sábado, 10 de abril de 2021

                                           ALETRIA DOCE

Para a avó, Lena era a rapariga que, por sortilégio,  o neto tinha escolhido para namorar, amar, casar, dar-lhe bisnetos. Lena, a rapariga que a avó amaria como neta.

Um dia, como se um prematuro outono estivesse prestes a irromper ou uma verdejante planície se tivesse transformado num inquietante deserto, o neto entristeceu como se um ponto de interrogação se tivesse virado para o lado oposto. Mas não tardou que não voltasse a alegrar-se com a probabilidade posta a caminho de que a existência de outras Lenas era uma ordem da natureza.

Lena, a alva rapariguinha rechonchuda, de longos cabelos negros e encaracolados, de olhar cor de esmeralda, foi sucedida por Leandra, menos alva, menos rechonchuda, cabelo mais curto, menos ondulado e olhar mais aveludado. Leandra. Esta é a Leandra, avó. A avó sorriu, como sorriem as avós: com destemor, e ainda à porta a avó, disse: fiz aletria doce, meu neto, como tu gostas; traz a Lena e venham para a cozinha. Lena? Murmurou, imóvel, Leandra. Não ligues. E foram, para saborear a aletria doce, carregada de canela cheirosa, como tanto gostam o neto e a Lena. Leandra, não. Detesta canela. Mas a coisa remediou-se: o neto comeu a camada superior e passou a taça a Leandra.

A avó observava essa modificação, com qualquer coisa a navegar-lhe na lembrança, e anotou mentalmente, como se tivesse vinte anos: na próxima vez o frasco de canela ficará ao lado.

Os tempos decorrem, atravessando instantes e eternidades, ora lentos, ora lestos, conforme os dias que cada um conta na sua agenda cronológica, o que quer dizer que se encadeavam bastante rápidos para a avó que mal dava por chegar uma quinta-feira, logo ali estava outra, o dia da semana em que o neto costumava passar lá por casa, com a Lena, para degustar a aletria doce. E não se pense que a avó achava que as quintas-feiras se aproximavam umas das outras por considerar as visitas do neto muito próximas; não era nada disso, era mesmo assim, quantos mais anos passavam, mais o tempo corria veloz e não compreendia quando algumas amigas lastimavam o quanto o tempo lhes custava a passar.

O tempo passava agora mais lento desde que o neto deixara de aparecer com a Lena ou antes com a Leandra. Ou talvez fosse o contrário.

Numa quinta-feira, perdida entre outras, em que até o bicho da madeira se calou, o neto reapareceu, folgazão, de mão dada com uma vampe, distante e misteriosa, esguia, metida a modelo. Ana, disse o neto. Não, não gostava de aletria nem doce nem doutra maneira.

Nessa quinta, o neto também vinha sem apetite de aletria; só tinha olhos, e boca, para a Lena. Ana.

Todas as quintas a vida trazia à avó uma alegria maior misturada com um cheiro luminoso: a avó fazia aletria doce, deitava-a numa grande taça de vidro e, ao lado, o pimenteiro transformado em frasco de canela. Sem polvilhar. Nunca se lembrava se a Lena gostava de canela por cima, se gostava com pouca ou com muita.

E começaram a acontecer quintas em que a avó notava que tinha aletria já azeda, ou seca, consoante a tivesse guardado ou não no frigorífico. As quintas, que antes chegavam ainda mais depressa do que os natais e as páscoas, deixaram de acontecer. Foram substituídas por outras, vazias, sem o neto, sem Lena, sem alma, de mãos apertadas pousadas no colo. Essas não, não eram quintas-feiras.

As aletrias iam-se acumulando, secas, no frigorífico e a avó deixou de fazer aletria doce.

Agora as quintas-feiras pareciam não mais acontecer, graves, paradas, sem alma.

Depois, não se sabe em que dia foi, a avó lembrou-se de que os olhos do neto, naquela quinta-feira em que estava sem apetite, tinha os olhos mais cintilantes e a vida cantava através dele, e que a Lena, ou seria a Leandra ou a Ana, não tinha comido a aletria doce. Não gostava.

E foi então que compreendeu que também o neto já não gostava de aletria doce. E que era por isso que ela já não a fazia. Como é que ainda não tinha pensado nisso?! Precisava criar uma nova receita. Queria de volta as quintas-feiras, em que dias mágicos pousavam nos seus ombros, como pássaros em gorjeio numa árvore de canela.

 

    

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