quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

 

ANDIEDADES DE UMA VELHA – XVII – O "dono" do contentor

Quando se fala de entulho, ainda vem à memória de Judite o dia em que foi ao Ecocentro depositar antigos restos de obras, encobertos no jardim por plantas trepadeiras que, com rapidez deram conta do que parece ser o seu propósito: cobrir tudo o que encontram no caminho do seu crescimento.  Judite acredita que deixou que tal acontecesse por uma espécie de desleixo, mas o certo é que não tinha oportunidade nos “remotos” tempos de passeios frequentes, excursões, almoços, exposições e danças.

Foi a prodigiosa pandemia que lhe proporcionou o ensejo de podar as trepadeiras e encontrou, tal tesouro esquecido, um montão de cacos, pedaços de tijolos, calhaus e argamassa esculpida em formas desinteressantes.  O achado encheu-lhe um dos modernos e avantajados sacos de compras, que verificou não poder transportar. Dividiu, então, o conteúdo por outro,  ainda assim bem pesados, mas transportáveis.

Sabendo da existência de um ecoponto nas proximidades, consultou o horário na internet e decidiu livrar-se do inestético entulho no jardim, logo no dia seguinte. Considerou telefonar antecipadamente a prevenir do seu intento, mas não estava totalmente certa de o conseguir realizar, nem sempre os velhos ossos lhe permitem concretizar planos e talvez fosse ridículo colocar o funcionário na expectativa de uma tonelada de resíduos de construção civil e surgir com dois sacos de supermercado meio-cheios, ou meio-vazios, conforme a capacidade física de quem lhes tomasse o peso.

O dia amanheceu quente, por isso Judite resolveu ir cedo. Ao pretender colocar os sacos no porta-bagagens verificou o quanto lhe era penoso; pegou num balde, retirou algum peso de cada um dos sacos e assim as três vasilhas ficaram mais transportáveis.  

Antes das nove já lá estava junto ao portão; dali seguiria para uma consulta de fisioterapia, já agendada e, se o velho esqueleto o permitisse, faria ainda umas compras.

Dentro do carro, assistiu à chegada de uma moderna motoreta que combinava  com o bem-parecido funcionário que a conduzia, feições de origem indiana, que lhe fez um gesto cordial, enquanto retirava o reluzente capacete, como quem diz que aguarde um pouco; faltavam ainda cerca de cinco minutos para a abertura. Pontualmente às nove, o funcionário abriu o portão de ferro forjado, com a deferência de quem abre as portas de um palácio e fez o gesto de que entrasse com o carro. Após a entrada do carro no terreiro, cumpriu ao funcionário informar Judite de que o contentor estava cheio e que não poderia recolher o entulho. Nesse momento, Judite desejou aniquilá-lo: elevou a voz, como aliás é hábito dos portugueses proceder ao falarem com estrangeiros, mesmo quando não estão zangados, e respondeu-lhe:  _Não! Se me autorizou a entrar com o carro, não me vai agora fazer voltar para casa com a carga!

 Exaltada, conduziu até ao contentor a escassos três metros. O funcionário, gesticulando que não o podia permitir e Judite repetindo-lhe:_ Não! Não me vai fazer isso! _ abriu o porta-bagagens e, com uma energia que certamente teria de reserva para tais ocasiões, pegou num dos sacos como se fosse uma pena e despejou-o nos interstícios vazios do contentor.

O funcionário, cumpridor das suas obrigações, telefonou ao responsável, dizendo que Judite estava a desobedecer às suas ordens e a “falar mal”.

Judite retirou o outro saco e, continuando a “falar mal” na óptica do funcionário, esvaziou-o como o anterior. O zeloso funcionário pretendeu que Júdice falasse com o encarregado; claro que ela não o quis ouvir, não tinha nada para ouvir, mas sim para dizer, e disse, que não ia voltar com o carro carregado e ocupado com meia dúzia de cacos, o carro era pequeno e precisava do espaço para as compras, não levaria tal mercadoria a passear durante trinta quilómetros   e que iria descarregar ainda um balde. Não soube o que o encarregado respondeu: o que ela não faria era voltar para casa e descarregar o que tanto trabalho lhe dera a carregar, mesmo sendo pouco.

Antes de partir, perguntou ao funcionário que impropério é que ela lhe chamara, para o levar a transmitir ao responsável que estava a “falar mal”.

 _ Que nome é que lhe chamei_ perguntou, irritada, já que não tinha por hábito recorrer a insultos. _ Vá, diga lá!

Quase com o rabo entre as pernas, o “pobre” funcionário, titubeou: _ Não, não…

 Judite percebeu o que ele quereria dizer, mas não soube, não tinha vocabulário: era que Judite estava zangada e falava muito alto.

Não é preciso ter imigrado, para se saber que, nem sempre, o imigrante encontra o termo adequado na altura em que precisa dele. Mesmo a ela isso lhe aconte com mais frequência com que desejaria. Mas isso Judite desculpou; o que não desculpou, e infelizmente acontece com muita gente, que como sabemos, é igual em toda a parte, foi não a ter informado logo, antes de a autorizar a entrar com o carro, mas já na altura em que Judite estava  convicta de que se ia livrar do lixo. Se a tivesse informado de antemão, teria voltado para casa carregada, contrariada, mas conformada, e voltaria no dia que lhe indicasse.

Judite, neste caso, aplica um ditado mais velho do que ela:” se queres ver um pobre soberbo, dá-lhe a chave de um palheiro”. Talvez com um pouco de sadismo à mistura e a sensação embriagadora do poder, seja ele qual for.

