Fernando Pessoa
SÃO ÀS CETENAS
São às centenas. Velhos, menos velhos, menos jovens, brancos, pretos, castanhos, outras cores, várias nacionalidades. As filas são de quilómetros, que a distância social impõe margem maior entre eles. Esperam horas por um prato de sopa. Alguns sentam-se no chão, não vão eles cair, desmaiar, e perder o lugar que tanto custa a manter. Um leva consigo uma velha cadeira de plástico, que arrasta a cada dois metros e onde se senta, diz ele, por problemas nos joelhos.
Impossível saber o que pensam, enquanto esperam. Nem se sabe o que esperam depois da sopa. Talvez outra sopa. Talvez que o melhor seja ingressar logo noutra fila para o jantar, já que também não têm para onde ir. Enquanto o que fazem, porventura algum pensará: “Não sou o único, mas isto é terrível, além de degradante. Todo o ser humano deveria ter o suficiente para comer, para viver.”
Já que os homens não o pretendem fazer, quem sabe se não é esse o equilíbrio que a sábia natureza tenta manter, com diferentes calamidades, terramotos, pestes, guerras, que estas sendo de natureza humana não deixam de ser “plantadas” na sua génese para o mesmo fim.
O escritor Alberto Moravia, na sua obra “O Desprezo”, escreveu que todos os homens deveriam ter, “naturalmente”, uma casa, e foi nessa ânsia de o conseguir, que levou o protagonista ao desespero, tudo perdendo: a família e a própria vida.
Um homem moreno, de compleição média, olha, quiçá sem ver, dois jacarandás em flor ou lembrará a própria terra de onde terão vindo, ele e a planta, actuando a lembrança como que um filtro, para escapar à angústia duma existência que, de momento, lhe parece cristalizada no tempo, cativa de circunstâncias globais.
Ainda não há muito, quando tinha trabalho, passava por aquela rua, sem saber da existência dos jacarandás, como se esse hábito os camuflasse; agora não pode ignorá-los: a seus pés, um manto roxo liberta um líquido pegajoso e os seus sapatos ficam presos à calçada, tal como a sua vida. Tenta manter afastados aqueles pensamentos de desamparo, olhando de vez em quando para os escassos passantes, onde sobressai uma rapariga de ancas ondulantes e, quem sabe, bonita. Pensou na mulher; no seu amor sossegado, com um contentamento triste, e na filha, que dependem dele, lá longe. A fila espaçada, vai avançando e isso distrai-o, para que as lágrimas não molhem a máscara, o que não evita que murmure: “e se nunca mais poder ir-me embora? “.
Sente-se prisioneiro, numa impotência e solidão que se adensam no ambiente pesado da aceitação sem consolo. Precisa de viver; precisa de um prato de sopa para continuar a abrigar em si um fiapo de esperança, povoada de recordações, fantasias, talvez, mas necessárias para não cair no medo, quando tudo parece boiar numa angústia dolorosa dum homem só.
Um dia, um velho quase andrajoso, que o antecedia na fila, comentara, muito alto, que “dantes” isto não era nada assim, que mesmo as afinidades entre eles eram diferentes, que se riam, que contavam anedotas e até combinavam “coisas” ali mesmo. Agora já não. Era tudo um desconforto, “tudo num silêncio que não se aguenta”.
Ao ouvi-lo, não conseguiu sentir pelo outro nem repulsa nem simpatia, apesar de, por “obra do destino” e, quem sabe, de muitos “mal” acasos, estar à espera de um prato de sopa da mesma panela. Talvez nem pelos outros, de aparências tão diversas, distanciados nos dois metros regulamentares, de feições sem relevo debaixo das máscaras. Dói-lhe “sentir” apenas a sua vida e não se condoer com aqueles destinos, simultaneamente comuns, porém, com certeza, tão diversos. “Dantes” ter-se-ia condoído.
O sol brilhava, sem vergonha, e no placard de uma farmácia indica 23 graus, mas ele tirita dentro do blusão, como se sentisse a vida a escorrer, muda. E sem respostas.
De súbito, num qualquer segundo andar dos prédios fronteiros, a música brotou, como se quisesse desabafar sobre eles. Era uma canção alegre, e aquela vibração teve o condão de lhe apertar o peito cheio de lembranças.
A fila avançava, mas ele parou: a solidão envolveu-o ainda mais, e na memória não encontrou passado nem futuro: estava preso ao chão. Ao tempo. A uma eternidade.
_Então, amigo, se não avança, avanço eu.
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