O CONTO FINAL
O velho escritor tinha escrito tanto sobre tão vastas matérias como o são a história, a condição humana ou a filosofia e outros temas ainda menos palpáveis que não sabia sobre o que iria escrever naquele dia. Lançou a última folha branca na velha máquina de escrever quase tão antiga quanto ele e fixou-a, aguardando uma ideia peregrina. O tempo passava e a alva folha, na sua virgindade imaculada, começou a ficar lívida, a tremer, temendo pelo seu futuro. Que iria acontecer a uma folha de ponto em branco, prontinha a receber os caracteres, as palavras, as frases, as ideias. O velho escritor não saía da sua imobilidade e a folha tanto se esperançava de cumprir a sua missão, como temia um destino fatal, como vira sucedera a tantas suas irmãs, amarrotadas, rasgadas e lançadas no cesto de papéis, aquele malvado devorador insaciável de folhas de papel que chegava a regurgitá-las, por excesso.
E o velho escritor que não se decidia e a fitava com um olhar estranho. A folha teve um sobressalto, seguido dum arrepio: velho escritor que tanto escrevera, estava morto frente à folha branca, que mais uma vez estremeceu. Temia o pavoroso caixote do lixo, mas temia mais ainda ficar para sempre aprisionada na velha máquina de escrever. E teve uma epifania. Seria ela a escrever; afinal era a última folha e já tinha visto tanto. A própria máquina conhecia todas as palavras que o velho tinha teclado: velhas palavras, novas palavras, palavras que o velho escritor inventara e outras que a própria máquina criara.
Quando encontraram o velho escritor morto defronte da folha que ele fixava ainda, com os olhos já vidrados, leram o seguinte: O HOMEM NASCE, CRESCE E MORRE.
No canto inferior direito da página encontraram ainda um ponto final.
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