Pode ser que a indignação de Judite tenha servido de aprendizagem ao aperaltado funcionário, e não volte a mostrar a cenoura se não tiver intenção de a dar a comer. E para ela também: se voltar a precisar, não voltará ao Econcentro sem que antes se informe se a cenoura está disponível.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

 

ANSIEDADES DE UMA VELHA - XVI

Judite sentou-se numa espécie de banco-sofá, sem encosto, melhor dizendo, encostado a uma parede no Centro Comercial. Em napa laranja, ladeado por pines unidos por correntes vermelho e branco, leves, de plástico, talvez. Noutros tempos estaria ali objecto de contemplação pública em que não se deveria tocar. No presente não passava dum desgraçado banco de napa, sem direito a encosto, tendo-lhe sido em tempos apenas permitido usufruir da parte inferior de ocupantes de melhores dias, sem direito a um braço e muito menos a um abraço. Judite não gosta daqueles locais que para se encontrar o que se precisa tem-se de palmilhar quilómetros. Doíam-lhe as velhas pernas.

Tinha marcado manicure para as cinco, mas uma candidata a miss beleza levara mais tempo que o suposto e passavam cinco minutos das cinco e ela, com a mania da pontualidade antecipada viera outros cinco antes da hora. Depois de dez minutos de pé, resolveu sentar-se à ponta do banco, sem retirar nada do lugar nem forçar a corrente.

Ainda não tinham passado trinta segundos, o jovem segurança, vindo do piso superior, ou porque estivesse na hora da ronda ou por “denúncia”, pretendeu expulsá-la. “Não pode sentar-se aí”. Não posso estar de pé e está na hora de ser atendida. “Aí não pode estar”. Então sento-me onde, no chão?”. “Pode sentar-se na escada”. Então na escada onde passa tanta gente é que me posso sentar? veja lá se tem aqui mais bicho do que nos degraus. “Isso não sei, mas aí não se pode sentar”. Não me diga que não pode olhar para o outro lado e passar sem me ver …, pois chame a GNR para me tirar daqui antes que seja atendida.

O jovem segurança, coitado, tinha que “cumprir” ordens (isto faz lembrar qualquer coisa), zelar pela segurança dos cidadãos naquele espaço da sua responsabilidade e certamente uma família a sustentar, puxou da “arma”, diga-se, telemóvel, e ligou, supostamente, para o chefe.

Felizmente para todos, naquele momento miss beleza levantou-se, esticando langorosamente ambas as mãos, satisfeita com o brilho e comprimento das suas garras sanguíneas e despediu-se sem mais delongas.

Judite pode, então, erguer-se e avançar, porém não deixou de meditar se teria o jovenzinho ficado aliviado ou, pelo contrário, frustrado com um desfecho tão sem sal. Restava saber outro tanto acerca do chefe. Mas isso é coisa para psicólogos. O que ela ia fazer era desencardir as unhas, depois da apanha dos figos.

 30 de Setembro de 2021

 

terça-feira, 20 de julho de 2021

 

 

ANSIEDADES DE UMA VELHA  -  XV (o computador)

O computador de Judite sabota-lhe a escrita. Se contasse às amigas, diriam entre elas: Não admira, com os disparates que escreve até um computador se passa dos carretos, quer dizer, do disco.

Judite está muito descontente: o que considerava um precioso auxiliar  censura o que ela dita; sim, tem os olhos muito cansados e as artroses dificultam-lhe o teclar e aproveita as funções que a máquina lhe oferece, mas isso não lhe dá o direito à censura. É como se, antigamente, quando muitas pessoas não sabiam ler e pediam a alguém que lhes escrevesse as cartas e lá colocassem palavras que eles nunca saberiam usar e cortariam outras que considerassem grosseiras se escritas pelo seu punho.

Não fosse ele uma máquina e Judite dir-lhe-ia das boas nos dias que fica sem paciência e tem que ser ela a teclar tudo, para poupar o trabalho de emendar erros, omissões e deturpações do Senhor Computador, armado em dono das palavras.

De súbito, a frase “não fosse ele uma máquina”, começa a espicaçar-lhe um neurónio: não fosse ele uma máquina? Será que é mais do que isso? Ainda não tinha pensado em tal, mas alguma coisa “vê”, censura e escreve como quer e ela, Judite, a pensar que não valia a pena irritar-se com uma máquina … e afinal talvez não seja apenas uma máquina.

Certo é que quando dita por exemplo, cretino, o que aparece na tela é *******, o mesmo se passa com imbecil ******* outro tanto com uma palavra  com cinco letras, muito comum na oralidade caseira,  começada por M ou m, ***** mas essa acharia perfeitamente aceitável a sua rejeição e, porventura nem daria por tal desaprovação; ela mesma utiliza o termo com economia na oralidade.

Até pode compreender que tenha sido programado por gente de “boas” palavras, o que não impede de existirem cretinos e imbecis, mas já a palavra “estúpido” é aceite todas as vezes que for ditada. Judite concorda que, cretinos, imbecis e estúpidos, sejam adjetivos impróprios para anjinhos, mas nem sempre as personagens dos seus contos o são, daí que precise ditá-las.

Mas o que não está certo é que quando Judite dita “comer”, o dito recusa-se e escreve *****. Então essas pessoas de “boas palavras” que obrigam o computador a censurar impropérios, será que não se alimentam? Ou quem o programou foi antes uma outra máquina, que sendo máquina não come.

