sábado, 25 de abril de 2020


O JARDIM DO SENHOR ANSELMO

Desde que o senhor Anselmo adoeceu o jardim nunca mais foi o mesmo. A D. Custódia bem que quis tomar conta dessa tarefa, mas trabalho mesmo a sério era o que lhe dava agora o senhor Anselmo, retido na cama, com um AVC, tal como ele próprio, Anselmo Valente Correia, um A.V.C. toda a vida; ironizava. Ao princípio algumas plantas ficaram contentes com essa ausência; não se sentiam tão podados, eram mais livres, mas não tardaram a compreender que a sua liberdade esbarrava com a liberdade das outras plantas que as rodeavam e que dentro em pouco se sentiriam francamente asfixiadas. Foi o que aconteceu ao Marmeleiro, que se sentiria com frequência atrofiado pelo Maracujá, se não fosse o senhor Anselmo, que mantinha este último sempre debaixo de olho, cortando guia aqui, guia ali, já que é uma planta rebelde, desejosa de se expandir para todos os lados, sem a mínima consideração por quem ficava com a vida assim adiada; o que importava era expandir-se, expandir-se, cobrir-se de lindas flores lilases em forma de estrela, tão admiradas por pessoas e frequentadas por abelhas, zangões e borboletas, que por vezes se excediam.

Era um vaidoso, um presumido, um dono de tudo: em breve tomaria conta do jardim que, segundo a sua prosápia, ficaria esplendoroso. Quanto aos frutos, a sua vaidade estava primeiro: ou se expandia em guias e flores ou se restringia um pouco para que os frutos pudessem vingar e, claro, optou pelas flores.

 Um dia o senhor Anselmo morreu. E a D. Custódia, fosse para mitigar o desgosto cuidando das plantas de que o marido tanto gostava, fosse para preencher o vazio que ele lhe deixara depois de sessenta e dois anos de presença,  meteu mãos à jardinagem. Mas aquilo já não era um jardim, constatou: era um matagal. As tuas mãos deformadas. as suas forças e a sua lentidão levariam séculos a pôr o jardim como o marido costumava tê-lo e entretanto também ela seria engolida pela voracidade da natureza, se não o fosse antes pela voracidade do tempo ou quem sabe, pela conjugação de ambos. Perante a sua patente incapacidade física e temporal, um dia resolveu contratar um jardineiro para fazer a limpeza necessária e depois, quem sabe, talvez assim ela mesma o pudesse manter apresentável e bonito, como o marido fazia e de que também ela gostava de ver, optando, contudo, por dedicar-se às tarefas domésticas, deixando isso para ele, tarefas essas agora bastante mais reduzidas.

Uma fortuna, foi a conta que o jardineiro lhe apresentou, mas que fazer!? O Marmeleiro pôde finalmente respirar, apanhar sol e mostrar as suas discretas e belas flores rosa pálido, a que na realidade ninguém dá grande atenção, a não ser o senhor Anselmo, sempre vigilante da sua produção e que a D. Custódia transformava numa deliciosa e atraente marmelada, com que barravam o pão, com o chá das cinco, como ambos lhe chamavam e que era tomado às tardes, debaixo da enorme e perfumada tília, que o senhor Anselmo tinha plantado havia seis décadas. Quem não gostou nada do jardineiro foi o Maracujá que se viu reduzido ao tronco e a poucos mais ramos: uma vergonha, assim completamente nu, à mercê dos olhares trocistas das roseiras, apesar de também terem sido podadas, das glicínias, das hortenses, dos amores perfeitos e até do Marmeleiro, que finalmente se via aliviado e livre de vizinhança tão possessiva e opressiva. Até mesmo o alecrim, que levara um grande corte e estava agora semelhante a um muro verde, não se encontrava naquela vergonhosa nudez. A própria D. Custódia, quando o viu naquele estado, quase chorou: Malvado jardineiro que me deixou na penúria e pelos vistos também te deixou a ti!  

Isto fê-la recordar um dia. ainda jovem, quando tinha uns longos caracóis, foi a uma cabeleireira e disse-lhe que lhe cortasse o cabelo pelos ombros, todavia, quando se levantou da cadeira, tinha o cabelo cortado pouco menos que à rapaz.  Quase em lágrimas, balbuciou: mas era só pelos ombros … E então, a cabeleireira agarrou-lhe num caracol de cabelo e esticou-o até chegar-lhe aos ombros. Cortei como pediu, retrucou, arrogante.

Vendo o Maracujá sem a sua habitual cabeleira, concluiu, tristemente, que é perigoso confiarmos totalmente em quem usa uma tesoura.

Sem comentários:

Enviar um comentário