sábado, 11 de janeiro de 2020


CRÓNICA - A CIGANA

Estava a comer uma banana, em frente ao Mosteiro dos Jerónimos, já que não sou fã de pastéis, a não ser que sejam de bacalhau, quando uma cigana se aproximou. Era uma banana grande e, por isso, parti-a em duas e tinha ficado com ambas as mãos ocupadas, quando a cigana me pediu que lhe mostrasse a palma das mãos. Como resposta, ergui as mãos ocupadas e, sendo a única banana, ofereci-lhe uma maçã, mas a dita cigana respondeu; não gosto de maçãs! Não gosta?! Exclamei, com admiração, por nunca me ter passado pela cabeça que alguém não gostasse de maçãs; poderia não apreciar, mas não gostar …enfim, nem tudo nos ocorre.  Fazem-me mal ao estômago, respondeu. Não valia a pena estar para ali a defender os benefícios da maçã, que banana só tinha aquela e era minha. A cigana, com a vítima entre mãos: têm muita inveja da senhora, disse. É natural, retorqui; todos temos inveja uns dos outros, que havemos de fazer? Passe bem. 

Àquela palavra, inveja, quase toda a gente se rende: querer saber exactamente, especificamente, e se possível, o nome da pessoa que tem assim tanta inveja, capaz de causar dano.

A cigana, que pensara ter a presa bem segura, ficou desarmada por momentos, emudeceu e permaneceu onde estava,  quem sabe se meditando naquelas palavras.

Se todos  admitíssemos que esse sentimento mesquinho se aloja, insidioso, dentro de nós, sempre pronto a atacar-nos quando menos o esperamos, quando nos pensamos imunes e fora do alcance do malvado, talvez fosse mais fácil munirmo-nos de ferramentas apropriadas para o enfrentar, mas se só os outros é que são capazes de cultivar tal sentimento, ninguém vê motivo para guerreá-lo. Isso só até vermos o novíssimo e híbrido carro do nosso vizinho, as fotografias da prima da Celeste que navega no batel num fiorde da Noruega, a desenvoltura com que a Cidália apresenta argumentos espetaculares a respeito de tudo, as fascinantes unhas da Clotilde, o farto e brilhante cabelo da Gertrudes e ficaria aqui até ao fim do século se para tanto fosse preciso viver, que não daria o rol por terminado, mesmo que adquirisse um carro muito melhor do que o do vizinho, que fizesse cruzeiros em todos os fiordes do mundo, que tirasse cursos de retórica para combater todos e quaisquer argumentos, que tivesse mil perucas, que logo me faria inveja tanto a paz de espírito da Custódia que se sente feliz quase sem sair de casa, como intrépida actividade da Juliana, cujo paradeiro é quase impossível de seguir.

Nada tenho contra a cigana. Cada um tem o modo de vida que pode e todos precisamos sobreviver, mas pelo sim pelo não, se não a conseguimos descolar de nós com palavras,  é preferível consolá-la da recusa com uma moeda, do que ceder por compaixão ou curiosidade, não vá ela "acertar" nalgumas coisitas e até, por coincidência, acaso ou premonição, nomear o nome da Gertrudes ou da Celeste e deitar uma semente de veneno que, queiramos ou não, mais tarde ou mais cedo a Celeste ou a Gertrudes vão dar motivos para acreditar nas palavras da cigana.

Pelo sim pelo não, se a cigana não gosta de maçãs, se não tem mais banana nenhuma, se não tem à mão uma frase que a desarme, é preferível "sacrificar" uma moeda: com ela compra-se a paz futura e nunca iremos duvidar da amizade sem inveja da Celeste e da Gertrudes.



Lisboa, 25 de Dezembro de 2019.


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