Ai se valesse de alguma coisa falar com ela, dir-lhe-ia: _. Então lá por tu não comeres não deixas que os humanos comam? Até pareces os cães da palha, que não comem nem deixam comer.

Mas a máquina não se reconhecerá neste provérbio e Judite, apesar de velha, não chega a tanto: o que não lhe apetecer escrever, escreve a própria. Que remédio. O mesmo acontece com tantos humanos: só fazem o que querem. (Pensam eles).

E não se fica por aqui, o marafado. Se Judite ditar: nos, nus, ela, era, chega, isto, livre, por exemplo, a tela apresenta: NOS, ELA, ERA, CHEGA, ISTO, LIVRE. Toca a reescrever.

Judite lamenta ter que privar com um computador tão inculto: há poucos dias ditou-lhe “cromologia” e o desgraçado considerou um erro ortográfico. Enfim, cada um priva com o computador que merece.

O que a espanta é que “loucura” escreve com inicial grande “Loucura”, quando deveria escrever LOUCURA.

 

20 Julho 2021

 

 

sábado, 17 de julho de 2021

 

 

ANSIEDADES DE UMA VELHA – XIV - Certificado digital. Aos fins de semana

 Judite nem sempre percebe porque é que remexe em certos pensamentos ou recordações, mas o certo é que eles aparecem, convidados ou não.

E o que lhe assoma, mais uma vez, é Giovanni Papini e a sua obra “O Passado Remoto”, que isto de passados é o que os velhos mais têm na cabeça e neste caso o que o escritor refere é que em 1914 se podia andar por toda a Europa, à excepção da Rússia, sem passaportes, vistos, carimbos, licenças.

Mais de um século depois, dizem por aí que, quem almoçar na esplanada de um restaurante, se quiser fazer xixi no w.c. do mesmo, tem que ter um Certificado Digital. Ao fim de semana.

Se não fosse a palavra Digital, Judite pensaria tratar-se de algum uso corrente no século XIX; e daí porque não, se digital se refere ao uso dos dedos. Quem lhe dera evitar recordações e pensamentos tão absurdos, que tanta confusão causam na sua cândida velhice, mas insiste em pensar no que o referido escritor, em 1948, também escreveu: “ninguém é livre, ninguém é são, mas é preciso lutar pelo progresso e pela liberdade”.

Depois ficou perturbada, e não foi com esta frase obsoleta, sem sentido nos dias de hoje; foi a leitura dum conto, por assim dizer “futurista” do escritor António Ladeira, “A Agência”, passado, quer dizer “futurado” em 2045, onde, para viajar de avião, os passageiros teriam obrigatoriamente que frequentar um curso especial de seis anos. Ora se ela chegasse a 2045, como é que poderia viajar se tivesse que estudar seis anos, durante os quais não poderia ir conhecer mais mundo. Inadmissível! Depois serenou: era apenas uma ficção, como tantas outras que tem lido, como por exemplo a do certificado digital, ao fim de semana. Para tudo é preciso imaginação, saltar da caixa, ter ideias prafrentex, como se dizia no seu tempo de moça. São assim as boas ficções. Dão “pica”.

A fazer fé na cromologia, a cor verde é uma chave que abre os cofres da memória e como Judite anda a comer muita alface, a chave, sem querer, deu a volta à fechadura dalgum cofre donde saem estas memórias à mistura com disparates e que é uma confusão para destrinçá-los.

É o que dá, em vez de tomar comprimidos como é normal em qualquer pessoa de idade e de juízo, Judite só toma livros. E pouco mais.

Talvez um gaspacho, com muito tomate maduro, bem vermelhinho, para contrabalançar o verde da alface que abre cofres, ainda a salve da loucura, deixe de pensar em improváveis absurdos e não volte a pôr as coisas de pernas para o ar.

 

Maria de Jesus – Julho 2021

 

 

 

sexta-feira, 11 de junho de 2021

 ANSIEDADES DUMA VELHA – XIII – As Histórias do Avozinho  

Judite, ontem à tarde, deu-lhe para verificar o conteúdo duma caixa há muito arrumada no fundo da dispensa, indicando que contém livros; se é isso que indica, outra coisa não será; mas que livros? Estão lá há tanto tempo que talvez já lá não estejam, levados aos poucos por algum rato leitor ou traças letradas. Foi averiguar. Retirou o forte adesivo com que estava selada: cheirava a livros; a indicação estava correcta, mas livros numa caixa durante anos não trazem proveito a ninguém. Os primeiros a que deitou mão, uma caixa dura de cartão amarelo condizente com as lombadas, em número de onze, eram “As Histórias do Avozinho”.

Que fazem aqui tais histórias? Recuou mais de quatro décadas, para recordar o dia em que a amiga Carolina lhe entrara em casa, esbaforida, com os dois filhos pela mão e a caixa de livros debaixo do braço, quase a esfrangalhar-se, e lhe pedira se poderia olhar por eles nesse dia, que a ama tivera que resolver um problema e ela própria tinha uma reunião importante; que não iriam dar muito trabalho, tinham aqueles livros para ler. A caixa, colocada sobre a mesa, ainda lá se encontrava, intacta, quando chegou a hora da partida. Durante o dia passaram-lhe a casa a pente-fino, indagaram sobre tudo e mais alguma coisa, mexeram em quase tudo e ela ia dando em louca, recorda. Levem a caixa dos livros.  Não, ficam cá para a outra vez. Outra vez?! Não!

