ANSIEDADES
DE UMA VELHA – XIV - Certificado digital. Aos fins de semana
E o que
lhe assoma, mais uma vez, é Giovanni Papini e a sua obra “O Passado Remoto”,
que isto de passados é o que os velhos mais têm na cabeça e neste caso o que o escritor
refere é que em 1914 se podia andar por toda a Europa, à excepção da Rússia,
sem passaportes, vistos, carimbos, licenças.
Mais
de um século depois, dizem por aí que, quem almoçar na esplanada de um
restaurante, se quiser fazer xixi no w.c. do mesmo, tem que ter um Certificado Digital.
Ao fim de semana.
Se não
fosse a palavra Digital, Judite pensaria tratar-se de algum uso corrente no
século XIX; e daí porque não, se digital se refere ao uso dos dedos. Quem lhe
dera evitar recordações e pensamentos tão absurdos, que tanta confusão causam na
sua cândida velhice, mas insiste em pensar no que o referido escritor, em 1948,
também escreveu: “ninguém é livre, ninguém é são, mas é preciso lutar pelo
progresso e pela liberdade”.
Depois
ficou perturbada, e não foi com esta frase obsoleta, sem sentido nos dias de
hoje; foi a leitura dum conto, por assim dizer “futurista” do escritor António
Ladeira, “A Agência”, passado, quer dizer “futurado” em 2045, onde, para viajar
de avião, os passageiros teriam obrigatoriamente que frequentar um curso
especial de seis anos. Ora se ela chegasse a 2045, como é que poderia viajar se
tivesse que estudar seis anos, durante os quais não poderia ir conhecer mais
mundo. Inadmissível! Depois serenou: era apenas uma ficção, como tantas outras que
tem lido, como por exemplo a do certificado digital, ao fim de semana. Para
tudo é preciso imaginação, saltar da caixa, ter ideias prafrentex, como se
dizia no seu tempo de moça. São assim as boas ficções. Dão “pica”.
A
fazer fé na cromologia, a cor verde é uma chave que abre os cofres da memória e
como Judite anda a comer muita alface, a chave, sem querer, deu a volta à
fechadura dalgum cofre donde saem estas memórias à mistura com disparates e que
é uma confusão para destrinçá-los.
É o
que dá, em vez de tomar comprimidos como é normal em qualquer pessoa de idade e
de juízo, Judite só toma livros. E pouco mais.
Talvez
um gaspacho, com muito tomate maduro, bem vermelhinho, para contrabalançar o
verde da alface que abre cofres, ainda a salve da loucura, deixe de pensar em improváveis
absurdos e não volte a pôr as coisas de pernas para o ar.
Maria
de Jesus – Julho 2021
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