DESCOBERTA A
AUTORIA MORAL DO DITO
Os animais
cansaram-se de serem tratados como animais. Há muito que queriam experienciar
ser gente, frequentar os cafés, os ginásios, as piscinas, os estádios, os
parques infantis, fazer skate, fotografar os humanos ... impossível enumerar as mais de duas mil e duzentas actividades de lazer das pessoas.
Basta lembrarem-se
eles mesmos das inúmeras e fracassadas tentativas de apropriação por todo o
globo; aqui mais perto e a mais antiga conhecida, remonta ao Leão de Rio Maior,
logo reprimida pelo homem e a mais recente a Cobra Piton, encontrada na Fonte
da Benémola, no concelho de Loulé e logo enjaulada no Zoo de Lagos.
Mas porque não
tentar novamente e em grande? pensou o animalzinho. E foi então que, por acaso,
falou assim no assunto, só por falar, a um mais lustroso e bem falante, que
logo agarrou no assunto, tanta vez debatido e que logo esmorecia, e contactou um outro, mais sagaz e venenoso,
que fez propagar por todo o planeta, como uma ideia sua, deslumbrando
uns, subjugando outros, corrompendo outros e ainda convencendo outros tantos,
de que conquistariam a terra aos humanos muito em breve e que então seriam
donos do planeta, sem mortes nem perseguições.
Aquela
sugestão era só uma brincadeira! disse, já um pouco assustado, o animalzinho,
que não tardou muito a desaparecer da circulação. Mas também quem é que se
importava com isso.
A ideia foi
minha! reivindicou o lustroso! Outro que levou sumiço num abrir e fechar de
olhos. E ninguém deu por conta.
O sagaz e
venenoso conhecia um outro, não menos oportunista e não menos manhoso, que
conhecia outro, que conhecia outro que sabia da existência duma coisa, que nem
sequer era um deles, uma coisa secreta, microscópica mas poderosa como um
exército, capaz de dominar quem considerasse inimigo ou que para tal lhe
pagassem, E a coisa aceitou. Ela mesma se encarregaria de enjaular e
açaimar os humanos, pelo menos a maior parte, porque tal como os animais,
também os há rebeldes e astutos.
E foi assim
que, passado algum tempo, no mundo animal foi proclamada a Confederação Mundial
dos Animais, através de viciosos animais, manobrados insidiosamente por diversas e astuciosas espécies, com a
garantia duma revolução inaudita em todos os tempos.
Quem não foi
na conversa até porque, entretanto, esqueceram, por falta de uso, a língua
universal dos animais, foram os cães e os gatos que nem por nada trocariam o
bem-estar em que se encontram actualmente por uma qualquer revolução, de que
nunca se sabe o desfecho.
A
Confederação bem os ameaçou de represálias quando estivessem no centro do
poder, mas por falta de tradutor automático a mesma parece ter-se perdido.
Ao que
consta, também muitas aves não terão aderido totalmente à revolução; vendo bem
que ganhariam elas com isso: afinal os ares são delas, pousam na terra quando
querem e algumas estavam já estão habituados à passagem constante dos seus
homónimos aviões que, quando estes cessaram de passar sobre os seus lagos, se
reuniram, confusos, para averiguar da situação. É que aquelas aves metálicas
nunca tinham emigrado: andavam sempre num frenético vaivém e estas já nem se
incomodavam com isso, como qualquer espécie não se incomoda com o grasnar de um
bando de patos bravos, o apelo dos flamingos ou o pissitar dos estorninhos imitadores,
desde que daí não lhes advenha prejuízo; que cada um é como é, e aquela espécie
é assim: como um trovão.
Os pardais
das cidades e do litoral também fizeram ouvidos moucos. Então iam deixar de
encher o papinho, sem custo, pelas esplanadas dos cafés.
Mas estas
micro decisões não afectaram grande coisa a revolução em curso; há muitos
entusiasmos, como o das zebras, logo que
lhes chegou a notícia da revolução, foi o culminar dos seus sonhos: entrarem na
Zara e vestirem-se de xadrez ou às bolinhas. Riscas, nunca mais, mesmo que estejam
na moda: já lhes basta vestirem-se assim desde que se lembram. A euforia
geral é tanta que se pode calcular pelo número de vídeos que circulam por toda
a parte, obtidos pelos humanos através das vitrines das suas jaulas e gaiolas, onde se vêm
avestruzes a pedalar nas bicicletas dos parques geriátricos, jiboias enroladas
na polémica escultura, dita fálica, de João Cutileiro, tubarões nas piscinas
municipais e olímpicas, enquanto os hipopótamos se apropriaram das piscinas dos
empreendimentos turísticos e foi mesmo visto um urso branco a dormir a sesta
sobre as arcas frigoríficas, de gelados, da Makro; enfim, todo o tipo de
animais ditos selvagens está já a desfrutar das cidades, entediados que estavam
de viver confinadas às florestas, aos desertos ou os rios e mesmo aos oceanos.
Pois, pois,
um dia as coisas haviam de mudar.
A Confederação
já fez uma proposta para a colocação, no centro do mundo, de uma estátua que
chegue até a lua, representando o animal que teve a ideia genial de contratar
um vírus para paralisar os humanos.
Até à data
não há notícia de que tenham chegado ao herói, embora tenham surgido candidatos
oportunistas de várias espécies, que acabam por desaparecer, misteriosamente.
Para além da
Reconquista da terra, todos ignoram ainda os verdadeiros intentos da
Confederação, cujo movimento já é conhecido entre eles como a Revolução pelo
Vírus.