A história repetia-se, de longe em longe, felizmente. E os livros iam ficando, intocados. As crianças cresceram e os livros ficaram. Intocáveis.

Judite abriu um e, por curiosidade, leu a primeira história: “Um Velho Rei Vaidoso”. Depois ficou a meditar se não seria mais dedicada aos avozinhos do que às crianças, pois que o rei vaidoso só se apercebeu de que era um velho, quando uma criança, que não sabia que ele era rei e, a quem perguntou se sabia quem ele era, lhe respondeu: sois um velho.

Vamos lá ver se a história seguinte, intitulada “Exemplo”, será mais apropriada. Nova estupefacção: um caranguejo velho que ao ver um jovem caranguejo andar de lado lho fez notar, insinuando não serem modos de o fazer, tendo o jovem replicado que igual reparo lhe fazia, pois também ele assim caminhava.

Judite não quer crer; ora que sentido ou que moral têm estas histórias que mostram às crianças como os velhos podem ser estúpidos. Agora compreende porque é que há velhos maltratados; eles é que tiveram a culpa de comprar livros daqueles e dá-los às crianças sem os terem lido primeiro.

Ora vamos lá ainda a outra história: um rato já velho ensinava aos pequenos que não deveriam ter medo, que não tinham que ser uns fugitivos, que encarassem os gatos de frente e nada lhes aconteceria; porém numa dessas aulas apareceu por ali, por acaso e despreocupadamente, um gato e logo, vergonhosamente, contra todo o discurso, o velho professor foi o primeiro a fugir.

E depois dizem que os alunos não respeitam os professores; os que leram esta história certamente que não: na sua ingenuidade e inexperiência poderão ser levados a pensar que assim são.

Judite leu ainda as duas últimas daquele volume, na esperança de que redimissem as anteriores. Em vão: os exemplos não eram melhores nem mais compreensíveis para uma criança, mas muito bem ilustrados, sim, todas as imagens são por demais apelativas.

Ora um livro não pode ser liquidado, muito menos uma dúzia, que a bem da verdade não sabe o que as outras histórias contam, mas livros que induzem os compradores em erro, não podem ir parar às mãozinhas de crianças que já saibam ler. Podem, e devem, sim, com as suas belíssimas ilustrações, servir para contar umas outras histórias às crianças pequenas, servindo-se delas para mais facilmente conduzirem a boas e oportunas histórias e assim que se aproximem da idade em que começam a soletrar, têm que lhes ser subtraídos e entregues a “avozinhos” que não tenham netos, para que não se corra o risco de um dia os lerem, por engano, quando ainda não têm entendimento para fazer a destrinça .

Ficariam muito bem na estante de um lar de idosos para serem lidos pelos netos adultos aos avôs, aquando das visitas, e se já não fizerem proveito ao velho, apesar de dizerem que se aprende até morrer, poderá ainda o neto, já adulto, retirar daí lições.

Judite não sabe ainda bem o que fazer com eles; nunca tinha pensado que inofensivos livros pudessem tornar-se perigosos. Tinham certamente sido escritos para os ditos avozinhos e o ilustrador terá levado em conta que os velhos também gostam de apreciar desenhos muito bem concebidos, mas depois algo terá corrido mal para irem parar, sem filtro, às mãozinhas dos netos.

Judite já não tem vontade de rever os outros; tem receio de ter mais livros perigosos guardados na despesa; talvez seja por isso que lá estão. Por serem perigosos quando mal utilizados. O melhor é não lhes mexer, mas guardar material perigoso na dispensa também não é aconselhável. Às vezes pensa que já não está boa da cabeça, mas também não tem a certeza.

Deve ser de ter lido muitos livros, talvez alguns perigosos também.


 

 


 

 

 


sábado, 10 de abril de 2021

                                           ALETRIA DOCE

Para a avó, Lena era a rapariga que, por sortilégio,  o neto tinha escolhido para namorar, amar, casar, dar-lhe bisnetos. Lena, a rapariga que a avó amaria como neta.

Um dia, como se um prematuro outono estivesse prestes a irromper ou uma verdejante planície se tivesse transformado num inquietante deserto, o neto entristeceu como se um ponto de interrogação se tivesse virado para o lado oposto. Mas não tardou que não voltasse a alegrar-se com a probabilidade posta a caminho de que a existência de outras Lenas era uma ordem da natureza.

Lena, a alva rapariguinha rechonchuda, de longos cabelos negros e encaracolados, de olhar cor de esmeralda, foi sucedida por Leandra, menos alva, menos rechonchuda, cabelo mais curto, menos ondulado e olhar mais aveludado. Leandra. Esta é a Leandra, avó. A avó sorriu, como sorriem as avós: com destemor, e ainda à porta a avó, disse: fiz aletria doce, meu neto, como tu gostas; traz a Lena e venham para a cozinha. Lena? Murmurou, imóvel, Leandra. Não ligues. E foram, para saborear a aletria doce, carregada de canela cheirosa, como tanto gostam o neto e a Lena. Leandra, não. Detesta canela. Mas a coisa remediou-se: o neto comeu a camada superior e passou a taça a Leandra.

A avó observava essa modificação, com qualquer coisa a navegar-lhe na lembrança, e anotou mentalmente, como se tivesse vinte anos: na próxima vez o frasco de canela ficará ao lado.

