terça-feira, 20 de julho de 2021

 

 

ANSIEDADES DE UMA VELHA  -  XV (o computador)

O computador de Judite sabota-lhe a escrita. Se contasse às amigas, diriam entre elas: Não admira, com os disparates que escreve até um computador se passa dos carretos, quer dizer, do disco.

Judite está muito descontente: o que considerava um precioso auxiliar  censura o que ela dita; sim, tem os olhos muito cansados e as artroses dificultam-lhe o teclar e aproveita as funções que a máquina lhe oferece, mas isso não lhe dá o direito à censura. É como se, antigamente, quando muitas pessoas não sabiam ler e pediam a alguém que lhes escrevesse as cartas e lá colocassem palavras que eles nunca saberiam usar e cortariam outras que considerassem grosseiras se escritas pelo seu punho.

Não fosse ele uma máquina e Judite dir-lhe-ia das boas nos dias que fica sem paciência e tem que ser ela a teclar tudo, para poupar o trabalho de emendar erros, omissões e deturpações do Senhor Computador, armado em dono das palavras.

De súbito, a frase “não fosse ele uma máquina”, começa a espicaçar-lhe um neurónio: não fosse ele uma máquina? Será que é mais do que isso? Ainda não tinha pensado em tal, mas alguma coisa “vê”, censura e escreve como quer e ela, Judite, a pensar que não valia a pena irritar-se com uma máquina … e afinal talvez não seja apenas uma máquina.

Certo é que quando dita por exemplo, cretino, o que aparece na tela é *******, o mesmo se passa com imbecil ******* outro tanto com uma palavra  com cinco letras, muito comum na oralidade caseira,  começada por M ou m, ***** mas essa acharia perfeitamente aceitável a sua rejeição e, porventura nem daria por tal desaprovação; ela mesma utiliza o termo com economia na oralidade.

Até pode compreender que tenha sido programado por gente de “boas” palavras, o que não impede de existirem cretinos e imbecis, mas já a palavra “estúpido” é aceite todas as vezes que for ditada. Judite concorda que, cretinos, imbecis e estúpidos, sejam adjetivos impróprios para anjinhos, mas nem sempre as personagens dos seus contos o são, daí que precise ditá-las.

Mas o que não está certo é que quando Judite dita “comer”, o dito recusa-se e escreve *****. Então essas pessoas de “boas palavras” que obrigam o computador a censurar impropérios, será que não se alimentam? Ou quem o programou foi antes uma outra máquina, que sendo máquina não come.

Ai se valesse de alguma coisa falar com ela, dir-lhe-ia: _. Então lá por tu não comeres não deixas que os humanos comam? Até pareces os cães da palha, que não comem nem deixam comer.

Mas a máquina não se reconhecerá neste provérbio e Judite, apesar de velha, não chega a tanto: o que não lhe apetecer escrever, escreve a própria. Que remédio. O mesmo acontece com tantos humanos: só fazem o que querem. (Pensam eles).

E não se fica por aqui, o marafado. Se Judite ditar: nos, nus, ela, era, chega, isto, livre, por exemplo, a tela apresenta: NOS, ELA, ERA, CHEGA, ISTO, LIVRE. Toca a reescrever.

Judite lamenta ter que privar com um computador tão inculto: há poucos dias ditou-lhe “cromologia” e o desgraçado considerou um erro ortográfico. Enfim, cada um priva com o computador que merece.

O que a espanta é que “loucura” escreve com inicial grande “Loucura”, quando deveria escrever LOUCURA.

 

20 Julho 2021

 

 

sábado, 17 de julho de 2021

 

 

ANSIEDADES DE UMA VELHA – XIV - Certificado digital. Aos fins de semana

 Judite nem sempre percebe porque é que remexe em certos pensamentos ou recordações, mas o certo é que eles aparecem, convidados ou não.

E o que lhe assoma, mais uma vez, é Giovanni Papini e a sua obra “O Passado Remoto”, que isto de passados é o que os velhos mais têm na cabeça e neste caso o que o escritor refere é que em 1914 se podia andar por toda a Europa, à excepção da Rússia, sem passaportes, vistos, carimbos, licenças.

Mais de um século depois, dizem por aí que, quem almoçar na esplanada de um restaurante, se quiser fazer xixi no w.c. do mesmo, tem que ter um Certificado Digital. Ao fim de semana.

Se não fosse a palavra Digital, Judite pensaria tratar-se de algum uso corrente no século XIX; e daí porque não, se digital se refere ao uso dos dedos. Quem lhe dera evitar recordações e pensamentos tão absurdos, que tanta confusão causam na sua cândida velhice, mas insiste em pensar no que o referido escritor, em 1948, também escreveu: “ninguém é livre, ninguém é são, mas é preciso lutar pelo progresso e pela liberdade”.

Depois ficou perturbada, e não foi com esta frase obsoleta, sem sentido nos dias de hoje; foi a leitura dum conto, por assim dizer “futurista” do escritor António Ladeira, “A Agência”, passado, quer dizer “futurado” em 2045, onde, para viajar de avião, os passageiros teriam obrigatoriamente que frequentar um curso especial de seis anos. Ora se ela chegasse a 2045, como é que poderia viajar se tivesse que estudar seis anos, durante os quais não poderia ir conhecer mais mundo. Inadmissível! Depois serenou: era apenas uma ficção, como tantas outras que tem lido, como por exemplo a do certificado digital, ao fim de semana. Para tudo é preciso imaginação, saltar da caixa, ter ideias prafrentex, como se dizia no seu tempo de moça. São assim as boas ficções. Dão “pica”.

A fazer fé na cromologia, a cor verde é uma chave que abre os cofres da memória e como Judite anda a comer muita alface, a chave, sem querer, deu a volta à fechadura dalgum cofre donde saem estas memórias à mistura com disparates e que é uma confusão para destrinçá-los.

É o que dá, em vez de tomar comprimidos como é normal em qualquer pessoa de idade e de juízo, Judite só toma livros. E pouco mais.

Talvez um gaspacho, com muito tomate maduro, bem vermelhinho, para contrabalançar o verde da alface que abre cofres, ainda a salve da loucura, deixe de pensar em improváveis absurdos e não volte a pôr as coisas de pernas para o ar.

 

Maria de Jesus – Julho 2021