sábado, 17 de julho de 2021

 

 

ANSIEDADES DE UMA VELHA – XIV - Certificado digital. Aos fins de semana

 Judite nem sempre percebe porque é que remexe em certos pensamentos ou recordações, mas o certo é que eles aparecem, convidados ou não.

E o que lhe assoma, mais uma vez, é Giovanni Papini e a sua obra “O Passado Remoto”, que isto de passados é o que os velhos mais têm na cabeça e neste caso o que o escritor refere é que em 1914 se podia andar por toda a Europa, à excepção da Rússia, sem passaportes, vistos, carimbos, licenças.

Mais de um século depois, dizem por aí que, quem almoçar na esplanada de um restaurante, se quiser fazer xixi no w.c. do mesmo, tem que ter um Certificado Digital. Ao fim de semana.

Se não fosse a palavra Digital, Judite pensaria tratar-se de algum uso corrente no século XIX; e daí porque não, se digital se refere ao uso dos dedos. Quem lhe dera evitar recordações e pensamentos tão absurdos, que tanta confusão causam na sua cândida velhice, mas insiste em pensar no que o referido escritor, em 1948, também escreveu: “ninguém é livre, ninguém é são, mas é preciso lutar pelo progresso e pela liberdade”.

Depois ficou perturbada, e não foi com esta frase obsoleta, sem sentido nos dias de hoje; foi a leitura dum conto, por assim dizer “futurista” do escritor António Ladeira, “A Agência”, passado, quer dizer “futurado” em 2045, onde, para viajar de avião, os passageiros teriam obrigatoriamente que frequentar um curso especial de seis anos. Ora se ela chegasse a 2045, como é que poderia viajar se tivesse que estudar seis anos, durante os quais não poderia ir conhecer mais mundo. Inadmissível! Depois serenou: era apenas uma ficção, como tantas outras que tem lido, como por exemplo a do certificado digital, ao fim de semana. Para tudo é preciso imaginação, saltar da caixa, ter ideias prafrentex, como se dizia no seu tempo de moça. São assim as boas ficções. Dão “pica”.

A fazer fé na cromologia, a cor verde é uma chave que abre os cofres da memória e como Judite anda a comer muita alface, a chave, sem querer, deu a volta à fechadura dalgum cofre donde saem estas memórias à mistura com disparates e que é uma confusão para destrinçá-los.

É o que dá, em vez de tomar comprimidos como é normal em qualquer pessoa de idade e de juízo, Judite só toma livros. E pouco mais.

Talvez um gaspacho, com muito tomate maduro, bem vermelhinho, para contrabalançar o verde da alface que abre cofres, ainda a salve da loucura, deixe de pensar em improváveis absurdos e não volte a pôr as coisas de pernas para o ar.

 

Maria de Jesus – Julho 2021

 

 

 

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