domingo, 17 de maio de 2020




IN “REFLEXÕES SEM TRAMBELHO”

"Estávamos melhor, quando estávamos pior"

Li esta frase num livro de Giovanni Papini, "O Passado Remoto”, publicado em 1948, e esta frase faz tanto sentido, se compararmos as nossas “vidinhas" A. CV., (quer dizer antes da “coisa”) com as nossas semi-vidas, pós, ou durante, CV.
Curiosamente, também o título do livro não pode deixar de evocar o passado "remoto" de uma humanidade outra, sendo, porém, a mesma, mas tão outra, passados dois meses. Quanta diferença e, todavia, sem diferença nenhuma.
No quê diz respeito ao confinamento, faz lembrar as tão criticadas atitudes de alguns participantes dos Big Brother, para os quais, a sua permanência na casa, mesmo por poucos dias, segundo os próprios, equivalia a meses ou anos, consoante o tempo de estadia, assim é para nós o tempo, conforme a situação de cada um no isolamento. E o seu comportamento, o dos tais participantes, se muitas pessoas agora o compararem com o próprio, em termos de confinamento, talvez não se sintam orgulhosos do mesmo. O que no primeiro caso era voluntário, o confinamento, termo então desusado, tornou-se de súbito, como uma nuvem negra no horizonte, obrigatório para quase todos.
E a propósito de “estarmos pior”: a humanidade é uma “raça”, na verdade, muito versátil; levou tanto, tanto tempo a adquirir o hábito de fazer reciclagem e, quando parecia que já tinha “encarrilhado”, especialmente depois de ver a devolução que os mares estavam a fazer dos desperdícios que lhe tínhamos ofertado, envenenando-os, o que levou a uma interdição de louça descartável nas escolas e em outras instituições estatais, eis que, por artes virulentas, esse uso tornou-se, num abrir e fechar de olhos, de proibido a obrigatório, por exemplo nos cafés, onde raramente o material descartável era utilizado, está agora na ordem do dia, tornado, entretanto o único possível ou pelo menos, viável. E pronto, lá se foi toda a “boa vontade” para “acabar com o plástico” e com o desperdício de papel. E parte da reciclagem a ser feita também não está no bom caminho: as luvas e máscaras amedrontam as empresas de reciclagem, temendo que estejam infectadas, como se o dito cujo lá permanecesse para todo o sempre.
Porque será que os “benefícios” da “coisa” são tão complicados.
A propósito disso, lembrei-me de duas estrofes da “Ode Marítima”, de Álvaro de Campos:
Ando espiando um crime numa mala,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Se nos pesa um crime que cometemos, não por requinte, mas por estupidez, inércia ou, quiçá, por alguma ganância, a inteligência, já não digo a humana, mas a Universal, podia fazer o favor de levantar um pouco o véu, para que não andássemos assim, quase todos com os miolos às voltas, sim, quase todos, que há gente “firme”, e nos alumiasse o caminho um pouco mais longe, e não só os parcos centímetros onde pousamos o pé, quase a medo. Não, com medo.
Assim sendo, a frase “estávamos melhor, quando estávamos pior”, parecendo (e é-o no contexto do livro) uma frase reacionária, constitui, porém, nos dias de hoje, uma frase reflexiva.
Que não leva a lado nenhum.
Falta-nos uma lanterna de longo alcance.
Falta-nos sempre qualquer coisa.



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A importância da insignificância

A humanidade tinha chegado a um grau de beleza, felicidade, perfeição, conhecimento, conforto, abundância, criatividade, avanço tecnológico e científico imparáveis e inigualáveis, quando uma invisível minudência resolveu dar um ar de sua graça; afinal também se considerava gente, embora o não fosse.

E o que estragou tudo foi o facto da humanidade ligar a determinadas coisas pequenas, dar importância a insignificâncias. Se o não tivesse feito, a coisa insignificante, e por demais, invisível, não teria feito os estragos que fez, como uma criança que toda a gente fica a ver fazer traquinices quando devia o progenitor pegar-lhe numa orelha e acabar com a história, ou se a traquinice fosse inócua fingir ignorá-la, mas continuando atento, que isto de não ligar no princípio pode ter consequências imprevisíveis. Pois ao que parece ter-se-ão passado ambas as situações; os pais não são todos iguais e, uns por questões de individualismo não vão em imitações, enquanto outros, por instinto de rebanho, o fazem. Para tudo, em particular nos pormenores, é preciso usar um pouco de inteligência; não há que ter medo: não se gasta, pelo contrário, quanto mais se usa mais se desenvolve.

 

 Dezembro de 2000

 


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