quarta-feira, 15 de abril de 2020

O DESCANSO DO ASTRO
Naquele fim de tarde dourada, o sol disse: é urgente que me reforme ou pelo menos que tenha umas boas férias, depois de milhões e milhões de anos sempre a brilhar e a aquecer. Vou informar o Universo para que o mundo não fique na escuridão.
O cansaço era tão intenso que puxou para si a nuvem mais fofinha e espessa que encontrou, embrulhou-se nela e caiu num sono profundo.
Às diversas horas em que todos o esperavam, pela primeira vez na sua ancestral carreira profissional, não compareceu. Todos os seres ficaram assustados e apreensivos, numa profunda escuridão, e nem sequer a lua apareceu, para minorar aquela negritude. É que também ela não podia dar o que não recebia: a refletir a luz do sol e projectá-la na terra.
E passou-se o que noutra altura se chamaria um dia e uma noite e os seres não aguentavam mais e todos, como que previamente combinados, gritaram, em uníssono: Sol, Sol! Queremos sol!
Eram os pássaros, os mamíferos e até as plantas se juntavam no clamor.
Como era de esperar, toda a passarada do mundo a emitir os seus sons mais diversos, alguns já de si bastante irritantes como os pavões e o grasnar dos patos e gansos, a que se juntavam todos os outros mamíferos, sobressaindo os burros a zurrar, os porcos a grunhir, o bramido dos elefantes e imagine-se, o alarido medonho dos macacos.
Ao que parece, só o bicho homem ficava nas suas tocas, com a eletricidade ligada e alguns conseguiram mesmo continuar as suas atividades, ignorando a ausência do sol, em cuja existência nem sequer tinham atentado, alheados que viviam de tudo o que não fosse eles mesmos.
As televisões não paravam de transmitir: leigos e cientistas alvitravam disparates e mais disparates, para dissimular o pavor de que todos estavam impregnados.
Porém, apesar de o homem nada saber e por isso nada fazer para que o sol voltasse, os animais não se aquietavam: todos, lobos e coelhos, raposas e galinhas, cães e gatos a apelavam ao retorno do Sol, comportamento este muito assustador para o homem que tinha que conviver junto ou de perto destes ou de outros animais. Aquele clamor incessante destabilizava-o, paralisava-o, incapaz de encarar a escuridão total e, quem sabe, permanente e o seu próprio fim, no qual não queria pensar. Colocavam as televisões e os rádios no volume máximo para não escutarem uivos e miados, que faziam chorar as pedras, a única coisa que estas podiam fazer para se juntarem aos outros seres, na sua imensa aflição.
Os seres que viviam no subterrâneo, a quem o sol parece não fazer grande falta, também eles não ficaram indiferentes ao clamor dos restantes. Enquanto isso, o sol, no seu sono pesado e profundo, estendeu uma perna e, nesse momento, fendeu um nadinha a espessa e quase impenetrável nuvem em que se tinha envolvido. E, por entre esse rasgo, pareceu-lhe escutar um conjunto de sons que conhecia individualmente, um a um, tantas as vezes que os tinha ouvido ao longo de milhões e milhões de anos, mas daquela maneira nunca tinha acontecido. Embora intrigado, quis voltar a adormecer; precisava continuar a descansar até se ver liberto de tanto cansaço, mas aquele clamor inaudito, persistente, em ondas desesperadas, fizeram-no despertar totalmente. Quem é que podia continuar a descansar no meio daquele descalabro de sons?
Espreguiçou-se um pouco e, mais desperto, refletiu. Tinha caído um sono profundo sem ter tido tempo de enviar uma mensagem para que uma outra estrela mais próxima o viesses substituir e tinha deixado a terra abandonada à sua escuridão. Era imperdoável. Alguém devia ter colmatado o sucedido. Pobres seres desamparados. Agora teria que ter muita cautela. Ir-se-ia desembaraçando, aos poucos, da espessa nuvem, para não causar danos de maior aos indefesos seres que no planeta clamavam por si de maneira tão persistente e avassaladora.
Pouco a pouco, um dos lados da terra foi sendo invadida por uma claridade difusa e, o imenso impressionante clamor, de súbito, emudeceu, numa expectativa geral, enquanto maior claridade ia chegando, tudo iluminando e tornando visível. Do outro lado do planeta, a lua ia igualmente recebendo luz e devolvendo-a à terra, dentro das suas limitações e dependência solar.
Quando o sol se mostrou em todo o seu esplendor, um clamor de júbilo ecoou por todo o universo, até gradualmente se reduzir à música habitual e bem conhecida do astro-rei, que sorriu, feliz por cumprir uma missão divina de que dependem todos seres.

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