espaço sideral, surge sempre uma borboleta, nos seus dois pares de asas, que nos acompanha como que a indicar-nos o caminho; por vezes parece abandonar-nos, ou talvez sejamos nós que não queremos sair do trilho e enveredar por caminhos desconhecidos. Se nos sentirmos abandonados, não tem importância; o que é que não nos abandonou já? Tudo, ou quase tudo, com excepção da dor e do medo, ou talvez sejamos nós que não os largamos: não queremos ficar de mãos vazias; sempre nos resta a solidão ... e depois … o prazer de escrever, não vá uma verdade visceral precisar desabrochar em nós. Quando menos se espera, surge a mesma borboleta, ou uma réplica sua, novamente borboleteando, de flor em flor. Outras vezes surgem aos pares, entrelaçando-se no voo e sobem aos céus, em espiral, acasalando no éter ou na corola violeta de um cardo e floreando de novo, abrindo e fechando as asas coloridas. Sentimo-nos novamente acompanhados: seguimo-las e pousamos o olhar onde elas pousam, absorvendo  o néctar das flores e esquecemos o caminho que os pés sabem de cor. Parecem gostar de nós, como nós gostamos de certos animais, pouco sociáveis e agressivos, de que preferimos manter as devidas distâncias, não dando confiança excessiva que nos ponha a segurança em causa. 

Menos companhia nos fazem os melros-pretos, de bico alaranjado e aura amarela nos olhos, que  passam diante de nós, pousam num galho e, antes que os possamos observar melhor, levantam voo e vão pousar um pouco mais longe, de preferência na vegetação sombria de uma árvore, onde se sentem mais seguros e logo desaparecem à nossa aproximação.

O mesmo se passa com a pega-azul, ou charnecos, que passam em barulhenta, mas lenta debandada sobre as nossas cabeças e raramente se detêm; não fazem companhia, mas tornam o percurso mais colorido, mas cristalino, no meio da opacidade de um destino ainda incerto. 

Abelhas zumbindo, incansáveis, sugando o néctar da flor do rosmaninho em flor, batem as asas onze milhões de vezes por minuto, numa espécie de dança com código de localização, podendo “visitar” duas mil flores por dia. Não são grandes companheiras: não nos temem sequer, ignoram-nos simplesmente; têm mais que fazer.

Uma brisa ligeira, de vez em quando, faz oscilar a ramagem escura das alfarrobeiras, das oliveiras e das folhas verdejantes das figueiras e das amendoeiras, que oferecem aos nossos olhos aveludados frutos ainda bem serôdios, verdes, longe de acastanharem e de miolo ainda gelatinoso, que um dia, lá para o verão, irá endurecer. 

Os pardais, irrequietos, esvoaçam em bandos, pousando brevemente nas moitas e logo levantam em voo pressuroso, sempre vivaços e desordenados.

Sente-se a alma nua quando a natureza da terra nos invade e nos receia; nada lhe temos a dar, a não ser um êxtase passageiro que deixa um travo de angústia e de traição. De angústia por não nos sentirmos suficientemente unos com ela; de traição porque nos ilude por momentos. Mesmo que o vento e a chuva a fustiguem é sempre a vaporosidade da natureza, num orgasmo de odores, ainda que em farrapos de névoa, cobrindo campos e montes em tarde de neblina.

As cotovias esperam-nos nos caminhos, deixam-nos aproximar, atentas e, por fim, desaparecem na flora rasteira, como miragens no deserto. Em Romeu e Julieta é a cotovia, com o seu canto, que anuncia o dia e com ele a separação dos amantes.

Os chapins iludem-nos, confundimo-los, à primeira vista, com pardais e raramente permitem que se desmanche o ludíbrio; quando nos pretendemos certificar da existência da faixa preta que liga a garganta ao abdómen, já lá não está o ladino exemplar de peito amarelo. 

Só o arrulhar das rolas nos persegue, insistente, quilómetros em redor, abafando os outros acordes.

Cansados de caminhar, ladeados duma primavera exuberante num infinito de pormenores, o coaxar das rãs orienta-nos para um pequeno charco, onde voassejam libélulas, de diáfanas asas azuis. As primeiras emudecem à nossa aproximação, deixando-nos com o silêncio do chape chape e mergulham, como setas, ficando depois a espreitar-nos, atentas e vigilantes, camufladas no lodo fofo e verde, enquanto as libélulas parecem pavonear-se, no seu corpo fusiforme, de abdómen alongado, numa dança exótica, mesmo à frente dos nossos olhares, como se nos desafiassem na rapidez das suas incríveis manobras. Que juízo farão elas de nós, assim a movimentarem-se com tanta proximidade, como helicópteros em histórias de modernos gnomos, quase a fintar-nos, e só quando estamos a uma distância perigosa é que mudam de pouso ou de rota, quando não volteando, descaradas, leves e de coloridos olhos compostos.

Perdizes saem em debandada do verde trigal, onde estarão a construir o ninho, levantam voo, para o qual não têm grande capacidade.

  

De tempos a tempos, nuvens altas, brancas como espuma na crista das ondas do mar longínquo ou como cordeiros acabados de nascer no início da primavera, decoram, inconstantes, o azul constante, fazem-nos erguer para elas um olhar hipnotizado pela poesia, tudo transfigurando numa melancolia que chega a sangrar, quando o pôr do sol insiste em espreitar o mundo.

Os insectos, mais precisamente os mosquitos, esses são companheiros que dispensamos, bem indesejáveis, não fossem as andorinhas suas eficazes devoradoras, mas eis que uma nuvem mais escura que há mais de uma semana nos tem querido afugentar com incumpridas ameaças, declara uma premente urgência em espremer o seu fofo colchão de algodão já ensopado e quem fica ensopado somos nós, bem orquestrados pelo ribombar distante dos trovões.

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