segunda-feira, 27 de abril de 2020


ANSIEDADES DE UMA VELHA


Viver numa época de culto da juventude, onde reina a beleza e o vigor paralelos ao culto do anti-envelhecimento, onde só a simples palavra velho causa asco, arrepios, é mesmo uma autêntica e incansável labuta permanente. 

Fingir que temos boa memória, o que se consegue falando, sem parar, de coisas do passado de que se é a "única" a lembrar e as amigas a concordar, para não parecerem ché chés. Até que é divertido e puxa à imaginação: lembram-se do vestido verde que a Georgina usou no exame do quinto ano dos liceus, cheio de folhos e que a fazia parecer uma baleia, que gorda já ela era. Ninguém se lembra, nem ela; coisa inventada de momento. E todas riem, satisfeitas e acrescentam pormenores ao que nunca aconteceu.



Foi preciso uma hecatombe para deitar tudo isto abaixo, agora que engavetaram os velhos. Nem percebe como deixaram que isso acontecesse! Se há velhos tão valorosos, deviam ter dito: Não! Nós sabemos cumprir normas, já que passámos uma vida a cumpri-las e não queremos vegetar. Pois bem, não se aproximem de nós, que faremos outro tanto. 

Como será o próximo verão? Velhos ficam em casa?! Vão deixar-se cozer no forno das casas? Uma asfixia total!

Ela, a velha, nos dias quentes, gosta de usufruir da aragem e da frescura da praia,  porém não gosta de "obrigar" os outros à contemplação das peles descaídas dos braços e das pernas, do cabelo ralo e das manchas da idade e procura ir para zonas menos frequentadas, porém,  depois de lá estar esquece-se completamente do seu desgraçado aspecto e percorre o areal de lés-a-lés, alternando com longos tempos de leitura e de mergulhos. E volta a questionar: Como será o próximo verão? Velhos ficam em casa?! Oh! NÃO!!!!!!!! Se tivesse uma piscina talvez não se importasse tanto …, mas não pode contentar-se apenas com a banheira ou, no máximo, montar no quintal uma piscina de criança.

Ah, e os bailes dos velhos; como serão os futuros bailes de velhos, a dançar com dois metros de distância, dançando o ié íe, que muitos dançaram e é como andar de bicicleta, não se esquece, mesmo velho. Mas se os bailes para velhos forem encerrados?! Bem, depois de se terem habituado a fazer exercício físico em frente da televisão, é provável que já não tenham tanta necessidade dos bailes para manterem o aprumo e a elasticidade física.  Quanto às toiletes e acessórios, fazem-se almofadas para substituir as que ultimamente têm sido tão maltratadas com o sofajar, ou seja, o hábito de estar no sofá, e … máscaras. 

Até lhe vinha a calhar esta coisa das máscaras; tinha-se-lhe partido a placa postiça do maxilar inferior, que a do superior fora toda atarraxada, numa época de vacas gordas, que era o que agora lhe valia. Agora quando tiver de sair à rua já não é problemático, ao que ainda há pouco tempo não se atreveria. 

Quantos aos acessórios das toiletes, brincos e colares com que se ornamentava como uma árvore de natal, ficam muito bem nas bainhas das toalhas de mesa; pendem muito melhor e se forem colocados numa mesa no quintal ou na varanda servem de pesos, para que a toalha não vá pelos ares em dias ventosos.

Se for escapando, tudo isto terá utilidade.

No meio destas suposições, acha cada vez mais piada ao espelho, seu amigo a quem todos os dias antes de sair para a irrequieta vida social lhe perguntava: espelho meu, quem é mais bela do que eu? e nem precisava esperar resposta, de convicta que estava da mesma. Pois bem, o ingrato agora não a reconhece. E, diga-se de passagem, ela também não. O cabelo, tão bem pintado  quinzenalmente no cabeleireiro que ninguém se apercebia de que a cor não era natural, tem já dois centímetros e meio de lista branca, que mais parece uma bandolete e não tarda ou o corta à tesourada ou em breve fará umas trancinhas, que irá rematar com uma fitas cor de rosa. Acha que vai ter piada e como ninguém vê, não fica ridícula e talvez lhes coloque umas fitas cor de rosa no remate. E que importância tem, se já não a deixam ir às compras. Se bem que por vezes fuja e vá: põe uma touca, um açaime, quer dizer uma máscara e uns óculos escuros e fica pronta para assaltar qualquer banco. De qualquer modo o espelho já não a reconhece, nem de uma maneira nem de outra. Quando diz foge e vai, é que gosta de determinadas subtilezas que nem sempre é capaz de indicar para lhe trazerem, como por exemplo um determinado chocolate de que não sabe o nome, mas que chega ao supermercado e a mão vai lá tirar aquele mesmo, quando não escolhe outro que lhe pareça atractivo. E as geleias, leva uns dez minutos a examinar os frascos até escolher a que imagina que gostará e que terá menos açúcar e os chás, também gosta de examinar e decidir, os iogurtes, gosta de variar de marca, mas não para um qualquer; e a própria fruta, ela é que sabe a que lhe vai apetecer. É por isso que acha triste comer nos lares, onde não há escolha, e ela então que detesta sopa; só de caldo verde, mas parece que essa coisa de depósito de velhos também não vai ser fácil. Com o vírus à solta, alguns ficarão desertos e a lotação já não será a mesma, mas como também não há vacina para a velhice em breve ficarão novamente lotados e excederão a lotação até a próxima epidemia, em que surgirão novas regras. Talvez surjam projetos género Jardim de Velhos, cada um na sua casota, jaulas individuais, ajardinadas, onde cada velho possa jardinar, com direito a apanhar sol a determinada hora, terão televisão com câmara, mais para serem vigiados e orientados do que para lazer. com uma porta do género persiana, que abre e fecha automaticamente ou com controlo remoto no posto de vigia, a determina hora e outros procedimentos semelhantes, apenas com um vigilante humano, que se passeia entre gaiolas, ainda douradas porque são novas e a tentar perceber qual escolheria para si quando for velhinho, dali a séculos, porque tem ainda quarenta anos e se eventualmente tiver opção de escolha, o que agora lhe parece duvidoso, mas com esperança de que o mundo melhore. 

A velha olha para as unhas, a duas cores e que quase se quebram ao meio. Nunca teve jeito para estas coisas da manicure e demais as amigas tinham por norma fazer marcações para duas ou três delas e era uma festa que armavam no gabinete da velha amiga, e amiga velha, esteticista desencartada, onde inclusivamente faziam chá e levavam bolinhos; quer dizer, a Virgulina tinha lá sempre escondida, atrás da estante, uma garrafinha em que, a bem dizer, nunca reparou bem, mas que pelos efeitos seria aguardente de medronho, porventura para aguentar o tratamento dos calos, que por qualquer anomalia lhe cresciam muito. Ainda bem que não tem calos, porque se os tivesse como a Virgulina, agora teria de lançar mão duma faca afiada e com a sua falta de jeito, o mais provável era que ficasse sem um pé.

Por falar em pé, já nem quer saber como estará a Franquelina, sozinha num T0, em que só lá punha um pé, que o outro era para sair logo, como a própria dizia. Nunca parava em casa, sempre em viagem, para onde conseguia arrastar a maioria das colegas, pelo menos as mais endinheiradas, que às outras, a bem dizer, pouca atenção lhes dava. A velha era uma das que conseguia arrastar muitas vezes, em cruzeiros e excursões que na maioria dos casos tinham pouco interessante: era uma igreja, um museu, uma catedral, uma sinagoga, da parte da manhã, com intervalo para um almoço, que na maioria das vezes nem se compunha de pratos da região, e à tarde eram umas ruínas, romanas, árabes ou outras, uma catedral, um museu, uma igreja, que acabavam confundidas com as centenas já visitadas e cujas histórias já não conseguiam reter.

Ao fim de seis meses, se perguntassem o que tinham visto ali e acolá a maioria, para não meter os pés pela cabeça, respondia que era muito bonito e que valia a pena lá ir. Quanto a ela, descobria sempre romances, históricos ou não, relacionados com essas regiões ou cidades, introduzia-se numa personagem e vivia a verdadeira aventura que não tinha conseguido pela pouca permanência que se permitiam ficar em qualquer local e revia os locais evocados como se lá estivesse estado realmente, dado que apenas tivera um vislumbre ao vivo e pouco mais; pois que tempo tinham para estabelecer alguma empatia com um autóctone real, compreender o que efectivamente se passava naquele local que não fosse o que o guia lhes impingia.  Estava estafada daquelas viagens, tentava esquivar-se..., mas era difícil; se tivesse medo de andar de avião, escapava-se; mas não: até gostava. Se tentasse dizer que estava adoentada logo lhe invadiam a casa ou queriam levá-la ao médico, o que a cansava ainda mais e acabava alinhando quando, nem por nada, as conseguia ludibriar. Gostava de viajar, sim; não de turistar.

Finalmente pode agora escutar-se; não muito, para não ouvir disparates de si própria, mas é um luxo a que não estava habituada, por andar sempre numa roda viva. Sim, constacta que estar só é um luxo. 

