domingo, 12 de julho de 2020



CRÓNICA DESSINCRONIZADA
(Exposição sobre o plástico na Ria Formosa)
Quarta-feira. Manhã. Abro a porta da Biblioteca-Museu do Jornal A avezinha e deparo-me, à entrada, com uns folhetos de design diferente dos habituais e, como todas as quartas-feiras de manhã, verifico se se adaptam ao local: PLASTIQUE SENSE(A)CTION - Exposição de Mateus Verde e Sara Mendes Vicente. Ah! Exclamo para comigo; uma exposição do Rui! A Sara não conheço. O que quer dizer que, pelo menos ele, o Rui Mateus, de nome artístico Mateus Verde, esteve cá. Tenho pena de não me ter encontrado com ele. É um rapaz raro, uma preciosidade e um artista, claro. Poderia dizer que lhe está no sangue: a avó é, por excelência, a poetisa cá da terra. Viva, graças a Deus. Ambos artistas, cada um com as suas artes. 
Dou voltas ao folheto; onde é a exposição? Não refere, talvez por erro de impressão, embora conclua, pelos apoios indicados, que será em Loulé ou pelo menos no concelho de Loulé, mas em que local? Vou à internet e encontro um artigo da Sul Informação, onde refere a exposição na " Folha de Medronho", Associação de Artes Performativas, em Loulé. 
Desconhecendo, procuro no mapa e parece-me próximo do Largo de São Francisco. Pronto, já estou situada. 
Por coincidência, como é o uso dizer-se, nessa quarta-feira tinha encontro de “Grupo de Escrita”, na Casa da Cultura de Loulé, mais precisamente por baixo da dita, no Bar 8100, por se tratar da última sessão do ano e querermos fazer um lanchinho de Natal. Saí um pouco antes do final por ter um compromisso familiar nessa noite e, regressando, passei pelo Largo de São Francisco, só para me certificar do local da “Folha de medronho”, mas sem descer do carro porque não me podia atrasar, tanto mais que àquela hora, cerca das 18:30 já teriam encerrado, porém, ao entrar na rua, à esquerda da Igreja de São Francisco, verifico que, quase em frente à dita, há ainda um estabelecimento iluminado, onde se encontra uma rapariga à secretária. Mesmo duvidando, porque não tinha memorizado o horário inserido no folheto e porque não queria chegar tarde ao compromisso, páro o carro e, com os quatro piscas ligados, empurro a porta envidraçada, sobre a qual leio o letreiro “Folha do Medronho” e pergunto se ainda são horas de ver a exposição. Que sim, até às 19:30, diz a rapariga que se levanta, com prontidão, sorrindo e se dirige a mim, pedindo-me permissão para me abraçar, que também são “uma associação de afectos”, sublinha, continuando a sorrir. Aquiesço, deixo-me abraçar e estranho que uma rapariga nova tenha o cabelo totalmente grisalho, mas já há muito quem se tenha rendido ao natural, vou eu pensando. 
Olhei à minha volta; onde está a exposição? É aqui na Sala de Ensaios, diz dirigindo-se a uma sala onde reina a escuridão, à excepção das luzes que incidem e permitem visualizar os elementos construídos pelos artistas, com materiais do dito lixo de plástico, recolhidos na Ria Formosa, numa parceria com o RIAS (Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens, num alerta divertido para quem ainda não tenha despertado para o assunto. Não sendo possível fazer uma exaustiva observação dos objectos construídos, entre outros achei interessante a abelha e muito original o aquário, não de peixes, mas de objetos de plástico. Tendo de me retirar mais apressadamente do que desejaria, e do que aconselha a boa educação, verifiquei ainda que sobre as mesas existiam livros recentemente apresentados, de que não pude tomar nota por falta de tempo. Apesar da minha pressa Xana, (Alexandra Diogo,) ainda me quis oferecer chá, rosto que figura num folheto que vi sobre a mesa, um espetáculo de teatro de que fez parte e que foi levado à cena no Cine Louletano, baseado no clássico “Antígona”, de Sófocles, onde aparece com cabelo loiro. Fazendo eu o reparo, em vista dos panfletos, diz-me que teve depois de o descolorar para o outro papel que assim o exigia. Ossos do ofício. “Encanecer”, título da dita peça teatral e de acordo com o grisalho, quase branco, do cabelo, agora compreendido. Muito tinha ainda para me contar e mostrar se de tempo eu dispusesse. Fiquei de lá voltar para me inteirar de tudo com mais pormenor. E tirar algumas fotografias. O que não aconteceu ainda. 