Os tempos decorrem, atravessando instantes e eternidades, ora lentos, ora lestos, conforme os dias que cada um conta na sua agenda cronológica, o que quer dizer que se encadeavam bastante rápidos para a avó que mal dava por chegar uma quinta-feira, logo ali estava outra, o dia da semana em que o neto costumava passar lá por casa, com a Lena, para degustar a aletria doce. E não se pense que a avó achava que as quintas-feiras se aproximavam umas das outras por considerar as visitas do neto muito próximas; não era nada disso, era mesmo assim, quantos mais anos passavam, mais o tempo corria veloz e não compreendia quando algumas amigas lastimavam o quanto o tempo lhes custava a passar.

O tempo passava agora mais lento desde que o neto deixara de aparecer com a Lena ou antes com a Leandra. Ou talvez fosse o contrário.

Numa quinta-feira, perdida entre outras, em que até o bicho da madeira se calou, o neto reapareceu, folgazão, de mão dada com uma vampe, distante e misteriosa, esguia, metida a modelo. Ana, disse o neto. Não, não gostava de aletria nem doce nem doutra maneira.

Nessa quinta, o neto também vinha sem apetite de aletria; só tinha olhos, e boca, para a Lena. Ana.

Todas as quintas a vida trazia à avó uma alegria maior misturada com um cheiro luminoso: a avó fazia aletria doce, deitava-a numa grande taça de vidro e, ao lado, o pimenteiro transformado em frasco de canela. Sem polvilhar. Nunca se lembrava se a Lena gostava de canela por cima, se gostava com pouca ou com muita.

E começaram a acontecer quintas em que a avó notava que tinha aletria já azeda, ou seca, consoante a tivesse guardado ou não no frigorífico. As quintas, que antes chegavam ainda mais depressa do que os natais e as páscoas, deixaram de acontecer. Foram substituídas por outras, vazias, sem o neto, sem Lena, sem alma, de mãos apertadas pousadas no colo. Essas não, não eram quintas-feiras.

As aletrias iam-se acumulando, secas, no frigorífico e a avó deixou de fazer aletria doce.

Agora as quintas-feiras pareciam não mais acontecer, graves, paradas, sem alma.

Depois, não se sabe em que dia foi, a avó lembrou-se de que os olhos do neto, naquela quinta-feira em que estava sem apetite, tinha os olhos mais cintilantes e a vida cantava através dele, e que a Lena, ou seria a Leandra ou a Ana, não tinha comido a aletria doce. Não gostava.

E foi então que compreendeu que também o neto já não gostava de aletria doce. E que era por isso que ela já não a fazia. Como é que ainda não tinha pensado nisso?! Precisava criar uma nova receita. Queria de volta as quintas-feiras, em que dias mágicos pousavam nos seus ombros, como pássaros em gorjeio numa árvore de canela.

 

    

terça-feira, 6 de abril de 2021

ANSIEDADES DUMA VELHA - XII

No dia 20 de março comemorou-se o Dia Mundial da Felicidade. Judite não deu por nada e já estava a 27.

Dizem que o estado de Felicidade é exatamente esse: a pessoa feliz não se dá conta de que o é; se se questiona é sinal de que só se quer iludir e Judite estaria feliz sem que o tenha sabido; agora que pensa nisso vasculha na memória como terá passado esse dia. Após uma semana, por mais voltas que dê à cabeça não se lembra como foi, sinal de que foi feliz no dia a isso destinado. Talvez esta, a felicidade, lhe tenha calhado em quinhão. Será que foi equitativamente dividida por todos? Põe muitas dúvidas, mas como não costuma ouvir noticiários, mormente o Correio da Manhã, não o pode afirmar; já o ter dúvidas é próprio dos filósofos, se bem que Judite não se conte entre eles; aprecia-os.

Dizem estudos que Portugal é um dos países mais infelizes da Europa. Que se lembre, nunca ninguém lhe perguntou como se sente para fins estatísticos e, quando lho perguntam, é mera cortesia, a menos que a saibam pior do que quem lhe faz a pergunta e, nesse caso, serve ao outro de consolo. Fora isso, os estudos incluem-na onde não devem, como os que apregoam que cada português bebe não sei quantos litros de vinho por ano, consome não sei quantos quilos de carne e de açúcar. Judite interroga-se sempre sobre quem beberá o “seu vinho”, comerá a” sua carne” e lamberá o “seu açúcar”.

Há quem diga que o objetivo da vida é ser-se feliz. E em alcançando a Felicidade, que é uma espécie de enguia que sempre se esgueira por entre os dedos, que faz o indivíduo? Mata-se? Dirão os estudos que é preferível deixá-la escorregar e continuar a perseguir objetivos, que isto de não os ter, nos dias de hoje é coisa de gente sem préstimo. Outros dizem que a Felicidade está à nossa espera, mas onde? Na Terra, no Céu, onde? Mensagem incompleta por incúria ou por a dita não estar interessada em encontros com multidões, que só lhe dão valor enquanto a não possuem, uma característica humana mais específica em determinado sexo em relação a outro.

E quando alvitram que está ao virar da esquina? Qual esquina?  Tanta gente que vive longe das esquinas, para além das da própria casa ou das dos vizinhos, onde a vai procurar? Eufemismos, é o que é.