Felizmente que os telefonemas têm rareado; já não telefonam tanto, preocupadas, como no início. Ou se habituaram ou morreram. Morreram, não; que não são pessoas para se deixarem morrer por dá cá aquela palha, tanto mais que as mensagens, daquelas que não querem dizer nada, continuam a chover às dezenas e às vintenas. Mas estar só é diferente de estar em clausura forçada. Isso é que Não quer admitir que esteja a acontecer!

Diziam que quem não é visto, é esquecido e com os novos acessórios: chapéu, óculos, máscara, luvas, é como se não fosse vista, mas isso até que vem a calhar; não tarda poucos se lembrarão que existiu. E nem falta isso lhe vai fazer; também deixou de ter medo de desmaiar ou de ter um AVC e que as vizinhas ou as amigas lhe entrem pela porta adentro e a vejam nesse estado, porque agora é menos provável vir a acontecer: vêm os bombeiros, arrombam a porta e mesmo que haja algum mirone, só de longe, nada de lhe mirarem a fúcia desfigurada.

Ah, tomar estes banhos relaxantes …, com sais ou ervas aromáticas, umas gotas de óleos essenciais, música clássica ou relaxante, conforme a hora do dia … que na “outra vida” eram difíceis de encaixar, agora pode fazê-lo sempre que de tal sinta necessidade ou daí possa tirar vantagem.

E quando chegar o calor, poderá andar em casa só de cueca; uau! Até que enfim que não espera visitas. E se morrer assim despida, o Correio da Manhã já não dará a bombástica notícia: encontrada em casa idosa de sessenta anos, morta e nua. Que já a pessoa não pode morrer nua, descansada. Achava isto ignóbil! Então uma pessoa não pode sair da banheira e a seguir morrer, ou morrer antes de entrar na banheira. Já ninguém pode morrer descansada, sem o stress de ter de vestir logo o robe.

O que lhe fará muito jeito, a ela, é ninguém ir destapar-lhe a cara depois de morta; uma preocupação a menos: se a agência teria o cuidado de lhe fazer uma maquilhagem “natural”.

Pelo menos não irá “ouvir” comentários do género: Está tal e qual, parece que está a dormir! Ou em alternativa: Ai, nem parece ela!

Nem as amigas terão de fingir desgosto, enquanto exclamam interiormente: a mim não me vão apanhar tão cedo, não! Concorda. Não deixa de ser um lugar incerto, apesar de certo.

E por falar em maquilhagem, essa é outra tarefa a esquecer; com a máscara o baton ficaria todo esborratado. Protector solar, nicles. Enfim, vai ser uma poupança: é no café, nos bolos, nos almoços, no cinema, nos concertos, nos teatros, na piscina, na gasolina …

Não tarda fica uma velha rica, em substituição da rica velha, que era. E de quem tem saudades!


sábado, 25 de abril de 2020


O JARDIM DO SENHOR ANSELMO

Desde que o senhor Anselmo adoeceu o jardim nunca mais foi o mesmo. A D. Custódia bem que quis tomar conta dessa tarefa, mas trabalho mesmo a sério era o que lhe dava agora o senhor Anselmo, retido na cama, com um AVC, tal como ele próprio, Anselmo Valente Correia, um A.V.C. toda a vida; ironizava. Ao princípio algumas plantas ficaram contentes com essa ausência; não se sentiam tão podados, eram mais livres, mas não tardaram a compreender que a sua liberdade esbarrava com a liberdade das outras plantas que as rodeavam e que dentro em pouco se sentiriam francamente asfixiadas. Foi o que aconteceu ao Marmeleiro, que se sentiria com frequência atrofiado pelo Maracujá, se não fosse o senhor Anselmo, que mantinha este último sempre debaixo de olho, cortando guia aqui, guia ali, já que é uma planta rebelde, desejosa de se expandir para todos os lados, sem a mínima consideração por quem ficava com a vida assim adiada; o que importava era expandir-se, expandir-se, cobrir-se de lindas flores lilases em forma de estrela, tão admiradas por pessoas e frequentadas por abelhas, zangões e borboletas, que por vezes se excediam.

Era um vaidoso, um presumido, um dono de tudo: em breve tomaria conta do jardim que, segundo a sua prosápia, ficaria esplendoroso. Quanto aos frutos, a sua vaidade estava primeiro: ou se expandia em guias e flores ou se restringia um pouco para que os frutos pudessem vingar e, claro, optou pelas flores.

 Um dia o senhor Anselmo morreu. E a D. Custódia, fosse para mitigar o desgosto cuidando das plantas de que o marido tanto gostava, fosse para preencher o vazio que ele lhe deixara depois de sessenta e dois anos de presença,  meteu mãos à jardinagem. Mas aquilo já não era um jardim, constatou: era um matagal. As tuas mãos deformadas. as suas forças e a sua lentidão levariam séculos a pôr o jardim como o marido costumava tê-lo e entretanto também ela seria engolida pela voracidade da natureza, se não o fosse antes pela voracidade do tempo ou quem sabe, pela conjugação de ambos. Perante a sua patente incapacidade física e temporal, um dia resolveu contratar um jardineiro para fazer a limpeza necessária e depois, quem sabe, talvez assim ela mesma o pudesse manter apresentável e bonito, como o marido fazia e de que também ela gostava de ver, optando, contudo, por dedicar-se às tarefas domésticas, deixando isso para ele, tarefas essas agora bastante mais reduzidas.

Uma fortuna, foi a conta que o jardineiro lhe apresentou, mas que fazer!? O Marmeleiro pôde finalmente respirar, apanhar sol e mostrar as suas discretas e belas flores rosa pálido, a que na realidade ninguém dá grande atenção, a não ser o senhor Anselmo, sempre vigilante da sua produção e que a D. Custódia transformava numa deliciosa e atraente marmelada, com que barravam o pão, com o chá das cinco, como ambos lhe chamavam e que era tomado às tardes, debaixo da enorme e perfumada tília, que o senhor Anselmo tinha plantado havia seis décadas. Quem não gostou nada do jardineiro foi o Maracujá que se viu reduzido ao tronco e a poucos mais ramos: uma vergonha, assim completamente nu, à mercê dos olhares trocistas das roseiras, apesar de também terem sido podadas, das glicínias, das hortenses, dos amores perfeitos e até do Marmeleiro, que finalmente se via aliviado e livre de vizinhança tão possessiva e opressiva. Até mesmo o alecrim, que levara um grande corte e estava agora semelhante a um muro verde, não se encontrava naquela vergonhosa nudez. A própria D. Custódia, quando o viu naquele estado, quase chorou: Malvado jardineiro que me deixou na penúria e pelos vistos também te deixou a ti!  

Isto fê-la recordar um dia. ainda jovem, quando tinha uns longos caracóis, foi a uma cabeleireira e disse-lhe que lhe cortasse o cabelo pelos ombros, todavia, quando se levantou da cadeira, tinha o cabelo cortado pouco menos que à rapaz.  Quase em lágrimas, balbuciou: mas era só pelos ombros … E então, a cabeleireira agarrou-lhe num caracol de cabelo e esticou-o até chegar-lhe aos ombros. Cortei como pediu, retrucou, arrogante.

Vendo o Maracujá sem a sua habitual cabeleira, concluiu, tristemente, que é perigoso confiarmos totalmente em quem usa uma tesoura.

segunda-feira, 20 de abril de 2020


CRÓNICA DE UM QUALQUER DÉCIMO QUINTO DIA

Marta está à beira da insanidade. Ainda consegue chorar um pouco quando tem oportunidade de ir à casa de banho, o que se tornou difícil nas últimas semanas, com quatro pessoas em casa, consecutivamente. Até para chorar tem que ser depressa. Mas enquanto tiver lágrimas, tudo vai bem. Ai de quando secarem! Um casal de filhos de 20 e 25 anos, o último de curso terminado sem trabalho à vista e outro de curso suspenso, como quase tudo. Não colaborativos em nenhum aspecto nem sequer na boa disposição. Juntam-se a um pai, marido, que já não reconhece. Em teletrabalho a meio tempo; televisivo no tempo restante. Má cara. Marta, com trabalho suspenso pelos próximos meses, embora apreensiva não se quis entregar a preocupações maiores do que as que o momento já comporta. Encarou esta pausa como um tempo extra, de convívio e harmonia, depois de 30 anos consecutivos de trabalho, muitos deles apenas com duas semanas de férias; as restantes pagas a dobrar, porque fazia falta no trabalho e não sabia dizer que não. Idealizou um tempo em que podia, com o seu bom humor, fazer esquecer o "lá fora". A primeira semana decorreu razoável, já que ela intervinha sempre com a sua boa disposição, apresentando tudo pelo lado positivo, por vezes hilariante, como se habituou a fazer para espantar fantasmas; depois da "coisa" passar se faria um balanço; de momentos estava tudo imprevisível, como imprevisível é a própria vida. Não é que ela não tenha medo como todos têm, não tanto por ela e pelo marido que, não sendo velhos, já viveram alguma coisa, mas sobretudo pelos seus filhos, muito novos ainda para ficar sem pais, que é o mesmo que ficar sem chão, sem raízes. Mas três mal dispostos contra um, facilmente se lhe derrubam o bom humor que tem pretendido manter, especialmente porque agora, mais do que nunca, afinal ela não é a mãe, não é a esposa; é a criada, numa casa pequena, apertada, que tenta manter organizada, que recebe má cara e más disposições.
Deixou de ter receio do vírus. Dúvida que seja matada por ele. Tem é medo de continuar em casa. Já mataram nela quase tudo. Quando somos "felizes" esquecemo-nos de regar atempadamente os relacionamentos familiares, deixamos a vida correr, parece tudo tão normal e depois é tarde, muito tarde e nem toda a energia e bom humor conseguem remediar isso. Pensou ter construído uma família e o que saiu foi um grupo de pessoas. Teme que se tornem assassinos psicológicos e que, se alguma vez "esta coisa" passar, se entretanto não for levada por "ele", que já não exista nada de si mesma, a não ser um corpo, mudado, envelhecido, sem alma. O esquecimento. Talvez então uma bênção divina.


