CRÓNICA DE UM QUALQUER DÉCIMO QUINTO DIA
Marta está à beira da insanidade. Ainda consegue chorar um pouco quando tem oportunidade de ir à casa de banho, o que se tornou difícil nas últimas semanas, com quatro pessoas em casa, consecutivamente. Até para chorar tem que ser depressa. Mas enquanto tiver lágrimas, tudo vai bem. Ai de quando secarem! Um casal de filhos de 20 e 25 anos, o último de curso terminado sem trabalho à vista e outro de curso suspenso, como quase tudo. Não colaborativos em nenhum aspecto nem sequer na boa disposição. Juntam-se a um pai, marido, que já não reconhece. Em teletrabalho a meio tempo; televisivo no tempo restante. Má cara. Marta, com trabalho suspenso pelos próximos meses, embora apreensiva não se quis entregar a preocupações maiores do que as que o momento já comporta. Encarou esta pausa como um tempo extra, de convívio e harmonia, depois de 30 anos consecutivos de trabalho, muitos deles apenas com duas semanas de férias; as restantes pagas a dobrar, porque fazia falta no trabalho e não sabia dizer que não. Idealizou um tempo em que podia, com o seu bom humor, fazer esquecer o "lá fora". A primeira semana decorreu razoável, já que ela intervinha sempre com a sua boa disposição, apresentando tudo pelo lado positivo, por vezes hilariante, como se habituou a fazer para espantar fantasmas; depois da "coisa" passar se faria um balanço; de momentos estava tudo imprevisível, como imprevisível é a própria vida. Não é que ela não tenha medo como todos têm, não tanto por ela e pelo marido que, não sendo velhos, já viveram alguma coisa, mas sobretudo pelos seus filhos, muito novos ainda para ficar sem pais, que é o mesmo que ficar sem chão, sem raízes. Mas três mal dispostos contra um, facilmente se lhe derrubam o bom humor que tem pretendido manter, especialmente porque agora, mais do que nunca, afinal ela não é a mãe, não é a esposa; é a criada, numa casa pequena, apertada, que tenta manter organizada, que recebe má cara e más disposições.
Deixou de ter receio do vírus. Dúvida que seja matada por ele. Tem é medo de continuar em casa. Já mataram nela quase tudo. Quando somos "felizes" esquecemo-nos de regar atempadamente os relacionamentos familiares, deixamos a vida correr, parece tudo tão normal e depois é tarde, muito tarde e nem toda a energia e bom humor conseguem remediar isso. Pensou ter construído uma família e o que saiu foi um grupo de pessoas. Teme que se tornem assassinos psicológicos e que, se alguma vez "esta coisa" passar, se entretanto não for levada por "ele", que já não exista nada de si mesma, a não ser um corpo, mudado, envelhecido, sem alma. O esquecimento. Talvez então uma bênção divina.
LEMBRAM-SE DA MARTA?
Marta continua a chorar; agora de raiva. E já não vai chorar depressa, na casa
de banho. Chora, enfiada na cama onde se mantém recolhida, alegando uma
insuportável dor de cabeça, de que ninguém duvida, não só por Marta ter cabeça,
logo suscetível de lhe doer, como também aos restantes três habitantes da casa
por vezes lhes acontece. Levanta-se de vez em quando para fazer algumas
tarefas, como as refeições, sem o que seria um pandemónio, e aí seria uma outra
dor de cabeça. Para tal, diz ter tomado um comprimido, mas quando não aguenta
“aquilo” volta para a cama, antes que lhe dê um tremendo acesso de choro e a
tratem como louca; precisa pensar. E muito.
Quando a segunda semana de quarentena começou a correr mal,
onde o seu bom humor era rejeitado, pior do que isso, ignorado, Marta começou a
ter dificuldade em adormecer, não estranhando que acontecesse o mesmo ao marido
e que este se levantasse pouco depois de a julgar adormecida, demorando-se
imenso na casa de banho; coisas de homens, pensou: agora estamos em quarentena
de tudo. Porém, há dois dias, melhor dizendo, duas noites, rendida ao cansaço,
adormeceu de imediato, todavia, talvez por ter bebido um chá calmante pouco
antes, acordou com uma urgência premente de esvaziar a bexiga. Levantou-se, e
sem acender a luz para não incomodar o marido que julgava a dormir, entrou na
casa de banho, mas antes de acender a luz sentiu como que uma presença e
deteve-se à porta; deve ser uma impressão, pensou. Quando os olhos se
habituaram à semi-obscuridade, viu o marido empoleirado na tampa da sanita, com
a pequena janela semi-aberta, ora espreitando, ora acenando com a mão, ora
falando baixinho junto ao telemóvel, ora olhando novamente pela janela,
mandando mensagens, olhando outra vez enquanto soltava estranhos e abafados
ruídos junto ao tlm.
Sem saber o que pensar, e muito menos que fazer, e ainda não querendo
manifestar a sua presença, recua, em silêncio, até ao quarto, onde apesar de
aflita aguardou o regresso do marido, fingindo dormir profundamente e só depois
se levantou. Não obstante a urgência urinária, subiu também à tampa da sanita,
entreabriu com cuidado a janela e ainda pôde ver uma luz que se apagava numa
janela de um andar mais abaixo, das traseiras do prédio fronteiriço.
Pequena janela mais semelhante a uma fresta que nunca costumava ser aberta por
motivos óbvios, que estivera emperrada durante anos, e agora abria tão bem, era
a única de onde era possível visualizar a janela, cuja luz se tinha acabado de
apagar, por ficar na quina do prédio.
E agora?