Que vive dentro de nós. Aí parece mais difícil de  encontra-la do que a verdade no fundo de um poço. Vai a pessoa desventrar-se e o que encontra é tão pouco, o que é que vai fazer com isso? Judite, entretanto, soube que em 23 de novembro se comemorará o Dia de Santa Felicidade; receia que  não tenha qualquer relação com a mesma Felicidade que todos perseguem e que, claro, se esconde: quem é perseguido raramente o é para lhe entregarem a carteira que perdeu, logo, em caso de perseguição, o melhor é esconder-se. Acredita que Santa Felicidade não deve ter tido um bom fim, de contrário não seria Santa. Ainda em março se comemorou também o Dia de Santa Perpétua e Santa Felicidade; pena que sejam santas, as tais com triste fim e martírios, coisa que nunca deveria acontecer a uma santa Felicidade, porque Felicidade aliada a Perpétua, isso sim, é que seria uma Perpétua Felicidade e não uma Felicidade Efémera, a mais comum e conhecida.

 

Judite medita ainda: teria sido feliz?

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 29 de março de 2021

 

ANSIEDADES DUMA VELHA - XI

Judite medita na conversa que teve com um velho colega da escola primária sobre as atuais restrições de mobilidade; rememorava ele que dos quinze aos dezoito anos andava quase sempre por caminhos escusos a evitar encontrar a polícia, ora por se ter esquecido dos documentos da motorizada, ora por não estar a usar o capacete apertado, ora por levar a namorada. Mesmo assim acontecia encontrar a patrulha quando menos esperava e a multa era certa e algumas vezes eram cumulativas: mais uma pessoa além do condutor, falta de documentos e ausência de uso de capacetes ou mal afivelados. Não era fácil ser jovem naqueles tempos. Por vezes também o tubo de escape não estava em condições. Com as luzes, lá isso, tinha muito cuidado, que andava muito de noite: nunca teve multa nenhuma por esse motivo.

Depois do 25 de abril já podia passear livremente com a namorada na motorizada, ambos com capacetes e os documentos sempre na mala dela. Depois tirou carta de condução, comprou o carro e nunca mais fugiu à polícia.

Agora, depois de velho, para sair de casa e levar a mulher que sofre dos nervos a respirar um pouco à beira-mar, o que a torna mais suportável, tem que andar novamente a fugir à polícia para percorrer de carro uns míseros dez quilómetros. Palavra, diz ele, que nunca pensou que passados cinquenta anos isso voltasse a acontecer. Já é muito azar, numa vida só, estas coisas se repetirem.

Judite matuta naquela conversa e não consegue encontrar-lhe sentido: então o Zé Manel para ir de carro com a coitada da mulher, que mal se pode mexer, a serenar um pouco com o ar marinho, tem que fugir à polícia? Alguma coisa não bate certo. Ele não é pessoa para andar metido em drogas nem ter matado alguém. Se calhar também está é maluco, como a mulher. Coitados, ainda os metem a ambos num manicómio. Mas parece que há muito os manicómios tradicionais terão encerrado; não se justificavam quando todo o mundo se tornou um manicómio a céu aberto, onde coabitam lado a lado loucos e sãos. E depois ainda há a dificuldade em distingui-los. Ao que parece fazem turnos: hoje sou eu o maluco, no fim de semana és tu.

E eu? Pensa Judite. Será o meu dia de turno? Já não tenho a certeza e não encontro a escala. Paciência. Outro que o faça; hoje não estou para isso. Farta de malucos estou eu.

segunda-feira, 22 de março de 2021

 

OUTRA DIMENSÃO

Estava intrigada com o sítio para onde vão as coisas que desaparecem depois de as termos visto e utilizado, pouco tempo antes disso acontecer. Se ainda há pouco tivera nas suas mãos o livro de faturas com folhas em triplicado, cada uma da sua cor, não gasto ainda até ao fim e que pelo uso ficara apenas com uma das folhas em maioria, a cor-de-rosa, o que o reduzia o seu volume a um terço, com uma contracapa de cartolina dura.

Era um livro de faturas muito velho, de que decidiu utilizar o verso das folhas rosa para tomar apontamentos como forma de segunda utilização, antes da reciclagem final.

Tinha aí assentado compromissos, com datas e outros pormenores que lhe faziam falta de momento e que lhe tinham tomado algum tempo no intuito de evitar depois outras perdas de tempo a consultar sítios e datas na internet: assim estava ali tão à mão, era só dar uma olhadela e sabia em que ponto tinha o trabalho e quando lhe dar seguimento.

Não tinha saído da secretária desde que precisara dele e o utilizara e passado pouco tempo, ao precisar consultá-lo novamente, tinha-se evaporado.

Na secretária não estava, nem debaixo nem em cima da cadeira, levantou o sofá, vasculhou-o, espreitou debaixo dele, viu se se destacava um rosa entre o amontoado de outros papéis, viu no chão, à volta e mesmo noutros locais da sala menos prováveis, mas mesmo assim não o encontrou. Nada. E não tinha entrado lá ninguém, e muito menos alguém que o tivesse tomado para outro préstimo; que não tinha.

Talvez ausentando-se, o bloco volte ao lugar. Já lhe tinha acontecido antes: algo sumia da vista, mas, aparentemente, sempre ali estivera.  E era essa outra dimensão que a intrigava.

Não que lhe faça confusão haver outras dimensões, que há pessoas que dizem fazer viagens astrais e filmes que mostram heróis repentinamente a viver noutras épocas, tanto do passado como do futuro que, ao que também dizem, essa separação de tempo não existe, mas para a sua cabeça o melhor é que o bloco apareça quanto antes e mais nada. Está a fazer-lhe falta.