LEMBRAM-SE DA MARTA?

Marta continua a chorar; agora de raiva. E já não vai chorar depressa, na casa de banho. Chora, enfiada na cama onde se mantém recolhida, alegando uma insuportável dor de cabeça, de que ninguém duvida, não só por Marta ter cabeça, logo suscetível de lhe doer, como também aos restantes três habitantes da casa por vezes lhes acontece. Levanta-se de vez em quando para fazer algumas tarefas, como as refeições, sem o que seria um pandemónio, e aí seria uma outra dor de cabeça. Para tal, diz ter tomado um comprimido, mas quando não aguenta “aquilo” volta para a cama, antes que lhe dê um tremendo acesso de choro e a tratem como louca; precisa pensar. E muito.
Quando a segunda semana de quarentena começou a correr mal, onde o seu bom humor era rejeitado, pior do que isso, ignorado, Marta começou a ter dificuldade em adormecer, não estranhando que acontecesse o mesmo ao marido e que este se levantasse pouco depois de a julgar adormecida, demorando-se imenso na casa de banho; coisas de homens, pensou: agora estamos em quarentena de tudo. Porém, há dois dias, melhor dizendo, duas noites, rendida ao cansaço, adormeceu de imediato, todavia, talvez por ter bebido um chá calmante pouco antes, acordou com uma urgência premente de esvaziar a bexiga. Levantou-se, e sem acender a luz para não incomodar o marido que julgava a dormir, entrou na casa de banho, mas antes de acender a luz sentiu como que uma presença e deteve-se à porta; deve ser uma impressão, pensou. Quando os olhos se habituaram à semi-obscuridade, viu o marido empoleirado na tampa da sanita, com a pequena janela semi-aberta, ora espreitando, ora acenando com a mão, ora falando baixinho junto ao telemóvel, ora olhando novamente pela janela, mandando mensagens, olhando outra vez enquanto soltava estranhos e abafados ruídos junto ao tlm.
Sem saber o que pensar, e muito menos que fazer, e ainda não querendo manifestar a sua presença, recua, em silêncio, até ao quarto, onde apesar de aflita aguardou o regresso do marido, fingindo dormir profundamente e só depois se levantou. Não obstante a urgência urinária, subiu também à tampa da sanita, entreabriu com cuidado a janela e ainda pôde ver uma luz que se apagava numa janela de um andar mais abaixo, das traseiras do prédio fronteiriço.
Pequena janela mais semelhante a uma fresta que nunca costumava ser aberta por motivos óbvios, que estivera emperrada durante anos, e agora abria tão bem, era a única de onde era possível visualizar a janela, cuja luz se tinha acabado de apagar, por ficar na quina do prédio.
E agora?


MARTA JÁ NÃO CHORA TANTO

Marta já não chora tanto. O sentimento de se saber traída cava uma ferida no seu orgulho muito humano. Quer pensar, pensar, mas não pensa nada. Apenas remoe e revive a cena daquela noite, possuída por um sentimento surdo e obsessivo; se deveria ter-lhe pedido explicações, fazer um escândalo, desancá-lo, pô-lo na rua, sair ela mesma porta fora. Concorda que fez bem em ter agido com prudência. Tanta coisa mudou em tão poucos dias. Fazer um escândalo nesta altura era mais uma nas estatísticas de transtornos psicológicos causados pelo isolamento. Pô-lo na rua; que provas tinha: um homem que resolve abrir uma janela a meio da noite, quem sabe se para apanhar ar e não se ter lembrado de o fazer à janela da sala, onde costuma passar o dia, ali tão acessível, sem ter que subir para a tampa da sanita. Podia ser também considerado um comportamento psicótico, normal nestes dias, logo pô-lo na rua, isto se ele quisesse sair; ir para onde, se nem para um hotel agora se pode ir. E os filhos, iriam eles acreditar ou fechar-se-iam, cada um no seu quarto, dizendo: os velhos piraram de vez; é preciso é que não nos tragam chatices; deles só precisamos cama, mesa e roupa lavada. Ah! e de internet! Sair ela porta fora era o que lhe apetecia, mas para onde, se o mundo se tinha tornado uma rede de prisões, e sem opção.
Nesta altura, se o fizesse, acabaria por se tornar uma pessoa com vergonha do seu problema, com sentimentos de inferioridade ou de baixa autoestima.
Amigas, amigas de verdade, não tinha. Tinham ficado na terra quando de lá saíra e vêem-se anualmente, na semana que tira para visitar os pais, de ano a ano, que fica longe e é dispendioso.
Amigas, das outras, também não tem muitas nem o à-vontade suficiente para lhes falar destas coisas.
Com quem fala mais é com as colegas, mas quando nestes dias lhes têm ligado e lhe dizem que sim, que estão bem, adivinha-se-lhes um fundo de azedume disfarçado, que tem aumentado com o passar dos dias, em especial a Rita, que diz estar tudo bem e que ri muito ao dizer isto, sintoma de que tudo vai a pior: quanto mais ri, pior ela está. Conhece-lhe bem este estranho sintoma no trabalho, quando as coisas não vão bem.
Amigas da escola secundária fez poucas; o pai era ferroviário, andavam sempre a mudar de terra e já lhes perdeu o rasto.
Quando se tem trabalho, saúde e uma família não resta tempo para mais nada.
E nem se acha falta. Até um dia.


MARTA PRECISA DESABAFAR

Marta precisa de desabafar com alguém. Se tivesse o hábito da escrita diria ao papel o que não consegue, nem pode dizer nem à família nem a outra pessoa qualquer. No papel, poderia injuriar o marido com todos os nomes de que se lembrasse e mais alguns que fosse rebuscar ao dicionário, que os há; dir-lhe-ia tudo o que tem deixado “passar” nestes anos todos, coisas que na ocasião não lhe pareceram ter relevância, mas que agora, em momentos como este, lhe parecem grosseiras, ofensivas, desrespeitosas. Outro tanto da parte dos filhos. Culpa sua, relevando a do marido, que nunca os corrige e que tem por norma concordar sempre com eles, por ser mais cómodo. Ficaria pelo menos aliviada e aí, sim, poderia talvez pensar um pouco melhor, mas por falta de hábito tal prática não lhe ocorre, muito menos numa altura em que a cabeça lhe estala de despeito, indignação, enfim de revolta. Porém, ocorreu-lhe que na semana anterior, ao expurgar uns papéis de uma atochada gaveta, daquelas para onde se deita tudo o que não se sabe onde arrumar de momento, encontrou um folheto, que entretanto colocou no recipiente de reciclagem e que tinha um número daqueles começado por 800, útil já não se lembra para quê, mas que na altura da arrumação considerou não fazer sentido guardar. Foi reavê-lo. Os filhos estavam a ver um filme e o marido fora ao pão, onde ultimamente se demorava um pouco mais do que seria de prever, que ela ao princípio até achava um tempo curto, pois precisava sentir-se um pouco mais liberta, mas agora é que verifica tratar-se de tempo a mais para se deslocar à padaria que fica logo à esquina do quarteirão. Era melhor nem fazer suposições, que começam por uma noz e acabam numa montanha. E uma montanha já ela tinha a ocupar-lhe o cérebro todo; não cabia lá mais nada. Desdobrou o tal folheto e leu: Linha de Prevenção de Suicídio. Tinha-o guardado, inadvertidamente, quando há cinco anos a mãe da Rita se tinha suicidado e vendo-a e ouvindo-a, diariamente, rindo alto com as lágrimas a correr e não parando de perguntar: Porquê? Por que é que a minha mãe se suicidou?!
Até que um dia, pediu a tarde de dispensa e acompanhou-a a uma palestra sobre o assunto. Olhou para os nove números, de tamanho gigante. Não tenho intenção de me suicidar; só preciso de falar com alguém; na linha é tudo anónimo e não corro o risco de alguma vez acontecer como na história de “O Príncipe de Orelhas de Burro”, que costumava contar aos filhos quando eram crianças.


