UM ATAQUE DE BRUMA
Naquela tarde de verão, e sem procurar motivo, não lhe apeteceu mais estar na praia nem tão pouco regressar ainda a casa. Arrumou o saco florido, passou pelo bar prenhe de música arranha-tímpanos, e decidiu que se sentaria no silêncio do parque, lá mais à frente, à sombra de uma frondosa palmeira que tinha escapado à sedução do escaravelho escarlate.
Àquela hora o parque prestava-se apenas a servir de vaivém. Ninguém ali se detinha; uns passavam apressados para a praia, outros regressavam, lentos e cansados. A torridez do verão tornava-a, também a ela, assim como que uma inútil. Por vezes simplesmente não almejava mexer-se do lugar, sentia-se como se não estivesse nem ali nem em nenhures. Retirou o livro da sacola e deu entrada noutra vida.... Apaixonara-se pelo personagem principal, e era como se lhe exigisse a sua participação para continuar a existir naquelas páginas, que só ganham vida quando projetadas na rotina de quem nelas se embrenha. Corria atrás das palavras como uma louca, quando algo lhe perturbou a visão da leitura. Fechou os olhos. Reabriu-os e voltou a olhar as letras. Que é isto? as lentes devem estar sujíssimas! Limpou-as à blusa de algodão de olhos semicerrados e depois pensou: O importante era aquela vida entre as páginas. As letras pareciam baças e oscilantes. Voltou a fechar os olhos. Talvez não me esteja a sentir bem; que me estará a acontecer? Reabriu-os: viu tudo enevoado e voltou a fechá-los. Será que vou desmaiar? Sempre tive muito medo que isso me acontecesse. Estranhamente não sinto medo, apesar de sentir algo invulgar, uma espécie de humidade. Talvez daqui a pouco isto me passe.
Pouco depois ouviu passos e um toque-toque, aqui e ali, que não reconhecia. Ouviu uma voz:
_Quem diria que hoje serias tu a guiar-me até à praia. Com este nevoeiro, sem ti, não daria com o bar.
_Ainda bem. Assim já não precisas considerar-me uma inválida e estares sempre a pensar que me pode acontecer alguma coisa, quando sabes que desde pequena sempre vim para este lado da praia.
_Sim, mas vinhas connosco.
_Porque vocês nunca me deixavam vir sozinha, apesar de sempre vos dizer que sabia bem o caminho.
As vozes aos poucos tornaram-se inaudíveis e percebeu que aquele toque-toque era o de bengala de cego, neste caso de uma cega, e não valia a pena estar com rodeios e modernismos a usar o termo invisual. Abriu os olhos e compreendeu então que estava envolta numa cerrada bruma marítima que subitamente assaltara a terra quente, como já tinha visto acontecer. Sentir-se na pele do personagem do livro é que a fizera alhear-se do meio envolvente e uma personagem invisível, e invisual, tinha-a salvo, quiçá de um ataque de pânico, como um farol salva um navio de se despedaçar contra os escolhos da praia, em dia de nevoeiro.
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