ANSIEDADES
DUMA VELHA - VII ( E VIII)
Judite
hoje deu-lhe para meditar numa pergunta que lhe fazem amiudadas vezes, de
diversas formas e em diferentes tons.
_Então,
o que fazes agora na aposentação?
Judite
dá a resposta no sentido de indicar as atividades de voluntariado a que costuma
dedicar-se e outras em que participa para exclusivo deleite próprio.
_Então,
o que é que fazes?
Tantas
coisas... ou talvez tão poucas, que o tempo passa muito depressa, em especial
para quem não se dedica a algo específico e notável.
_ Mas
o que é que tu fazes em casa todo o dia?
Todo o
dia é diferente de todos os dias.
_
Então e agora... que estás em casa...
Sim
... também. Mas não só.
_ Não te aborrece de estar em casa sem fazer
nada?!...
Sem
fazer nada? Sinceramente não compreendo esta pergunta. O que será não fazer
nada. Há umas décadas, quando trabalhar fora de casa para as mulheres não era a
generalidade, quando se perguntava o que fazia fulana: não faz nada, está em
casa. E essa mulher que não fazia nada, matava-se a trabalhar mantendo a casa
limpa, as roupas cuidadas, cozinhando, cuidando dos filhos, às vezes ainda dos
pais, e quando caía na cama era cansaço de verdadeiro trabalho, mesmo não
fazendo nada. Quando Judite pensa em alguém que possa não fazer nada, mesmo
assim ainda imagina que alguém que apenas cuida de si mesma ocupa muitas horas
do dia, e se não quiser fazer mesmo mais nada, ou apenas ver televisão, levar
horas ao telefone com as amigas ou navegar na internet, tem já um dia
sobrecarregado, por isso não fazer nada é um mundo, quase sempre trabalhoso e,
sobretudo cansativo.
Claro
que na maioria das vezes trata-se duma pergunta inocente, mas no caso da última,
Judite pensa aconselhar essas perguntantes a lerem um dos contos de Guerra
Junqueiro, "Os Pequenos no Bosque ", em que três miúdos, um dia em
vez de irem para a escola, resolveram ir brincar com os animais que viviam no
bosque. Convidaram para brincar desde a formiga, o rato, a pomba, a lebre, o regato
e o pintassilgo e não encontraram nenhum totalmente livre de tarefas. E olhem
que bem poderíamos pensar, como as crianças, que a natureza não tem nada para
fazer, mas é bom não esquecermos que fazemos parte dela. Judite evoca, na sua
infância, o padre a pregar na missa que os lírios no campo e os passarinhos não
se preocupam com o dia de amanhã. Talvez não, mas tudo fazem para substituir a
cada dia, que os têm, alguns, bem difíceis, e aparenta que não fazem nada. Ao
que parece é uma frase capitalista: “Se não estás a trabalhar, então não estás
a fazer nada", de tal modo as pessoas a entranharam que agora têm
dificuldade em, literalmente, “não fazer nada". Judite, numa época em que
trabalhava demais e que, com o andar dos anos, concluiu que não podia continuar
a fazê-lo, comprou um livro intitulado " A arte de não fazer nada"
que, por falta de tempo, não chegou a utilizar. Porém há dias soube que na
Coreia do Sul " fazer nada" é um desporto. Se o desporto fosse um dos
seus interesses iria juntá-los à lista de como não fazer nada, que até para não
fazer, há listas. Mas há mais: descobriu que existe o Niksen, que é a
capacidade de desligar completamente do mundo que nos rodeia e até de nós
próprios. Esta última frase assusta Judite: desligarmo-nos de nós próprios é
coisa “do último dia". Dizem os praticantes de Niksen, ou seja, os inactivos,
que reduz a ansiedade, o stress e que fortalece o sistema imunitário. Ao que
dizem, esta prática, como todas, tem de ser aprendida, ter autodisciplina e
persistência para ver e sentir os resultados. É provável que isto de “não fazer
nada” dê muito trabalho, conclui Judite. E que depois de tanto esforço, o mais
provável é que não lhe apetecesse fazer mesmo nada. O melhor é ir trabalhando
um pouco para desanuviar, porque tudo o que é demais, já diziam as nossas avós,
não presta. E Judite acrescenta: e também cansa.
Outubro
2020
ANSIEDADES DE UMA VELHA _ VIII
Quando
a pandemia começou e se seguiu o primeiro confinamento onde imperava o terror
do desconhecido, Judite pensava nas vidas sentimentalmente ameaçadas ou
arruinadas, fisicamente separadas e, no entanto, livres para amar à distância.
Já
conhecera tempos remotos em que a distância imposta pela guerra colonial
separara os que se tinham escolhido para a vida; uns resistiram, outros menos. Com
a imigração aconteceu quase outro tanto; quase, porque a decisão, apesar de não
poder ser outra, partia de, pelo menos, um dos lados.
Mas os tempos decorreram e atrás desses outros
e outros e chegaram estes em que a vida sentimental e sexual é mais livre e,
por que não o dizer, não sabe se mais libertina e mais acessível, com a
facilidade de locomoção e de comunicação. E mais traiçoeira e atraiçoada, para
não dizer banalizada: amigo trai melhor amigo, amiga trai melhor, ou pior,
amiga. Claro que sempre assim foi, mas parece ter-se banalizado.
Com estes
tempos de pandemia, muitas foram as separações, e outros que, por fidelidade ou
incapacidade de lidar com a situação, não tiveram outro remédio senão pôr os dados
na mesa e erguer a bandeira branca a pedir tréguas. Os mais hábeis conseguiram pontos
a seu favor e até encontraram algum encanto no que tinham desdenhado, enquanto
outros descobriram desencantos por quem se tinham encantado. É a vida, sempre a
abrir umas janelas, a fechar outras, a embaciar e a partir algumas, pelo menos
numa altura em que as portas tinham que estar fechadas, até que se abriram.
Tantas
histórias recompostas, tantas outras amarrotadas entre as rasgadas.
É,
sobretudo, no segundo e mais duro confinamento que Judite medita, mormente no
confinamento psicológico, sentimental e sexual, nem sempre atenuado pelos
práticos meios actuais, e que afectam tanto ou mais do que o físico, em relação
ao ambiente interdito.
Quando
começa a discorrer mentalmente, Judite perde-se nos labirintos das questões,
sem conseguir vislumbrar o modo de como ficarão tantas mentes afectadas muito para
além do vírus e das perdas por não vírus, mas devido à ditadura nunca antes
conhecida noutros tempos em que não se podia falar: agora não se pode quase
andar.
Fev/2021
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