MARTA DESABAFOU

Marta desligou o telemóvel. Sentiu a mente invadida por um vazio oco e baço. Não se lembra do que disse. Não se lembra do que a voz disse do outro lado. Era uma voz de mulher. Uma voz por quem se teria apaixonado se fosse um homem, mas nem sabe se os homens se apaixonam por vozes. Só sabe que disse. Que disse. Que disse tudo, tudo. Agora respira fundo. Parece-lhe que há muito que não respirava, como se tivesse emergido dum mergulho, longo e forçado. Tem o cérebro ainda desalinhado. Parece-lhe ter acordado dum sonho incómodo. O marido acaba de entrar com o pão fresco. Marta gosta da côdea com manteiga. Sente-se ainda aérea, mas o cheiro do pão ainda fresco e estaladiço, conforta-a, remete-a para tempos distantes que gosta de reviver; não há passado nem presente; assim é o tempo.
O filho irrompe pela cozinha; não atraído pelo aroma do pão, mas anunciando: Não vou continuar aqui feito parvo: nem sei como me deixei ir ficando neste marasmo! Vou fazer voluntariado!
Marta, ainda não refeita da situação anterior, fica um pouco atónita, mas logo reage e pensa para consigo: Até que enfim; já dizia que não! Que era feito dos valores que lhes tinha transmitido? Não que fosse ela a sugerir, porque uma mãe teme sempre pelos filhos, mas se o filho tomou essa resolução … Bem, ela já fizera o mesmo, embora noutras circunstâncias. Parece acordar quando o filho diz: Então, não dizes nada? Ela levanta-se e, sem responder, abraça-o. Oh, mãe, não sabes que agora não há abraços! É verdade filho, desculpa; e já sabes o que vais fazer? Já, depois conto, para não ficares preocupada. Tens todo o material de protecção? Já não obteve resposta; apenas a porta de entrada a fechar-se.
Marta volta a sentar-se, tentando ordenar as ideias, hesitando em continuar a trincar a côdea tostada e crocante, com uma fina e quase indelével camada de manteiga que o calor, ainda latente, do pão tinha absorvido completamente, quando surge a filha, exclamando:
_ Foi o filme! Foi o filme!
Marta olha a filha, sem compreender, que continua:
_Ele tinha já tudo pronto, mas o filme que acabamos de ver foi para ele um soco no estômago, uma alavanca que o fez dar o salto.
_Tens que me dizer qual é o filme.
_Não, não, conhecendo-te como te conheço, lá ias tu também e depois ainda os perdia a ambos! Não e não!
Marta levantou-se e abraçou a filha.
_Oh, mãe, não sabes que agora não há abraços?!

O TELEFONE TOCOU. MARTA FOI ATENDER

O telefone tocou. Marta foi atender. Era a Rita, rindo e chorando ao mesmo tempo. Má da volta. Entre risos e lágrimas lá foi contando que não sabe o que fazer com a filha de cinco anos, que quase não come, não se quer levantar e que diz à mãe: só se me deres muitos beijinhos na cara e me levares à casa da avó. Quero dar-lhe muitos abraços. Rita diz que tenta explicar-lhe que agora não pode ir para casa da avó, para onde ia todos os dias, porque anda um vírus à solta, que se esconde não se sabe onde e que se estiver escondido na casa da avó ele pode produzir outro igual para lhe fazer um dói-dói. A criança chora, enterra a cabeça na almofada e diz que não acredita, que já ninguém gosta dela por causa de, às vezes, não se portar bem; que vai pedir desculpa e dar muitos beijinhos à avó. Rita, entre risos cada vez mais altos e lágrimas que se adivinham, explica a Marta que o filho se fechou no quarto, desde que soube que o pai do Pedro, um amigo com quem dá passeios de bicicleta, está com o vírus, que a mãe põe a comida para o pai à porta do quarto e que ela agora, a mãe, dorme no sofá da sala, porque não têm mais nenhum quarto. O Pedro já lhe disse que lhe dava o dele, mas a mãe não quer, que assim ele fica mais protegido, porque como pai sempre tem que passar pela sala quando vai à casa de banho, é melhor assim. Rita diz que o seu filho está com muito medo, não só por si próprio, mas especialmente por causa da irmã, que adora; tenta falar com ela através do telemóvel da mãe, mas a criança só fica animada por escassos minutos, quer brincar com o irmão que sabe que está no quarto e que diz que também ele já não gosta dela, se gostasse deixava-a ir brincar em cima da cama dele, dar cambalhotas e jogar às almofadas. Conta-lhe que não pode, que há um vírus escondido e ela diz que não se importa, que se o irmão está lá não vai deixar que lhe faça mal. E já não sabe o que fazer.
Rita não se cala, não dando oportunidade à Marta de dizer uma palavra, que afinal nem tem para dizer; nem sabe. É doloroso não ter uma palavra amiga.
Rita conta que o colega do pai do Pedro, que o contagiou depois duma viagem de em trabalho ao estrangeiro, esteve internado, não propriamente para ser tratado, mas porque desconheciam ainda o que fazer com ele, que foi tratado como um animal peçonhento; durante um dia inteiro fechado num gabinete, atiraram-lhe, por uma fresta da porta que logo se fechou, uma garrafa de água e um pacote de bolachas, como se atira, de longe, um naco de pão duro a um cão sarnento e faminto.
Marta acaba por chorar também, com este retrato dum mundo caótico que parece ainda mais desumanizado.
Rita apercebe-se e cala-se por momentos e é quando Marta se lembra de ter visto um programa de televisão, no qual uma psicóloga informava que acabara de criar uma linha de apoio psicológico gratuito e diz a Rita, que se acalme um pouco, que ela, Marta, vai procurar, não diria uma solução, mas uma ajuda para que possa ter ferramentas para enfrentar a situação. Que tudo se irá resolver. Que vá, entretanto, beber um copo de água morna, que abrace a filha e que aguarde, que lhe vai ligar assim que possível.

AINDA MARTA

Marta ligou o número 300 051 920, da Rede de Apoio Psicológico Gratuito, obteve informações e ligou à Rita. Não podia deixar que o mundo desabasse naquela família, como tantas outras colhida numa realidade ainda inacreditável, em especial para as crianças, e jovens que, até há bem poucos dias, apenas tinham medo que se lhes acabasse a bateria no telemóvel.
A filha de Marta, tendo presenciado estes telefonemas, deu-se conta da gravidade e impreparação de todos para enfrentar uma situação conhecida apenas através da sétima arte ou da literatura e disse:
_Mãe, vou falar com o meu namorado; a mãe dele é psicóloga, trabalha num centro de saúde e talvez nos possa dar formação para ingressarmos numa rede de apoio desse género, que Ritas à beira de um ataque de nervos não faltam, a necessitar de directrizes e apoio. Se não estivermos preparados para este corona, estaremos para outro.
_Mas o Diogo não está a trabalhar num grande projeto ...
_Sim, que não se sabe se “aprés” covir terá viabilidade ou se terá que convertê-lo noutro.
Marta ficou a contemplar a filha que finalmente via sair daquele impasse de consumir o tempo a “devorar” filmes e séries. É uma oportunidade, mãe, respondeu-lhe quanto a confrontou. Marta retorquiu que a vida real é mais do que ver filmes e séries e se queria uma ficção, neste caso distópica em função da perigosidade, já estava numa e que era tempo de se tornar numa personagem activa. A coisa estava a começar a azedar.
O marido tinha recebido ordem para trabalhar agora a tempo inteiro: felizmente iriam ter algum dinheiro, mas não ia ser fácil; só tinham aquela sala e é um trabalho que exige concentração. O espaço, como sala, iria ter também horário de funcionamento, logo o seu próprio espaço estava a ficar cada vez mais confinado à cozinha e ao quarto, ambos pouco espaçosos. Agora que tinha conseguido pacificar-se um pouco com a situação, a rotina estava a transformar a sua vida num tédio, que colmatava com leitura, sem a qual não conseguiria sobreviver já que o espaço não lhe permitia aventurar-se com ideias; o melhor que tinha a fazer era projectar o pensamento de modo a transformar positivamente o estado de alma.
A campainha da porta tocou. Quem será? Estás à espera de alguma encomenda? Não? É que é tão raro alguém nos tocar à campainha; deve ser algo para os miúdos e esqueceram-se de avisar. Só espero que não seja nada para pagar.
Marta, coloca uma máscara e a corrente na porta, de que abre uma fresta.
_Peço desculpa. Sou o filho da vizinha aqui do lado.


MARTA TEM PASSEIO MARCADO

_ Sou o Bernardo, o filho da D. Zulmira, a vizinha aqui do lado.

 Marta quedou-se, ainda expectante, sem interrogar. Lembrava-se, vagamente, dum jovem Bernardo, mas a vida não estava para ligar aos vizinhos.

_ Bom dia, disse por fim.

_Sei que as circunstâncias não são as melhores, mas coloquei a minha mãe numa situação delicada e estou à procura de apoio para minorar os efeitos que causei.

Marta olha o alegado filho da vizinha, à distância, por entre a fresta da porta, travada pela corrente de segurança.

_É que, querendo proporcionar à minha mãe uma companhia nestes tempos de clausura e solidão, trouxe-lhe um cão, um cãozinho meigo, que não lhe causasse cuidados de maior.

Marta escutava-o, entre o paciente e a curiosidade.

_Esta manhã, a minha mãe colocou-lhe a coleira para o levar à rua; era apenas a segunda vez que o fazia e esqueceu-se do saco para as fezes; voltou atrás, tropeçou na coleira que tinha deixado cair, perdeu o equilíbrio, caiu e torceu um tornozelo. Levei-a às urgências, ela não queria ir, mas o tornozelo está muito inchado e vai ter de ficar em repouso algum tempo.