Ele está certamente onde estava e não lhe vai pedir satisfações; onde estiveste quando precisei de ti, porque é que sumiste, que entidade te surripiou, para quê, etc. Não, não vai entrar em diálogo com um livro de faturas transformado em bloco de notas ao contrário.

Talvez que não tenha gostado desta nova utilidade, ou por o estar a utilizar nas costas das folhas, que são as que estão limpas, mas a vida é assim, nem sempre se gosta do que nos acontece e como nos acontece.

Se ao livro lhe aconteceu uma aventura, pronto, aconteceu, aconteceu; ela só o quer de volta. Talvez não o abrace. Mas pensando bem, por que não? Pode ser que prefira ser abraçado e se sinta a viver outra aventura. Quem sabe?

Entretanto os apontamentos fazem-lhe falta.

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 16 de março de 2021

 ANSIEDADES DUMA VELHA - VIII

Quando a pandemia começou e se seguiu o primeiro confinamento onde imperava o terror do desconhecido, Judite pensava nas vidas sentimentalmente ameaçadas ou arruinadas, fisicamente separadas e, no entanto, livres para amar à distância.

Já conhecera tempos remotos em que a distância imposta pela guerra colonial separara os que se tinham escolhido para a vida; uns resistiram, outros menos. Com a imigração aconteceu quase outro tanto; quase, porque a decisão, apesar de não poder ser outra, partia de, pelo menos, um dos lados.

 Mas os tempos decorreram e atrás desses outros e outros e chegaram estes em que a vida sentimental e sexual é mais livre e, por que não o dizer, não sabe se libertina e mais acessível, com a facilidade de locomoção e de comunicação. E mais traiçoeira e atraiçoada, para não dizer banalizada: amigo trai melhor amigo, amiga trai melhor amiga. Claro que sempre assim foi, mas parece ter-se banalizado.

Com estes tempos de pandemia, muitas foram as separações, e aqueles que, por fidelidade ou incapacidade de lidar com a situação, não tiveram outro remédio senão pôr os dados na mesa e erguer a bandeira branca a pedir tréguas. Os mais hábeis conseguiram pontos a seu favor e até encontraram algum encanto no que tinham desdenhado, enquanto outros descobriram desencantos por quem se tinham encantado. É a vida, sempre a abrir umas janelas, a fechar outras, a embaciar e a partir algumas, pelo menos numa altura em que as portas tinham que estar fechadas, até que se abriram.

Tantas histórias recompostas, tantas outras amarrotadas entre as rasgadas.

É, sobretudo, no segundo e mais duro confinamento que Judite medita, mormente no confinamento psicológico, sentimental e sexual, nem sempre atenuado pelos práticos meios actuais, e que afectam tanto ou mais do que o físico, em relação ao ambiente interdito.

Quando começa a discorrer mentalmente, Judite perde-se nos labirintos das questões, sem conseguir vislumbrar o modo de como ficarão tantas mentes afetadas muito para além do vírus e das perdas por não vírus, mas devido às limitações  nunca antes conhecidas noutros tempos em que não se podia falar: agora não se poder quase andar.

 

Fev/2021

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 27 de fevereiro de 2021

 

O CONTO FINAL



O velho escritor tinha escrito tanto sobre tão vastas matérias como o são a história, a condição humana ou a filosofia e outros temas ainda menos palpáveis que não sabia sobre o que iria escrever naquele dia. Lançou a última folha branca na velha máquina de escrever quase tão antiga quanto ele e fixou-a, aguardando uma ideia peregrina. O tempo passava e a alva folha, na sua virgindade imaculada, começou a ficar lívida, a tremer, temendo pelo seu futuro. Que iria acontecer a uma folha de ponto em branco, prontinha a receber os caracteres, as palavras, as frases, as ideias. O velho escritor não saía da sua imobilidade e a folha tanto se esperançava de cumprir a sua missão, como temia um destino fatal, como vira sucedera a tantas suas irmãs, amarrotadas, rasgadas e lançadas no cesto de papéis, aquele malvado devorador insaciável de folhas de papel que chegava a regurgitá-las, por excesso. 

E o velho escritor que não se decidia e a fitava com um olhar estranho. A folha teve um sobressalto, seguido dum arrepio: velho escritor que tanto escrevera, estava morto frente à folha branca, que mais uma vez estremeceu. Temia o pavoroso caixote do lixo, mas temia mais ainda ficar para sempre aprisionada na velha máquina de escrever. E teve uma epifania. Seria ela a escrever; afinal era a última folha e já tinha visto tanto. A própria máquina conhecia todas as palavras que o velho tinha teclado: velhas palavras, novas palavras, palavras que o velho escritor inventara e outras que a própria máquina criara. 

Quando encontraram o velho escritor morto defronte da folha que ele fixava ainda, com os olhos já vidrados, leram o seguinte: O HOMEM NASCE, CRESCE E MORRE. 

