terça-feira, 6 de abril de 2021

ANSIEDADES DUMA VELHA - XII

No dia 20 de março comemorou-se o Dia Mundial da Felicidade. Judite não deu por nada e já estava a 27.

Dizem que o estado de Felicidade é exatamente esse: a pessoa feliz não se dá conta de que o é; se se questiona é sinal de que só se quer iludir e Judite estaria feliz sem que o tenha sabido; agora que pensa nisso vasculha na memória como terá passado esse dia. Após uma semana, por mais voltas que dê à cabeça não se lembra como foi, sinal de que foi feliz no dia a isso destinado. Talvez esta, a felicidade, lhe tenha calhado em quinhão. Será que foi equitativamente dividida por todos? Põe muitas dúvidas, mas como não costuma ouvir noticiários, mormente o Correio da Manhã, não o pode afirmar; já o ter dúvidas é próprio dos filósofos, se bem que Judite não se conte entre eles; aprecia-os.

Dizem estudos que Portugal é um dos países mais infelizes da Europa. Que se lembre, nunca ninguém lhe perguntou como se sente para fins estatísticos e, quando lho perguntam, é mera cortesia, a menos que a saibam pior do que quem lhe faz a pergunta e, nesse caso, serve ao outro de consolo. Fora isso, os estudos incluem-na onde não devem, como os que apregoam que cada português bebe não sei quantos litros de vinho por ano, consome não sei quantos quilos de carne e de açúcar. Judite interroga-se sempre sobre quem beberá o “seu vinho”, comerá a” sua carne” e lamberá o “seu açúcar”.

Há quem diga que o objetivo da vida é ser-se feliz. E em alcançando a Felicidade, que é uma espécie de enguia que sempre se esgueira por entre os dedos, que faz o indivíduo? Mata-se? Dirão os estudos que é preferível deixá-la escorregar e continuar a perseguir objetivos, que isto de não os ter, nos dias de hoje é coisa de gente sem préstimo. Outros dizem que a Felicidade está à nossa espera, mas onde? Na Terra, no Céu, onde? Mensagem incompleta por incúria ou por a dita não estar interessada em encontros com multidões, que só lhe dão valor enquanto a não possuem, uma característica humana mais específica em determinado sexo em relação a outro.

E quando alvitram que está ao virar da esquina? Qual esquina?  Tanta gente que vive longe das esquinas, para além das da própria casa ou das dos vizinhos, onde a vai procurar? Eufemismos, é o que é.

Que vive dentro de nós. Aí parece mais difícil de  encontra-la do que a verdade no fundo de um poço. Vai a pessoa desventrar-se e o que encontra é tão pouco, o que é que vai fazer com isso? Judite, entretanto, soube que em 23 de novembro se comemorará o Dia de Santa Felicidade; receia que  não tenha qualquer relação com a mesma Felicidade que todos perseguem e que, claro, se esconde: quem é perseguido raramente o é para lhe entregarem a carteira que perdeu, logo, em caso de perseguição, o melhor é esconder-se. Acredita que Santa Felicidade não deve ter tido um bom fim, de contrário não seria Santa. Ainda em março se comemorou também o Dia de Santa Perpétua e Santa Felicidade; pena que sejam santas, as tais com triste fim e martírios, coisa que nunca deveria acontecer a uma santa Felicidade, porque Felicidade aliada a Perpétua, isso sim, é que seria uma Perpétua Felicidade e não uma Felicidade Efémera, a mais comum e conhecida.

 

Judite medita ainda: teria sido feliz?

 

 

 

 

 

 

 

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