AMBRÓSIO e ADÉRITO
Ambrósio
e Adérito tinham sido parceiros na escola primária. Adérito lembrava-se muito
bem das mentiras e batotices de Ambrósio. Como parceiros de carteira poderiam
ter continuado amigos, porém Adérito não compactuava com trafulhices e evitava encontros
mesmo ocasionais. Mas naquele dia Ambrósio, porventura conhecendo o seu
itinerário, parecia esperá-lo. Sabia que não parava muito tempo no mesmo
emprego e que seriam certamente duvidosos, conhecendo como conhecia as suas
manhas.
Cumprimentaram-se
e Ambrósio convidou Adérito para um café, sem lhe dar oportunidade de se
esquivar. E não tardou que Ambrósio não apresentasse um atractivo esquema de
investimentos de lucro rápido.
Adérito,
olhando ao relógio, e como se não o tivesse estado a ouvir, disse:
-
Não tenho muito tempo, mas acabei de ouvir outra história, que não a tua, e
antes que se perca na minha memória, como tens muito jeito para estas coisas,
vou contar-ta: Quando Deus estava a criar o mundo, mandou chamar o chefe dos
animais e das plantas para atribuir a cada um as suas especificidades,
perguntando a cada ser como preferia ocupar a terra. Os pássaros disseram que
gostariam de ter asas para voar e Deus deu-lhe asas, os peixes disseram que
gostariam de percorrer os mares, as árvores disseram que preferiam não sair do
mesmo lugar e assim por diante. Ora acontece que o lobo andava perdido, porque
solitário, e não teve conhecimento destas atribuições e assim perdido
continuava por desconhecer qual o seu papel no mundo. Até que, cansado, foi
beber a uma ribeira, onde encontrou um peixe a quem perguntou por notícias,
tendo-lhe informado que o seu lugar, o do lobo, era na montanha e o lobo
aproveitou para se informar sobre as dos outros seres, agradeceu e ia pôr-se a
caminho das montanhas, quando se lembrou:
-
E ao homem?
-
Ah – exclamou o peixe _a esse coube-lhe a arte e a manhã.
-
E agora?_Indagou o lobo, alarmado.
-
Agora – respondeu o peixe – Nem o peixe na ribeira, nem o lobo na montanha!
Ambrósio
olhava pasmado para Adérito. Que história era aquela e que relação tinha com a
aliciante proposta que acabara de lhe fazer? Era um sim, um não ou um talvez?
-
Desculpa, gostei muito deste pedacinho, mas está na hora de retomar o trabalho?
Até mais ver.
Ambrósio
continuou, pasmado, pregado à cadeira, cismando na bonita história que acabara
de ouvir. Haveria de recontá-la, mas modificando certos aspetos a seu favor.
Ambrósio
não lucrara alcançar os seus fins, mas Adérito jamais conseguiria que Ambrósio
alguma vez se deixasse de manhas e astúcias, pelo menos com os colegas de
carteira, que considerava intocáveis. Tinha perdido o seu tempo? Não, Ambrósio
também gostava muito de contar histórias, mesmo a Adéritos que não as sabiam
decifrar.
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