terça-feira, 16 de março de 2021

 ANSIEDADES DUMA VELHA - VIII

Quando a pandemia começou e se seguiu o primeiro confinamento onde imperava o terror do desconhecido, Judite pensava nas vidas sentimentalmente ameaçadas ou arruinadas, fisicamente separadas e, no entanto, livres para amar à distância.

Já conhecera tempos remotos em que a distância imposta pela guerra colonial separara os que se tinham escolhido para a vida; uns resistiram, outros menos. Com a imigração aconteceu quase outro tanto; quase, porque a decisão, apesar de não poder ser outra, partia de, pelo menos, um dos lados.

 Mas os tempos decorreram e atrás desses outros e outros e chegaram estes em que a vida sentimental e sexual é mais livre e, por que não o dizer, não sabe se libertina e mais acessível, com a facilidade de locomoção e de comunicação. E mais traiçoeira e atraiçoada, para não dizer banalizada: amigo trai melhor amigo, amiga trai melhor amiga. Claro que sempre assim foi, mas parece ter-se banalizado.

Com estes tempos de pandemia, muitas foram as separações, e aqueles que, por fidelidade ou incapacidade de lidar com a situação, não tiveram outro remédio senão pôr os dados na mesa e erguer a bandeira branca a pedir tréguas. Os mais hábeis conseguiram pontos a seu favor e até encontraram algum encanto no que tinham desdenhado, enquanto outros descobriram desencantos por quem se tinham encantado. É a vida, sempre a abrir umas janelas, a fechar outras, a embaciar e a partir algumas, pelo menos numa altura em que as portas tinham que estar fechadas, até que se abriram.

Tantas histórias recompostas, tantas outras amarrotadas entre as rasgadas.

É, sobretudo, no segundo e mais duro confinamento que Judite medita, mormente no confinamento psicológico, sentimental e sexual, nem sempre atenuado pelos práticos meios actuais, e que afectam tanto ou mais do que o físico, em relação ao ambiente interdito.

Quando começa a discorrer mentalmente, Judite perde-se nos labirintos das questões, sem conseguir vislumbrar o modo de como ficarão tantas mentes afetadas muito para além do vírus e das perdas por não vírus, mas devido às limitações  nunca antes conhecidas noutros tempos em que não se podia falar: agora não se poder quase andar.

 

Fev/2021

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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