ANSIEDADES DE UMA VELHA – XX - NINGUÉM SABE DE QUE MORTE MORRERÁ
Há quem a escolha, (a forma de morrer) não por possuir tal faculdade ou controle, mas, na grande maioria dos casos, por falta de outra liberdade, seja ela a que, ou o que, for, acabam por “decidir” deixar de viver, quem sabe se por ignorarem o que é a vida. Não se pode saber tudo. Apesar de se pressupor que tiveram, pelo menos, a liberdade de escolha do tipo de finitude, na realidade não dispunham de tal. Poderão ter preferido o resultado mais prático, com efeito menos doloroso, mais à mão, mais discreto, mais aparatoso, sabe-se lá, e com mais ou menos consciência ou inconsciência. Enfim, uma grande fragilidade no livre arbítrio humano.
Estava Judite nesta estranha meditação, quando lhe ocorreu uma notícia do passado verão que informava terem perecido mais de dezasseis pessoas no topo de uma torre de vigia, na maioria jovens, atingidas por um raio, quando tiravam selfies, durante uma tempestade, na Índia. Sabiam, de antemão, que corriam risco de vida, ou antes, de morte, cabendo aqui, por que não, a tal escolha. Acrescia a comunicação, que os raios matam cerca de dois mil indianos em média todos os anos.
Se a notícia não incluísse juventude, audaciosa por natureza, Judite teria suposto que estariam ali reunidas por “determinação de algo ou alguém” que um dia, com uma veia colérica mais exaltada, lhes tivesse lançado uma espécie de praga, umas vezes por raiva, outras, na maioria, por terem perdido a paciência ou o equilíbrio. “Vai para o raio que te parta”, é caso para pensar que o que dizemos, mesmo sem intenção, se possa vir a cumprir; ou não. Terão as palavras assim tanto peso? Farão ricochete, e aquelas pessoas não sido “intimadas” para aquele raio, mas tê-lo-ão praguejado, raivosas ou por falta de paciência, a outras e acabou por lhes cair em cima?
Se a avó de Judite, onde quer que esteja, tiver a capacidade de lhe ler os pensamentos, poderá segredar-lhe:
_ Olha lá, menina, não se brinca com coisas sérias!
_Mas eu não estava a brincar …. Ocorreu-me … Por vezes não tenho mão nos pensamentos …
_Estás desculpada, mas olha que tens que te actualizar. Essa praga talvez ainda se use na Índia, mas no mundo em que vives a praga mais comum é: “Que não tenhas internet um dia inteiro”.
Mesmo assim Judite fica a magicar que há qualquer falha na primeira praga; não lhe soa muito bem ao ouvido … e não é da internet.
De repente, lembrou-se; é: “Vai para o raio que t´aparta”,
Não fosse ela algarvia.
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