sexta-feira, 26 de junho de 2020



A EMPATIA DE FREDERICO
Frederico regressava da escola sempre a saltitar, feliz, com um sorriso aberto, porém, naquele dia vinha a passo vagaroso, taciturno, macambúzio. O que se terá passado, interrogou-se a mãe; alguma briga com um companheiro. Não lhe perguntaria nada ainda; ele mesmo acabaria por fazê-lo de moto-próprio, sem pressões. Quando estivesse pronto.
Quando chegou a hora do jantar, a criança continuava assim calada, introvertida, tristonha mesmo. Afastando o prato com o braço, disse que era muita comida; não tinha fome. A mãe estranhou. Frederico sempre comia bem. Que se passa, atreveu-se, por fim, a perguntar. A professora hoje disse que há muita fome no mundo; que todos os dias morrem muitos meninos sem comida, que até ficam cegos por falta de alimentos que contenham vitaminas. É verdade, respondeu a mãe, também ela agora entristecida. Então se eu der metade desta comida a um desses meninos, ele já não fica com tanta fome e eu fico bem na mesma. Meninos cegos! Que horror! Frederico sofria. A professora tinha feito bem o seu papel: é preciso consciencializar as crianças logo no banco da escola, antes que se tornem indiferentes. Essa triste e vergonhosa realidade, esse flagelo, passa-se muito longe daqui, disse a mãe, os meninos deste país não passam fome, porque há o banco alimentar e outras organizações que não deixam que isso aconteça.
_Isso eu sei, porque sei que a mãe faz voluntariado nessas organizações; um dia até fui contigo, lembras-te mãe?
_ Claro que me lembro. esses meninos e toda a população, que está a adoecer e a morrer por falta de alimento suficiente, estão em continentes muito distantes: em África, na Ásia, na América Latina, por exemplo, e há organizações a trabalhar para minimizar essa tragédia, mas nunca é suficiente; é preciso muito mais empenhamento dos governos e nem sempre isso acontece. E agora, antes que fique frio, vamos lá mas é a comer o jantar e continuar a fazer o nosso melhor para minimizar essa calamidade. Já a minha avó dizia: muitos poucos fazem muito.
_ Quando for grande, quero ser distribuidor de comida nesses países todos, para que ninguém tenha fome e fique cego, disse Frederico, sentindo-se mais animado com esta resolução e começando a comer a sopa com apetite, para ser grande mais depressa, acrescentou.
Quem ficou muito pensativa foi a mãe. Por seu lado fazia o que podia, mas não era por isso que podia dormir descansada a esse respeito. Sabe bem que a concentração da riqueza está nas mãos de poucos, dos que nunca sentiram a fome ou se a sentiram, têm vergonha disso e só a querem esquecer, incapazes de se colocar no lugar do outro, de sentir empatia por esses mártires que são aos milhões, vítimas anónimas e ignoradas, impotentes para se revoltarem. A economia mundial e quem a governa tem na mão a faca e o queijo que devoram até ao vómito, sem solidariedade, aceitando o flagelo da miséria e da fome come se fossem uma fatalidade, quando está nas mãos deles estancá-la.
Do lado do vulgo alimentado, não bastam os bons sentimentos: é preciso deixar de silenciar a fome e a morte só para que não lhes perturbem o sono, enquanto os vampiros do mundo económico sugam tudo o que podem e não abdicam de nada. Os famintos não são gente, exclamam!
Dum lado flores, sedas, perfumes, diamantes, peles, rendas, whisky, comida que vomitam por excesso, no outro lado, que pode ser literalmente ao lado, gemidos de fome, lamentos de dor e de angústia de mãe que nada tem, nem mesmo as gotas de sal que se lhe desprendiam dos olhos, secaram há muito.
Como pode o sol continuar a brilhar para as crianças saudáveis e bem nutridas, se perde a luz e o brilho para as famigeradas doentes e famintas, na contingência de deixarem simplesmente de Ser.
Dormiu pouco e mal, ecoando-lhe na cabeça alguns versos de uma canção de Zeca Afonso: Eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada!
Quando acordou, a primeira palavra que articulou, quase inconscientemente foi: Vampiros. Era o nome da canção.
Ao que parece os vampiros continuam por todo o lado, sequiosos, mas não cegos e famintos.
Ao pequeno-almoço, Frederico parecia mais pálido do que era habitual; também ele não teria dormido bem. 
_Mãe, _disse,_ a professora também contou que esses meninos não vão à escola, porque não têm saúde nem força para isso. _Infelizmente, meu filho, as crianças dessas famílias em estado de pobreza raramente frequentam a escola, por diversas razões e por vezes nem as há ou ficam a distâncias enormes. 
_Então como é que lêem os livros de histórias?_ espanta-se Frederico. 
_Não lêem, não tem livros de histórias, salvo os que periodicamente recolhemos e enviamos aos Centros de Ajuda; creio que serão sempre insuficientes. 
_Ó mãe, será que, quando crescer e for distribuidor de comida nesses países, posso levar os meus livros de histórias e ler para os meninos? _Sabes, Frederico, tenho esperança de que haja uma grande mudança no mundo, que haja investimento inteligente na educação dessas crianças, que é uma forma de as retirar da pobreza, e que tal já não seja necessário quando fores crescido; mas despacha-te para chegarmos a horas.
A professora tivera uma atitude pedagógica e, diria mesmo, profilática. Dar-lhe-ei os parabéns hoje mesmo e, quem sabe, se não faremos uma reunião de pais e de ideias para ajudar a debelar a fome por este mundo afora. Ia a mãe pensando, enquanto segurava pela mão um menino com empatia pelo sofrimento de outros meninos. Já a sua avó dizia: “de pequenino se torce o pepino”. Compreendia o sentido, mas nunca tinha percebido isso do torcer. Coisas antigas, certamente, mas que conservam um fundo verdadeiro, sempre actual.


2019

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