O JARDIM DO
SENHOR ANSELMO
Desde que o
senhor Anselmo adoeceu o jardim nunca mais foi o mesmo. A D. Custódia bem que
quis tomar conta dessa tarefa, mas trabalho mesmo a sério era o que lhe dava
agora o senhor Anselmo, retido na cama, com um AVC, tal como ele próprio,
Anselmo Valente Correia, um A.V.C. toda a vida; ironizava. Ao princípio algumas
plantas ficaram contentes com essa ausência; não se sentiam tão podados, eram
mais livres, mas não tardaram a compreender que a sua liberdade esbarrava com a
liberdade das outras plantas que as rodeavam e que dentro em pouco se sentiriam
francamente asfixiadas. Foi o que aconteceu ao Marmeleiro, que se sentiria com
frequência atrofiado pelo Maracujá, se não fosse o senhor Anselmo, que mantinha
este último sempre debaixo de olho, cortando guia aqui, guia ali, já que é uma
planta rebelde, desejosa de se expandir para todos os lados, sem a mínima
consideração por quem ficava com a vida assim adiada; o que importava era
expandir-se, expandir-se, cobrir-se de lindas flores lilases em forma de
estrela, tão admiradas por pessoas e frequentadas por abelhas, zangões e
borboletas, que por vezes se excediam.
Era um
vaidoso, um presumido, um dono de tudo: em breve tomaria conta do jardim que,
segundo a sua prosápia, ficaria esplendoroso. Quanto aos frutos, a sua vaidade
estava primeiro: ou se expandia em guias e flores ou se restringia um pouco
para que os frutos pudessem vingar e, claro, optou pelas flores.
Um dia
o senhor Anselmo morreu. E a D. Custódia, fosse para mitigar o desgosto cuidando
das plantas de que o marido tanto gostava, fosse para preencher o vazio que ele
lhe deixara depois de sessenta e dois anos de presença, meteu mãos à
jardinagem. Mas aquilo já não era um jardim, constatou: era um matagal. As tuas
mãos deformadas. as suas forças e a sua lentidão levariam séculos a pôr o
jardim como o marido costumava tê-lo e entretanto também ela seria engolida
pela voracidade da natureza, se não o fosse antes pela voracidade do tempo ou
quem sabe, pela conjugação de ambos. Perante a sua patente incapacidade física
e temporal, um dia resolveu contratar um jardineiro para fazer a limpeza
necessária e depois, quem sabe, talvez assim ela mesma o pudesse manter
apresentável e bonito, como o marido fazia e de que também ela gostava de ver,
optando, contudo, por dedicar-se às tarefas domésticas, deixando isso para ele,
tarefas essas agora bastante mais reduzidas.
Uma fortuna,
foi a conta que o jardineiro lhe apresentou, mas que fazer!? O Marmeleiro pôde
finalmente respirar, apanhar sol e mostrar as suas discretas e belas flores
rosa pálido, a que na realidade ninguém dá grande atenção, a não ser o senhor
Anselmo, sempre vigilante da sua produção e que a D. Custódia transformava numa
deliciosa e atraente marmelada, com que barravam o pão, com o chá das cinco,
como ambos lhe chamavam e que era tomado às tardes, debaixo da enorme e
perfumada tília, que o senhor Anselmo tinha plantado havia seis décadas. Quem
não gostou nada do jardineiro foi o Maracujá que se viu reduzido ao tronco e a
poucos mais ramos: uma vergonha, assim completamente nu, à mercê dos olhares
trocistas das roseiras, apesar de também terem sido podadas, das glicínias, das
hortenses, dos amores perfeitos e até do Marmeleiro, que finalmente se via
aliviado e livre de vizinhança tão possessiva e opressiva. Até mesmo o alecrim,
que levara um grande corte e estava agora semelhante a um muro verde, não se
encontrava naquela vergonhosa nudez. A própria D. Custódia, quando o viu
naquele estado, quase chorou: Malvado jardineiro que me deixou na penúria e
pelos vistos também te deixou a ti!
Isto fê-la
recordar um dia. ainda jovem, quando tinha uns longos caracóis, foi a uma
cabeleireira e disse-lhe que lhe cortasse o cabelo pelos ombros, todavia, quando
se levantou da cadeira, tinha o cabelo cortado pouco menos que à rapaz.
Quase em lágrimas, balbuciou: mas era só pelos ombros … E então, a cabeleireira
agarrou-lhe num caracol de cabelo e esticou-o até chegar-lhe aos ombros. Cortei
como pediu, retrucou, arrogante.
Vendo o
Maracujá sem a sua habitual cabeleira, concluiu, tristemente, que é perigoso
confiarmos totalmente em quem usa uma tesoura.
Sem comentários:
Enviar um comentário