sábado, 27 de fevereiro de 2021

 

O CONTO FINAL



O velho escritor tinha escrito tanto sobre tão vastas matérias como o são a história, a condição humana ou a filosofia e outros temas ainda menos palpáveis que não sabia sobre o que iria escrever naquele dia. Lançou a última folha branca na velha máquina de escrever quase tão antiga quanto ele e fixou-a, aguardando uma ideia peregrina. O tempo passava e a alva folha, na sua virgindade imaculada, começou a ficar lívida, a tremer, temendo pelo seu futuro. Que iria acontecer a uma folha de ponto em branco, prontinha a receber os caracteres, as palavras, as frases, as ideias. O velho escritor não saía da sua imobilidade e a folha tanto se esperançava de cumprir a sua missão, como temia um destino fatal, como vira sucedera a tantas suas irmãs, amarrotadas, rasgadas e lançadas no cesto de papéis, aquele malvado devorador insaciável de folhas de papel que chegava a regurgitá-las, por excesso. 

E o velho escritor que não se decidia e a fitava com um olhar estranho. A folha teve um sobressalto, seguido dum arrepio: velho escritor que tanto escrevera, estava morto frente à folha branca, que mais uma vez estremeceu. Temia o pavoroso caixote do lixo, mas temia mais ainda ficar para sempre aprisionada na velha máquina de escrever. E teve uma epifania. Seria ela a escrever; afinal era a última folha e já tinha visto tanto. A própria máquina conhecia todas as palavras que o velho tinha teclado: velhas palavras, novas palavras, palavras que o velho escritor inventara e outras que a própria máquina criara. 

Quando encontraram o velho escritor morto defronte da folha que ele fixava ainda, com os olhos já vidrados, leram o seguinte: O HOMEM NASCE, CRESCE E MORRE. 

No canto inferior direito da página encontraram ainda um ponto final.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021



ANSIEDADES DUMA VELHA - X 

Pedro Henrique precisa de sair um pouco de casa porque a mulher exerce violência doméstica sobre ele, obrigando-o a limpar a banheira uma vez por semana, a colocar a louça na máquina após as refeições e, em dias acinzentados, a vigiar as nuvens não vá alguma ser acometida subitamente por uma necessidade vital e molhar a roupa, quase seca, no estendal. 
Um homem quando está 100% em Lay off ter de trabalhar em casa é muito violento. Daí que, de vez em quando, tenha de dar uma escapadela à casa da amiga, com quem mantinha uma ligação para além de afetuosa quando ambos estavam a trabalhar. Felizmente não é muito longe e tem sempre a desculpa de ir passear a trela do cão. Também felizmente, que nestas coisas há sempre mais do que um lado bom, o marido da amiga tem continuado a trabalhar todos os dias, porém nessa malfadada tarde, que há sempre um lado negro que vem estragar tudo, voltou inesperadamente cedo: iria começar em teletrabalho e aconteceu o que não devia ter acontecido; apanhou-o de calças na mão. Isto é só um modo de dizer; ainda conseguiu pular da janela das traseiras sem que o outro o visse, o que foi uma sorte para ambos, melhor dizendo, para os três, em especial para ele por ser um rés do chão, não haver ali nenhuma roseira nem cão. E ainda teve mais um bocadinho de sorte, que foi ela ter tido tempo e o discernimento de lhe atirar a camisa e os sapatos janela fora. 
Esperemos que tenha o mesmo discernimento quando o marido lhe perguntar, o que faz aqui uma trela. Tem várias hipóteses, não vamos levantar todas: vamos pela mais simples: marido, prevendo que mais dia menos dia virias trabalhar em casa, apressei-me a comprá-la para passeares o cão e assim manteres a linha. E onde está o cão? Sobre este assunto, fiquemos por aqui, não vá a coisa azedar, presumindo que o homem não terá grande sentido de humor, de contrário ela não teria necessidade de se meter onde se meteu. Pedro Henrique voltou sem trela, ignorando-se se alguma vez a terá usado à laia de chicote, nem que fosse só a fingir. Se a mulher o indagar por essa falta, e apenas por essa, o cão teria corrido atrás de uma fêmea arrastando consigo a trela presa à coleira. As mulheres têm sempre mais sentido de humor. Esperemos que tenha sido o caso. Sem trela; mas pior que tudo, sem cuecas nem peúgas. Mesmo assim cheio de sorte: em casa há mais e talvez a mulher não venha a dar por falta delas. Pior seria se não pudesse entrar em casa; teria de andar, sabe-se lá por quanto tempo, sem essas peças fundamentais. Judite não se lembra quem lhe terá contado este episódio rocambolesco e também não se lembra se ouviu dizer, se leu na net ou se foi outra coisa qualquer, que a venda de vestuário está suspensa e pensa consigo que já não está boa da cabeça. Parece também ter visto um vídeo em que um homem, um segurança numa empresa pública, vai comprar o almoço num sítio de comida rápida, tem de comer numa escadaria exterior de um prédio e que muitas vezes fica embaçado por falta de líquido que o ajude a deglutir; onde compra a comida não lhe podem vender sequer uma garrafinha de água para empurrar o almoço: só se for comprá-la ao supermercado, que fica longe e a hora do almoço passa depressa. Judite fica mesmo aflita consigo: não está nada bem. Ora como é que tal coisa poderia acontecer? Um dia destes o homem morre engasgado na via pública e depois vai para a estatística Covid. É verdade que o mundo está maluco, mas não tanto que um cidadão não possa comprar um par de cuecas, um par de peúgas ou uma garrafa de água. O melhor é ir dormir, talvez amanhã esta confusão de cabeça tenha passado e o mundo também esteja mais lúcido.


 

 

 

 

 

 

 

 


terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

 

ANSIEDADES DUMA VELHA - IX

São assuntos que a bem dizer já não deveriam ocupar a cabeça duma velha, mas mesmo sem ela perceber porquê ocupam.

É que há jovens que troçam de coisas obsoletas na perspectiva deles, mas que alguns velhos ainda preservam e usam, quer se trate de objectos ou de hábitos, porém àqueles  só lhes serve de risota. Até mesmo o sexo, para uma determinada faixa de jovens, não faz qualquer  sentido; o que faz sentido é o telemóvel donde até sexo podem obter, que a não ser assim doutra maneira “dá muito trabalho” e para quem como eles está envolvido na revolução tecnológica, há que não perder tempo com animalidades e chatices.

Foi aí que Judite meditou numa geração, talvez muito próxima, em que os futuros jovens, mesmo assim, irão troçar destes, talvez dizendo: Ah, ah, que ridículo que era dois indivíduos  de sexo oposto terem que se engalfinhar para vocês nascerem. Já vimos filmes e eram bem ridículos. Nós não; nós nascemos no laboratório e nunca vamos ter pais velhos para aturar e depois de muito velhos mudar-lhes as fraldas e aturar-lhes a senilidade.

Enfim, talvez sós e revoltados, como acontece em todas as gerações, mas a juventude é uma doença curável e com muito raras recaídas.

Judite deu por si a ter estes pensamentos, como se este assunto lhe importasse muito, mas a realidade é que há com cada pensamento a atacá-la, que se lhes dá  rédea até se assusta com os disparates que se lhe deparam. Velhos! Jovens! Sexo! Para que lhe havia de dar …