ANSIEDADES DE UMA VELHA – XXI – O jogo: efeitos do confinamento
Judite já não sabe se anda desalinhada da realidade ou se, por engano, terá entrado na sala errada no intervalo de um filme, algo inexplicável, agora que não frequenta esses sítios.
Como diria João de Aguiar em “O Comedor de Pérolas”, houve monstros como o homo- napoleonicus, o homo-stalinius, o homo-hitleriano, depois o homem-lebre, este que quer estar em todo o lado simultaneamente por todo o mundo.
Judite acrescenta o ainda actual, homo-vírus, com uma alma atormentada coberta por um pano e o muito “fresquinho”, o homo-vídeo-jogos.
Dois anos se passaram sobre o nascimento (ou talvez renascimento) do homo-vírus, e os estão apregoados benefícios foram só para alguns, como os fabricantes de álcool gel, de máscaras, ou a indústria farmacêutica e afins. Serão bastantes mais, mas Judite não é perita em coisa nenhuma e sabe pouco, mas fica a magicar que, se o mundo já era louco, e um dos benefícios do vírus era tornar as pessoas melhores, o que com ela não produziu tal efeito, antes pelo contrário, o evidente é que certas pessoas, talvez por força do confinamento, habituaram-se a viver virtualmente, ficaram mais afectadas ao nível cerebral, dito cognitivo, e continuem em perpétuo e cómodo confinamento, acreditando que tudo se passa em modo de jogo virtual.
Ora veja-se o “dono das rússias”; estará confortavelmente instalado, dirigindo um jogo quiçá criado pelo próprio se para tal tiver jeito, à laia de outros criadores de videojogos. Ele é lá capaz de imaginar uma realidade em que inocentes, designadamente crianças a quem tirou o direito de viver, sejam pessoas reais? Que sabe ele disso? Um jogo é um jogo. É para ganhar. Estaria farto de jogos solitários; por que não atrair adversários que queiram participar num tal jogo?
Será que por aquelas bandas ficaram por demais afectados que não haja alguém, um elemento sequer, nem mesmo a mulher da limpeza, para lhe dizer que o que ele está a praticar é a sério, mesmo muito a sério, que o mundo já tem muito que fazer com a sua própria humanidade, onde, para além da fragilidade da condição humana, nunca falta uma dose de loucura, e que, no fim de cada jogada, as coisas não acontecem como nos desenhos animados que terá visto na infância.
Ali não há nem um gato, que depois de esborrachado volte ao normal; ali são seres humanos que não voltarão à vida. E os que não perecerem ficarão para sempre, esses, sim, com a existência arrasada.
Haja alguém que lho diga! E se ele não fizer caso, que lhe dêem um pontapé que o deixe a ele espalmado, e que caia nele. Ou que caiam em cima dele. O que interessa é acabar já com o que ele pensa ser um jogo. Um entretenimento virtual que lhe parece mesmo a sério.
24.02.2022
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