ANDIEDADES
DE UMA VELHA – XVII – O "dono" do contentor
Quando
se fala de entulho, ainda vem à memória de Judite o dia em que foi ao Ecocentro
depositar antigos restos de obras, encobertos no jardim por plantas trepadeiras
que, com rapidez deram conta do que parece ser o seu propósito: cobrir tudo o
que encontram no caminho do seu crescimento. Judite acredita que deixou que tal acontecesse
por uma espécie de desleixo, mas o certo é que não tinha oportunidade nos “remotos”
tempos de passeios frequentes, excursões, almoços, exposições e danças.
Foi
a prodigiosa pandemia que lhe proporcionou o ensejo de podar as trepadeiras e
encontrou, tal tesouro esquecido, um montão de cacos, pedaços de tijolos,
calhaus e argamassa esculpida em formas desinteressantes. O achado encheu-lhe um dos modernos e
avantajados sacos de compras, que verificou não poder transportar. Dividiu,
então, o conteúdo por outro, ainda assim
bem pesados, mas transportáveis.
Sabendo
da existência de um ecoponto nas proximidades, consultou o horário na internet
e decidiu livrar-se do inestético entulho no jardim, logo no dia seguinte.
Considerou telefonar antecipadamente a prevenir do seu intento, mas não estava
totalmente certa de o conseguir realizar, nem sempre os velhos ossos lhe permitem
concretizar planos e talvez fosse ridículo colocar o funcionário na expectativa
de uma tonelada de resíduos de construção civil e surgir com dois sacos de
supermercado meio-cheios, ou meio-vazios, conforme a capacidade física de quem lhes
tomasse o peso.
O
dia amanheceu quente, por isso Judite resolveu ir cedo. Ao pretender colocar os
sacos no porta-bagagens verificou o quanto lhe era penoso; pegou num balde,
retirou algum peso de cada um dos sacos e assim as três vasilhas ficaram mais transportáveis.
Antes
das nove já lá estava junto ao portão; dali seguiria para uma consulta de
fisioterapia, já agendada e, se o velho esqueleto o permitisse, faria ainda umas
compras.
Dentro
do carro, assistiu à chegada de uma moderna motoreta que combinava com o bem-parecido funcionário que a conduzia,
feições de origem indiana, que lhe fez um gesto cordial, enquanto retirava o
reluzente capacete, como quem diz que aguarde um pouco; faltavam ainda cerca de
cinco minutos para a abertura. Pontualmente às nove, o funcionário abriu o
portão de ferro forjado, com a deferência de quem abre as portas de um palácio
e fez o gesto de que entrasse com o carro. Após a entrada do carro no terreiro,
cumpriu ao funcionário informar Judite de que o contentor estava cheio e que
não poderia recolher o entulho. Nesse momento, Judite desejou aniquilá-lo: elevou
a voz, como aliás é hábito dos portugueses proceder ao falarem com estrangeiros,
mesmo quando não estão zangados, e respondeu-lhe: _Não! Se me autorizou a entrar com o carro,
não me vai agora fazer voltar para casa com a carga!
Exaltada, conduziu até ao contentor a escassos
três metros. O funcionário, gesticulando que não o podia permitir e Judite
repetindo-lhe:_ Não! Não me vai fazer isso! _ abriu o porta-bagagens e, com uma
energia que certamente teria de reserva para tais ocasiões, pegou num dos sacos
como se fosse uma pena e despejou-o nos interstícios vazios do contentor.
O
funcionário, cumpridor das suas obrigações, telefonou ao responsável, dizendo
que Judite estava a desobedecer às suas ordens e a “falar mal”.
Judite
retirou o outro saco e, continuando a “falar mal” na óptica do funcionário, esvaziou-o
como o anterior. O zeloso funcionário pretendeu que Júdice falasse com o
encarregado; claro que ela não o quis ouvir, não tinha nada para ouvir, mas sim
para dizer, e disse, que não ia voltar com o carro carregado e ocupado com meia
dúzia de cacos, o carro era pequeno e precisava do espaço para as compras, não
levaria tal mercadoria a passear durante trinta quilómetros e que iria descarregar ainda um balde. Não
soube o que o encarregado respondeu: o que ela não faria era voltar para casa e
descarregar o que tanto trabalho lhe dera a carregar, mesmo sendo pouco.
Antes
de partir, perguntou ao funcionário que impropério é que ela lhe chamara, para
o levar a transmitir ao responsável que estava a “falar mal”.
_ Que nome é que lhe chamei_ perguntou,
irritada, já que não tinha por hábito recorrer a insultos. _ Vá, diga lá!
Quase
com o rabo entre as pernas, o “pobre” funcionário, titubeou: _ Não, não…
Judite percebeu o que ele quereria dizer, mas
não soube, não tinha vocabulário: era que Judite estava zangada e falava muito
alto.
Não
é preciso ter imigrado, para se saber que, nem sempre, o imigrante encontra o
termo adequado na altura em que precisa dele. Mesmo a ela isso lhe aconte com
mais frequência com que desejaria. Mas isso Judite desculpou; o que não
desculpou, e infelizmente acontece com muita gente, que como sabemos, é igual
em toda a parte, foi não a ter informado logo, antes de a autorizar a entrar
com o carro, mas já na altura em que Judite estava convicta de que se ia livrar do lixo. Se a
tivesse informado de antemão, teria voltado para casa carregada, contrariada,
mas conformada, e voltaria no dia que lhe indicasse.
Judite,
neste caso, aplica um ditado mais velho do que ela:” se queres ver um pobre soberbo,
dá-lhe a chave de um palheiro”. Talvez com um pouco de sadismo à mistura e a
sensação embriagadora do poder, seja ele qual for.
Pode
ser que a indignação de Judite tenha servido de aprendizagem ao aperaltado
funcionário, e não volte a mostrar a cenoura se não tiver intenção de a dar a
comer. E para ela também: se voltar a precisar, não voltará ao Econcentro sem que
antes se informe se a cenoura está disponível.