terça-feira, 14 de janeiro de 2020


QUANDO O TELEFONE TOCA A MEIO DA NOITE

O telefone tocou a meio da noite. Acordou em sobressalto, como sempre lhe acontecia quando o filho, então estudante na Universidade, telefonava a desoras, e depois não conseguia voltar a dormir, o que lhe estragava o dia de trabalho que se lhe seguia.
Mas agora? o filho já não faz essas coisas, sabe como ela fica indisposta, doente mesmo, por ser acordada assim, quando estará, provavelmente, ainda nas fases três ou quatro do sono profundo, em que o cérebro trabalha quase que exclusivamente com as ondas delta lentas, altura difícil para acordar alguém. Ambos os estágios de sono profundo são importantes para que alguém  se sinta revigorado pela manhã. Se essas etapas são muito curtas, o sono não vai ser satisfatório. Normalmente estas ondas  estão relacionadas com o começo dos sonhos, ou seja, o descanso do cérebro das actividades do dia a dia.  
Acordada assim, abruptamente, o coração parecia saltar-lhe do peito, a cabeça rodopiava e foi com dificuldade que chegou ao telefone.
_Maria do Carmo, preciso contar-te o que me acaba de acontecer!
_Desculpe, mas não está a falar com a Maria do Carmo.
_Ah, mulher, mas eu precisava tanto de ...
E desligou, sem terminar a frase, numa voz atormentada.
Claro que essa noite foi pior do que as que tinha tido, interrompidas pelo filho. A idade era outra, estava velha, como o seria também a dona daquela voz perturbada, que precisa tanto falar com a Maria do Carmo, sabe-se lá quem e de onde. Talvez uma amiga da mesma idade, que isto de Marias ou são velhas ou muito jovens, modernices de mães entediadas,  possuidoras de pomposos nomes: Vanessa Cristina, Telma Isabel, Sandra Sofia e afins, que quiseram ver o nome dos rebentos Simplesmente Maria, nome de folhetim radiofónico de grande sucesso nos anos 70, mais precisamente 1973, em que era ver, ao início da tarde, as mulheres agarradas aos transístores a pilhas, que essas jovens mães não ouviram por, na altura, serem ainda projectos de gente. 
Que poderia ter acontecido à dona daquela voz transtornada, cujo eco a perseguia pela noite fora. Teria sido assaltada, violada, traída, teria caído, tido uma indisposição, um ataque de pânico ... sabe-se lá o que pode acontecer a um ser humano, quiçá só e envelhecido, a avaliar pela voz que, como outras coisas, também engana.
Lamentou, embora não goste de o fazer, não ter já o telefone portátil, com mostrador, que deixava marcados os números das chamadas efectuadas e recebidas.Avariou e não viu necessidade de o substituir pela raridade de uso e porque podia sempre ouvir, nas mensagens, as chamadas não atendidas, o que também deixou de fazer por vias da primazia dada ao telemóvel, pela maioria dos seus contactos.
A noite de sono regenerador estava perdida. 
Quando tem insónias recorre-se sempre da leitura, que por mais que não seja por cansaço, acaba por  adormecer, mas o desconforto em que tinha ficado não lhe permitia concentrar-se.Experimentou ouvir música clássica; por vezes resulta, mas desta vez não. Sentia-se demasiado incomodada: o coração ainda não tinha reencontrado o passo certo e o cérebro fervilhava ainda.
Bocejava de sono, quiçá de fome também; um estômago acordado fora de horas. Experimentou ingerir um quadrado de chocolate, que logo a deixou agoniada; fome não era.
Imaginou mil possíveis situações para a dona de voz transtornada; que lhe diria a Maria do Carmo, caso tenha conseguido finalmente aceder ao número. Quantas Não-Maria do Carmo teria acordado, e sobressaltadas, teriam voltado a adormecer calmamente: foi engano; teriam ignorado o retinir: não são horas de telefonar a ninguém, liguem amanhã! E voltaram a adormecer. E a Maria do Carmo, depois de saber o que acontecera à amiga, teria voltado a adormecer, teriam ambas, exaustas, adormecido, quem sabe, ao telefone.
Ela é que não dormia; não que isso de dormir fosse uma obsessão: apenas não se achava em condições de coisa nenhuma; era um mal-estar incómodo, como se houvesse mal-estares que não fossem incómodos. E daí, quem sabe; há gostos para tudo.
Ligou o rádio, já não a pilhas. Em última instância, por vezes resultava. Já de madrugada, caiu numa espécie de torpor, entrecortado por semi-sonhos, se é que isso existe, em que, por coincidência, se é que nos sonhos elas existem, se chamava também Maria do Carmo e não sendo a pretendida pela dona da aflitiva voz, tinha pelo menos ouvido o facto que … e caiu num inesperado sono sem ter tomado conhecimento do facto, com se tivesse havido um repentino e inoportuno corte no filme, no exacto momento do climax.  Ou seria o facto tão monstruoso que o seu subconsciente teria decidido não lho revelar. 
Despertou parcialmente, já que só parcialmente dormitava, naquela imensa madrugada, quando lhe pareceu ouvir o locutor anunciar: "Uma voz na madrugada", uma canção na incerteza do cochilar, em que lhe chegavam umas ou outras palavras, umas ou outras frases:
E sem querer acordar ...
Ouço a voz que a noite gritou
E isso é estranho pois não consigo ouvir
......
.....
......
Fecho os olhos, eu não estou tão bem
...
Fecho os olhos e tudo fica bem
.....
.....
.....
Foi um passo errado

Um passo errado um passo errado um passo errado .... palavras que lhe martelavam o cérebro cansado quando despertou na manhã, já alta e, aos poucos, se libertou daquela modorrice.  Tinha a boca amarga e a cabeça pesada.
Nos próximos dias, iria estar atenta à fisionomia das "suas" Maria do Carmo se, por acaso, que os há, encontrasse alguma delas, que várias conhece. Não faria perguntas, estaria apenas atenta; não iria dar um passo errado. Talvez nem houvesse nada de errado no tal facto. Foi só uma noite diferente; um pouco mal passada.

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