terça-feira, 26 de maio de 2020

TEORIA, A DA SÉTIMA ARTE
Aqui há uns tempos, por diversão, escrevi isto: 
Que filme
Estou dentro dum filme
Como vim aqui parar?!
Não sei o guião!
Desconheço o tema!

Não me atrevo a sair
Mesmo quando detesto a cena
Estou presa na película

Se dela me descolar
Já me disseram:
Não podes voltar a entrar!

E eu lá vou ficando
Já me aborrece este filme
E mais, de assistir a tantos,
Tantos outros!

Actuo, assisto
Assisto, actuo

Até quando?!
Mal sabia eu, que os filmes são reais e que filmes como “Branca de Neve”, de que muitos se lembrarão, que por acaso é quase todo a preto e o realizador transforma os espectadores em espectáculo, poderia um dia proliferar por aí, em milhares de cópias exactamente como um vírus, que se replica e que, por acaso,  também não se vê, como o filme, onde, porém, irrompe, por vezes, luz e cor, o que não está a acontecer neste filme que estamos a “rodar”, e replicado, embora alguns “abençoados” consigam percepcionar essa “luz”.

 No filme acima mencionado, o espectador é “obrigado” a fechar os olhos e a “entrar” no vazio (ou escuro) da tela e a duvidar, nem sabe bem de quê. Como “neste”. Só que “neste” ninguém sabe se é apenas espectador, figurante ou se é chamado para protagonista.

Sempre ouvi dizer, aqui e ali, que a vida é complicada, que é difícil, que é isto, que é aquilo, mas raramente que é ficção e muito menos científica ou cinematográfica. Tão pouco experimental. Nem milhões na mesma tela, numa cena mundial; todos já para casa, ou querem ser …?! Não é que funcionou mesmo! Claro que há sempre uns espectadores, ou mesmo figurantes, assim como umas ovelhas tresmalhadas, que as há em todos os rebanhos, mas de resto, rico e pobre, mau e bom, ateu, agnóstico, cristão ou outra, ingressou nas suas cavernas, umas apinhadas e sem condições, outros nem buraco quanto mais cavernas, mas outros em autênticas cavernas de Ali Babá, com jardins invisíveis ao comum dos mortais que não façam parte dos quarenta ladrões, e suspensos, como se estivessem no Éden. Enfim, figurantes privilegiados. Há-os sempre. E em todo o lado.

E muitos solitários. Uns deleitaram-se. Outros vegetaram.  Ainda outros, soçobraram, tal Titanic. Muitos sobreviveram. É a vida; em filme.

Muita gente já terá visto aquelas fitas em que os monstros se replicam, surgem de todo o lado, em qualquer parte e vão devorando tudo e todos, e, só mesmo, mesmo no final, quando tudo parece perdido, há um herói que os consegue ludibriar, precisamente por ter escapado à percepção daqueles, vence-os e liberta as populações que se tinham refugiado nas catacumbas e das quais, concentrados em tanto monstro a atacar, como espectadores já nem nos lembrávamos. Para resolver situações, que parecem insolúveis, há sempre pelo menos um herói, por vezes dois, um casal de preferência e se beijam no grande final, que agora todos se deixaram de beijar, embora se acredite que não há vírus capaz de separar os que o verdadeiro amor uniu.