_Estou a ver ... e pretende que ...

_Se a senhora vizinha, ou alguém da família, se dispusesse a levar o cãozinho à rua, agradecia imenso. Aqui está a chave. Hoje já não é necessário, porque acabei de vir agora da rua com ele. É muito obediente.

_Um momento. Volto já.

Marta regressou com uma luva colocada na mão direita, estendeu o braço pela fresta e aceitou a chave. A D. Zulmira era uma vizinha muito introvertida e ocupada, quase não se dava por ela. Levava o seu tempo entre bibliotecas e arquivos; isto sabia-o pelo filho que, entre pesquisas, a tinha encontrado por lá, mais do que uma vez.

_Fico-lhe eternamente grato.

_E a D. Zulmira não precisará de nada?

_De momento não. A minha mãe precisa de pouca coisa e não gosta de incomodar. Eu só cá posso vir uma vez por semana: sou o encarregado duma empresa de distribuição alimentar, está a ver: sou dos felizes que têm trabalho, e agora demasiado. Tive sorte, eu e a minha mãe, ter tido hoje meia folga por compensação de horas extras, mas agora só posso cá vir daqui a quatro dias, que é quando folgo.

_Está bem. Diga à D. Zulmira que ...

_Basta abrir a porta, chamar o Messias que ele vem logo. À volta basta metê-lo em casa e fechar a porta. Combinei assim com a minha mãe. Quanto menos stress este acidente lhe causar melhor. Já basta.

_Fique descansado e as melhoras. Ah, tome nota do número do meu telemóvel e dê-me um toque, se faz favor, para eu ficar com o seu, que nunca se sabe o que a vida nos reserva.

Depois de agradecimentos antecipados da parte de Bernardo, ao fechar da porta, Marta sentiu a presença do marido atrás de si.

_Ah, agora vais ter um Messias com quem passear!

Com um sim seco, deu meia-volta, desinfectou a chave, que colocou no chaveiro, e voltou às suas tarefas.

Sim, agora tinha um cão com quem passear!

Eram muito remotos os tempos em que brincara com o Snoopy. Nunca mais quisera ter outro. Foi morto, sem glória, dentro dum galinheiro onde ia desassossegar as galinhas, soltando-as e cujo dono levava tempos sem fim a recuperá-las uma a uma, galinha a galinha fugida, até que um dia desatinou; fez-lhe uma espera no galinheiro e acertou-lhe, em cheio, com um pau na cabeça. Depois atirou-o, inerte, para o quintal do avô, onde o enterraram à sombra duma figueira, chorando juntos o irrequieto Snoopy.


MARTA ENCANTADA COM O MESSIAS

Marta estava encantada com a companhia de Messias, a quem escolhera agora para confidente.  Caía-lhe um bocado mal-estar a aproveitar-se dum animal em benefício próprio; mas, vendo bem, o benefício era recíproco, quando assim é por que não usufruí-lo. Afinal um casamento também é um benefício recíproco. Quando o é. Quando não, torna-se um inferno. E Messias, com a sua escuta paciente e passiva embora por vezes a encare com um olhar compassivo, como se estivesse a escutá-la activamente, e quem sabe se não, está a torná-lo mais ameno. Todavia, Marta não consegue ainda libertar toda tensão que lhe causa o facto de o marido sair de casa depois do jantar. Diz que é para desentorpecer as pernas. Ela pergunta-lhe por que não vai logo de manhã e no espaço da hora do almoço antes de recomeçar o teletrabalho.  Ele responde-lhe que a essas horas não tem disposição e como anda com insónias faz-lhe bem caminhar antes de dormir. E se te aparece uma brigada da polícia, que desculpa dás para andares por aí à noite. Ainda não pensei nisso; se acontecer, verei.

Marta é que parece que se lhe acabaram os comprimidos para dormir, a meia dúzia que uma colega lhe tinha dispensado, logo no início da "coisa ". Nunca de tal tinha necessitado na sua vida; se não dormia muito bem numa noite, dormiria melhor na seguinte. Sempre gerira isso muito bem, mas esta situação, que parecia eterna, obrigava-a a tomá-los nas noites dos dias mais difíceis. Comprimidos para dormir, sem receita médica, contava já que não seria fácil. 

Iria aproveitar quando fosse com o Messias, já que agora não se entra na farmácia; é através do guichet que já existia para atendimento nocturno.  Faça sol ou faça chuva, agora cada um que se amanhe, apesar de já terem colocado uma cobertura que dá para proteger não mais de duas pessoas, por causa da distância de segurança. 

Nessa manhã, quando Marta abriu a porta da D. Zulmira, viu que o cão trazia um bilhete na coleira: "Marta, quando voltar, se tiver uma meia hora disponível, gostaria que viesse até cá dentro, s.f.f.. Obrigada. 

_A tua dona vai preparar-nos um chazinho, Messias. Comentou para o cão, sorrindo.

Depois da voltinha, colocou-se na fila de espera da farmácia, em quarto lugar; veria se tinha pachorra para esperar, tanto mais que o sol já aquecia.

De vez em quando, mais por desocupação do que por curiosidade, olhava para trás para observar quantas pessoas iam chegando. Naquele momento, Marta estava em terceiro lugar, quer contasse do primeiro, quer contasse a partir do último. Estamos no centro, Messias, comentava, em voz baixa para o dócil animal, calmamente sentado a seu lado, quando ouviu atrás de si, a falar com a pessoa que se lhe seguia,  aquela voz inconfundível que um dia ouvira pelo telefone quando utilizara, indevidamente, a linha de prevenção de suicídio só para desabafar. Não teve coragem de olhar para trás e identificar a pessoa. Quem sabe se a outra a conheceria. Não, não. Nem queria pensar nisso. Por sorte, ou não, a dona da tal voz passou a alguns metros dela e assim vista de lado não se pode certificar se já a terá visto antes, mas pareceu-lhe rapariga da idade do seu filho, portanto à volta dos vinte e cinco anos. Quem sabe se não teriam sido colegas. Ou amigos. Isso sobressaltou-a. Mas que se lembre nesse telefonema fora de si como estava, pulou todos os protocolos e a boa educação, mas não se identificou. Marta, porém, sabe que há muitas maneiras de identificar quem não o quer fazer.  

Saiu da fila. Tinha ficado um pouco atarantada. Compraria os comprimidos noutra ocasião. Se comprasse. O melhor era voltar com o Messias e talvez tomar um chazinho com a vizinha, apesar de saber que ainda não estaria bem do tornozelo.

Quando lá chegou, mal abriu a porta, deparou-se com um papel no chão, que dizia: Marta, se não se importa, fica para amanhã. Desculpe.

MARTA – DÉCIMO EPISÓDIO

Marta abre a porta da casa da D. Zulmira e Messias aparece de imediato. Não traz recado nenhum na coleira. Mantém-se o de ontem, presume Marta.

Desta vez é que irá à farmácia; leva a máscara presa à camisola, por uma mola colorida, para evitar esquecimentos a hábitos ainda não totalmente adquiridos, um par de luvas na algibeira e uma outra já colocada, e o saco para recolha de dejectos do Messias.

Levantou-se mais cedo para ter oportunidade de ver melhor a dona da tal voz apaixonante, caso seja aquele de ontem o horário em que sai para o trabalho, mas primeiro está a voltinha com Messias.

E foi exatamente nessa voltinha, na rua do prédio cujas traseiras confrontam com um dos lados da sua casa de banho, onde uma noite surpreendeu o marido a mirar e a acenar para a única janela com luz do dito prédio, enquanto falava baixinho ao tlm, que a viu sair do dito prédio. Vinha de máscara já colocada e, passando pelo café da esquina, estando a proprietária a lavar a cara da montra, perguntou, alto e bom som, e sem abrandar o passo apressado: Então D. Clementina, quando é que podemos vir cá tomar um cafezinho. Dia de 18, menina, dia 18.

Marta deu meia volta, encurtando a trela do Messias e fez um desvio superior à distância mínima de segurança, porque não tinha colocado ainda a máscara e não queria que a outra a visse frente a frente. No dia anterior tinha-lhe parecido mais jovem, mas agora via que, pelo porte e desenvoltura, teria mais de trinta.

Mas o que a transtornou, foi o facto de ter saído daquele prédio. Não podia ser. Seria demasiada coincidência. De qualquer modo, a simples dúvida e a possibilidade de que tivesse alguma coisa que ver com as saídas noturnas do marido, deixou-a fora de si.

Não. Ainda não seria hoje que iria à farmácia; estava demasiado nervosa e incapaz de se concentrar noutra coisa, muito menos com paciência para filas de espera.

_ Vamos, Messias! Estou mesmo a precisar dum chazinho, de camomila, se for possível. Veremos se a tua dona o tem já pronto.

E lá foram, entre impropérios exacerbados pelo ciúme, num tom que nem mesmo Messias parecia apreciar, mas como escape para estar mais calma antes de ir ter com a vizinha, como esta lhe tinha pedido.

Aberta a porta, Messias entrou, como de costume, seguido desta vez por Marta.

_ Posso entrar, D. Zulmira?

A voz da mulher chega por fim, arrastada, num sussurro longínquo.

