OUTRA
DIMENSÃO
Estava intrigada
com o sítio para onde vão as coisas que desaparecem depois de as termos visto e
utilizado, pouco tempo antes disso acontecer. Se ainda há pouco tivera nas suas
mãos o livro de faturas com folhas em triplicado, cada uma da sua cor, não
gasto ainda até ao fim e que pelo uso ficara apenas com uma das folhas em
maioria, a cor-de-rosa, o que o reduzia o seu volume a um terço, com uma contracapa
de cartolina dura.
Era um livro de
faturas muito velho, de que decidiu utilizar o verso das folhas rosa para tomar
apontamentos como forma de segunda utilização, antes da reciclagem final.
Tinha aí
assentado compromissos, com datas e outros pormenores que lhe faziam falta de
momento e que lhe tinham tomado algum tempo no intuito de evitar depois outras
perdas de tempo a consultar sítios e datas na internet: assim estava ali tão à
mão, era só dar uma olhadela e sabia em que ponto tinha o trabalho e quando lhe
dar seguimento.
Não tinha saído da
secretária desde que precisara dele e o utilizara e passado pouco tempo, ao
precisar consultá-lo novamente, tinha-se evaporado.
Na secretária
não estava, nem debaixo nem em cima da cadeira, levantou o sofá, vasculhou-o,
espreitou debaixo dele, viu se se destacava um rosa entre o amontoado de outros
papéis, viu no chão, à volta e mesmo noutros locais da sala menos prováveis, mas
mesmo assim não o encontrou. Nada. E não tinha entrado lá ninguém, e muito
menos alguém que o tivesse tomado para outro préstimo; que não tinha.
Talvez
ausentando-se, o bloco volte ao lugar. Já lhe tinha acontecido antes: algo
sumia da vista, mas, aparentemente, sempre ali estivera. E era essa outra dimensão que a intrigava.
Não que lhe faça
confusão haver outras dimensões, que há pessoas que dizem fazer viagens astrais
e filmes que mostram heróis repentinamente a viver noutras épocas, tanto do
passado como do futuro que, ao que também dizem, essa separação de tempo não
existe, mas para a sua cabeça o melhor é que o bloco apareça quanto antes e
mais nada. Está a fazer-lhe falta.
Ele está certamente
onde estava e não lhe vai pedir satisfações; onde estiveste quando precisei de
ti, porque é que sumiste, que entidade te surripiou, para quê, etc. Não, não
vai entrar em diálogo com um livro de faturas transformado em bloco de notas ao
contrário.
Talvez que não
tenha gostado desta nova utilidade, ou por o estar a utilizar nas costas das
folhas, que são as que estão limpas, mas a vida é assim, nem sempre se gosta do
que nos acontece e como nos acontece.
Se ao livro lhe
aconteceu uma aventura, pronto, aconteceu, aconteceu; ela só o quer de volta. Talvez
não o abrace. Mas pensando bem, por que não? Pode ser que prefira ser abraçado e
se sinta a viver outra aventura. Quem sabe?
Entretanto os
apontamentos fazem-lhe falta.
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