Só se for no próximo filme.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Teoria de ficção
Teorias sobre o que está a acontecer não faltam, por isso, mais uma menos uma, não fará diferença às próprias teorias. A de hoje é que alguns (muitos) humanos podem estar a ser vítimas de livros de ficção, com muitas personagens, daqueles com muitas páginas e foram lá metidos como personagens, umas principais, mas a maioria secundárias e mesmo laterais; estas últimas, uma espécie de palha ou de encher chouriços, para tornar o livro mais volumoso. Basta colocarmo-nos na vulgar situação de leitores: apaixonarmo-nos por umas personagens, detestamos outras e algumas pouca atenção nos despertam. Utilizamos a literatura como entretenimento, como veículo de aprendizagem por excelência, mas também como passaporte para viajarmos onde nunca iremos ou reviver viagens próprias,  para sentirmos o que as pessoas sentem sem que tenhamos termos que passar pela situação real, para constatarmos que há personagens que sentem o mesmo que nós, para descobrirmos as sementes da inimaginável maldade humana e mais um milhão de razões, tantas quantos os leitores, o dia e a hora.
E foi então que aí pelo ano de 1981, o escritor americano Dean Koontz lançou um livro de terror, " Os Olhos da Escuridão" em que existe uma arma biológica denominada Wuhan-400 ou seja o nome da cidade chinesa onde começou este pesadelo "real". Não vou fazer o resumo porque não aprecio livros de terror. Não me fazem falta.
Em 2014, Melissa Tobias, escritora brasileira, lançou um romance de ficção científica e ,"A Realidade de Madhu" que, segundo algumas opiniões, descreve cenas perto do cenário actual.
Ora querem  lá ver que, como personagens de uma ficção, ficamos presos nalguns daqueles ou outros livros? Se assim for, que estamos estão confusos que já acreditamos em tudo, que tempo levará um suposto leitor a terminar aquelas terrificas ou fantasiosas leituras, para nos soltar? É que sem a leitura terminada … estamos presos!  E depois temos que contar que há leitores compulsivos que rapidamente os devoram e "libertam" as personagens e outros que gostam de "mastiga-los".
 Entretanto somos personagens, na maioria dos casos sem importância,  mas necessários para relevar as personagens principais. Vamos lá agora saber o desfecho da ficção em que estamos metidos! É que também há leitores que começam pelo fim, depois vão lendo pelo meio aqui e ali … e, por vezes o início e aí, sim, é que começam a "verdadeira" leitura. Enfim, estamos no meio do acaso do livro e do leitor que nos calhou! Boas leituras!

escrito e publicado no FB em 2 de abril de 2020

quarta-feira, 20 de maio de 2020




ANSIEDADES DUMA VELHA – II

Judite amava os longos passeios solitários, mas na sua agitada vida social tinham sido relegados para um dia, ou para um nunca e, ao ser enviada por decreto para a clausura, que julgava tornar-se insuportável, que viu que afinal se encontrava no centro de um maravilhoso vazio, onde as horas passavam muito depressa e a noite chegava, como por milagre. 

Uma das janelas da casa tinha um largo parapeito exterior, onde uma criatura de brilhante pêlo cor cinza-prateado e formosos olhos cor de mel, sombreados por um olhar oriental, aveludado e aristocrático, um gato, vinha apanhar sol todas as manhãs. Quanto tempo haveria que aquele animal escolhera o parapeito da sua janela para apanhar a sua dose de vitamina D?! Raramente a abria; “dantes” não tinha tempo para isso e nos primeiros dias de introspecção enroscara-se sobre si mesma, como o gato, e redescobrindo na sua vida interior uma capacidade de contemplação do azul do céu noturno, sem lirismo e sem música; apenas o indiscritível.

Outro dia, encantou-se, como nunca o tinha feito, com a sua colecção de pedras semipreciosas e observou-as, com atenção, nas suas mãos mais habituadas a manipular cosméticos, vernizes e adereços.

Escutou o ruído das folhas secas, que se desprendiam das árvores e a serem arrastadas na calçada por um vento rumorejante.

Deu consigo a mirar pormenores em quadros que tinha há cinquenta anos. Comprara-os porque gostara deles, mas só os olhava quando alguma visita lhes fazia algum elogio, a que não ligava muito, por estar sempre de sobreaviso quando o elogio lhe cheirava a “verbo de encher” numa conversa oca.

Sem saber como, passou a ver em cada coisa um infinito de pormenores e particularidades. E tão embrenhada estava em pequenas coisas, que mais raramente pegava num dos comprimidos milagrosos, que são os livros, e só o fazia quando se deparava com um daqueles que tinha posto de parte, como se estivesse à espera do desabrochar duma semente há muito em germinação, que só  uma visceral necessidade pudesse fazer brotar, como uma verdade esperada.