_Venha cá dentro, Marta, se faz favor. 

Marta é guiada por Messias e por aquela espécie de murmúrio. Lá dentro, como na entrada, reina a penumbra.  Marta procura um interruptor com o olhar, não se afoita a acender luzes numa casa onde nunca tinha entrado.

A dona da casa está reclinada numa poltrona articulada, daquelas que dá quer para cama quer para sofá. Talvez até com sistema de massagens, divaga Marta sem se atrever a olhar em volta.

_ Bom dia, D. Zulmira. Como está o pezinho?

_ Não muito bem … obrigada pelo que tem feito pelo Messias. Não tenho como lhe agradecer.

_Não precisa. Gosto muito dele …, mas ... quer que lhe traga alguma coisa, que lhe faça algo; não tenha receio de dizer, D. Zulmira ...os vizinhos são para estas coisas ...

_ Obrigada, Marta, mas não preciso de nada. Responde-lhe numa voz tão cansada, que assusta Marta.

_Mas ...

_ Sente-se aqui mais perto, Marta. Preciso contar-lhe algo. 

_ O seu filho veio cá ontem, não é verdade?

_Telefonou-me na véspera; detectaram o vírus em dois colaboradores, outros foram para quarentena e ele, diz que está bem, mas que não pode abandonar agora o posto por falta de pessoal ... sabe como é … bens alimentares ...

_Pois é melhor não vir … pode contaminá-la.

Aqui, a senhora soltou um riso triste e forçado. Que Marta não compreendeu. Deve ser nervosismo, pensou.

_Mas não se preocupe, D. Zulmira, que eu trato-lhe das compras. Vou já telefonar-lhe para o descansar sobre isso.

_ Não, Marta, não! atalhou, com veemência, parecendo para tal fazer um grande esforço.  Por favor, não o faça; e só adiei para hoje o que tenho para lhe contar porque precisava ganhar mais um pouco de coragem para o fazer, terminou, quase num murmúrio.

Marta ganhou por fim coragem para olhar em volta, mas não vislumbrou qualquer indício de que haveria chá. Estava a fazer-lhe falta. Tinha tomado o pequeno almoço muito à pressa e aquilo parecia que ia demorar.

_Oh, D. Zulmira, não há-de ser assim tão grave...senão ...

_É; e muito! Peço-lhe que me escute, sem me interromper ..., se possível, antes que me faltem, de todo, a força e a coragem … Comecei por contar ao Messias … mas quando ele me olha com aqueles olhos castanhos,  tão doces … sinto que é um segredo demasiado grande para um animal ...

_Um segredo?!


MARTA E O SEGREDO

_Mas que segredo é esse, D. Zulmira?! Olhe que eu não gosto de segredos!

_Peço desculpa, Marta, mas preciso que me ouça; não tenho mais ninguém a quem recorrer para o contar. _ Marta notava-lhe, na voz cansada, uma espécie de desespero. Ou seria impaciência.

_ … ao seu filho ...

 _Ele não pode saber!

_ Então a outra pessoa da família, D. Zulmira.

_ Eu não tenho mais ninguém, Marta. Tinha uma consulta marcada para um psicólogo, só para ter alguém a quem contar …, mas com isto do pé tive de desmarcar ... e já não tenho tempo.

_Quando estiver boa do pé voltará a marcar.

_Não, Marta o meu tempo terminou.

_Oh, D. Zulmira ...

_Este é outro segredo, mas este não tem importância: foi-me diagnosticado cancro há dois anos … deram-me um ano de vida ...

_Lamento muito sabê-lo só agora, D. Zulmira, mas sendo assim o tratamento tem dado resultado...

_Não quis tratamento nenhum; não queria que o meu filho sofresse. Além de que não tinha tempo: tinha de encontrar os pais do meu filho.

_ ... o pai do seu filho?

_Não, os pais.

_Ah, é adoptado e não sabe, compreendo ...

_ Preciso que me ouça, Marta, como se ouve alguém em confissão. Sei que é um pedido muito pesado, mas a Marta é o meu último recurso, e se não fosse o Messias, nem sei … nem …nem teria ninguém a quem recorrer agora. Não quero morrer com ele e sinto que isto está por estes dias. _ A voz era cada vez mais arrastada e Marta começava a sentir uns arrepios, não sabia bem de quê.

_Oh, D. Zulmira tem de contar isso da doença ao seu filho. Eu não quero vir encontrá-la …_ morta, ia para dizer, mas conteve-se e continuou: _vai ver que é melhor assim!

_ A Marta tem levado o Messias sem ter entrado, por isso vai continuar assim; não tem de se preocupar.

_E como é que eu saberei se ... _ Marta aqui hesitou.

_ Vê aqui estas fitas? todos os dias colocarei uma diferente na coleira do Messias; se a fita for a mesma que no dia anterior é porque ...

_Isso não vai acontecer …, mas … nesse caso … telefono ao seu filho.

_ Presumo que não seja necessário: ele telefona-me de manhã e à noite e se eu não atender alguma providência tomará.

_Pronto, D. Zulmira, não se fala mais no assunto: vai ficar boa do pé, conta ao seu filho o estado da sua saúde … e se não quer que ele saiba que é adoptado … isso é lá consigo. A esse respeito não me aventuro a dar conselhos …

_A Marta não percebeu! Ainda não me deixou contar o segredo! _ A voz da vizinha era, no mínimo, acusadora.

_ Como assim?! Contou-me, não um, mas dois segredos! Dois, dois! D. Zulmira!_ Contrapôs Marta, já um pouco irritada, tentando manter um tom de voz doce e natural.


MARTA FAZ CALDO VERDE

Marta olha, por acaso, para o relógio de parede que está em frente à poltrona onde se sentara e ergue-se num rompante.


_D. Zulmira, o tempo passou muito depressa. Vou fazer o almoço e trago-lhe uma sopita.


_ Podia já ter contado tudo, Marta, se me tivesse dado oportunidade.


_Ora, ora! Se a vizinha precisou de tanto tempo para contar estes segredos, é de justiça que, também, eu precise de algum tempo de preparação para os ouvir ...


_É verdade! Tem toda a razão … Grande egoísmo o meu ..., mas esta dor ...


_Volto assim que poder; trago-lhe sopa e veremos se estarei preparada para o terceiro segredo ..._ e riu-se, continuando_ … não diria de Fátima, mas da D. Zulmira … se ficarmos pelo terceiro, não é assim, vizinha? _Concluiu, bem-disposta.


Marta fez o almoço. Almoçou, rapidamente, deixando o marido a comer sozinho, consultando o tlm, os filhos só viriam jantar, e deu graças a Deus ter prometido a sopa a vizinha; os almoços silenciosos pesavam-lhe: talvez a ambos, mas falar de quê, ao fim de tantos dias, sem caírem no mesmo assunto. E de segredos não se fala.


D. Zulmira parecia-lhe não se ter mexido. Já Messias tinha ido até à porta, quando ouvira a voz de Marta, que entrara mesmo sem ter esperado resposta à formal “dá licença”, e voltara a deitar-se ao lado da dona, como observador indulgente.


_Aqui tem, D. Zulmira; é caldo verde. Espero que goste.


_Obrigada, Marta, coloque aí na mesinha, se faz favor. Comerei depois. Disse, em voz lenta, e cansada.


_É melhor comer já, enquanto está quente.


_Vamos ao que interessa…. Desculpe, ao que me aflige ...


Marta pousou o tabuleiro na pequena mesa de vidro que, dada a obscuridade, não soube se tinha pó ou não. Não que isso fosse importante, mas poderia ser um factor, indicador, ou não, do grau de capacidade em que a senhora se encontrava. Por outro lado, se a vizinha não queria comer a sopa, era lá com ela; não a iria obrigar, além de não ter à-vontade bastante para o fazer, não lhe parecia que fosse pessoa facilmente maleável para aceder a uma insistência, mesmo simples, como esta de comer a sopa.


Sentou-se na poltrona vaga, afagando, ao de leve, a cabeça de Messias, para se descontrair um pouco, mas sem deixar de meditar nos segredos de que era possuidora desde essa manhã: D. Zulmira tem cancro há dois anos, depois de lhe ter sido decretado apenas um ano de vida; tinha sobrevivido mais um, sem ter querido submeter-se a tratamentos esgotantes, para proteger o filho do sofrimento de sabê-la com morte anunciada. Filho, que afinal não é filho.


Moveu o olhar dos olhos doces de Messias, para a vizinha que, com os olhos semicerrados, mais parecia ter adormecido.


