ANSIEDADES DUMA VELHA - VIII
Quando a pandemia começou e se seguiu o primeiro
confinamento onde imperava o terror do desconhecido, Judite pensava nas vidas
sentimentalmente ameaçadas ou arruinadas, fisicamente separadas e, no entanto,
livres para amar à distância.
Já conhecera tempos remotos em que a distância imposta pela
guerra colonial separara os que se tinham escolhido para a vida; uns resistiram,
outros menos. Com a imigração aconteceu quase outro tanto; quase, porque a
decisão, apesar de não poder ser outra, partia de, pelo menos, um dos lados.
Mas os tempos
decorreram e atrás desses outros e outros e chegaram estes em que a vida
sentimental e sexual é mais livre e, por que não o dizer, não sabe se libertina
e mais acessível, com a facilidade de locomoção e de comunicação. E mais
traiçoeira e atraiçoada, para não dizer banalizada: amigo trai melhor amigo,
amiga trai melhor amiga. Claro que sempre assim foi, mas parece ter-se
banalizado.
Com estes tempos de pandemia, muitas foram as separações, e aqueles
que, por fidelidade ou incapacidade de lidar com a situação, não tiveram outro
remédio senão pôr os dados na mesa e erguer a bandeira branca a pedir tréguas. Os
mais hábeis conseguiram pontos a seu favor e até encontraram algum encanto no
que tinham desdenhado, enquanto outros descobriram desencantos por quem se
tinham encantado. É a vida, sempre a abrir umas janelas, a fechar outras, a embaciar
e a partir algumas, pelo menos numa altura em que as portas tinham que estar
fechadas, até que se abriram.
Tantas histórias recompostas, tantas outras amarrotadas
entre as rasgadas.
É, sobretudo, no segundo e mais duro confinamento que Judite
medita, mormente no confinamento psicológico, sentimental e sexual, nem sempre
atenuado pelos práticos meios actuais, e que afectam tanto ou mais do que o físico,
em relação ao ambiente interdito.
Quando começa a discorrer mentalmente, Judite perde-se nos
labirintos das questões, sem conseguir vislumbrar o modo de como ficarão tantas
mentes afetadas muito para além do vírus e das perdas por não vírus, mas devido
às limitações nunca antes conhecidas noutros tempos em que não se podia falar: agora
não se poder quase andar.
Fev/2021
Sem comentários:
Enviar um comentário