MARTA JÁ NÃO CHORA TANTO
Marta já não chora tanto. O sentimento de se saber traída
cava uma ferida no seu orgulho muito humano. Quer pensar, pensar, mas não pensa
nada. Apenas remoe e revive a cena daquela noite, possuída por um sentimento
surdo e obsessivo; se deveria ter-lhe pedido explicações, fazer um escândalo,
desancá-lo, pô-lo na rua, sair ela mesma porta fora. Concorda que fez bem em
ter agido com prudência. Tanta coisa mudou em tão poucos dias. Fazer um
escândalo nesta altura era mais uma nas estatísticas de transtornos
psicológicos causados pelo isolamento. Pô-lo na rua; que provas tinha: um homem
que resolve abrir uma janela a meio da noite, quem sabe se para apanhar ar e
não se ter lembrado de o fazer à janela da sala, onde costuma passar o dia, ali
tão acessível, sem ter que subir para a tampa da sanita. Podia ser também
considerado um comportamento psicótico, normal nestes dias, logo pô-lo na rua,
isto se ele quisesse sair; ir para onde, se nem para um hotel agora se pode ir.
E os filhos, iriam eles acreditar ou fechar-se-iam, cada um no seu quarto,
dizendo: os velhos piraram de vez; é preciso é que não nos tragam chatices;
deles só precisamos cama, mesa e roupa lavada. Ah! e de internet! Sair ela
porta fora era o que lhe apetecia, mas para onde, se o mundo se tinha tornado
uma rede de prisões, e sem opção.
Nesta altura, se o fizesse, acabaria por se tornar uma
pessoa com vergonha do seu problema, com sentimentos de inferioridade ou de
baixa autoestima.
Amigas, amigas de verdade, não tinha. Tinham ficado na terra
quando de lá saíra e vêem-se anualmente, na semana que tira para visitar os
pais, de ano a ano, que fica longe e é dispendioso.
Amigas, das outras, também não tem muitas nem o
à-vontade suficiente para lhes falar destas coisas.
Com quem fala mais é com as colegas, mas quando nestes
dias lhes têm ligado e lhe dizem que sim, que estão bem, adivinha-se-lhes um
fundo de azedume disfarçado, que tem aumentado com o passar dos dias, em
especial a Rita, que diz estar tudo bem e que ri muito ao dizer isto, sintoma
de que tudo vai a pior: quanto mais ri, pior ela está. Conhece-lhe bem este
estranho sintoma no trabalho, quando as coisas não vão bem.
Amigas da escola secundária fez poucas; o pai era
ferroviário, andavam sempre a mudar de terra e já lhes perdeu o rasto.
Quando se tem trabalho, saúde e uma família não resta tempo
para mais nada.
E nem se acha falta. Até um dia.
MARTA PRECISA DESABAFAR
Marta precisa de desabafar com alguém. Se tivesse o hábito da escrita diria ao papel o que não consegue, nem pode dizer nem à família nem a outra pessoa qualquer. No papel, poderia injuriar o marido com todos os nomes de que se lembrasse e mais alguns que fosse rebuscar ao dicionário, que os há; dir-lhe-ia tudo o que tem deixado “passar” nestes anos todos, coisas que na ocasião não lhe pareceram ter relevância, mas que agora, em momentos como este, lhe parecem grosseiras, ofensivas, desrespeitosas. Outro tanto da parte dos filhos. Culpa sua, relevando a do marido, que nunca os corrige e que tem por norma concordar sempre com eles, por ser mais cómodo. Ficaria pelo menos aliviada e aí, sim, poderia talvez pensar um pouco melhor, mas por falta de hábito tal prática não lhe ocorre, muito menos numa altura em que a cabeça lhe estala de despeito, indignação, enfim de revolta. Porém, ocorreu-lhe que na semana anterior, ao expurgar uns papéis de uma atochada gaveta, daquelas para onde se deita tudo o que não se sabe onde arrumar de momento, encontrou um folheto, que entretanto colocou no recipiente de reciclagem e que tinha um número daqueles começado por 800, útil já não se lembra para quê, mas que na altura da arrumação considerou não fazer sentido guardar. Foi reavê-lo. Os filhos estavam a ver um filme e o marido fora ao pão, onde ultimamente se demorava um pouco mais do que seria de prever, que ela ao princípio até achava um tempo curto, pois precisava sentir-se um pouco mais liberta, mas agora é que verifica tratar-se de tempo a mais para se deslocar à padaria que fica logo à esquina do quarteirão. Era melhor nem fazer suposições, que começam por uma noz e acabam numa montanha. E uma montanha já ela tinha a ocupar-lhe o cérebro todo; não cabia lá mais nada. Desdobrou o tal folheto e leu: Linha de Prevenção de Suicídio. Tinha-o guardado, inadvertidamente, quando há cinco anos a mãe da Rita se tinha suicidado e vendo-a e ouvindo-a, diariamente, rindo alto com as lágrimas a correr e não parando de perguntar: Porquê? Por que é que a minha mãe se suicidou?!
Até que um dia, pediu a tarde de dispensa e acompanhou-a a uma palestra sobre o assunto. Olhou para os nove números, de tamanho gigante. Não tenho intenção de me suicidar; só preciso de falar com alguém; na linha é tudo anónimo e não corro o risco de alguma vez acontecer como na história de “O Príncipe de Orelhas de Burro”, que costumava contar aos filhos quando eram crianças.
MARTA DESABAFOU
Marta desligou o telemóvel. Sentiu a mente invadida por um vazio oco e baço.
