quinta-feira, 4 de julho de 2024

 

AMBRÓSIO e ADÉRITO

 

Ambrósio e Adérito tinham sido parceiros na escola primária. Adérito lembrava-se muito bem das mentiras e batotices de Ambrósio. Como parceiros de carteira poderiam ter continuado amigos, porém Adérito não compactuava com trafulhices e evitava encontros mesmo ocasionais. Mas naquele dia Ambrósio, porventura conhecendo o seu itinerário, parecia esperá-lo. Sabia que não parava muito tempo no mesmo emprego e que seriam certamente duvidosos, conhecendo como conhecia as suas manhas.

Cumprimentaram-se e Ambrósio convidou Adérito para um café, sem lhe dar oportunidade de se esquivar. E não tardou que Ambrósio não apresentasse um atractivo esquema de investimentos de lucro rápido.

Adérito, olhando ao relógio, e como se não o tivesse estado a ouvir, disse:

- Não tenho muito tempo, mas acabei de ouvir outra história, que não a tua, e antes que se perca na minha memória, como tens muito jeito para estas coisas, vou contar-ta: Quando Deus estava a criar o mundo, mandou chamar o chefe dos animais e das plantas para atribuir a cada um as suas especificidades, perguntando a cada ser como preferia ocupar a terra. Os pássaros disseram que gostariam de ter asas para voar e Deus deu-lhe asas, os peixes disseram que gostariam de percorrer os mares, as árvores disseram que preferiam não sair do mesmo lugar e assim por diante. Ora acontece que o lobo andava perdido, porque solitário, e não teve conhecimento destas atribuições e assim perdido continuava por desconhecer qual o seu papel no mundo. Até que, cansado, foi beber a uma ribeira, onde encontrou um peixe a quem perguntou por notícias, tendo-lhe informado que o seu lugar, o do lobo, era na montanha e o lobo aproveitou para se informar sobre as dos outros seres, agradeceu e ia pôr-se a caminho das montanhas, quando se lembrou:

- E ao homem?

- Ah – exclamou o peixe _a esse coube-lhe a arte e a manhã.

- E agora?_Indagou o lobo, alarmado.

- Agora – respondeu o peixe – Nem o peixe na ribeira, nem o lobo na montanha!

 

Ambrósio olhava pasmado para Adérito. Que história era aquela e que relação tinha com a aliciante proposta que acabara de lhe fazer? Era um sim, um não ou um talvez?

 Adérito, levantou-se, olhou novamente para o relógio e disse:

- Desculpa, gostei muito deste pedacinho, mas está na hora de retomar o trabalho? Até mais ver.

Ambrósio continuou, pasmado, pregado à cadeira, cismando na bonita história que acabara de ouvir. Haveria de recontá-la, mas modificando certos aspetos a seu favor.

 

Ambrósio não lucrara alcançar os seus fins, mas Adérito jamais conseguiria que Ambrósio alguma vez se deixasse de manhas e astúcias, pelo menos com os colegas de carteira, que considerava intocáveis. Tinha perdido o seu tempo? Não, Ambrósio também gostava muito de contar histórias, mesmo a Adéritos que não as sabiam decifrar.

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