ANSIEDADES
DUMA VELHA – II
Judite amava
os longos passeios solitários, mas na sua agitada vida social tinham sido
relegados para um dia, ou para um nunca e, ao ser enviada por decreto para a
clausura, que julgava tornar-se insuportável, que viu que afinal se encontrava
no centro de um maravilhoso vazio, onde as horas passavam muito depressa e a
noite chegava, como por milagre.
Uma das
janelas da casa tinha um largo parapeito exterior, onde uma criatura de
brilhante pêlo cor cinza-prateado e formosos olhos cor de mel, sombreados por
um olhar oriental, aveludado e aristocrático, um gato, vinha apanhar sol todas
as manhãs. Quanto tempo haveria que aquele animal escolhera o parapeito da sua
janela para apanhar a sua dose de vitamina D?! Raramente a abria; “dantes” não
tinha tempo para isso e nos primeiros dias de introspecção enroscara-se sobre
si mesma, como o gato, e redescobrindo na sua vida interior uma capacidade de
contemplação do azul do céu noturno, sem lirismo e sem música; apenas o indiscritível.
Outro dia, encantou-se,
como nunca o tinha feito, com a sua colecção de pedras semipreciosas e observou-as,
com atenção, nas suas mãos mais habituadas a manipular cosméticos, vernizes e
adereços.
Escutou o
ruído das folhas secas, que se desprendiam das árvores e a serem arrastadas na calçada
por um vento rumorejante.
Deu consigo
a mirar pormenores em quadros que tinha há cinquenta anos. Comprara-os porque
gostara deles, mas só os olhava quando alguma visita lhes fazia algum elogio, a
que não ligava muito, por estar sempre de sobreaviso quando o elogio lhe
cheirava a “verbo de encher” numa conversa oca.
Sem saber
como, passou a ver em cada coisa um infinito de pormenores e
particularidades. E tão embrenhada estava em pequenas coisas, que mais
raramente pegava num dos comprimidos milagrosos, que são os livros, e só o
fazia quando se deparava com um daqueles que tinha posto de parte, como se estivesse
à espera do desabrochar duma semente há muito em germinação, que só uma visceral necessidade pudesse fazer brotar,
como uma verdade esperada.
Nas manhãs
em que uma tristeza cinzenta tingia o céu, o gato não aparecia. Então,
recordou-se daquela tão antiga história ilustrada, que lera em criança; não se
lembra de tudo, mas recorda que a Velha e o Gato fizeram um pacto, ditado pelo Gato,
claro: “Deixas-me estar à janela quando há sol e eu aqueço-te os pés nos dias
de inverno”. “Está bem”, respondeu a Velha. É como se diante dela estivessem as
duas ilustrações, com os azuis de Monet. A da proposta: o Gato à janela; e a da
concretização: a Velha, sentada numa cadeira de balouço, com uma manta de
xadrez cobrindo-lhe os joelhos e o Gato colado às pantufas, aquecendo-lhe os
pés.
Ocorre-lhe
que isto de ser velha, só se manifesta no plano físico; teria sete ou oito anos,
porém, a história ilustrada ainda ali está. Daqui infere que o plano físico, uma
vez inscrito na mente, ou no espírito, é dispensável. Mesmo que a memória tenha
pintado tudo de outros tons.
Este gato, o
da sua janela, talvez aqueça os pés duma velha que não tenha janela com sol. A
ela, aquece-lhe a alma. E nos dias de chuva há-de continuar a vê-lo ali, sem se
atrever a estender a mão para lhe afagar o pêlo sedoso, não vá ele fugir para
os pés da dona.
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