Não se lembra do que disse. Não se lembra do que a voz disse do outro lado. Era
uma voz de mulher. Uma voz por quem se teria apaixonado se fosse um homem, mas
nem sabe se os homens se apaixonam por vozes. Só sabe que disse. Que disse. Que
disse tudo, tudo. Agora respira fundo. Parece-lhe que há muito que não
respirava, como se tivesse emergido dum mergulho, longo e forçado. Tem o
cérebro ainda desalinhado. Parece-lhe ter acordado dum sonho incómodo. O marido
acaba de entrar com o pão fresco. Marta gosta da côdea com manteiga. Sente-se
ainda aérea, mas o cheiro do pão ainda fresco e estaladiço, conforta-a,
remete-a para tempos distantes que gosta de reviver; não há passado nem
presente; assim é o tempo.
O filho irrompe pela cozinha; não atraído pelo aroma do pão, mas anunciando:
Não vou continuar aqui feito parvo: nem sei como me deixei ir ficando neste
marasmo! Vou fazer voluntariado!
Marta, ainda não refeita da situação anterior, fica um pouco atónita, mas logo
reage e pensa para consigo: Até que enfim; já dizia que não! Que era feito dos
valores que lhes tinha transmitido? Não que fosse ela a sugerir, porque uma mãe
teme sempre pelos filhos, mas se o filho tomou essa resolução … Bem, ela já
fizera o mesmo, embora noutras circunstâncias. Parece acordar quando o filho
diz: Então, não dizes nada? Ela levanta-se e, sem responder, abraça-o. Oh, mãe,
não sabes que agora não há abraços! É verdade filho, desculpa; e já sabes o que
vais fazer? Já, depois conto, para não ficares preocupada. Tens todo o material
de protecção? Já não obteve resposta; apenas a porta de entrada a fechar-se.
Marta volta a sentar-se, tentando ordenar as ideias, hesitando em continuar a
trincar a côdea tostada e crocante, com uma fina e quase indelével camada de
manteiga que o calor, ainda latente, do pão tinha absorvido completamente,
quando surge a filha, exclamando:
_ Foi o filme! Foi o filme!
Marta olha a filha, sem compreender, que continua:
_Ele tinha já tudo pronto, mas o filme que acabamos de ver foi para ele um soco
no estômago, uma alavanca que o fez dar o salto.
_Tens que me dizer qual é o filme.
_Não, não, conhecendo-te como te conheço, lá ias tu também e depois ainda os
perdia a ambos! Não e não!
Marta levantou-se e abraçou a filha.
_Oh, mãe, não sabes que agora não há abraços?!
O TELEFONE TOCOU. MARTA FOI ATENDER
O telefone tocou. Marta foi atender. Era a Rita, rindo e chorando ao mesmo tempo. Má da volta. Entre risos e lágrimas lá foi contando que não sabe o que fazer com a filha de cinco anos, que quase não come, não se quer levantar e que diz à mãe: só se me deres muitos beijinhos na cara e me levares à casa da avó. Quero dar-lhe muitos abraços. Rita diz que tenta explicar-lhe que agora não pode ir para casa da avó, para onde ia todos os dias, porque anda um vírus à solta, que se esconde não se sabe onde e que se estiver escondido na casa da avó ele pode produzir outro igual para lhe fazer um dói-dói. A criança chora, enterra a cabeça na almofada e diz que não acredita, que já ninguém gosta dela por causa de, às vezes, não se portar bem; que vai pedir desculpa e dar muitos beijinhos à avó. Rita, entre risos cada vez mais altos e lágrimas que se adivinham, explica a Marta que o filho se fechou no quarto, desde que soube que o pai do Pedro, um amigo com quem dá passeios de bicicleta, está com o vírus, que a mãe põe a comida para o pai à porta do quarto e que ela agora, a mãe, dorme no sofá da sala, porque não têm mais nenhum quarto. O Pedro já lhe disse que lhe dava o dele, mas a mãe não quer, que assim ele fica mais protegido, porque como pai sempre tem que passar pela sala quando vai à casa de banho, é melhor assim. Rita diz que o seu filho está com muito medo, não só por si próprio, mas especialmente por causa da irmã, que adora; tenta falar com ela através do telemóvel da mãe, mas a criança só fica animada por escassos minutos, quer brincar com o irmão que sabe que está no quarto e que diz que também ele já não gosta dela, se gostasse deixava-a ir brincar em cima da cama dele, dar cambalhotas e jogar às almofadas. Conta-lhe que não pode, que há um vírus escondido e ela diz que não se importa, que se o irmão está lá não vai deixar que lhe faça mal. E já não sabe o que fazer.
Rita não se cala, não dando oportunidade à Marta de dizer uma palavra, que afinal nem tem para dizer; nem sabe. É doloroso não ter uma palavra amiga.
Rita conta que o colega do pai do Pedro, que o contagiou depois duma viagem de em trabalho ao estrangeiro, esteve internado, não propriamente para ser tratado, mas porque desconheciam ainda o que fazer com ele, que foi tratado como um animal peçonhento; durante um dia inteiro fechado num gabinete, atiraram-lhe, por uma fresta da porta que logo se fechou, uma garrafa de água e um pacote de bolachas, como se atira, de longe, um naco de pão duro a um cão sarnento e faminto.
Marta acaba por chorar também, com este retrato dum mundo caótico que parece ainda mais desumanizado.
Rita apercebe-se e cala-se por momentos e é quando Marta se lembra de ter visto um programa de televisão, no qual uma psicóloga informava que acabara de criar uma linha de apoio psicológico gratuito e diz a Rita, que se acalme um pouco, que ela, Marta, vai procurar, não diria uma solução, mas uma ajuda para que possa ter ferramentas para enfrentar a situação. Que tudo se irá resolver. Que vá, entretanto, beber um copo de água morna, que abrace a filha e que aguarde, que lhe vai ligar assim que possível.
