quarta-feira, 15 de abril de 2020


COISAS DO ZIIRTEU



Oh, Akinu,  estava mesmo a precisar de falar com alguém! Tenho estado a observar aquela bolinha minúscula …

_Qual, aquela toda às riscas?

_ Não, pá, a terra dos homens!

_ O que é que tem?

_ Tenho descurado um bocado aquela organização; não é que nos últimos tempos se meteu na cabeça das nee-mulheres que querem um planeta limpo! Aquela mutação é capaz de pensar em mil e uma coisas e mal as conseguem, já aí têm outras mil …. Aquilo tem sido reciclagem disto, daquilo, enfim de quase tudo. Até as ricaças começam a ter vergonha de comprar tanto trapo, porque há as que dizem que muita roupa e muito sapato faz muita poluição por causa das fábricas e dos corantes e depois vão dar as roupas a lojas de caridade. Mas vá lá que depois não se contentam em ter tanto dinheiro sem o gastar e compram lojas inteiras; senão empanturram-se de comida e bebida que depois vomitam ou tomam comprimidos que as põem a dormir quando não conseguem pensar por si mesmas; mas até aqui tudo bem, que os comprimidos dão muito dinheiro aos nossos Ni Aliados, aliados que o são e nem sabem, como por exemplo alguns laboratórios farmacêuticos.

_ Mas isso não parece grave afinal …

_ Isso era o que eu pensava, por isso não dava muita atenção; que eles, com os medos, as raivas, os ódios e em especial com a ganância, estavam bem entretidos, que eu tenho mais que fazer, mas agora esta de quererem um planeta limpo, tudo eléctrico, sem motores a gastar derivados de petróleo … Já viste como é que os países produtores de petróleo vão sustentar as guerras?

_ E o que pensas fazer?

_Eu bem tenho impedido que construam carros a água e mesmo a água salgada; durante algum tempo evitei que construíssem os transportes elétricos, mas o estúpido do  Ziirteu deu-lhes um empurrãozinho e agora já não há como voltar atrás.

   Hás-de arranjar maneira ...

_ Já arranjei, por isso te queria contar.

_Ah, sim? Conta lá.

_ Arranjei-lhes um vírus, uma entretenha: nada que se pareça com a peste negra que lhes lancei há tempos nem com a pneumónica, há menos. O Ziirteu, com aquelas manias da limpeza, bem tentou tramar-me,  mas, conhecendo-os como os conheço, o efeito deste vírus é o mesmo que lançar uma bomba de carnaval no meio de uma multidão: como não o vêem, imaginam que os outros podem ir carregados deles e cada um foge para seu lado, atropelam-se, matam-se ,,, enfim, geram um pânico coletivo: uns vão morrer atacados com o vírus, não muitos, mas a maioria vai morrer de medo, que é uma sensação muito humana, que lhes serve para quase tudo, mesmo para as coisas que lhes parecem boas: está lá sempre.

    Oi, espera um pouco: estás a despertar-me a curiosidade. Há muito tempo que não me distraio com a atividade desse planeta.

_Já estás a ver?

 Olha, é giro! O que é que lhes puseste na cara? Ah, mas não em todos! Criaste uma raça nova?!

_ Não, tenho mais que fazer; são máscaras: meteu-se-lhes na cabeça, talvez tenha sido o Ziirteu, que assim estão protegidos do vírus, mas não as há para todos. A indústria não estava preparada; normalmente só as usam na manipulação de materiais perigosos, nos laboratórios, nas salas de operações, enfim, em situações precisas, não na generalidade da humanidade. Se achar piada, talvez, como tu dizes, desenvolva uma nova raça com máscara.

   Sabes, estou é a estranhar os pássaros de ferro estarem quase todos pousados. Avariaste os pássaros?

_ Pássaros? Ah, os aviões! Eu ia-me lá lembrar disso. E nem convinha pregar essa partida aos Ni Aliados. Acontece, porém, que se lhes meteu na cabeça que os aviões são transportadores do vírus e não os deixam levantar voo. Deve ter sido coisa do Ziirteu. Não sei como não andam ainda todos com um microscópio ao pescoço!

   Olha, estive a contar os humanos que andam na rua e parecem-me muito menos. Mataste-os?

_ Qual quê! Estão fechados em casa, com cagufa … O que ele não pensou, o Ziirteu, é que fechar em casa pessoas que mal se podem ver às refeições, estarem agora vinte e quatro horas por dia, em permanente confronto, nem todas as páginas do Correio da Manhã seriam suficientes para descrever as tragédias, maiores que as causadas por todos os vírus. Muitas abasteceram-se de comprimidos para dormir; vão hibernar durante catorze dias. O pior depois, para eles, está claro, é a ressaca. Tenho de instruir os laboratórios aliados para irem fabricando um contra sono, que no final os faça ir para o trabalho, como zombis. Muitos nunca mais irão. E olha que não vai ser por causa do vírus!

  Eh, pá. Só mesmo tu, para tornares este jogo mais desafiante, te lembrares de acossar os humanos com um bicho que não conseguem ver!

_Ora, pois se vissem, procediam como têm feito com os que vêem, como baratas, formigas, ratos, mosquitos e lá se livram deles por uns tempos, não muito, que eu gosto de vê-los assustados, permanentemente. Ah, se não fosse isso … já não teria mão neles! Eram até capazes de subverter o jogo!

  É verdade! Ainda me lembro de vê-los esconderem-se dos animais ferozes, assustados, sim, mas ao mesmo tempo satisfeitos por arranjarem estratégias para se protegerem dos que não conseguissem matar, e depois mandaste-lhes uns mosquitos, mínimos, e era só vê-los a dar palmadas em si mesmos, por todo o lado, desesperados. Foi mesmo uma daquelas ideias que deu para me distrair um bom bocado!

_Ah, ora bem, podes vê-los agora, sem saberem que fazer a não ser comparar números: casos, mortos e afins! Gostam muito de estatísticas! Quando o jogo começar a ficar chato, é só dizeres, que dou um jeito.

   Ok. Obrigado, amigo. Já tenho com que me entreter, agora que estava a ficar um bocado enfastiado da quarentena!



 

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