Nas manhãs em que uma tristeza cinzenta tingia o céu, o gato não aparecia. Então, recordou-se daquela tão antiga história ilustrada, que lera em criança; não se lembra de tudo, mas recorda que a Velha e o Gato fizeram um pacto, ditado pelo Gato, claro: “Deixas-me estar à janela quando há sol e eu aqueço-te os pés nos dias de inverno”. “Está bem”, respondeu a Velha. É como se diante dela estivessem as duas ilustrações, com os azuis de Monet. A da proposta: o Gato à janela; e a da concretização: a Velha, sentada numa cadeira de balouço, com uma manta de xadrez cobrindo-lhe os joelhos e o Gato colado às pantufas, aquecendo-lhe os pés.

Ocorre-lhe que isto de ser velha, só se manifesta no plano físico; teria sete ou oito anos, porém, a história ilustrada ainda ali está. Daqui infere que o plano físico, uma vez inscrito na mente, ou no espírito, é dispensável. Mesmo que a memória tenha pintado tudo de outros tons.

Este gato, o da sua janela, talvez aqueça os pés duma velha que não tenha janela com sol. A ela, aquece-lhe a alma. E nos dias de chuva há-de continuar a vê-lo ali, sem se atrever a estender a mão para lhe afagar o pêlo sedoso, não vá ele fugir para os pés da dona.


domingo, 17 de maio de 2020




IN “REFLEXÕES SEM TRAMBELHO”

"Estávamos melhor, quando estávamos pior"

Li esta frase num livro de Giovanni Papini, "O Passado Remoto”, publicado em 1948, e esta frase faz tanto sentido, se compararmos as nossas “vidinhas" A. CV., (quer dizer antes da “coisa”) com as nossas semi-vidas, pós, ou durante, CV.
Curiosamente, também o título do livro não pode deixar de evocar o passado "remoto" de uma humanidade outra, sendo, porém, a mesma, mas tão outra, passados dois meses. Quanta diferença e, todavia, sem diferença nenhuma.
No quê diz respeito ao confinamento, faz lembrar as tão criticadas atitudes de alguns participantes dos Big Brother, para os quais, a sua permanência na casa, mesmo por poucos dias, segundo os próprios, equivalia a meses ou anos, consoante o tempo de estadia, assim é para nós o tempo, conforme a situação de cada um no isolamento. E o seu comportamento, o dos tais participantes, se muitas pessoas agora o compararem com o próprio, em termos de confinamento, talvez não se sintam orgulhosos do mesmo. O que no primeiro caso era voluntário, o confinamento, termo então desusado, tornou-se de súbito, como uma nuvem negra no horizonte, obrigatório para quase todos.
E a propósito de “estarmos pior”: a humanidade é uma “raça”, na verdade, muito versátil; levou tanto, tanto tempo a adquirir o hábito de fazer reciclagem e, quando parecia que já tinha “encarrilhado”, especialmente depois de ver a devolução que os mares estavam a fazer dos desperdícios que lhe tínhamos ofertado, envenenando-os, o que levou a uma interdição de louça descartável nas escolas e em outras instituições estatais, eis que, por artes virulentas, esse uso tornou-se, num abrir e fechar de olhos, de proibido a obrigatório, por exemplo nos cafés, onde raramente o material descartável era utilizado, está agora na ordem do dia, tornado, entretanto o único possível ou pelo menos, viável. E pronto, lá se foi toda a “boa vontade” para “acabar com o plástico” e com o desperdício de papel. E parte da reciclagem a ser feita também não está no bom caminho: as luvas e máscaras amedrontam as empresas de reciclagem, temendo que estejam infectadas, como se o dito cujo lá permanecesse para todo o sempre.
Porque será que os “benefícios” da “coisa” são tão complicados.
A propósito disso, lembrei-me de duas estrofes da “Ode Marítima”, de Álvaro de Campos:
Ando espiando um crime numa mala,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Se nos pesa um crime que cometemos, não por requinte, mas por estupidez, inércia ou, quiçá, por alguma ganância, a inteligência, já não digo a humana, mas a Universal, podia fazer o favor de levantar um pouco o véu, para que não andássemos assim, quase todos com os miolos às voltas, sim, quase todos, que há gente “firme”, e nos alumiasse o caminho um pouco mais longe, e não só os parcos centímetros onde pousamos o pé, quase a medo. Não, com medo.
Assim sendo, a frase “estávamos melhor, quando estávamos pior”, parecendo (e é-o no contexto do livro) uma frase reacionária, constitui, porém, nos dias de hoje, uma frase reflexiva.
Que não leva a lado nenhum.
Falta-nos uma lanterna de longo alcance.
Falta-nos sempre qualquer coisa.