AINDA MARTA
Marta ligou o número 300 051 920, da Rede de Apoio
Psicológico Gratuito, obteve informações e ligou à Rita. Não podia deixar que o
mundo desabasse naquela família, como tantas outras colhida numa realidade
ainda inacreditável, em especial para as crianças, e jovens que, até há bem
poucos dias, apenas tinham medo que se lhes acabasse a bateria no telemóvel.
A filha de Marta, tendo presenciado estes telefonemas,
deu-se conta da gravidade e impreparação de todos para enfrentar uma situação
conhecida apenas através da sétima arte ou da literatura e disse:
_Mãe, vou falar com o meu namorado; a mãe dele é psicóloga,
trabalha num centro de saúde e talvez nos possa dar formação para ingressarmos
numa rede de apoio desse género, que Ritas à beira de um ataque de nervos não
faltam, a necessitar de directrizes e apoio. Se não estivermos preparados para
este corona, estaremos para outro.
_Mas o Diogo não está a trabalhar num grande projeto ...
_Sim, que não se sabe se “aprés” covir terá viabilidade ou
se terá que convertê-lo noutro.
Marta ficou a contemplar a filha que finalmente via sair
daquele impasse de consumir o tempo a “devorar” filmes e séries. É uma
oportunidade, mãe, respondeu-lhe quanto a confrontou. Marta retorquiu que a
vida real é mais do que ver filmes e séries e se queria uma ficção, neste caso
distópica em função da perigosidade, já estava numa e que era tempo de se
tornar numa personagem activa. A coisa estava a começar a azedar.
O marido tinha recebido ordem para trabalhar agora a tempo
inteiro: felizmente iriam ter algum dinheiro, mas não ia ser fácil; só tinham
aquela sala e é um trabalho que exige concentração. O espaço, como sala, iria
ter também horário de funcionamento, logo o seu próprio espaço estava a ficar
cada vez mais confinado à cozinha e ao quarto, ambos pouco espaçosos. Agora que
tinha conseguido pacificar-se um pouco com a situação, a rotina estava a
transformar a sua vida num tédio, que colmatava com leitura, sem a qual não
conseguiria sobreviver já que o espaço não lhe permitia aventurar-se com
ideias; o melhor que tinha a fazer era projectar o pensamento de modo a
transformar positivamente o estado de alma.
A campainha da porta tocou. Quem será? Estás à espera de
alguma encomenda? Não? É que é tão raro alguém nos tocar à campainha; deve ser
algo para os miúdos e esqueceram-se de avisar. Só espero que não seja nada para
pagar.
Marta, coloca uma máscara e a corrente na porta, de que abre
uma fresta.
_Peço desculpa. Sou o filho da vizinha aqui do lado.
MARTA TEM PASSEIO MARCADO
_ Sou o Bernardo, o filho da D. Zulmira, a vizinha aqui do
lado.
Marta quedou-se, ainda expectante, sem interrogar.
Lembrava-se, vagamente, dum jovem Bernardo, mas a vida não estava para ligar
aos vizinhos.
_ Bom dia, disse por fim.
_Sei que as circunstâncias não são as melhores, mas coloquei
a minha mãe numa situação delicada e estou à procura de apoio para minorar os
efeitos que causei.
Marta olha o alegado filho da vizinha, à distância, por
entre a fresta da porta, travada pela corrente de segurança.
_É que, querendo proporcionar à minha mãe uma companhia
nestes tempos de clausura e solidão, trouxe-lhe um cão, um cãozinho meigo, que
não lhe causasse cuidados de maior.
Marta escutava-o, entre o paciente e a curiosidade.
_Esta manhã, a minha mãe colocou-lhe a coleira para o levar
à rua; era apenas a segunda vez que o fazia e esqueceu-se do saco para as
fezes; voltou atrás, tropeçou na coleira que tinha deixado cair, perdeu o
equilíbrio, caiu e torceu um tornozelo. Levei-a às urgências, ela não queria
ir, mas o tornozelo está muito inchado e vai ter de ficar em repouso algum
tempo.
_Estou a ver ... e pretende que ...
_Se a senhora vizinha, ou alguém da família, se dispusesse a
levar o cãozinho à rua, agradecia imenso. Aqui está a chave. Hoje já não é necessário,
porque acabei de vir agora da rua com ele. É muito obediente.
_Um momento. Volto já.
Marta regressou com uma luva colocada na mão direita,
estendeu o braço pela fresta e aceitou a chave. A D. Zulmira era uma vizinha
muito introvertida e ocupada, quase não se dava por ela. Levava o seu tempo
entre bibliotecas e arquivos; isto sabia-o pelo filho que, entre pesquisas, a
tinha encontrado por lá, mais do que uma vez.
_Fico-lhe eternamente grato.
_E a D. Zulmira não precisará de nada?
_De momento não. A minha mãe precisa de pouca coisa e não
gosta de incomodar. Eu só cá posso vir uma vez por semana: sou o encarregado duma
empresa de distribuição alimentar, está a ver: sou dos felizes que têm trabalho,
e agora demasiado. Tive sorte, eu e a minha mãe, ter tido hoje meia folga por
compensação de horas extras, mas agora só posso cá vir daqui a quatro dias, que
é quando folgo.
_Está bem. Diga à D. Zulmira que ...
_Basta abrir a porta, chamar o Messias que ele vem logo. À
volta basta metê-lo em casa e fechar a porta. Combinei assim com a minha mãe.
Quanto menos stress este acidente lhe causar melhor. Já basta.
_Fique descansado e as melhoras. Ah, tome nota do número do
meu telemóvel e dê-me um toque, se faz favor, para eu ficar com o seu, que
nunca se sabe o que a vida nos reserva.
Depois de agradecimentos antecipados da parte de Bernardo,
ao fechar da porta, Marta sentiu a presença do marido atrás de si.
