ANSIEDADES DUMA VELHA - VI
Judite foi à praia; uma praia onde costumava estar sem vizinhos mais
de cento e cinquenta metros para cada
lado e não se espantou de ver que já não há "praias desertas".
Outrora, junto aos apoios de praia as pessoas "amontoavam-se" porque
gostavam disso e deixavam a praia propriamente dita para os verdadeiros amantes
da beira-mar e do lazer e agora vêem num futuro não imaginado e têm que espraiar-se
em quase toda a vastidão.
Judite pragueja contra o coronavírus 19:
malvado, que me estragaste a praia. Já não sabe uma velha onde se
há-de meter! Sim, porque os tais cento e cinquenta metros ou mais que a distanciava
dos demais, transformou-se em pouco mais de dez metros, que isso para ela
é estar amontoada. Contara fazer uma pequena caminhada, chapinhando no manso
rebentar das ondas, mas os magotes que caminhavam na orla em longas filas, como
se marchassem pitorescamente para uma guerra perdida e desordenada,
desencorajaram-na. Ficaria para mais tarde, quando o formigueiro se desvanecesse.
Valeu-lhe a habitual boia de salvação que a salva de
(quase) tudo: um livro, um instrumento que lhe permite tornar-se quase insensível
a hostilidades externas, encontrar o conforto do encontro com um grande amigo e
esquecer o temor constante do amanhã.
Também lhe parece que o tal malvado terá
estragado a praia dos tais amontoamentos que reuniam famílias, ruas e cidades a
jogar às cartas, a contar anedotas e discutir futebol, a fazer croché, a jogar
à bola na maré baixa. Agora, apesar da idade, têm de se contentar com o
telemóvel, falando alto, incomodando menos os vizinhos pelo afastamento imposto,
talvez remendando algum par de meias se não tiveram ainda
"coragem" para irem aos chineses.
O que valeu a Judite foi o vento que soprou tão forte e
frio que fez a maioria desabelhar. Dali a pouco amainou, o sol brilhou e
aqueceu e quem acreditou ficou no paraíso, usufruindo de uns bons cem
metros de desafogo, que detesta o termo distância social.
Agosto 2020
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