sexta-feira, 4 de março de 2022


ANSIEDADES DE UMA VELHA – XXI – O jogo: efeitos do confinamento

Judite já não sabe se anda desalinhada da realidade ou se, por engano, terá entrado na sala errada no intervalo de um filme, algo inexplicável, agora que não frequenta esses sítios.
Como diria João de Aguiar em “O Comedor de Pérolas”, houve monstros como o homo- napoleonicus, o homo-stalinius, o homo-hitleriano, depois o homem-lebre, este que quer estar em todo o lado simultaneamente por todo o mundo.
Judite acrescenta o ainda actual, homo-vírus, com uma alma atormentada coberta por um pano e o muito “fresquinho”, o homo-vídeo-jogos.
Dois anos se passaram sobre o nascimento (ou talvez renascimento) do homo-vírus, e os estão apregoados benefícios foram só para alguns, como os fabricantes de álcool gel, de máscaras, ou a indústria farmacêutica e afins. Serão bastantes mais, mas Judite não é perita em coisa nenhuma e sabe pouco, mas fica a magicar que, se o mundo já era louco, e um dos benefícios do vírus era tornar as pessoas melhores, o que com ela não produziu tal efeito, antes pelo contrário, o evidente é que certas pessoas, talvez por força do confinamento, habituaram-se a viver virtualmente, ficaram mais afectadas ao nível cerebral, dito cognitivo, e continuem em perpétuo e cómodo confinamento, acreditando que tudo se passa em modo de jogo virtual.
Ora veja-se o “dono das rússias”; estará confortavelmente instalado, dirigindo um jogo quiçá criado pelo próprio se para tal tiver jeito, à laia de outros criadores de videojogos. Ele é lá capaz de imaginar uma realidade em que inocentes, designadamente crianças a quem tirou o direito de viver, sejam pessoas reais? Que sabe ele disso? Um jogo é um jogo. É para ganhar. Estaria farto de jogos solitários; por que não atrair adversários que queiram participar num tal jogo?
Será que por aquelas bandas ficaram por demais afectados que não haja alguém, um elemento sequer, nem mesmo a mulher da limpeza, para lhe dizer que o que ele está a praticar é a sério, mesmo muito a sério, que o mundo já tem muito que fazer com a sua própria humanidade, onde, para além da fragilidade da condição humana, nunca falta uma dose de loucura, e que, no fim de cada jogada, as coisas não acontecem como nos desenhos animados que terá visto na infância.
Ali não há nem um gato, que depois de esborrachado volte ao normal; ali são seres humanos que não voltarão à vida. E os que não perecerem ficarão para sempre, esses, sim, com a existência arrasada.
Haja alguém que lho diga! E se ele não fizer caso, que lhe dêem um pontapé que o deixe a ele espalmado, e que caia nele. Ou que caiam em cima dele. O que interessa é acabar já com o que ele pensa ser um jogo. Um entretenimento virtual que lhe parece mesmo a sério.

24.02.2022


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

 



ANSIEDADES DE UMA VELHA – XX - NINGUÉM SABE DE QUE MORTE MORRERÁ

Há quem a escolha, (a forma de morrer) não por possuir tal faculdade ou controle, mas, na grande maioria dos casos, por falta de outra liberdade, seja ela a que, ou o que, for, acabam por “decidir” deixar de viver, quem sabe se por ignorarem o que é a vida. Não se pode saber tudo. Apesar de se pressupor que tiveram, pelo menos, a liberdade de escolha do tipo de finitude, na realidade não dispunham de tal. Poderão ter preferido o resultado mais prático, com efeito menos doloroso, mais à mão, mais discreto, mais aparatoso, sabe-se lá, e com mais ou menos consciência ou inconsciência. Enfim, uma grande fragilidade no livre arbítrio humano.
Estava Judite nesta estranha meditação, quando lhe ocorreu uma notícia do passado verão que informava terem perecido mais de dezasseis pessoas no topo de uma torre de vigia, na maioria jovens, atingidas por um raio, quando tiravam selfies, durante uma tempestade, na Índia. Sabiam, de antemão, que corriam risco de vida, ou antes, de morte, cabendo aqui, por que não, a tal escolha. Acrescia a comunicação, que os raios matam cerca de dois mil indianos em média todos os anos.
Se a notícia não incluísse juventude, audaciosa por natureza, Judite teria suposto que estariam ali reunidas por “determinação de algo ou alguém” que um dia, com uma veia colérica mais exaltada, lhes tivesse lançado uma espécie de praga, umas vezes por raiva, outras, na maioria, por terem perdido a paciência ou o equilíbrio. “Vai para o raio que te parta”, é caso para pensar que o que dizemos, mesmo sem intenção, se possa vir a cumprir; ou não. Terão as palavras assim tanto peso? Farão ricochete, e aquelas pessoas não sido “intimadas” para aquele raio, mas tê-lo-ão praguejado, raivosas ou por falta de paciência, a outras e acabou por lhes cair em cima?
Se a avó de Judite, onde quer que esteja, tiver a capacidade de lhe ler os pensamentos, poderá segredar-lhe:
_ Olha lá, menina, não se brinca com coisas sérias!
_Mas eu não estava a brincar …. Ocorreu-me … Por vezes não tenho mão nos pensamentos …
_Estás desculpada, mas olha que tens que te actualizar. Essa praga talvez ainda se use na Índia, mas no mundo em que vives a praga mais comum é: “Que não tenhas internet um dia inteiro”.
Mesmo assim Judite fica a magicar que há qualquer falha na primeira praga; não lhe soa muito bem ao ouvido … e não é da internet.
De repente, lembrou-se; é: “Vai para o raio que t´aparta”,
Não fosse ela algarvia.