_Ah, agora vais ter um Messias com quem passear!
Com um sim seco, deu meia-volta, desinfectou a chave, que
colocou no chaveiro, e voltou às suas tarefas.
Sim, agora tinha um cão com quem passear!
Eram muito remotos os tempos em que brincara com o Snoopy.
Nunca mais quisera ter outro. Foi morto, sem glória, dentro dum galinheiro onde
ia desassossegar as galinhas, soltando-as e cujo dono levava tempos sem fim a
recuperá-las uma a uma, galinha a galinha fugida, até que um dia desatinou;
fez-lhe uma espera no galinheiro e acertou-lhe, em cheio, com um pau na cabeça.
Depois atirou-o, inerte, para o quintal do avô, onde o enterraram à sombra duma
figueira, chorando juntos o irrequieto Snoopy.
MARTA
ENCANTADA COM O MESSIAS
Marta estava
encantada com a companhia de Messias, a quem escolhera agora para
confidente. Caía-lhe um bocado mal-estar a aproveitar-se dum animal em
benefício próprio; mas, vendo bem, o benefício era recíproco, quando assim é
por que não usufruí-lo. Afinal um casamento também é um benefício recíproco.
Quando o é. Quando não, torna-se um inferno. E Messias, com a sua escuta
paciente e passiva embora por vezes a encare com um olhar compassivo, como se
estivesse a escutá-la activamente, e quem sabe se não, está a torná-lo mais
ameno. Todavia, Marta não consegue ainda libertar toda tensão que lhe
causa o facto de o marido sair de casa depois do jantar. Diz que é para
desentorpecer as pernas. Ela pergunta-lhe por que não vai logo de manhã e
no espaço da hora do almoço antes de recomeçar o teletrabalho. Ele
responde-lhe que a essas horas não tem disposição e como anda com insónias
faz-lhe bem caminhar antes de dormir. E se te aparece uma brigada da polícia,
que desculpa dás para andares por aí à noite. Ainda não pensei nisso; se
acontecer, verei.
Marta é que
parece que se lhe acabaram os comprimidos para dormir, a meia dúzia que uma
colega lhe tinha dispensado, logo no início da "coisa ". Nunca de tal
tinha necessitado na sua vida; se não dormia muito bem numa noite, dormiria
melhor na seguinte. Sempre gerira isso muito bem, mas esta situação, que
parecia eterna, obrigava-a a tomá-los nas noites dos dias mais difíceis.
Comprimidos para dormir, sem receita médica, contava já que não seria
fácil.
Iria
aproveitar quando fosse com o Messias, já que agora não se entra na farmácia; é
através do guichet que já existia para atendimento nocturno. Faça sol ou
faça chuva, agora cada um que se amanhe, apesar de já terem colocado uma
cobertura que dá para proteger não mais de duas pessoas, por causa da distância
de segurança.
Nessa manhã,
quando Marta abriu a porta da D. Zulmira, viu que o cão trazia um bilhete na
coleira: "Marta, quando voltar, se tiver uma meia hora disponível,
gostaria que viesse até cá dentro, s.f.f.. Obrigada.
_A tua dona
vai preparar-nos um chazinho, Messias. Comentou para o cão, sorrindo.
Depois da
voltinha, colocou-se na fila de espera da farmácia, em quarto lugar; veria se
tinha pachorra para esperar, tanto mais que o sol já aquecia.
De vez em
quando, mais por desocupação do que por curiosidade, olhava para trás para
observar quantas pessoas iam chegando. Naquele momento, Marta estava em
terceiro lugar, quer contasse do primeiro, quer contasse a partir do último.
Estamos no centro, Messias, comentava, em voz baixa para o dócil animal,
calmamente sentado a seu lado, quando ouviu atrás de si, a falar com a pessoa
que se lhe seguia, aquela voz
inconfundível que um dia ouvira pelo telefone quando utilizara, indevidamente,
a linha de prevenção de suicídio só para desabafar. Não teve coragem de olhar
para trás e identificar a pessoa. Quem sabe se a outra a conheceria. Não, não. Nem
queria pensar nisso. Por sorte, ou não, a dona da tal voz passou a alguns
metros dela e assim vista de lado não se pode certificar se já a terá visto
antes, mas pareceu-lhe rapariga da idade do seu filho, portanto à volta dos
vinte e cinco anos. Quem sabe se não teriam sido colegas. Ou amigos. Isso
sobressaltou-a. Mas que se lembre nesse telefonema fora de si como estava, pulou
todos os protocolos e a boa educação, mas não se identificou. Marta, porém,
sabe que há muitas maneiras de identificar quem não o quer fazer.
Saiu da
fila. Tinha ficado um pouco atarantada. Compraria os comprimidos noutra
ocasião. Se comprasse. O melhor era voltar com o Messias e talvez tomar um
chazinho com a vizinha, apesar de saber que ainda não estaria bem do tornozelo.
Quando lá
chegou, mal abriu a porta, deparou-se com um papel no chão, que dizia: Marta,
se não se importa, fica para amanhã. Desculpe.
MARTA – DÉCIMO
EPISÓDIO
Marta abre a
porta da casa da D. Zulmira e Messias aparece de imediato. Não traz recado
nenhum na coleira. Mantém-se o de ontem, presume Marta.
Desta vez é
que irá à farmácia; leva a máscara presa à camisola, por uma mola colorida, para
evitar esquecimentos a hábitos ainda não totalmente adquiridos, um par de luvas
na algibeira e uma outra já colocada, e o saco para recolha de dejectos do
Messias.
Levantou-se
mais cedo para ter oportunidade de ver melhor a dona da tal voz apaixonante, caso
seja aquele de ontem o horário em que sai para o trabalho, mas primeiro está a
voltinha com Messias.
