quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

 

ANDIEDADES DE UMA VELHA – XVII – O "dono" do contentor

Quando se fala de entulho, ainda vem à memória de Judite o dia em que foi ao Ecocentro depositar antigos restos de obras, encobertos no jardim por plantas trepadeiras que, com rapidez deram conta do que parece ser o seu propósito: cobrir tudo o que encontram no caminho do seu crescimento.  Judite acredita que deixou que tal acontecesse por uma espécie de desleixo, mas o certo é que não tinha oportunidade nos “remotos” tempos de passeios frequentes, excursões, almoços, exposições e danças.

Foi a prodigiosa pandemia que lhe proporcionou o ensejo de podar as trepadeiras e encontrou, tal tesouro esquecido, um montão de cacos, pedaços de tijolos, calhaus e argamassa esculpida em formas desinteressantes.  O achado encheu-lhe um dos modernos e avantajados sacos de compras, que verificou não poder transportar. Dividiu, então, o conteúdo por outro,  ainda assim bem pesados, mas transportáveis.

Sabendo da existência de um ecoponto nas proximidades, consultou o horário na internet e decidiu livrar-se do inestético entulho no jardim, logo no dia seguinte. Considerou telefonar antecipadamente a prevenir do seu intento, mas não estava totalmente certa de o conseguir realizar, nem sempre os velhos ossos lhe permitem concretizar planos e talvez fosse ridículo colocar o funcionário na expectativa de uma tonelada de resíduos de construção civil e surgir com dois sacos de supermercado meio-cheios, ou meio-vazios, conforme a capacidade física de quem lhes tomasse o peso.

O dia amanheceu quente, por isso Judite resolveu ir cedo. Ao pretender colocar os sacos no porta-bagagens verificou o quanto lhe era penoso; pegou num balde, retirou algum peso de cada um dos sacos e assim as três vasilhas ficaram mais transportáveis.  

Antes das nove já lá estava junto ao portão; dali seguiria para uma consulta de fisioterapia, já agendada e, se o velho esqueleto o permitisse, faria ainda umas compras.

Dentro do carro, assistiu à chegada de uma moderna motoreta que combinava  com o bem-parecido funcionário que a conduzia, feições de origem indiana, que lhe fez um gesto cordial, enquanto retirava o reluzente capacete, como quem diz que aguarde um pouco; faltavam ainda cerca de cinco minutos para a abertura. Pontualmente às nove, o funcionário abriu o portão de ferro forjado, com a deferência de quem abre as portas de um palácio e fez o gesto de que entrasse com o carro. Após a entrada do carro no terreiro, cumpriu ao funcionário informar Judite de que o contentor estava cheio e que não poderia recolher o entulho. Nesse momento, Judite desejou aniquilá-lo: elevou a voz, como aliás é hábito dos portugueses proceder ao falarem com estrangeiros, mesmo quando não estão zangados, e respondeu-lhe:  _Não! Se me autorizou a entrar com o carro, não me vai agora fazer voltar para casa com a carga!

 Exaltada, conduziu até ao contentor a escassos três metros. O funcionário, gesticulando que não o podia permitir e Judite repetindo-lhe:_ Não! Não me vai fazer isso! _ abriu o porta-bagagens e, com uma energia que certamente teria de reserva para tais ocasiões, pegou num dos sacos como se fosse uma pena e despejou-o nos interstícios vazios do contentor.

O funcionário, cumpridor das suas obrigações, telefonou ao responsável, dizendo que Judite estava a desobedecer às suas ordens e a “falar mal”.

Judite retirou o outro saco e, continuando a “falar mal” na óptica do funcionário, esvaziou-o como o anterior. O zeloso funcionário pretendeu que Júdice falasse com o encarregado; claro que ela não o quis ouvir, não tinha nada para ouvir, mas sim para dizer, e disse, que não ia voltar com o carro carregado e ocupado com meia dúzia de cacos, o carro era pequeno e precisava do espaço para as compras, não levaria tal mercadoria a passear durante trinta quilómetros   e que iria descarregar ainda um balde. Não soube o que o encarregado respondeu: o que ela não faria era voltar para casa e descarregar o que tanto trabalho lhe dera a carregar, mesmo sendo pouco.

Antes de partir, perguntou ao funcionário que impropério é que ela lhe chamara, para o levar a transmitir ao responsável que estava a “falar mal”.

 _ Que nome é que lhe chamei_ perguntou, irritada, já que não tinha por hábito recorrer a insultos. _ Vá, diga lá!

Quase com o rabo entre as pernas, o “pobre” funcionário, titubeou: _ Não, não…

 Judite percebeu o que ele quereria dizer, mas não soube, não tinha vocabulário: era que Judite estava zangada e falava muito alto.

Não é preciso ter imigrado, para se saber que, nem sempre, o imigrante encontra o termo adequado na altura em que precisa dele. Mesmo a ela isso lhe aconte com mais frequência com que desejaria. Mas isso Judite desculpou; o que não desculpou, e infelizmente acontece com muita gente, que como sabemos, é igual em toda a parte, foi não a ter informado logo, antes de a autorizar a entrar com o carro, mas já na altura em que Judite estava  convicta de que se ia livrar do lixo. Se a tivesse informado de antemão, teria voltado para casa carregada, contrariada, mas conformada, e voltaria no dia que lhe indicasse.

Judite, neste caso, aplica um ditado mais velho do que ela:” se queres ver um pobre soberbo, dá-lhe a chave de um palheiro”. Talvez com um pouco de sadismo à mistura e a sensação embriagadora do poder, seja ele qual for.

Pode ser que a indignação de Judite tenha servido de aprendizagem ao aperaltado funcionário, e não volte a mostrar a cenoura se não tiver intenção de a dar a comer. E para ela também: se voltar a precisar, não voltará ao Econcentro sem que antes se informe se a cenoura está disponível.

Sem comentários:

Enviar um comentário