ANSIEDADES
DE UMA VELHA - XV (o computador)
O
computador de Judite sabota-lhe a escrita. Se contasse às amigas, diriam entre
elas: Não admira, com os disparates que escreve até um computador se passa dos
carretos, quer dizer, do disco.
Judite
está muito descontente: o que considerava um precioso auxiliar censura o que ela dita; sim, tem os olhos
muito cansados e as artroses dificultam-lhe o teclar e aproveita as funções que
a máquina lhe oferece, mas isso não lhe dá o direito à censura. É como se,
antigamente, quando muitas pessoas não sabiam ler e pediam a alguém que lhes
escrevesse as cartas e lá colocassem palavras que eles nunca saberiam usar e
cortariam outras que considerassem grosseiras se escritas pelo seu punho.
Não
fosse ele uma máquina e Judite dir-lhe-ia das boas nos dias que fica sem paciência
e tem que ser ela a teclar tudo, para poupar o trabalho de emendar erros, omissões
e deturpações do Senhor Computador, armado em dono das palavras.
De
súbito, a frase “não fosse ele uma máquina”, começa a espicaçar-lhe um
neurónio: não fosse ele uma máquina? Será que é mais do que isso? Ainda não
tinha pensado em tal, mas alguma coisa “vê”, censura e escreve como quer e ela,
Judite, a pensar que não valia a pena irritar-se com uma máquina … e afinal
talvez não seja apenas uma máquina.
Certo
é que quando dita por exemplo, cretino, o que aparece na tela é *******, o
mesmo se passa com imbecil ******* outro tanto com uma palavra com cinco letras, muito comum na oralidade caseira,
começada por M ou m, ***** mas essa
acharia perfeitamente aceitável a sua rejeição e, porventura nem daria por tal desaprovação;
ela mesma utiliza o termo com economia na oralidade.
Até
pode compreender que tenha sido programado por gente de “boas” palavras, o que não
impede de existirem cretinos e imbecis, mas já a palavra “estúpido” é aceite todas
as vezes que for ditada. Judite concorda que, cretinos, imbecis e estúpidos,
sejam adjetivos impróprios para anjinhos, mas nem sempre as personagens dos
seus contos o são, daí que precise ditá-las.
Mas o
que não está certo é que quando Judite dita “comer”, o dito recusa-se e escreve
*****. Então essas pessoas de “boas palavras” que obrigam o computador a
censurar impropérios, será que não se alimentam? Ou quem o programou foi antes
uma outra máquina, que sendo máquina não come.
Ai se
valesse de alguma coisa falar com ela, dir-lhe-ia: _. Então lá por tu não
comeres não deixas que os humanos comam? Até pareces os cães da palha, que não
comem nem deixam comer.
Mas a
máquina não se reconhecerá neste provérbio e Judite, apesar de velha, não chega
a tanto: o que não lhe apetecer escrever, escreve a própria. Que remédio. O
mesmo acontece com tantos humanos: só fazem o que querem. (Pensam eles).
E não
se fica por aqui, o marafado. Se Judite ditar: nos, nus, ela, era, chega, isto,
livre, por exemplo, a tela apresenta: NOS, ELA, ERA, CHEGA, ISTO, LIVRE. Toca a
reescrever.
Judite
lamenta ter que privar com um computador tão inculto: há poucos dias ditou-lhe “cromologia”
e o desgraçado considerou um erro ortográfico. Enfim, cada um priva com o
computador que merece.
O que
a espanta é que “loucura” escreve com inicial grande “Loucura”, quando deveria
escrever LOUCURA.
20
Julho 2021
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