segunda-feira, 22 de março de 2021

 

OUTRA DIMENSÃO

Estava intrigada com o sítio para onde vão as coisas que desaparecem depois de as termos visto e utilizado, pouco tempo antes disso acontecer. Se ainda há pouco tivera nas suas mãos o livro de faturas com folhas em triplicado, cada uma da sua cor, não gasto ainda até ao fim e que pelo uso ficara apenas com uma das folhas em maioria, a cor-de-rosa, o que o reduzia o seu volume a um terço, com uma contracapa de cartolina dura.

Era um livro de faturas muito velho, de que decidiu utilizar o verso das folhas rosa para tomar apontamentos como forma de segunda utilização, antes da reciclagem final.

Tinha aí assentado compromissos, com datas e outros pormenores que lhe faziam falta de momento e que lhe tinham tomado algum tempo no intuito de evitar depois outras perdas de tempo a consultar sítios e datas na internet: assim estava ali tão à mão, era só dar uma olhadela e sabia em que ponto tinha o trabalho e quando lhe dar seguimento.

Não tinha saído da secretária desde que precisara dele e o utilizara e passado pouco tempo, ao precisar consultá-lo novamente, tinha-se evaporado.

Na secretária não estava, nem debaixo nem em cima da cadeira, levantou o sofá, vasculhou-o, espreitou debaixo dele, viu se se destacava um rosa entre o amontoado de outros papéis, viu no chão, à volta e mesmo noutros locais da sala menos prováveis, mas mesmo assim não o encontrou. Nada. E não tinha entrado lá ninguém, e muito menos alguém que o tivesse tomado para outro préstimo; que não tinha.

Talvez ausentando-se, o bloco volte ao lugar. Já lhe tinha acontecido antes: algo sumia da vista, mas, aparentemente, sempre ali estivera.  E era essa outra dimensão que a intrigava.

Não que lhe faça confusão haver outras dimensões, que há pessoas que dizem fazer viagens astrais e filmes que mostram heróis repentinamente a viver noutras épocas, tanto do passado como do futuro que, ao que também dizem, essa separação de tempo não existe, mas para a sua cabeça o melhor é que o bloco apareça quanto antes e mais nada. Está a fazer-lhe falta.

Ele está certamente onde estava e não lhe vai pedir satisfações; onde estiveste quando precisei de ti, porque é que sumiste, que entidade te surripiou, para quê, etc. Não, não vai entrar em diálogo com um livro de faturas transformado em bloco de notas ao contrário.

Talvez que não tenha gostado desta nova utilidade, ou por o estar a utilizar nas costas das folhas, que são as que estão limpas, mas a vida é assim, nem sempre se gosta do que nos acontece e como nos acontece.

Se ao livro lhe aconteceu uma aventura, pronto, aconteceu, aconteceu; ela só o quer de volta. Talvez não o abrace. Mas pensando bem, por que não? Pode ser que prefira ser abraçado e se sinta a viver outra aventura. Quem sabe?

Entretanto os apontamentos fazem-lhe falta.

 

 

 

 

 

 

Sem comentários:

Enviar um comentário