MARTA TAMBÉM QUASE ADORMECE

Marta embora quisesse aparentar calma, já que o estado de saúde da D. Zulmira era tão delicado, sentia um inexplicável frémito interior; não sabia se era da expectativa se do receio do desconhecido: um segredo é sempre uma incógnita e o não-conhecido provoca, em todo o caso, alguma inquietação. E ela era avessa a segredos … Sempre considerou que estar na posse de um segredo, mesmo pequeno, insignificante, amarra a pessoa não sabe explicar a quê, mas provavelmente ao próprio peso do sigilo a que a confissão obriga.
A sua avó, sim; essa era um túmulo; talvez por isso tenha morrido cedo: uma tarde caiu para o lado e foi um túmulo a sepultar dentro doutro túmulo.
Uma velha e afastada parenta da avó, a quem chamava prima Etelvina, essa é que teria razão: quando lhe pediam reserva sobre algum desabafo, não estava com meias medidas; contava à primeira pessoa que lhe desse atenção e se não lha davam de boa vontade, exigia-a. Não sou baú de ninguém! exclamava, alto e bom som, depois de contar aos quatro ventos o que seria para resguardar para si.
Marta nunca contaria a ninguém algo sigiloso, mesmo que não lho pedissem, mas preferia não ter essa amarração, como a avó terá tido, já que, dado o seu ar austero e meditativo, era terreno fértil para familiares e amigos despejarem as suas apoquentações, intimidades e outras coisas que sabiam não poder contar a ninguém; a não ser ao padre. E nem todos iam nessa. Com ela todo o segredo estava seguro. Incluindo os próprios: que devia tê-los, como qualquer vivente.
Nestas meditações e naquela silenciosa semi-obscuridade, Marta tinha-se aquietado e quase ia adormecendo também, quando lhe ocorreu que a D. Zulmira, até aí tão impaciente para lhe contar o segredo que não queria levar para a cova, tivesse adormecido.
E se, em vez de ter adormecido … tivesse mo …
A palavra morreu-lhe, não na boca, mas no pensamento. Não! Isso não podia acontecer com ela ali! Afinal era só uma vizinha, que “dantes” passava semanas sem sequer a ver.


A INSPIRAÇÃO DE MARTA

Marta fez menção de se levantar, lentamente, acção que é seguida, com igual movimento por Messias. É que Marta teve uma súbita inspiração: propor à senhora vizinha que conte o segredo a uma assistente daquelas linhas telefónicas de apoio, a que ela mesma tinha recorrido não há muito e induzido a colega Rita a fazê-lo também. Eram pessoas com preparação; na maioria licenciados na área da psicologia, da psicanálise, da sociologia e afins, habituados e habilitados a escutar e a guardar sigilo de todo o segredo que lhes é confiado. Pelo menos é isso que pensa. Vai deixar a D. Zulmira dormitar, se é que está só adormecida … e depois volta com os números de telefone das ditas linhas. Ao movimento de ambos, e parecendo adivinhar parte do pensamento de Marta, a senhora reabre os olhos e, numa voz murmurante, diz: Não estava a dormir. Tenho é estado a pensar. Na verdade, não sei como é que pude, sequer, imaginar transferir para si, Marta, uma vizinha a quem, não há muito tempo, apenas dizia bom dia, boa tarde ou boa noite, o terrível peso que é um segredo. Nem sei como lhe pedir desculpa; esta é a palavra que mais lhe tenho dirigido, mas quero dizer-lhe que decidi levá-lo comigo. Nestes últimos dois anos, andei por arquivos, redações de jornais, bibliotecas … locais onde cheguei a encontrar o seu filho …
Aqui, Marta aquiesceu: lembrava-se do filho lho ter contado.
_… no intuito de encontrar respostas, continuou a vizinha, para os meus tormentos e esbarrar com dados e informações que lhes pudessem pôr fim ou, pelos menos, atenuá-los. Tudo em vão. Teria de ter começado mais cedo … muito, muito mais cedo ...
Marta ia para dizer: nunca é tarde, mas calou-se a tempo, porque dada a conjuntura: cancro, pé torcido e recolhimento obrigatório, talvez fosse mesmo tarde.
_... e cheguei, por fim, à decisão de não falar mais no assunto; tudo o que se faz, e mais ainda o que não se faz, é, em suma, a nossa vida. E cada um tem de arcar com a sua, e não fazer a maldade que estive prestes a fazer-lhe: pedir-lhe que arcasse com o pedaço mais negro da minha; o mais negro, mas também o mais doce … E ficamos por aqui. E mais uma vez, esperemos que seja a última, desculpe-me, por favor.
_Ó D. Zulmira, por um lado, fico satisfeita que tenha chegado a essa conclusão, mas mesmo assim gostaria de lhe propor um recurso mais leve. Volto já.
E voltou; com os números anotados num cartão suficientemente grande, onde figuravam, bem visíveis e espaçados, para facilitar a respectiva leitura.
Logo que expôs minuciosamente a sua ideia, Marta retirou-se, dizendo, levo o Messias comigo, se mo permite; voltamos não antes de uma hora.

De uma maneira ou de outra, sentia-se aliviada; sempre fora uma pessoa disponível para desabafos, agora segredos … nem que fosse o de um mapa para encontrar um tesouro.
Com Messias a seu lado, aquele passeio, que se fosse solitário pelas suas pouco movimentadas parceria ridículo, de pessoa só e abandonada, com ele tudo muda de figura: um animal de companhia faz toda a diferença na vida de uma pessoa, desde que se tenha condições físicas e financeiras para lhe proporcionar saúde e dignidade.
Ia reparando, com apreensão, nas longas filas no exterior das repartições públicas, correios e bancos por onde passava. O calor já apertava e as máscaras não ajudavam nada a suportar a inclemência duma tarde ensolarada. Ainda havia tão pouco tempo, toda esta gente estaria a aguardar a sua vez sentada com conforto e ar-condicionado, quer chovesse quer o sol apertasse. Viu mesmo uma senhora cair e, facto curioso, ninguém se precipitou a socorrê-la, fosse por precaução individual, fosse porque estariam todos mergulhados no seu tlm, alheios a tudo o mais. Até que alguém, bem lá do final da fila, se lhe dirigiu. Marta ignora a razão da queda e de tudo o que se lhe seguiu: eram horas de voltar.


quarta-feira, 15 de abril de 2020


HUMOR SEM GRAÇA NENHUMA



Velhos abandonados nos lares, velhos que nunca têm visitas,  que choram na noite escura o esquecimento daqueles a quem deram tudo,  mas a quem se esqueceram de ensinar a amar; que odeiam os companheiros de quarto que têm visitas periódicas,  nunca se sentiram tão felizes nos lares, como agora.

Finalmente ninguém tem visitas e também eles, tal como os outros, se podem  lastimar de as não terem,  porque a lei assim o exige. Uma lei que quase os iguala no ostracismo. Ah!  Se não fossem os telemóveis podiam ser bem mais felizes; todos iguais no esquecimento, no apagamento. Malditos  telemóveis que tocam a todo momento; para os outros. 

Ainda bem que eles não o poderiam fazer. Estão surdos.



Não fazer nada



Lucrécia senta-se num banco à beira do jardim, abre o livro, mas nessa tarde não consegue ler; chega à última linha da página e não sabe o que leu. Quando isso acontece, o melhor é descansar a cabeça; não adianta insistir.

Durante a manhã esteve a ouvir música, daquela que dizem que alivia dores, mas como não sentiu alívio, escutou ainda, durante mais de uma hora, música para harmonizar e relaxar … Por alguma razão, nem uma nem outra fizeram o efeito esperado e ficou também com a cabeça cansada. Porque será que a música, por vezes, a cansa; deve ser por não saber escutá-la ou por ser dura de ouvido. Então hoje, nem leitura nem música. Talvez meditar. Para uns, meditar é apaziguar o cérebro, afastar pensamentos negativos. Para ela é pensar acerca de algo ou deixar flanar o pensamento. Também não lhe apetece fazê-lo; talvez meditar a sério, esvaziar o cérebro, mas ali não lhe parece aconselhável, sabe-se lá se não entra em transe e ainda pensam que enlouqueceu e chamam a ambulância. Então meditar também não. Não é fácil não fazer nada; estamos sempre a fazer alguma coisa, mesmo que pareça que não. Tem um livro que ensina a não fazer nada. Talvez seja altura de pegar nele e praticar.

