quinta-feira, 9 de abril de 2020


ALZHEIMER OU TALVEZ NÃO



O Alzheimer mais não era que uma cobertura para o que não podia já aguentar e que também não podia abandonar.

Que faria, para onde iria, agora que tinha chegado a um ponto de amarfanhamento total. Tinha deixado de lutar, de lhe fazer frente e nem lhe custava assim tanto fingir que tinha Alzheimer: já não havia comidinha, nem roupa para lavar, nem casa para arrumar. A imobilidade ao princípio custava-lhe muito, mas compensa na casa de banho: faz ginástica, embora ele não queira que ela feche a porta, ela fecha. Ele zanga-se: ela faz de conta que não percebe. O pior é que com a desculpa de que tem que cuidar dela está cada vez mais em casa. Já não consegue surripiar um livro para ler e começou a escrever mentalmente. Tem a cabeça cheia de contos e romances. Por vezes, quando está só, escreve em papéis soltos que esconde em livros pouco utilizados. Um dia, se os encontrarem, aos contos, irão supor que os tinha escrito quando estava "boa"; dirão : coitada, vejam como escrevia tão bem e agora ...

Pois, só que nessa altura, quando estava "boa" não tinha tempo para escrever: era o trabalho no escritório da seguradora e o trabalho da casa e da família. Mas isso não seria nada se não fosse a maneira estúpida como era tratada: empregada de limpeza, cozinheira, objecto sexual e, sobretudo, mau feitio.

Férias estúpidas passadas em hotéis enquanto ele escrevia para os jornais. Se podia dar um passeio sozinha? Não. É perigoso, podes ser assaltada; talvez quando eu acabar este artigo. Como é que pensas que arranjo o dinheiro para pagar este hotel? Que lhe importava a ela o hotel ?queria ter férias como outra qualquer pessoa: percorrer as ruas sem pressa, visitar os monumentos , aspirar o aroma floral dos vastos jardins, apreciar a elegância dos cisnes nos lagos, observar o gentio. E isto era o que ela queria. O que ele queria era descansar entre artigos e mais artigos, enquanto ela lia. Por vezes ia à piscina do hotel, mas só quando ele também queria e podia ir. Férias de sonho para para uns,  melhor dizendo para um, férias infernais ou pelo menos de tédio infernal para ela.

 Agora tinha férias intermináveis fazendo um papel infernal numa peça que ela não escreveu mas onde tinha ido parar; não tendo resistido ao desempenho da personagem, convertera-se noutra, permanecendo no mesmo palco.

 É  a vida. Cada um dá-lhe a volta que pode.




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