UM QUALQUER
PASSEIO
Nos passeios
pelos campos, vinda do espaço sideral, surge sempre uma borboleta, nos seus
dois pares de asas, que nos acompanha como que a indicar-nos o caminho; por
vezes parece abandonar-nos, ou talvez sejamos nós que não queremos sair do
trilho e enveredar por caminhos desconhecidos. Se nos sentirmos abandonados,
não tem importância; o que é que não nos abandonou já? Tudo, ou quase tudo, com
excepção da dor e do medo, ou talvez sejamos nós que não os largamos: não
queremos ficar de mãos vazias; sempre nos resta a solidão ... e depois … o
prazer de escrever, não vá uma verdade visceral precisar desabrochar em nós.
Quando menos se espera, surge a mesma borboleta, ou uma réplica sua, novamente
borboleteando, de flor em flor. Outras vezes surgem aos pares, entrelaçando-se
no voo e sobem aos céus, em espiral, acasalando no éter ou na corola violeta de
um cardo e floreando de novo, abrindo e fechando as asas coloridas. Sentimo-nos
novamente acompanhados: seguimo-las e pousamos o olhar onde elas pousam, absorvendo
o néctar das flores e esquecemos o
caminho que os pés sabem de cor. Parecem gostar de nós, como nós gostamos de certos
animais, pouco sociáveis e agressivos, de que preferimos manter as devidas
distâncias, não dando confiança excessiva que nos ponha a segurança em causa.
Menos
companhia nos fazem os melros-pretos, de bico alaranjado e aura amarela nos
olhos, que passam diante de nós, pousam num galho e, antes que os
possamos observar melhor, levantam voo e vão pousar um pouco mais longe, de
preferência na vegetação sombria de uma árvore, onde se sentem mais seguros e
logo desaparecem à nossa aproximação.
O mesmo se
passa com a pega-azul, ou charnecos, que passam em barulhenta, mas lenta debandada
sobre as nossas cabeças e raramente se detêm; não fazem companhia, mas tornam o
percurso mais colorido, mas cristalino, no meio da opacidade de um destino
ainda incerto.
Abelhas zumbindo,
incansáveis, sugando o néctar da flor do rosmaninho em flor, batem as asas onze
milhões de vezes por minuto, numa espécie de dança com código de localização,
podendo “visitar” duas mil flores por dia. Não são grandes companheiras: não
nos temem sequer, ignoram-nos simplesmente; têm mais que fazer.
Uma brisa
ligeira, de vez em quando, faz oscilar a ramagem escura das alfarrobeiras, das
oliveiras e das folhas verdejantes das figueiras e das amendoeiras, que
oferecem aos nossos olhos aveludados frutos ainda bem serôdios, verdes, longe
de acastanharem e de miolo ainda gelatinoso, que um dia, lá para o verão,
irá endurecer.
Os pardais,
irrequietos, esvoaçam em bandos, pousando brevemente nas moitas e logo levantam
em voo pressuroso, sempre vivaços e desordenados.
Sente-se a
alma nua quando a natureza da terra nos invade e nos receia; nada lhe temos a
dar, a não ser um êxtase passageiro que deixa um travo de angústia e de
traição. De angústia por não nos sentirmos suficientemente unos com ela; de
traição porque nos ilude por momentos. Mesmo que o vento e a chuva a fustiguem
é sempre a vaporosidade da natureza, num orgasmo de odores, ainda que em
farrapos de névoa, cobrindo campos e montes em tarde de neblina.
As cotovias esperam-nos
nos caminhos, deixam-nos aproximar, atentas e, por fim, desaparecem na flora
rasteira, como miragens no deserto. Em Romeu e Julieta é a cotovia, com o seu
canto, que anuncia o dia e com ele a separação dos amantes.
Os chapins
iludem-nos, confundimo-los, à primeira vista, com pardais e raramente permitem
que se desmanche o ludíbrio; quando nos pretendemos certificar da existência da
faixa preta que liga a garganta ao abdómen, já lá não está o ladino exemplar de
peito amarelo.
Só o
arrulhar das rolas nos persegue, insistente, quilómetros em redor, abafando os
outros acordes.
Cansados de
caminhar, ladeados duma primavera exuberante num infinito de pormenores, o
coaxar das rãs orienta-nos para um pequeno charco, onde voassejam libélulas, de
diáfanas asas azuis. As primeiras emudecem à nossa aproximação, deixando-nos
com o silêncio do chape chape e mergulham, como setas, ficando depois a
espreitar-nos, atentas e vigilantes, camufladas no lodo fofo e verde, enquanto
as libélulas parecem pavonear-se, no seu corpo fusiforme, de abdómen alongado, numa
dança exótica, mesmo à frente dos nossos olhares, como se nos desafiassem na
rapidez das suas incríveis manobras. Que juízo farão elas de nós, assim a
movimentarem-se com tanta proximidade, como helicópteros em histórias de
modernos gnomos, quase a fintar-nos, e só quando estamos a uma distância
perigosa é que mudam de pouso ou de rota, quando não volteando, descaradas,
leves e de coloridos olhos compostos.
Perdizes
saem em debandada do verde trigal, onde estarão a construir o ninho, levantam
voo, para o qual não têm grande capacidade.
De tempos a
tempos, nuvens altas, brancas como espuma na crista das ondas do mar longínquo
ou como cordeiros acabados de nascer no início da primavera, decoram,
inconstantes, o azul constante, fazem-nos erguer para elas um olhar hipnotizado
pela poesia, tudo transfigurando numa melancolia que chega a sangrar, quando o
pôr do sol insiste em espreitar o mundo.
Os insectos,
mais precisamente os mosquitos, esses são companheiros que dispensamos, bem
indesejáveis, não fossem as andorinhas suas eficazes devoradoras, mas eis que
uma nuvem mais escura que há mais de uma semana nos tem querido afugentar com
incumpridas ameaças, declara uma premente urgência em espremer o seu fofo
colchão de algodão já ensopado e quem fica ensopado somos nós, bem orquestrados
pelo ribombar distante dos trovões.
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