No canto inferior direito da página encontraram ainda um ponto final.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021



ANSIEDADES DUMA VELHA - X 

Pedro Henrique precisa de sair um pouco de casa porque a mulher exerce violência doméstica sobre ele, obrigando-o a limpar a banheira uma vez por semana, a colocar a louça na máquina após as refeições e, em dias acinzentados, a vigiar as nuvens não vá alguma ser acometida subitamente por uma necessidade vital e molhar a roupa, quase seca, no estendal. 
Um homem quando está 100% em Lay off ter de trabalhar em casa é muito violento. Daí que, de vez em quando, tenha de dar uma escapadela à casa da amiga, com quem mantinha uma ligação para além de afetuosa quando ambos estavam a trabalhar. Felizmente não é muito longe e tem sempre a desculpa de ir passear a trela do cão. Também felizmente, que nestas coisas há sempre mais do que um lado bom, o marido da amiga tem continuado a trabalhar todos os dias, porém nessa malfadada tarde, que há sempre um lado negro que vem estragar tudo, voltou inesperadamente cedo: iria começar em teletrabalho e aconteceu o que não devia ter acontecido; apanhou-o de calças na mão. Isto é só um modo de dizer; ainda conseguiu pular da janela das traseiras sem que o outro o visse, o que foi uma sorte para ambos, melhor dizendo, para os três, em especial para ele por ser um rés do chão, não haver ali nenhuma roseira nem cão. E ainda teve mais um bocadinho de sorte, que foi ela ter tido tempo e o discernimento de lhe atirar a camisa e os sapatos janela fora. 
Esperemos que tenha o mesmo discernimento quando o marido lhe perguntar, o que faz aqui uma trela. Tem várias hipóteses, não vamos levantar todas: vamos pela mais simples: marido, prevendo que mais dia menos dia virias trabalhar em casa, apressei-me a comprá-la para passeares o cão e assim manteres a linha. E onde está o cão? Sobre este assunto, fiquemos por aqui, não vá a coisa azedar, presumindo que o homem não terá grande sentido de humor, de contrário ela não teria necessidade de se meter onde se meteu. Pedro Henrique voltou sem trela, ignorando-se se alguma vez a terá usado à laia de chicote, nem que fosse só a fingir. Se a mulher o indagar por essa falta, e apenas por essa, o cão teria corrido atrás de uma fêmea arrastando consigo a trela presa à coleira. As mulheres têm sempre mais sentido de humor. Esperemos que tenha sido o caso. Sem trela; mas pior que tudo, sem cuecas nem peúgas. Mesmo assim cheio de sorte: em casa há mais e talvez a mulher não venha a dar por falta delas. Pior seria se não pudesse entrar em casa; teria de andar, sabe-se lá por quanto tempo, sem essas peças fundamentais. Judite não se lembra quem lhe terá contado este episódio rocambolesco e também não se lembra se ouviu dizer, se leu na net ou se foi outra coisa qualquer, que a venda de vestuário está suspensa e pensa consigo que já não está boa da cabeça. Parece também ter visto um vídeo em que um homem, um segurança numa empresa pública, vai comprar o almoço num sítio de comida rápida, tem de comer numa escadaria exterior de um prédio e que muitas vezes fica embaçado por falta de líquido que o ajude a deglutir; onde compra a comida não lhe podem vender sequer uma garrafinha de água para empurrar o almoço: só se for comprá-la ao supermercado, que fica longe e a hora do almoço passa depressa. Judite fica mesmo aflita consigo: não está nada bem. Ora como é que tal coisa poderia acontecer? Um dia destes o homem morre engasgado na via pública e depois vai para a estatística Covid. É verdade que o mundo está maluco, mas não tanto que um cidadão não possa comprar um par de cuecas, um par de peúgas ou uma garrafa de água. O melhor é ir dormir, talvez amanhã esta confusão de cabeça tenha passado e o mundo também esteja mais lúcido.


 

 

 

 

 

 

 

 


terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

 

ANSIEDADES DUMA VELHA - IX

São assuntos que a bem dizer já não deveriam ocupar a cabeça duma velha, mas mesmo sem ela perceber porquê ocupam.

É que há jovens que troçam de coisas obsoletas na perspectiva deles, mas que alguns velhos ainda preservam e usam, quer se trate de objectos ou de hábitos, porém àqueles  só lhes serve de risota. Até mesmo o sexo, para uma determinada faixa de jovens, não faz qualquer  sentido; o que faz sentido é o telemóvel donde até sexo podem obter, que a não ser assim doutra maneira “dá muito trabalho” e para quem como eles está envolvido na revolução tecnológica, há que não perder tempo com animalidades e chatices.

Foi aí que Judite meditou numa geração, talvez muito próxima, em que os futuros jovens, mesmo assim, irão troçar destes, talvez dizendo: Ah, ah, que ridículo que era dois indivíduos  de sexo oposto terem que se engalfinhar para vocês nascerem. Já vimos filmes e eram bem ridículos. Nós não; nós nascemos no laboratório e nunca vamos ter pais velhos para aturar e depois de muito velhos mudar-lhes as fraldas e aturar-lhes a senilidade.

Enfim, talvez sós e revoltados, como acontece em todas as gerações, mas a juventude é uma doença curável e com muito raras recaídas.

Judite deu por si a ter estes pensamentos, como se este assunto lhe importasse muito, mas a realidade é que há com cada pensamento a atacá-la, que se lhes dá  rédea até se assusta com os disparates que se lhe deparam. Velhos! Jovens! Sexo! Para que lhe havia de dar …

 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

 As incertezas


Ainda ontem, antes da pandemia, as incertezas eram só para alguns; para os fracos, para os doentes, para os pobres,  a incerteza do trabalho, do tratamento, da fome, do pão. Hoje outras incertezas se lhes juntaram.
É verdade que a certeza do amanhã nunca existiu, contudo "existia" para uma multidão de privilegiados. Hoje, esses mesmos, apesar de não se sentirem tocados pela incerteza do pão, convivem  com a realidade que é a vida.  
A incerteza sempre aqui esteve, visível para alguns, e a máscara, ironicamente, tornou-a visível para (quase) todos.

20 de Abril de 20