E foi
exatamente nessa voltinha, na rua do prédio cujas traseiras confrontam com um
dos lados da sua casa de banho, onde uma noite surpreendeu o marido a mirar e a
acenar para a única janela com luz do dito prédio, enquanto falava baixinho ao
tlm, que a viu sair do dito prédio. Vinha de máscara já colocada e, passando
pelo café da esquina, estando a proprietária a lavar a cara da montra,
perguntou, alto e bom som, e sem abrandar o passo apressado: Então D.
Clementina, quando é que podemos vir cá tomar um cafezinho. Dia de 18, menina,
dia 18.
Marta deu
meia volta, encurtando a trela do Messias e fez um desvio superior à distância
mínima de segurança, porque não tinha colocado ainda a máscara e não queria que
a outra a visse frente a frente. No dia anterior tinha-lhe parecido mais
jovem, mas agora via que, pelo porte e desenvoltura, teria mais de trinta.
Mas o que a
transtornou, foi o facto de ter saído daquele prédio. Não podia ser. Seria
demasiada coincidência. De qualquer modo, a simples dúvida e a possibilidade de
que tivesse alguma coisa que ver com as saídas noturnas do marido, deixou-a
fora de si.
Não. Ainda
não seria hoje que iria à farmácia; estava demasiado nervosa e incapaz de se
concentrar noutra coisa, muito menos com paciência para filas de espera.
_ Vamos,
Messias! Estou mesmo a precisar dum chazinho, de camomila, se for possível.
Veremos se a tua dona o tem já pronto.
E lá foram,
entre impropérios exacerbados pelo ciúme, num tom que nem mesmo Messias parecia
apreciar, mas como escape para estar mais calma antes de ir ter com a vizinha,
como esta lhe tinha pedido.
Aberta a porta,
Messias entrou, como de costume, seguido desta vez por Marta.
_ Posso
entrar, D. Zulmira?
A voz da
mulher chega por fim, arrastada, num sussurro longínquo.
_Venha cá
dentro, Marta, se faz favor.
Marta é
guiada por Messias e por aquela espécie de murmúrio. Lá dentro, como na
entrada, reina a penumbra. Marta procura um interruptor com o olhar, não
se afoita a acender luzes numa casa onde nunca tinha entrado.
A dona da
casa está reclinada numa poltrona articulada, daquelas que dá quer para cama
quer para sofá. Talvez até com sistema de massagens, divaga Marta sem se
atrever a olhar em volta.
_ Bom dia,
D. Zulmira. Como está o pezinho?
_ Não muito
bem … obrigada pelo que tem feito pelo Messias. Não tenho como lhe agradecer.
_Não
precisa. Gosto muito dele …, mas ... quer que lhe traga alguma coisa, que lhe
faça algo; não tenha receio de dizer, D. Zulmira ...os vizinhos são para estas
coisas ...
_ Obrigada,
Marta, mas não preciso de nada. Responde-lhe numa voz tão cansada, que assusta
Marta.
_Mas ...
_ Sente-se
aqui mais perto, Marta. Preciso contar-lhe algo.
_ O seu
filho veio cá ontem, não é verdade?
_Telefonou-me
na véspera; detectaram o vírus em dois colaboradores, outros foram para
quarentena e ele, diz que está bem, mas que não pode abandonar agora o posto
por falta de pessoal ... sabe como é … bens alimentares ...
_Pois é
melhor não vir … pode contaminá-la.
Aqui, a
senhora soltou um riso triste e forçado. Que Marta não compreendeu. Deve ser
nervosismo, pensou.
_Mas não se
preocupe, D. Zulmira, que eu trato-lhe das compras. Vou já telefonar-lhe para o
descansar sobre isso.
_ Não,
Marta, não! atalhou, com veemência, parecendo para tal fazer um grande
esforço. Por favor, não o faça; e só adiei para hoje o que tenho para lhe
contar porque precisava ganhar mais um pouco de coragem para o fazer, terminou,
quase num murmúrio.
Marta ganhou
por fim coragem para olhar em volta, mas não vislumbrou qualquer indício de que
haveria chá. Estava a fazer-lhe falta. Tinha tomado o pequeno almoço muito à
pressa e aquilo parecia que ia demorar.
_Oh, D.
Zulmira, não há-de ser assim tão grave...senão ...
_É; e muito!
Peço-lhe que me escute, sem me interromper ..., se possível, antes que me
faltem, de todo, a força e a coragem … Comecei por contar ao Messias … mas
quando ele me olha com aqueles olhos castanhos, tão doces … sinto que é um segredo demasiado
grande para um animal ...
_Um segredo?!
MARTA E O SEGREDO
_Mas que
segredo é esse, D. Zulmira?! Olhe que eu não gosto de segredos!
_Peço
desculpa, Marta, mas preciso que me ouça; não tenho mais ninguém a quem
recorrer para o contar. _ Marta notava-lhe, na voz cansada, uma espécie de
desespero. Ou seria impaciência.
_ … ao seu
filho ...
_Ele não pode saber!
_ Então a
outra pessoa da família, D. Zulmira.
_ Eu não
tenho mais ninguém, Marta. Tinha uma consulta marcada para um psicólogo, só
para ter alguém a quem contar …, mas com isto do pé tive de desmarcar ... e já
não tenho tempo.
_Quando estiver
boa do pé voltará a marcar.
_Não, Marta
o meu tempo terminou.
_Oh, D.
Zulmira ...
_Este é
outro segredo, mas este não tem importância: foi-me diagnosticado cancro há dois anos … deram-me um ano de vida ...
_Lamento
muito sabê-lo só agora, D. Zulmira, mas sendo assim o tratamento tem dado
resultado...
