sábado, 6 de junho de 2020



ANSIEDADES DE UMA VELHA – III – A PRIMEIRA SAÍDA CONVÍVIO ( e IV)

Judite não tem piscina e mora longe da praia, por isso tenta descobrir o melhor local da casa, o mais fresco, para passar o verão, que antecipou a chegada e já se mostra tão ardente como uma donzela com cio.

Agora que as portas para a vida foram abertas, a juventude e os adultos jovens desabelharam logo; enchem praias, albufeiras, estacadas, rios e ribeiras, riachos, canais, nascentes: tudo onde possam encontrar água.

Ela e as amigas, velhas como ela, encontraram-se, tristemente, num primeiro e breve convívio e, embora quisessem aparentar uma grande alegria de se reverem, não lhe pareceu suficientemente genuína.

Eram cinco, tiveram que se espalhar por uma esplanada, que não sendo grande, já estava ocupada por quatro pessoas: duas em cada mesa, ao centro da esplanada, e elas as cinco tiveram que se dividir em dois grupos: três numa ponta, duas noutra.

Uma reunião-convívio sem graça, sem saberem o que dizer, já que não valia a pena falar no passado, muito menos no futuro e quanto ao presente, para os velhos, é o que se vê.

Pareceram-lhe cansadas, psicologicamente esgotadas, como unidades militares abandonadas à sua sorte e um pouco desnorteadas.

Acabaram por se juntar numa única mesa: ficaram de comparecer dez e afinal eram só cinco. As outras não vieram por não conseguirem ainda, ou antes, já, sair do buraco: treme-lhes as pernas quando chegam à porta. Os automóveis de umas avariaram, de outras têm a bateria descarregada, desculpa, talvez, outras ainda nem se atreveram a arrancar, lembrando umas adolescentes vacilantes antes do primeiro encontro amoroso, não controlam o tremelique que lhes toma conta das mãos, e os dentes, que tentam manter apertados, batem desobedientes. O coração, desse nem se fala, descompassado, a garganta apertada, deram meia volta e enfiaram-se de novo no buraco; talvez para a próxima. A ver vamos.

Às que compareceram, faltou-lhes a espontaneidade habitual: as máscaras pareciam causar uma barreira; a Georgina ainda se atreveu a contar uma piada, mas os sorrisos, ocultos pelas máscaras, e o olhar pelos óculos de sol, não estimularam uma enfiada de ditos jocosas, como era hábito.

A Laurinda que é dura de ouvido e que, para perceber alguma coisa, tem de fixar o olhar nos lábios do falante, sentiu-se perdida, ausente, excluída.

Enfim, uma reunião-convívio sem graça, sem saberem já o que dizer.

Aquela batalha sem frente visível, com um inimigo que se entretém a fazer fosquinhas, tirou-lhes a alegria do abraço.

Aparentava mais uma primeira saída, cautelosa, depois de uma longa convalescença.

É preciso recomeçar, olear as rodas enferrujadas e para isso não há como a amizade e a alegria de viver.

Não há idade para recomeçar. Por isso, Judite está já a alinhavar o próximo encontro: uma tertúlia, ao ar livre, num local com pré-marcação, de preferência só para as dez; têm de vir todas. Se sobreviveram ao mais difícil … há que sair da toca. A união faz a força. A amizade faz o resto.

Haverá histórias contadas, histórias e poemas lidos. E talvez um teatrinho.

O que Judite espera que já esteja em produção cosmética, é um baton com brilho, para que, depois da máscara retirada, o brilho dos lábios se mantenha e o sorriso das amigas, e o seu, fique mais brilhante. Enquanto não o encontrar à venda, vai sugerir que levem viseiras e assim podem usar o baton normal. E o respectivo sorriso.

20.05.2020

 



ANSIEDADES DUMA VELHA - IV

Judite, como todas as velhas, para não ficar maluca a pensar na própria vida, por vezes põe-se a magicar na vida dos outros; não propriamente na vida de X ou de Y, mas no geral:  ontem à noite deu-lhe para magicar na situação duma específica classe profissional, cujos “trabalhadores” viram a sua vida totalmente suspensa durante a fase mais agressiva da pandemia, porém, pensou: nesse ínterim terão certamente aproveitado o tempo para converter  ou reconverter a actividade  ou efectuado sérias alterações. Depois de matutar um bocado,  deu-lhe para se fixar a sério nessa classe que se vê agora tão desprotegida, que é a  dos carteiristas: grandes grupos, bem organizados e estruturados, altamente profissionais e profissionalizados, envolvendo tanta gente, que de um dia para o outro, num abrir e fechar de olhos, assim sem mais nem menos ... viram a vidinha a fugir-lhes debaixo dos pés ... devem ter tido ganas de se suicidarem!  Tão hábil treino assim perdido, tanta gente "desempregada" ... que lhes fazer? Formariam empresas ou estariam, cada um por si, inscritos nas Finanças e na Segurança Social como trabalhadores independentes? Por outro lado, Judite sossega:  a maioria teria certamente um bom pé de meia e não deixaria de acudir aos habilidosos mais recentes, que sempre são uma mais-valia para o que der e vier. Terão sido uns meses de reestruturação noutros moldes, porque mesmo com a abertura dos centros comerciais a distância social não facilita a descrição com que o trabalho era tão impecavelmente executado. Também nas passadeiras de peões nas grandes cidades, o negócio já não vai ser o mesmo, pelo menos por enquanto. Canseiras ...

Ainda começou por colocar a hipótese de "caçarem" à  linha, mas para isso teriam que alugar vários primeiros andares, em sítios estratégicos: vem uma pessoa a passar "caçam-lhe” a mala com uma cana de pesca especial,  a pessoa olha à volta à procura da mala e não vê nada; então com a máscara ainda menos, que, parecendo que não, rouba uma boa percentagem da visibilidade.  Mas esta deve ser uma daquelas hipóteses muito parvas ...

E principiou a divagar como encontraria outras nuances para os coitados dos carteiristas, que nem era pessoal agressivo … pelo contrário, sempre muito educados, pedindo sempre desculpa por qualquer encontrão mais rijo.

Daí passou à cata dos tão apregoados “benefícios” que o vírus veio mostrar …, mas adormeceu antes mesmo de ter encontrado algum … a não ser …Já não dá. Adormeceu mesmo! Parece que esta técnica resulta. Enfim, uma técnica como outra qualquer.

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