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A importância da insignificância

A humanidade tinha chegado a um grau de beleza, felicidade, perfeição, conhecimento, conforto, abundância, criatividade, avanço tecnológico e científico imparáveis e inigualáveis, quando uma invisível minudência resolveu dar um ar de sua graça; afinal também se considerava gente, embora o não fosse.

E o que estragou tudo foi o facto da humanidade ligar a determinadas coisas pequenas, dar importância a insignificâncias. Se o não tivesse feito, a coisa insignificante, e por demais, invisível, não teria feito os estragos que fez, como uma criança que toda a gente fica a ver fazer traquinices quando devia o progenitor pegar-lhe numa orelha e acabar com a história, ou se a traquinice fosse inócua fingir ignorá-la, mas continuando atento, que isto de não ligar no princípio pode ter consequências imprevisíveis. Pois ao que parece ter-se-ão passado ambas as situações; os pais não são todos iguais e, uns por questões de individualismo não vão em imitações, enquanto outros, por instinto de rebanho, o fazem. Para tudo, em particular nos pormenores, é preciso usar um pouco de inteligência; não há que ter medo: não se gasta, pelo contrário, quanto mais se usa mais se desenvolve.

 

 Dezembro de 2000

 


terça-feira, 12 de maio de 2020

AVISO: ISTO NÃO É UMA FOTOGRAFIA

Leio alguns “escritos” e comentários sobre os "benefícios" que o vírus trouxe à humanidade e, para além do óbvio, há os que defendem que veio mostrar (isto a quem não a tenha visto antes) a Igualdade na morte e, sobretudo, através do uso da máscara. Esta, sim, leio, torna os humanos mais iguais, logo em vida, porém, a cada dia que passa se vê uma maior diversidade de máscaras, de acrílicos, de viseiras. São os materiais, as cores, as formas: a imaginação humana é infinita (tal como outra coisa em que estamos a pensar), e, se não morrer antes, ainda as verei incrustadas de ouro, diamantes, pérolas e afins.
Logo esta da Igualdade, e foquei apenas um pormenor, acessório quase obrigatório, a máscara, não a consigo ainda ver como benefício, antes uma necessidade, momentânea, esperemos. Mas a minha invisibilidade é normal e, tal como num pós-guerra, que afinal é duma guerra que se trata, poderá mesmo passar uma geração, ou mais, até que os aclamados “benefícios” sejam visíveis, porém, nós, humanos, queremos tudo para já. E vamos ter de esperar por eles. Quem tiver vida e saúde para isso.
Bem, mas não foi para isto que coloquei uma poupa, uma ave bem bonita que há uns tempos bem curtos poderia estar viva, esvoaçando pelos campos e teve o azar de algo  lhe ter acontecido nestes tempos de “benefícios” do vírus e os Centros de Recuperação de Aves estarem fechados e, a agravar ou não, ser fim de semana, em que os veterinários não fazem atendimento. “Noutros tempos”, talvez possa dizer noutra vida, numa bela tarde de verão, aconteceu-me ter salvo um albatroz, na praia, (foi mesmo noutra vida), que estava enleado num pedaço de rede de pesca, e mesmo sendo num final de domingo de Agosto, consegui que o fossem buscar e recuperar, já que os ferimentos causados pela tentativa de libertação, não tinham sido graves, devido à nossa pronta actuação. Pois esta linda ave, não. Como alguém dizia há dias, mesmo para morrer é preciso ter sorte.