 

 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

 



ANSIEDADES DE UMA VELHA – XIX – POESIA

Judite, hoje, lembrou-se de uma conversa com uma amiga, há menos de meia dúzia de anos, a propósito da elaboração de um poema de natal, proposto por uma editora, para publicação alusiva à época. A amiga propunha nesse suposto poema que, se havia tanta gente sem natal, se fechasse o natal para obras, até que estivesse em condições de ser aberto para todos.
O dito poema foi considerado, pela editora, com bastante qualidade para ser editado, mas a amiga de Judite não acreditou nessa tal "qualidade". Pois se ela o tinha elaborado como desafio a si mesma, já que lhe passava pelas mãos tanta poesia sem caracter poético, que mais parece ter sido fabricada para massajar o ego, porque não fazê-lo como quem joga na lotaria, sem nada esperar. E esqueceu o assunto.
Ironia do universo, ou seja lá do que for, o certo é que não tardou muito até o Natal ser fechado. Quem diria! Só que de obras, nem vê-las. E Judite preocupa-se pela “exigência” requerida no famigerado poema, sem ter sido mencionado um prazo para tal, já que vai no segundo ano em que está fechado, ou quase, e sem qualquer melhoria, antes pelo contrário. E para todos. Mais ou menos.
“Não fizeste as coisas como devias!”, disse à amiga, que por outra ironia qualquer, em breve verá publicado esse mesmo arremedo de poema e, ironia das ironias, pela mesma editora.
É por estas e por outras, que Judite pensa, com frequência, que a vida é uma ironia sem graça nenhuma, como os alegados poemas sem qualquer poesia, dessa tal amiga inconsequente, que faz propostas na lua e depois dá no que dá.

Dez/2021

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

 ANSIEDADES DE UMA VELHA – XVIII - Saudade

Alguém definiu a saudade como uma doença remotamente contraída por antigos marinheiros, nalgum lugar distante e que, obviamente, estaria ligada às distâncias. Judite ficou a pensar nessa definição e noutras de que já nem se lembra; na sua opinião, há tantas "saudades", quantos os saudadosos. Quem não ouviu, ou disse, " Que saudades da minha infância … Que saudades dos tempos em que ... Que saudades disto ... Que saudades daquilo... desta ou daquela pessoa ...
Pode ser uma nostalgia … uma mágoa que aperta … uma melancolia … ou vagas memórias … Porém, Judite crê que pior do que isso tudo é a saudade do que nunca se teve. A saudade de alguém que todos os dias vemos e que lá não está e, sobretudo, a saudade de alguém que julgávamos saber quem era e que já não sabemos quem é.
Seremos também nós a saudade de alguém?
É especialmente nesta última questão que Judite se fixa. E quando tal acontece, o que sucede é que interrogações como esta, parecem estar grávidas: sempre que lhe surge uma vaga hipótese de resposta, logo é alertada para o "grito" de outra, e de outra. Até que, já meio atordoada, Judite exclama: Chega! Mas depois cai em si, e considera que, sempre que pronuncia ou escreve "Chega" ou "chega", tem que fazer uma ressalva: a política não é para aqui chamada!

Obrigam-nos a fazer com cada ressalva!