sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021



ANSIEDADES DUMA VELHA - X 

Pedro Henrique precisa de sair um pouco de casa porque a mulher exerce violência doméstica sobre ele, obrigando-o a limpar a banheira uma vez por semana, a colocar a louça na máquina após as refeições e, em dias acinzentados, a vigiar as nuvens não vá alguma ser acometida subitamente por uma necessidade vital e molhar a roupa, quase seca, no estendal. 
Um homem quando está 100% em Lay off ter de trabalhar em casa é muito violento. Daí que, de vez em quando, tenha de dar uma escapadela à casa da amiga, com quem mantinha uma ligação para além de afetuosa quando ambos estavam a trabalhar. Felizmente não é muito longe e tem sempre a desculpa de ir passear a trela do cão. Também felizmente, que nestas coisas há sempre mais do que um lado bom, o marido da amiga tem continuado a trabalhar todos os dias, porém nessa malfadada tarde, que há sempre um lado negro que vem estragar tudo, voltou inesperadamente cedo: iria começar em teletrabalho e aconteceu o que não devia ter acontecido; apanhou-o de calças na mão. Isto é só um modo de dizer; ainda conseguiu pular da janela das traseiras sem que o outro o visse, o que foi uma sorte para ambos, melhor dizendo, para os três, em especial para ele por ser um rés do chão, não haver ali nenhuma roseira nem cão. E ainda teve mais um bocadinho de sorte, que foi ela ter tido tempo e o discernimento de lhe atirar a camisa e os sapatos janela fora. 
Esperemos que tenha o mesmo discernimento quando o marido lhe perguntar, o que faz aqui uma trela. Tem várias hipóteses, não vamos levantar todas: vamos pela mais simples: marido, prevendo que mais dia menos dia virias trabalhar em casa, apressei-me a comprá-la para passeares o cão e assim manteres a linha. E onde está o cão? Sobre este assunto, fiquemos por aqui, não vá a coisa azedar, presumindo que o homem não terá grande sentido de humor, de contrário ela não teria necessidade de se meter onde se meteu. Pedro Henrique voltou sem trela, ignorando-se se alguma vez a terá usado à laia de chicote, nem que fosse só a fingir. Se a mulher o indagar por essa falta, e apenas por essa, o cão teria corrido atrás de uma fêmea arrastando consigo a trela presa à coleira. As mulheres têm sempre mais sentido de humor. Esperemos que tenha sido o caso. Sem trela; mas pior que tudo, sem cuecas nem peúgas. Mesmo assim cheio de sorte: em casa há mais e talvez a mulher não venha a dar por falta delas. Pior seria se não pudesse entrar em casa; teria de andar, sabe-se lá por quanto tempo, sem essas peças fundamentais. Judite não se lembra quem lhe terá contado este episódio rocambolesco e também não se lembra se ouviu dizer, se leu na net ou se foi outra coisa qualquer, que a venda de vestuário está suspensa e pensa consigo que já não está boa da cabeça. Parece também ter visto um vídeo em que um homem, um segurança numa empresa pública, vai comprar o almoço num sítio de comida rápida, tem de comer numa escadaria exterior de um prédio e que muitas vezes fica embaçado por falta de líquido que o ajude a deglutir; onde compra a comida não lhe podem vender sequer uma garrafinha de água para empurrar o almoço: só se for comprá-la ao supermercado, que fica longe e a hora do almoço passa depressa. Judite fica mesmo aflita consigo: não está nada bem. Ora como é que tal coisa poderia acontecer? Um dia destes o homem morre engasgado na via pública e depois vai para a estatística Covid. É verdade que o mundo está maluco, mas não tanto que um cidadão não possa comprar um par de cuecas, um par de peúgas ou uma garrafa de água. O melhor é ir dormir, talvez amanhã esta confusão de cabeça tenha passado e o mundo também esteja mais lúcido.


 

 

 

 

 

 

 

 


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