Isto fez-me pensar na dificuldade que é agora socorrer um humano, alguém que cai, até se perceber se foi uma síncope, o que se tiver máscara se torna mais difícil de perceber, se escorregou, etc.. E socorro instantâneo, aquele de dar "uma mão", para que não se estatele na lama, não se afogue ou coisa semelhante, já não há. Cada um que se cuide; se se desequilibrar, paciência: quebre-se, fique ferido. A distância não o salvará. Só do vírus. Porque ninguém tem um braço de dois metros e depois só se tiver a sorte de se deparar com um salvador altruísta, que ainda os há, que todos os mais se afastam, como se todos, mas todos, tivéssemos lepra. E daí, quem sabe.
E aqueles procedimentos que aprendemos nos primeiros socorros: encoste o ouvido, encoste a mão, tome o pulso … isto agora serve para quê. O Manual dos Primeiros Socorros tem de ser reescrito. Ou talvez não. Seria tempo perdido. Dali a três dias teriam de escrever outro. Tudo tão efémero. Ora aí está: um “benefício” do vírus. Mostrar, aos incrédulos e distraídos, que tudo é efémero.
Mas havemos de ir aos poucos descobrindo-lhe mais “benefícios”, como os de um ambiente mais limpo e puro, e outros igualmente óbvios, como o teletrabalho: tempo poupado em favor da família, menos gastos em combustível logo menor pegada ecológica, melhor alimentação, melhor saúde, mais poupança no vestuário, no calçado, nos adereços, no perfume, no aftershave. Só tem um contra: o ódio, que era dirigido aos colegas invejosos e à cara do chefe maldisposto, foi em parte transferido, sem mais nem menos, para a família, que não tem culpa nenhuma e onde, há ainda tão pouco tempo, muitos encontravam refúgio e consolo.
Decididamente o ser humano não tem onde se refugiar; nunca se sabe onde está o vírus. Este que agora tanto nos atormenta ou outro qualquer.
“O benefício” é que acabamos por perceber que, a qualquer momento, podemos valer mais ou menos o mesmo que o animal da fotografia. 


quarta-feira, 6 de maio de 2020


OS ANIMAIS NO CENTRO DA ESTRELINHA


Era uma vez uma Estrelinha muito endiabrada que gostava de brincar em cima das fofas nuvens, enquanto todas as outras estrelas dormiam.

Naquele dia, a nuvem onde brincava tinha apanhado uma corrente de ar frio, constipou-se, deu um espirro e a Estrelinha escorregou por ali abaixo e foi parar a uma pradaria, onde, alegres e sem cuidados, corriam cinco crianças: quatro meninas e um menino que, quando a viram, pararam de brincar e exclamaram uns para os outros:

_ Olha! uma estrela cadente!

_ Não sou nada uma estrela cadente. Sou uma estrela cintilante!

_ Então se não és cadente, por que é que caíste e por que é que não cintilas?

_Caí porque a nuvem deu um espirro e não tive tempo de me agarrar e não cintilo agora porque as estrelas só cintilam à noite.

_Está bem. Queres vir brincar connosco?

_ Sim.

_ Vamos jogar ao agarra e fica ao meio.

Estrelinha era uma estrela de cinco pontas, por isso cada um pegou numa ponta e correram até encontrar o gato Tobias, dormitando ao sol, que ficou no centro da estrela e todos começaram a andar à roda e a cantarolar, até que o gato abriu um olho e, vendo tudo a rodar, pensou estar com tonturas, abriu o outro e a mesma coisa: tudo à roda. E miou.