_Não quis
tratamento nenhum; não queria que o meu filho sofresse. Além de que não tinha
tempo: tinha de encontrar os pais do meu filho.
_ ... o pai
do seu filho?
_Não, os
pais.
_Ah, é adoptado
e não sabe, compreendo ...
_ Preciso
que me ouça, Marta, como se ouve alguém em confissão. Sei que é um pedido muito
pesado, mas a Marta é o meu último recurso, e se não fosse o Messias, nem sei …
nem …nem teria ninguém a quem recorrer agora. Não quero morrer com ele e sinto
que isto está por estes dias. _ A voz era cada vez mais arrastada e Marta começava
a sentir uns arrepios, não sabia bem de quê.
_Oh, D.
Zulmira tem de contar isso da doença ao seu filho. Eu não quero vir encontrá-la
…_ morta, ia para dizer, mas conteve-se e continuou: _vai ver que é melhor
assim!
_ A Marta
tem levado o Messias sem ter entrado, por isso vai continuar assim; não tem de
se preocupar.
_E como é
que eu saberei se ... _ Marta aqui hesitou.
_ Vê aqui
estas fitas? todos os dias colocarei uma diferente na coleira do Messias; se a
fita for a mesma que no dia anterior é porque ...
_Isso não
vai acontecer …, mas … nesse caso … telefono ao seu filho.
_ Presumo
que não seja necessário: ele telefona-me de manhã e à noite e se eu não atender
alguma providência tomará.
_Pronto, D.
Zulmira, não se fala mais no assunto: vai ficar boa do pé, conta ao seu filho o
estado da sua saúde … e se não quer que ele saiba que é adoptado … isso é lá
consigo. A esse respeito não me aventuro a dar conselhos …
_A Marta não
percebeu! Ainda não me deixou contar o segredo! _ A voz da vizinha era, no
mínimo, acusadora.
_ Como
assim?! Contou-me, não um, mas dois segredos! Dois, dois! D. Zulmira!_ Contrapôs
Marta, já um pouco irritada, tentando manter um tom de voz doce e natural.
MARTA FAZ CALDO VERDE
Marta olha, por acaso, para o relógio de parede que está em frente à poltrona onde se sentara e ergue-se num rompante.
_D. Zulmira, o tempo passou muito depressa. Vou fazer o almoço e trago-lhe uma sopita.
_ Podia já ter contado tudo, Marta, se me tivesse dado oportunidade.
_Ora, ora! Se a vizinha precisou de tanto tempo para contar estes segredos, é de justiça que, também, eu precise de algum tempo de preparação para os ouvir ...
_É verdade! Tem toda a razão … Grande egoísmo o meu ..., mas esta dor ...
_Volto assim que poder; trago-lhe sopa e veremos se estarei preparada para o terceiro segredo ..._ e riu-se, continuando_ … não diria de Fátima, mas da D. Zulmira … se ficarmos pelo terceiro, não é assim, vizinha? _Concluiu, bem-disposta.
Marta fez o almoço. Almoçou, rapidamente, deixando o marido a comer sozinho, consultando o tlm, os filhos só viriam jantar, e deu graças a Deus ter prometido a sopa a vizinha; os almoços silenciosos pesavam-lhe: talvez a ambos, mas falar de quê, ao fim de tantos dias, sem caírem no mesmo assunto. E de segredos não se fala.
D. Zulmira parecia-lhe não se ter mexido. Já Messias tinha ido até à porta, quando ouvira a voz de Marta, que entrara mesmo sem ter esperado resposta à formal “dá licença”, e voltara a deitar-se ao lado da dona, como observador indulgente.
_Aqui tem, D. Zulmira; é caldo verde. Espero que goste.
_Obrigada, Marta, coloque aí na mesinha, se faz favor. Comerei depois. Disse, em voz lenta, e cansada.
_É melhor comer já, enquanto está quente.
_Vamos ao que interessa…. Desculpe, ao que me aflige ...
Marta pousou o tabuleiro na pequena mesa de vidro que, dada a obscuridade, não soube se tinha pó ou não. Não que isso fosse importante, mas poderia ser um factor, indicador, ou não, do grau de capacidade em que a senhora se encontrava. Por outro lado, se a vizinha não queria comer a sopa, era lá com ela; não a iria obrigar, além de não ter à-vontade bastante para o fazer, não lhe parecia que fosse pessoa facilmente maleável para aceder a uma insistência, mesmo simples, como esta de comer a sopa.
Sentou-se na poltrona vaga, afagando, ao de leve, a cabeça de Messias, para se descontrair um pouco, mas sem deixar de meditar nos segredos de que era possuidora desde essa manhã: D. Zulmira tem cancro há dois anos, depois de lhe ter sido decretado apenas um ano de vida; tinha sobrevivido mais um, sem ter querido submeter-se a tratamentos esgotantes, para proteger o filho do sofrimento de sabê-la com morte anunciada. Filho, que afinal não é filho.
Moveu o olhar dos olhos doces de Messias, para a vizinha que, com os olhos semicerrados, mais parecia ter adormecido.
MARTA TAMBÉM QUASE ADORMECE
Marta embora quisesse aparentar calma, já que o estado de saúde da D. Zulmira era tão delicado, sentia um inexplicável frémito interior; não sabia se era da expectativa se do receio do desconhecido: um segredo é sempre uma incógnita e o não-conhecido provoca, em todo o caso, alguma inquietação. E ela era avessa a segredos … Sempre considerou que estar na posse de um segredo, mesmo pequeno, insignificante, amarra a pessoa não sabe explicar a quê, mas provavelmente ao próprio peso do sigilo a que a confissão obriga.
