CRÓNICA - A CIGANA
Estava a
comer uma banana, em frente ao Mosteiro dos Jerónimos, já que não sou fã de
pastéis, a não ser que sejam de bacalhau, quando uma cigana se aproximou. Era
uma banana grande e, por isso, parti-a em duas e tinha ficado com ambas as mãos
ocupadas, quando a cigana me pediu que lhe mostrasse a palma das mãos. Como
resposta, ergui as mãos ocupadas e, sendo a única banana, ofereci-lhe uma maçã,
mas a dita cigana respondeu; não gosto de maçãs! Não gosta?! Exclamei, com
admiração, por nunca me ter passado pela cabeça que alguém não gostasse de
maçãs; poderia não apreciar, mas não gostar …enfim, nem tudo nos ocorre.
Fazem-me mal ao estômago, respondeu. Não valia a pena estar para ali a defender
os benefícios da maçã, que banana só tinha aquela e era minha. A cigana, com a
vítima entre mãos: têm muita inveja da senhora, disse. É natural, retorqui;
todos temos inveja uns dos outros, que havemos de fazer? Passe bem.
Àquela
palavra, inveja, quase toda a gente se rende: querer saber exactamente,
especificamente, e se possível, o nome da pessoa que tem assim tanta inveja,
capaz de causar dano.
A cigana,
que pensara ter a presa bem segura, ficou desarmada por momentos, emudeceu e
permaneceu onde estava, quem sabe se meditando naquelas palavras.
Se
todos admitíssemos que esse sentimento mesquinho se aloja, insidioso,
dentro de nós, sempre pronto a atacar-nos quando menos o esperamos, quando nos
pensamos imunes e fora do alcance do malvado, talvez fosse mais fácil
munirmo-nos de ferramentas apropriadas para o enfrentar, mas se só os outros é
que são capazes de cultivar tal sentimento, ninguém vê motivo para guerreá-lo.
Isso só até vermos o novíssimo e híbrido carro do nosso vizinho, as fotografias
da prima da Celeste que navega no batel num fiorde da Noruega, a desenvoltura
com que a Cidália apresenta argumentos espetaculares a respeito de tudo, as
fascinantes unhas da Clotilde, o farto e brilhante cabelo da Gertrudes e
ficaria aqui até ao fim do século se para tanto fosse preciso viver, que não
daria o rol por terminado, mesmo que adquirisse um carro muito melhor do que o
do vizinho, que fizesse cruzeiros em todos os fiordes do mundo, que tirasse
cursos de retórica para combater todos e quaisquer argumentos, que tivesse mil
perucas, que logo me faria inveja tanto a paz de espírito da Custódia que se
sente feliz quase sem sair de casa, como intrépida actividade da Juliana, cujo
paradeiro é quase impossível de seguir.
Nada tenho
contra a cigana. Cada um tem o modo de vida que pode e todos precisamos sobreviver,
mas pelo sim pelo não, se não a conseguimos descolar de nós com palavras,
é preferível consolá-la da recusa com uma moeda, do que ceder por compaixão ou
curiosidade, não vá ela "acertar" nalgumas coisitas e até, por
coincidência, acaso ou premonição, nomear o nome da Gertrudes ou da Celeste e
deitar uma semente de veneno que, queiramos ou não, mais tarde ou mais cedo a
Celeste ou a Gertrudes vão dar motivos para acreditar nas palavras da cigana.
Pelo sim
pelo não, se a cigana não gosta de maçãs, se não tem mais banana nenhuma, se
não tem à mão uma frase que a desarme, é preferível "sacrificar" uma
moeda: com ela compra-se a paz futura e nunca iremos duvidar da amizade sem
inveja da Celeste e da Gertrudes.
Lisboa, 25
de Dezembro de 2019.
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