Todos se riram, levantaram a estrelinha em pontas e foram à procura do cão que dormitava à sombra. Este ficou no centro da estrela e os meninos começaram a andar à sua volta, cantarolando. O cão abriu um olho, depois o outro, abriu a bocarra, sacudiu as orelhas e, feliz por ter brincadeira, levantou-se, soltando um sonoro ão ão.

Ergueram a estrela e foram à procura do galo, que andava de olho nas galinhas, e lá conseguiram que ficasse no centro da estrela, porém, o galo pensando que o iam fechar na capoeira, não gostou nada e fez um chinfrim: Cocorocó cocorocó.

Todos riram muito alto. Soltaram-no e foram à procura da cabrinha Judite, que estava encarrapitada num arbusto já meio comido e disseram-lhe: Judite salta aqui para o meio da Estrelinha! E a cabrinha saltou e ficou a olhar para todos os meninos, enquanto remoía os ramos que ainda tinha na boca. Quando o animal começou aos pinotes, soltaram-no e foram à procura do porco que andava a comer bolotas que iam caindo da azinheira. O porquinho Jeremias ficou no meio da estrela e dos meninos, mas começou a grunhir tanto que o libertaram logo.

O pato Quá-quá, que se refrescava num charco mesmo ali, logo foi caçado para o meio, mas fez tão grande grasnada que, sem demora, por entre gritinhos e risadas, o soltaram.

Ainda faltava a ovelha Choné que tudo tinha observado, discretamente, enquanto remoía a erva verdinha do prado e que soltou muitos memés até ficar no centro da estrela, ora olhando para as crianças, ora observando as nuvens, muito branquinhas, que lá no alto a faziam lembrar umas amigas, que de vez em quando apareciam por ali a pastar.

O sol começava já a declinar quando a Estrelinha, de um pulo, se pôs de pé sobre duas pontas, com outras duas abraçou as crianças e a ovelha Choné e disse: Obrigada por este dia maravilhoso, mas agora tenho de me ir embora; não tarda é noite e eu tenho que ir cintilar no tecto do mundo, único tecto de muitos meninos que me estarão a contemplar e que, quando adormecerem, lhes vou iluminar os sonhos.

Num ápice, a Estrelinha voltou para o firmamento, onde não tardaria a cintilar, brilhando entre miríades de tantas estrelas inspiradoras dos sonhadores e dos poetas.


sexta-feira, 1 de maio de 2020




DESCOBERTA A AUTORIA MORAL DO DITO



Os animais cansaram-se de serem tratados como animais. Há muito que queriam experienciar ser gente, frequentar os cafés, os ginásios, as piscinas, os estádios, os parques infantis, fazer skate, fotografar os humanos ... impossível enumerar as  mais de duas mil e duzentas actividades de lazer das pessoas.

Basta lembrarem-se eles mesmos das inúmeras e fracassadas tentativas de apropriação por todo o globo; aqui mais perto e a mais antiga conhecida, remonta ao Leão de Rio Maior, logo reprimida pelo homem e a mais recente a Cobra Piton, encontrada na Fonte da Benémola, no concelho de Loulé e logo enjaulada no Zoo de Lagos.

Mas porque não tentar novamente e em grande? pensou o animalzinho. E foi então que, por acaso, falou assim no assunto, só por falar, a um mais lustroso e bem falante, que logo agarrou no assunto, tanta vez debatido e que logo esmorecia,  e contactou um outro, mais sagaz e venenoso, que  fez propagar por todo o planeta, como uma ideia sua, deslumbrando uns, subjugando outros, corrompendo outros e ainda convencendo outros tantos, de que conquistariam a terra aos humanos muito em breve e que então seriam donos do planeta, sem mortes nem perseguições.

Aquela sugestão era só uma brincadeira! disse, já um pouco assustado, o animalzinho, que não tardou muito a desaparecer da circulação. Mas também quem é que se importava com isso. 

