COISAS DO ZIIRTEU
Oh, Akinu, estava mesmo a precisar de falar com alguém! Tenho
estado a observar aquela bolinha minúscula …
_Qual,
aquela toda às riscas?
_ Não, pá, a
terra dos homens!
_ O que é
que tem?
_ Tenho
descurado um bocado aquela organização; não é que nos últimos tempos se meteu
na cabeça das nee-mulheres que querem um planeta limpo! Aquela mutação é capaz
de pensar em mil e uma coisas e mal as conseguem, já aí têm outras mil ….
Aquilo tem sido reciclagem disto, daquilo, enfim de quase tudo. Até as ricaças
começam a ter vergonha de comprar tanto trapo, porque há as que dizem que muita
roupa e muito sapato faz muita poluição por causa das fábricas e dos corantes e
depois vão dar as roupas a lojas de caridade. Mas vá lá que depois não se
contentam em ter tanto dinheiro sem o gastar e compram lojas inteiras; senão
empanturram-se de comida e bebida que depois vomitam ou tomam comprimidos que
as põem a dormir quando não conseguem pensar por si mesmas; mas até aqui tudo
bem, que os comprimidos dão muito dinheiro aos nossos Ni Aliados, aliados que o
são e nem sabem, como por exemplo alguns laboratórios farmacêuticos.
_ Mas isso
não parece grave afinal …
_ Isso era o
que eu pensava, por isso não dava muita atenção; que eles, com os medos, as raivas,
os ódios e em especial com a ganância, estavam bem entretidos, que eu tenho
mais que fazer, mas agora esta de quererem um planeta limpo, tudo eléctrico,
sem motores a gastar derivados de petróleo … Já viste como é que os países
produtores de petróleo vão sustentar as guerras?
_ E o que
pensas fazer?
_Eu bem tenho
impedido que construam carros a água e mesmo a água salgada; durante algum
tempo evitei que construíssem os transportes elétricos, mas o estúpido do Ziirteu deu-lhes um empurrãozinho e agora já
não há como voltar atrás.
Hás-de arranjar maneira ...
_ Já
arranjei, por isso te queria contar.
_Ah, sim?
Conta lá.
_ Arranjei-lhes
um vírus, uma entretenha: nada que se pareça com a peste negra que lhes lancei
há tempos nem com a pneumónica, há menos. O Ziirteu, com aquelas manias da limpeza,
bem tentou tramar-me, mas, conhecendo-os
como os conheço, o efeito deste vírus é o mesmo que lançar uma bomba de
carnaval no meio de uma multidão: como não o vêem, imaginam que os outros podem
ir carregados deles e cada um foge para seu lado, atropelam-se, matam-se ,,,
enfim, geram um pânico coletivo: uns vão morrer atacados com o vírus, não
muitos, mas a maioria vai morrer de medo, que é uma sensação muito humana, que
lhes serve para quase tudo, mesmo para as coisas que lhes parecem boas: está lá
sempre.
Oi, espera
um pouco: estás a despertar-me a curiosidade. Há muito tempo que não me
distraio com a atividade desse planeta.
_Já estás a ver?
Olha, é giro! O que é que lhes puseste na cara?
Ah, mas não em todos! Criaste uma raça nova?!
_ Não, tenho
mais que fazer; são máscaras: meteu-se-lhes na cabeça, talvez tenha sido o Ziirteu,
que assim estão protegidos do vírus, mas não as há para todos. A indústria não
estava preparada; normalmente só as usam na manipulação de materiais perigosos,
nos laboratórios, nas salas de operações, enfim, em situações precisas, não na
generalidade da humanidade. Se achar piada, talvez, como tu dizes, desenvolva
uma nova raça com máscara.
Sabes, estou é a estranhar os pássaros de
ferro estarem quase todos pousados. Avariaste os pássaros?
_ Pássaros?
Ah, os aviões! Eu ia-me lá lembrar disso. E nem convinha pregar essa partida aos
Ni Aliados. Acontece, porém, que se lhes meteu na cabeça que os aviões são
transportadores do vírus e não os deixam levantar voo. Deve ter sido coisa do Ziirteu.
Não sei como não andam ainda todos com um microscópio ao pescoço!
Olha,
estive a contar os humanos que andam na rua e parecem-me muito menos.
Mataste-os?
_ Qual quê! Estão
fechados em casa, com cagufa … O que ele não pensou, o Ziirteu, é que fechar em
casa pessoas que mal se podem ver às refeições, estarem agora vinte e quatro
horas por dia, em permanente confronto, nem todas as páginas do Correio da
Manhã seriam suficientes para descrever as tragédias, maiores que as causadas
por todos os vírus. Muitas abasteceram-se de comprimidos para dormir; vão
hibernar durante catorze dias. O pior depois, para eles, está claro, é a
ressaca. Tenho de instruir os laboratórios aliados para irem fabricando um contra
sono, que no final os faça ir para o trabalho, como zombis. Muitos nunca mais
irão. E olha que não vai ser por causa do vírus!
Eh, pá. Só mesmo tu, para tornares este jogo
mais desafiante, te lembrares de acossar os humanos com um bicho que não
conseguem ver!
_Ora, pois
se vissem, procediam como têm feito com os que vêem, como baratas, formigas,
ratos, mosquitos e lá se livram deles por uns tempos, não muito, que eu gosto
de vê-los assustados, permanentemente. Ah, se não fosse isso … já não teria mão
neles! Eram até capazes de subverter o jogo!
É verdade! Ainda me lembro de vê-los
esconderem-se dos animais ferozes, assustados, sim, mas ao mesmo tempo
satisfeitos por arranjarem estratégias para se protegerem dos que não
conseguissem matar, e depois mandaste-lhes uns mosquitos, mínimos, e era só vê-los
a dar palmadas em si mesmos, por todo o lado, desesperados. Foi mesmo uma
daquelas ideias que deu para me distrair um bom bocado!
_Ah, ora
bem, podes vê-los agora, sem saberem que fazer a não ser comparar números:
casos, mortos e afins! Gostam muito de estatísticas! Quando o jogo começar a
ficar chato, é só dizeres, que dou um jeito.
Ok. Obrigado, amigo. Já tenho com que me entreter, agora que estava a ficar um bocado enfastiado da quarentena!
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