quarta-feira, 20 de maio de 2020




ANSIEDADES DUMA VELHA – II

Judite amava os longos passeios solitários, mas na sua agitada vida social tinham sido relegados para um dia, ou para um nunca e, ao ser enviada por decreto para a clausura, que julgava tornar-se insuportável, que viu que afinal se encontrava no centro de um maravilhoso vazio, onde as horas passavam muito depressa e a noite chegava, como por milagre. 

Uma das janelas da casa tinha um largo parapeito exterior, onde uma criatura de brilhante pêlo cor cinza-prateado e formosos olhos cor de mel, sombreados por um olhar oriental, aveludado e aristocrático, um gato, vinha apanhar sol todas as manhãs. Quanto tempo haveria que aquele animal escolhera o parapeito da sua janela para apanhar a sua dose de vitamina D?! Raramente a abria; “dantes” não tinha tempo para isso e nos primeiros dias de introspecção enroscara-se sobre si mesma, como o gato, e redescobrindo na sua vida interior uma capacidade de contemplação do azul do céu noturno, sem lirismo e sem música; apenas o indiscritível.

Outro dia, encantou-se, como nunca o tinha feito, com a sua colecção de pedras semipreciosas e observou-as, com atenção, nas suas mãos mais habituadas a manipular cosméticos, vernizes e adereços.

Escutou o ruído das folhas secas, que se desprendiam das árvores e a serem arrastadas na calçada por um vento rumorejante.

Deu consigo a mirar pormenores em quadros que tinha há cinquenta anos. Comprara-os porque gostara deles, mas só os olhava quando alguma visita lhes fazia algum elogio, a que não ligava muito, por estar sempre de sobreaviso quando o elogio lhe cheirava a “verbo de encher” numa conversa oca.

Sem saber como, passou a ver em cada coisa um infinito de pormenores e particularidades. E tão embrenhada estava em pequenas coisas, que mais raramente pegava num dos comprimidos milagrosos, que são os livros, e só o fazia quando se deparava com um daqueles que tinha posto de parte, como se estivesse à espera do desabrochar duma semente há muito em germinação, que só  uma visceral necessidade pudesse fazer brotar, como uma verdade esperada.

Nas manhãs em que uma tristeza cinzenta tingia o céu, o gato não aparecia. Então, recordou-se daquela tão antiga história ilustrada, que lera em criança; não se lembra de tudo, mas recorda que a Velha e o Gato fizeram um pacto, ditado pelo Gato, claro: “Deixas-me estar à janela quando há sol e eu aqueço-te os pés nos dias de inverno”. “Está bem”, respondeu a Velha. É como se diante dela estivessem as duas ilustrações, com os azuis de Monet. A da proposta: o Gato à janela; e a da concretização: a Velha, sentada numa cadeira de balouço, com uma manta de xadrez cobrindo-lhe os joelhos e o Gato colado às pantufas, aquecendo-lhe os pés.

Ocorre-lhe que isto de ser velha, só se manifesta no plano físico; teria sete ou oito anos, porém, a história ilustrada ainda ali está. Daqui infere que o plano físico, uma vez inscrito na mente, ou no espírito, é dispensável. Mesmo que a memória tenha pintado tudo de outros tons.

Este gato, o da sua janela, talvez aqueça os pés duma velha que não tenha janela com sol. A ela, aquece-lhe a alma. E nos dias de chuva há-de continuar a vê-lo ali, sem se atrever a estender a mão para lhe afagar o pêlo sedoso, não vá ele fugir para os pés da dona.


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