A sua avó, sim; essa era um túmulo; talvez por isso tenha morrido cedo: uma tarde caiu para o lado e foi um túmulo a sepultar dentro doutro túmulo.
Uma velha e afastada parenta da avó, a quem chamava prima Etelvina, essa é que teria razão: quando lhe pediam reserva sobre algum desabafo, não estava com meias medidas; contava à primeira pessoa que lhe desse atenção e se não lha davam de boa vontade, exigia-a. Não sou baú de ninguém! exclamava, alto e bom som, depois de contar aos quatro ventos o que seria para resguardar para si.
Marta nunca contaria a ninguém algo sigiloso, mesmo que não lho pedissem, mas preferia não ter essa amarração, como a avó terá tido, já que, dado o seu ar austero e meditativo, era terreno fértil para familiares e amigos despejarem as suas apoquentações, intimidades e outras coisas que sabiam não poder contar a ninguém; a não ser ao padre. E nem todos iam nessa. Com ela todo o segredo estava seguro. Incluindo os próprios: que devia tê-los, como qualquer vivente.
Nestas meditações e naquela silenciosa semi-obscuridade, Marta tinha-se aquietado e quase ia adormecendo também, quando lhe ocorreu que a D. Zulmira, até aí tão impaciente para lhe contar o segredo que não queria levar para a cova, tivesse adormecido.
E se, em vez de ter adormecido … tivesse mo …
A palavra morreu-lhe, não na boca, mas no pensamento. Não! Isso não podia acontecer com ela ali! Afinal era só uma vizinha, que “dantes” passava semanas sem sequer a ver.
A INSPIRAÇÃO DE MARTA
Marta fez menção de se levantar, lentamente, acção que é seguida, com igual movimento por Messias. É que Marta teve uma súbita inspiração: propor à senhora vizinha que conte o segredo a uma assistente daquelas linhas telefónicas de apoio, a que ela mesma tinha recorrido não há muito e induzido a colega Rita a fazê-lo também. Eram pessoas com preparação; na maioria licenciados na área da psicologia, da psicanálise, da sociologia e afins, habituados e habilitados a escutar e a guardar sigilo de todo o segredo que lhes é confiado. Pelo menos é isso que pensa. Vai deixar a D. Zulmira dormitar, se é que está só adormecida … e depois volta com os números de telefone das ditas linhas. Ao movimento de ambos, e parecendo adivinhar parte do pensamento de Marta, a senhora reabre os olhos e, numa voz murmurante, diz: Não estava a dormir. Tenho é estado a pensar. Na verdade, não sei como é que pude, sequer, imaginar transferir para si, Marta, uma vizinha a quem, não há muito tempo, apenas dizia bom dia, boa tarde ou boa noite, o terrível peso que é um segredo. Nem sei como lhe pedir desculpa; esta é a palavra que mais lhe tenho dirigido, mas quero dizer-lhe que decidi levá-lo comigo. Nestes últimos dois anos, andei por arquivos, redações de jornais, bibliotecas … locais onde cheguei a encontrar o seu filho …
Aqui, Marta aquiesceu: lembrava-se do filho lho ter contado.
_… no intuito de encontrar respostas, continuou a vizinha, para os meus tormentos e esbarrar com dados e informações que lhes pudessem pôr fim ou, pelos menos, atenuá-los. Tudo em vão. Teria de ter começado mais cedo … muito, muito mais cedo ...
Marta ia para dizer: nunca é tarde, mas calou-se a tempo, porque dada a conjuntura: cancro, pé torcido e recolhimento obrigatório, talvez fosse mesmo tarde.
_... e cheguei, por fim, à decisão de não falar mais no assunto; tudo o que se faz, e mais ainda o que não se faz, é, em suma, a nossa vida. E cada um tem de arcar com a sua, e não fazer a maldade que estive prestes a fazer-lhe: pedir-lhe que arcasse com o pedaço mais negro da minha; o mais negro, mas também o mais doce … E ficamos por aqui. E mais uma vez, esperemos que seja a última, desculpe-me, por favor.
_Ó D. Zulmira, por um lado, fico satisfeita que tenha chegado a essa conclusão, mas mesmo assim gostaria de lhe propor um recurso mais leve. Volto já.
E voltou; com os números anotados num cartão suficientemente grande, onde figuravam, bem visíveis e espaçados, para facilitar a respectiva leitura.
Logo que expôs minuciosamente a sua ideia, Marta retirou-se, dizendo, levo o Messias comigo, se mo permite; voltamos não antes de uma hora.
De uma maneira ou de outra, sentia-se aliviada; sempre fora uma pessoa disponível para desabafos, agora segredos … nem que fosse o de um mapa para encontrar um tesouro.
Com Messias a seu lado, aquele passeio, que se fosse solitário pelas suas pouco movimentadas parceria ridículo, de pessoa só e abandonada, com ele tudo muda de figura: um animal de companhia faz toda a diferença na vida de uma pessoa, desde que se tenha condições físicas e financeiras para lhe proporcionar saúde e dignidade.
Ia reparando, com apreensão, nas longas filas no exterior das repartições públicas, correios e bancos por onde passava. O calor já apertava e as máscaras não ajudavam nada a suportar a inclemência duma tarde ensolarada. Ainda havia tão pouco tempo, toda esta gente estaria a aguardar a sua vez sentada com conforto e ar-condicionado, quer chovesse quer o sol apertasse. Viu mesmo uma senhora cair e, facto curioso, ninguém se precipitou a socorrê-la, fosse por precaução individual, fosse porque estariam todos mergulhados no seu tlm, alheios a tudo o mais. Até que alguém, bem lá do final da fila, se lhe dirigiu. Marta ignora a razão da queda e de tudo o que se lhe seguiu: eram horas de voltar.