ANSIEDADES DUMA VELHA - XI
Judite medita na conversa que teve com um velho colega da
escola primária sobre as atuais restrições de mobilidade; rememorava ele que
dos quinze aos dezoito anos andava quase sempre por caminhos escusos a evitar
encontrar a polícia, ora por se ter esquecido dos documentos da motorizada, ora
por não estar a usar o capacete apertado, ora por levar a namorada. Mesmo assim
acontecia encontrar a patrulha quando menos esperava e a multa era certa e algumas
vezes eram cumulativas: mais uma pessoa além do condutor, falta de documentos e
ausência de uso de capacetes ou mal afivelados. Não era fácil ser jovem
naqueles tempos. Por vezes também o tubo de escape não estava em condições. Com
as luzes, lá isso, tinha muito cuidado, que andava muito de noite: nunca teve
multa nenhuma por esse motivo.
Depois do 25 de abril já podia passear livremente com a
namorada na motorizada, ambos com capacetes e os documentos sempre na mala dela.
Depois tirou carta de condução, comprou o carro e nunca mais fugiu à polícia.
Agora, depois de velho, para sair de casa e levar a mulher
que sofre dos nervos a respirar um pouco à beira-mar, o que a torna mais
suportável, tem que andar novamente a fugir à polícia para percorrer de carro
uns míseros dez quilómetros. Palavra, diz ele, que nunca pensou que passados cinquenta
anos isso voltasse a acontecer. Já é muito azar, numa vida só, estas coisas se
repetirem.
Judite matuta naquela conversa e não consegue encontrar-lhe
sentido: então o Zé Manel para ir de carro com a coitada da mulher, que mal se
pode mexer, a serenar um pouco com o ar marinho, tem que fugir à polícia? Alguma
coisa não bate certo. Ele não é pessoa para andar metido em drogas nem ter matado
alguém. Se calhar também está é maluco, como a mulher. Coitados, ainda os metem
a ambos num manicómio. Mas parece que há muito os manicómios tradicionais terão
encerrado; não se justificavam quando todo o mundo se tornou um manicómio a céu
aberto, onde coabitam lado a lado loucos e sãos. E depois ainda há a
dificuldade em distingui-los. Ao que parece fazem turnos: hoje sou eu o maluco,
no fim de semana és tu.
E eu? Pensa Judite. Será o meu dia de turno? Já não tenho a
certeza e não encontro a escala. Paciência. Outro que o faça; hoje não estou
para isso. Farta de malucos estou eu.