segunda-feira, 29 de março de 2021

 

ANSIEDADES DUMA VELHA - XI

Judite medita na conversa que teve com um velho colega da escola primária sobre as atuais restrições de mobilidade; rememorava ele que dos quinze aos dezoito anos andava quase sempre por caminhos escusos a evitar encontrar a polícia, ora por se ter esquecido dos documentos da motorizada, ora por não estar a usar o capacete apertado, ora por levar a namorada. Mesmo assim acontecia encontrar a patrulha quando menos esperava e a multa era certa e algumas vezes eram cumulativas: mais uma pessoa além do condutor, falta de documentos e ausência de uso de capacetes ou mal afivelados. Não era fácil ser jovem naqueles tempos. Por vezes também o tubo de escape não estava em condições. Com as luzes, lá isso, tinha muito cuidado, que andava muito de noite: nunca teve multa nenhuma por esse motivo.

Depois do 25 de abril já podia passear livremente com a namorada na motorizada, ambos com capacetes e os documentos sempre na mala dela. Depois tirou carta de condução, comprou o carro e nunca mais fugiu à polícia.

Agora, depois de velho, para sair de casa e levar a mulher que sofre dos nervos a respirar um pouco à beira-mar, o que a torna mais suportável, tem que andar novamente a fugir à polícia para percorrer de carro uns míseros dez quilómetros. Palavra, diz ele, que nunca pensou que passados cinquenta anos isso voltasse a acontecer. Já é muito azar, numa vida só, estas coisas se repetirem.

Judite matuta naquela conversa e não consegue encontrar-lhe sentido: então o Zé Manel para ir de carro com a coitada da mulher, que mal se pode mexer, a serenar um pouco com o ar marinho, tem que fugir à polícia? Alguma coisa não bate certo. Ele não é pessoa para andar metido em drogas nem ter matado alguém. Se calhar também está é maluco, como a mulher. Coitados, ainda os metem a ambos num manicómio. Mas parece que há muito os manicómios tradicionais terão encerrado; não se justificavam quando todo o mundo se tornou um manicómio a céu aberto, onde coabitam lado a lado loucos e sãos. E depois ainda há a dificuldade em distingui-los. Ao que parece fazem turnos: hoje sou eu o maluco, no fim de semana és tu.

E eu? Pensa Judite. Será o meu dia de turno? Já não tenho a certeza e não encontro a escala. Paciência. Outro que o faça; hoje não estou para isso. Farta de malucos estou eu.

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