Isto quando se sentir em condições de fazer alguma coisa. Mesmo que essa coisa seja não fazer nada.
O DESCANSO DO ASTRO
Naquele fim de tarde dourada, o sol disse: é urgente que me reforme ou pelo menos que tenha umas boas férias, depois de milhões e milhões de anos sempre a brilhar e a aquecer. Vou informar o Universo para que o mundo não fique na escuridão.
O cansaço era tão intenso que puxou para si a nuvem mais fofinha e espessa que encontrou, embrulhou-se nela e caiu num sono profundo.
Às diversas horas em que todos o esperavam, pela primeira vez na sua ancestral carreira profissional, não compareceu. Todos os seres ficaram assustados e apreensivos, numa profunda escuridão, e nem sequer a lua apareceu, para minorar aquela negritude. É que também ela não podia dar o que não recebia: a refletir a luz do sol e projectá-la na terra.
E passou-se o que noutra altura se chamaria um dia e uma noite e os seres não aguentavam mais e todos, como que previamente combinados, gritaram, em uníssono: Sol, Sol! Queremos sol!
Eram os pássaros, os mamíferos e até as plantas se juntavam no clamor.
Como era de esperar, toda a passarada do mundo a emitir os seus sons mais diversos, alguns já de si bastante irritantes como os pavões e o grasnar dos patos e gansos, a que se juntavam todos os outros mamíferos, sobressaindo os burros a zurrar, os porcos a grunhir, o bramido dos elefantes e imagine-se, o alarido medonho dos macacos.
Ao que parece, só o bicho homem ficava nas suas tocas, com a eletricidade ligada e alguns conseguiram mesmo continuar as suas atividades, ignorando a ausência do sol, em cuja existência nem sequer tinham atentado, alheados que viviam de tudo o que não fosse eles mesmos.
As televisões não paravam de transmitir: leigos e cientistas alvitravam disparates e mais disparates, para dissimular o pavor de que todos estavam impregnados.
Porém, apesar de o homem nada saber e por isso nada fazer para que o sol voltasse, os animais não se aquietavam: todos, lobos e coelhos, raposas e galinhas, cães e gatos a apelavam ao retorno do Sol, comportamento este muito assustador para o homem que tinha que conviver junto ou de perto destes ou de outros animais. Aquele clamor incessante destabilizava-o, paralisava-o, incapaz de encarar a escuridão total e, quem sabe, permanente e o seu próprio fim, no qual não queria pensar. Colocavam as televisões e os rádios no volume máximo para não escutarem uivos e miados, que faziam chorar as pedras, a única coisa que estas podiam fazer para se juntarem aos outros seres, na sua imensa aflição.
Os seres que viviam no subterrâneo, a quem o sol parece não fazer grande falta, também eles não ficaram indiferentes ao clamor dos restantes. Enquanto isso, o sol, no seu sono pesado e profundo, estendeu uma perna e, nesse momento, fendeu um nadinha a espessa e quase impenetrável nuvem em que se tinha envolvido. E, por entre esse rasgo, pareceu-lhe escutar um conjunto de sons que conhecia individualmente, um a um, tantas as vezes que os tinha ouvido ao longo de milhões e milhões de anos, mas daquela maneira nunca tinha acontecido. Embora intrigado, quis voltar a adormecer; precisava continuar a descansar até se ver liberto de tanto cansaço, mas aquele clamor inaudito, persistente, em ondas desesperadas, fizeram-no despertar totalmente. Quem é que podia continuar a descansar no meio daquele descalabro de sons?
Espreguiçou-se um pouco e, mais desperto, refletiu. Tinha caído um sono profundo sem ter tido tempo de enviar uma mensagem para que uma outra estrela mais próxima o viesses substituir e tinha deixado a terra abandonada à sua escuridão. Era imperdoável. Alguém devia ter colmatado o sucedido. Pobres seres desamparados. Agora teria que ter muita cautela. Ir-se-ia desembaraçando, aos poucos, da espessa nuvem, para não causar danos de maior aos indefesos seres que no planeta clamavam por si de maneira tão persistente e avassaladora.
Pouco a pouco, um dos lados da terra foi sendo invadida por uma claridade difusa e, o imenso impressionante clamor, de súbito, emudeceu, numa expectativa geral, enquanto maior claridade ia chegando, tudo iluminando e tornando visível. Do outro lado do planeta, a lua ia igualmente recebendo luz e devolvendo-a à terra, dentro das suas limitações e dependência solar.
Quando o sol se mostrou em todo o seu esplendor, um clamor de júbilo ecoou por todo o universo, até gradualmente se reduzir à música habitual e bem conhecida do astro-rei, que sorriu, feliz por cumprir uma missão divina de que dependem todos seres.


COISAS DO ZIIRTEU



Oh, Akinu,  estava mesmo a precisar de falar com alguém! Tenho estado a observar aquela bolinha minúscula …

_Qual, aquela toda às riscas?

_ Não, pá, a terra dos homens!

_ O que é que tem?

_ Tenho descurado um bocado aquela organização; não é que nos últimos tempos se meteu na cabeça das nee-mulheres que querem um planeta limpo! Aquela mutação é capaz de pensar em mil e uma coisas e mal as conseguem, já aí têm outras mil …. Aquilo tem sido reciclagem disto, daquilo, enfim de quase tudo. Até as ricaças começam a ter vergonha de comprar tanto trapo, porque há as que dizem que muita roupa e muito sapato faz muita poluição por causa das fábricas e dos corantes e depois vão dar as roupas a lojas de caridade. Mas vá lá que depois não se contentam em ter tanto dinheiro sem o gastar e compram lojas inteiras; senão empanturram-se de comida e bebida que depois vomitam ou tomam comprimidos que as põem a dormir quando não conseguem pensar por si mesmas; mas até aqui tudo bem, que os comprimidos dão muito dinheiro aos nossos Ni Aliados, aliados que o são e nem sabem, como por exemplo alguns laboratórios farmacêuticos.

_ Mas isso não parece grave afinal …

_ Isso era o que eu pensava, por isso não dava muita atenção; que eles, com os medos, as raivas, os ódios e em especial com a ganância, estavam bem entretidos, que eu tenho mais que fazer, mas agora esta de quererem um planeta limpo, tudo eléctrico, sem motores a gastar derivados de petróleo … Já viste como é que os países produtores de petróleo vão sustentar as guerras?

_ E o que pensas fazer?

_Eu bem tenho impedido que construam carros a água e mesmo a água salgada; durante algum tempo evitei que construíssem os transportes elétricos, mas o estúpido do  Ziirteu deu-lhes um empurrãozinho e agora já não há como voltar atrás.

   Hás-de arranjar maneira ...

_ Já arranjei, por isso te queria contar.

_Ah, sim? Conta lá.

_ Arranjei-lhes um vírus, uma entretenha: nada que se pareça com a peste negra que lhes lancei há tempos nem com a pneumónica, há menos. O Ziirteu, com aquelas manias da limpeza, bem tentou tramar-me,  mas, conhecendo-os como os conheço, o efeito deste vírus é o mesmo que lançar uma bomba de carnaval no meio de uma multidão: como não o vêem, imaginam que os outros podem ir carregados deles e cada um foge para seu lado, atropelam-se, matam-se ,,, enfim, geram um pânico coletivo: uns vão morrer atacados com o vírus, não muitos, mas a maioria vai morrer de medo, que é uma sensação muito humana, que lhes serve para quase tudo, mesmo para as coisas que lhes parecem boas: está lá sempre.

    Oi, espera um pouco: estás a despertar-me a curiosidade. Há muito tempo que não me distraio com a atividade desse planeta.

_Já estás a ver?

 Olha, é giro! O que é que lhes puseste na cara? Ah, mas não em todos! Criaste uma raça nova?!

_ Não, tenho mais que fazer; são máscaras: meteu-se-lhes na cabeça, talvez tenha sido o Ziirteu, que assim estão protegidos do vírus, mas não as há para todos. A indústria não estava preparada; normalmente só as usam na manipulação de materiais perigosos, nos laboratórios, nas salas de operações, enfim, em situações precisas, não na generalidade da humanidade. Se achar piada, talvez, como tu dizes, desenvolva uma nova raça com máscara.

   Sabes, estou é a estranhar os pássaros de ferro estarem quase todos pousados. Avariaste os pássaros?

_ Pássaros? Ah, os aviões! Eu ia-me lá lembrar disso. E nem convinha pregar essa partida aos Ni Aliados. Acontece, porém, que se lhes meteu na cabeça que os aviões são transportadores do vírus e não os deixam levantar voo. Deve ter sido coisa do Ziirteu. Não sei como não andam ainda todos com um microscópio ao pescoço!

   Olha, estive a contar os humanos que andam na rua e parecem-me muito menos. Mataste-os?

_ Qual quê! Estão fechados em casa, com cagufa … O que ele não pensou, o Ziirteu, é que fechar em casa pessoas que mal se podem ver às refeições, estarem agora vinte e quatro horas por dia, em permanente confronto, nem todas as páginas do Correio da Manhã seriam suficientes para descrever as tragédias, maiores que as causadas por todos os vírus. Muitas abasteceram-se de comprimidos para dormir; vão hibernar durante catorze dias. O pior depois, para eles, está claro, é a ressaca. Tenho de instruir os laboratórios aliados para irem fabricando um contra sono, que no final os faça ir para o trabalho, como zombis. Muitos nunca mais irão. E olha que não vai ser por causa do vírus!

  Eh, pá. Só mesmo tu, para tornares este jogo mais desafiante, te lembrares de acossar os humanos com um bicho que não conseguem ver!

_Ora, pois se vissem, procediam como têm feito com os que vêem, como baratas, formigas, ratos, mosquitos e lá se livram deles por uns tempos, não muito, que eu gosto de vê-los assustados, permanentemente. Ah, se não fosse isso … já não teria mão neles! Eram até capazes de subverter o jogo!

  É verdade! Ainda me lembro de vê-los esconderem-se dos animais ferozes, assustados, sim, mas ao mesmo tempo satisfeitos por arranjarem estratégias para se protegerem dos que não conseguissem matar, e depois mandaste-lhes uns mosquitos, mínimos, e era só vê-los a dar palmadas em si mesmos, por todo o lado, desesperados. Foi mesmo uma daquelas ideias que deu para me distrair um bom bocado!

_Ah, ora bem, podes vê-los agora, sem saberem que fazer a não ser comparar números: casos, mortos e afins! Gostam muito de estatísticas! Quando o jogo começar a ficar chato, é só dizeres, que dou um jeito.

   Ok. Obrigado, amigo. Já tenho com que me entreter, agora que estava a ficar um bocado enfastiado da quarentena!