A exposição, essa, pode agora ser vista na delegação de Faro do IPJ (Instituto Português da Juventude)

Paderne, 25 de Fevereiro de 2020

sexta-feira, 10 de julho de 2020



                                                    CALENDÁRIO

 Espanta-se como o calendário corre pressuroso, avaro de sentimentos para com o tempo que o percorre e o possui; o calendário é descartável, não sente o sabor acre das vidas que controla, não se desforra de infidelidades, de chantagens.
São números, datas que foram vidas repletas de sentimentos complexos, aturdidas pela juventude e por palavras inúteis.
Cada um tem o seu calendário pessoal: nascimentos, aniversários, casamentos, mortes, não necessariamente por esta ordem. Alegrias voláteis, como aves marinhas pousando sobre as vagas, dramas íntimos emaranhados nas contradições, dores agudas, nostalgias, sentimentos complexos, amores e desprezos. Calendários carregados de vidas que as chamas do tempo chamuscam e acabam por queimar sob a incompreensão ou a estupidez, às vezes do amor, mas tão pouco.


           CARTA DE PRESENÇA (AMOR)

Não precisava de te escrever esta carta; podia dizer-to cara a cara ou lado a lado, como nos desse mais jeito, mas escrito fica mais bonito, embora saiba que não ligas a estas coisas. Se bem que isto de eu “saber”, posso estar enganada, como tantas vezes estou, e afinal tu gostares; só que gostas de te armar em durão; achas que fica bem a um homem, porém isto são deduções. Estamos juntos há mais de cinquenta anos e poderíamos contar com outros cinquenta, que continuaríamos a fazer deduções a respeito um do outro, que isso das certezas não é connosco: pelo menos não é comigo. Creio que é esse "desconhecimento" um do outro, não total, claro, que nos mantém, que nos alimenta, como se não nos pudéssemos separar de alguém que queremos conhecer melhor, mas sem muitas perguntas e isso leva décadas, muito mais de cinco.
Poderia começar por citar Nietzshe e dizer que o amor possibilita ver as coisas de outra maneira, que há sempre alguma loucura no amor, porque afinal é uma carta de amor que tenho que te escrever, mas o que quero, e todos os dias demonstro, é agradecer-te por estares vivo; podias ter arranjado maneira de te safares desta tarefa de me aturares, de já não estares por aqui; é isso que aprecio em ti: é estares presente sempre. Que nada é mais difícil de que viver com outra pessoa todos os dias. E mesmo assim, sorrir.
Podes não ter contribuído financeiramente como devias, mas estavas presente para mim, para os teus filhos. Podia ter sido ao contrário: teres-nos dado tudo, com excepção da tua presença. E foi ela, como continua a ser, que nos alimenta a existência. E isso, se calhar, é que é o amor, porque se não fosse, que coisa seria essa de nos mantermos vivos todos os dias, sem um motivo de maior?
Por isso, esta carta de amor não é uma carta lamechas nem sequer saudosa, que estes tempos continuam a ser os nossos tempos; só tens de te manter vivo. E isso não será mais difícil do que até agora, pois apesar de continuarmos com os nossos defeitos e diferenças, haverá sempre a intervenção da tolerância e, por que não, do amor?
Não te mando beijos nem abraços, porque não é preciso mandar. Estás aqui mesmo. Posso dar-tos sempre que quiser.

E ver-te sorrir. 


Publicada no Volume III da Colectânea de Cartas de Amor, da Chiado Books, em Fevereiro 2020