A ideia foi minha! reivindicou o lustroso! Outro que levou sumiço num abrir e fechar de olhos. E ninguém deu por conta.

O sagaz e venenoso conhecia um outro, não menos oportunista e não menos manhoso, que conhecia outro, que conhecia outro que sabia da existência duma coisa, que nem sequer era um deles, uma coisa secreta, microscópica mas poderosa como um exército, capaz de dominar quem considerasse inimigo ou que para tal lhe pagassem, E a coisa aceitou. Ela mesma se encarregaria de enjaular e açaimar os humanos, pelo menos a maior parte, porque tal como os animais, também os há rebeldes e astutos.

E foi assim que, passado algum tempo, no mundo animal foi proclamada a Confederação Mundial dos Animais, através de viciosos animais, manobrados insidiosamente  por diversas e astuciosas espécies, com a garantia duma revolução inaudita em todos os tempos.

Quem não foi na conversa até porque, entretanto, esqueceram, por falta de uso, a língua universal dos animais, foram os cães e os gatos que nem por nada trocariam o bem-estar em que se encontram actualmente por uma qualquer revolução, de que nunca se sabe o desfecho.

A Confederação bem os ameaçou de represálias quando estivessem no centro do poder, mas por falta de tradutor automático a mesma parece ter-se perdido.

Ao que consta, também muitas aves não terão aderido totalmente à revolução; vendo bem que ganhariam elas com isso: afinal os ares são delas, pousam na terra quando querem e algumas estavam já estão habituados à passagem constante dos seus homónimos aviões que, quando estes cessaram de passar sobre os seus lagos, se reuniram, confusos, para averiguar da situação. É que aquelas aves metálicas nunca tinham emigrado: andavam sempre num frenético vaivém e estas já nem se incomodavam com isso, como qualquer espécie não se incomoda com o grasnar de um bando de patos bravos, o apelo dos flamingos ou o pissitar dos estorninhos imitadores, desde que daí não lhes advenha prejuízo; que cada um é como é, e aquela espécie é assim: como um trovão.

Os pardais das cidades e do litoral também fizeram ouvidos moucos. Então iam deixar de encher o papinho, sem custo, pelas esplanadas dos cafés.

Mas estas micro decisões não afectaram grande coisa a revolução em curso; há muitos entusiasmos, como o  das zebras, logo que lhes chegou a notícia da revolução, foi o culminar dos seus sonhos: entrarem na Zara e vestirem-se de xadrez ou às bolinhas. Riscas, nunca mais, mesmo que estejam na moda: já lhes basta vestirem-se assim desde que se lembram.  A euforia geral é tanta que se pode calcular pelo número de vídeos que circulam por toda a parte, obtidos pelos humanos através das vitrines das suas jaulas e gaiolas, onde se vêm avestruzes a pedalar nas bicicletas dos parques geriátricos, jiboias enroladas na polémica escultura, dita fálica, de João Cutileiro, tubarões nas piscinas municipais e olímpicas, enquanto os hipopótamos se apropriaram das piscinas dos empreendimentos turísticos e foi mesmo visto um urso branco a dormir a sesta sobre as arcas frigoríficas, de gelados, da Makro; enfim, todo o tipo de animais ditos selvagens está já a desfrutar das cidades, entediados que estavam de viver confinadas às florestas, aos desertos ou os rios e mesmo aos oceanos.

Pois, pois, um dia as coisas haviam de mudar. 

A Confederação já fez uma proposta para a colocação, no centro do mundo, de uma estátua que chegue até a lua, representando o animal que teve a ideia genial de contratar um vírus para paralisar os humanos.

Até à data não há notícia de que tenham chegado ao herói, embora tenham surgido candidatos oportunistas de várias espécies, que acabam por desaparecer, misteriosamente.

Para além da Reconquista da terra, todos ignoram ainda os verdadeiros intentos da Confederação, cujo movimento já é conhecido entre eles como a Revolução pelo Vírus.