ALZHEIMER OU TALVEZ NÃO
O Alzheimer
mais não era que uma cobertura para o que não podia já aguentar e que também
não podia abandonar.
Que faria,
para onde iria, agora que tinha chegado a um ponto de amarfanhamento total.
Tinha deixado de lutar, de lhe fazer frente e nem lhe custava assim tanto
fingir que tinha Alzheimer: já não havia comidinha, nem roupa para lavar, nem
casa para arrumar. A imobilidade ao princípio custava-lhe muito, mas compensa
na casa de banho: faz ginástica, embora ele não queira que ela feche a porta,
ela fecha. Ele zanga-se: ela faz de conta que não percebe. O pior é que com a
desculpa de que tem que cuidar dela está cada vez mais em casa. Já não consegue
surripiar um livro para ler e começou a escrever mentalmente. Tem a cabeça cheia
de contos e romances. Por vezes, quando está só, escreve em papéis soltos que
esconde em livros pouco utilizados. Um dia, se os encontrarem, aos contos, irão
supor que os tinha escrito quando estava "boa"; dirão : coitada,
vejam como escrevia tão bem e agora ...
Pois, só que
nessa altura, quando estava "boa" não tinha tempo para escrever: era
o trabalho no escritório da seguradora e o trabalho da casa e da família. Mas
isso não seria nada se não fosse a maneira estúpida como era tratada: empregada
de limpeza, cozinheira, objecto sexual e, sobretudo, mau feitio.
Férias
estúpidas passadas em hotéis enquanto ele escrevia para os jornais. Se podia
dar um passeio sozinha? Não. É perigoso, podes ser assaltada; talvez quando eu
acabar este artigo. Como é que pensas que arranjo o dinheiro para pagar este
hotel? Que lhe importava a ela o hotel ?queria ter férias como outra qualquer
pessoa: percorrer as ruas sem pressa, visitar os monumentos , aspirar o aroma
floral dos vastos jardins, apreciar a elegância dos cisnes nos lagos, observar
o gentio. E isto era o que ela queria. O que ele queria era descansar entre
artigos e mais artigos, enquanto ela lia. Por vezes ia à piscina do hotel, mas
só quando ele também queria e podia ir. Férias de sonho para para uns,
melhor dizendo para um, férias infernais ou pelo menos de tédio infernal para
ela.
Agora
tinha férias intermináveis fazendo um papel infernal numa peça que ela não
escreveu mas onde tinha ido parar; não tendo resistido ao desempenho da
personagem, convertera-se noutra, permanecendo no mesmo palco.
É
a vida. Cada um dá-lhe a volta que pode.
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