ALETRIA DOCE
Para a avó, Lena era a rapariga que, por sortilégio, o neto tinha escolhido para
namorar, amar, casar, dar-lhe bisnetos. Lena, a rapariga que a avó amaria como
neta.
Um dia, como se um prematuro outono estivesse prestes a
irromper ou uma verdejante planície se tivesse transformado num inquietante
deserto, o neto entristeceu como se um ponto de interrogação se tivesse virado
para o lado oposto. Mas não tardou que não voltasse a alegrar-se com a probabilidade
posta a caminho de que a existência de outras Lenas era uma ordem da natureza.
Lena, a alva rapariguinha rechonchuda, de longos cabelos
negros e encaracolados, de olhar cor de esmeralda, foi sucedida por Leandra, menos
alva, menos rechonchuda, cabelo mais curto, menos ondulado e olhar mais
aveludado. Leandra. Esta é a Leandra, avó. A avó sorriu, como sorriem as avós:
com destemor, e ainda à porta a avó, disse: fiz aletria doce, meu neto, como tu
gostas; traz a Lena e venham para a cozinha. Lena? Murmurou, imóvel, Leandra. Não
ligues. E foram, para saborear a aletria doce, carregada de canela cheirosa, como
tanto gostam o neto e a Lena. Leandra, não. Detesta canela. Mas a coisa
remediou-se: o neto comeu a camada superior e passou a taça a Leandra.
A avó observava essa modificação, com qualquer coisa a
navegar-lhe na lembrança, e anotou mentalmente, como se tivesse vinte anos: na
próxima vez o frasco de canela ficará ao lado.
Os tempos decorrem, atravessando instantes e eternidades, ora
lentos, ora lestos, conforme os dias que cada um conta na sua agenda
cronológica, o que quer dizer que se encadeavam bastante rápidos para a avó que
mal dava por chegar uma quinta-feira, logo ali estava outra, o dia da semana em
que o neto costumava passar lá por casa, com a Lena, para degustar a aletria
doce. E não se pense que a avó achava que as quintas-feiras se aproximavam umas
das outras por considerar as visitas do neto muito próximas; não era nada disso,
era mesmo assim, quantos mais anos passavam, mais o tempo corria veloz e não
compreendia quando algumas amigas lastimavam o quanto o tempo lhes custava a
passar.
O tempo passava agora mais lento desde que o neto deixara de
aparecer com a Lena ou antes com a Leandra. Ou talvez fosse o contrário.
Numa quinta-feira, perdida entre outras, em que até o bicho
da madeira se calou, o neto reapareceu, folgazão, de mão dada com uma vampe, distante
e misteriosa, esguia, metida a modelo. Ana, disse o neto. Não, não gostava de aletria nem
doce nem doutra maneira.
Nessa quinta, o neto também vinha sem apetite de aletria; só
tinha olhos, e boca, para a Lena. Ana.
Todas as quintas a vida trazia à avó uma alegria maior
misturada com um cheiro luminoso: a avó fazia aletria doce, deitava-a numa
grande taça de vidro e, ao lado, o pimenteiro transformado em frasco de canela.
Sem polvilhar. Nunca se lembrava se a Lena gostava de canela por cima, se
gostava com pouca ou com muita.
E começaram a acontecer quintas em que a avó notava que tinha
aletria já azeda, ou seca, consoante a tivesse guardado ou não no frigorífico. As
quintas, que antes chegavam ainda mais depressa do que os natais e as páscoas, deixaram
de acontecer. Foram substituídas por outras, vazias, sem o neto, sem Lena, sem
alma, de mãos apertadas pousadas no colo. Essas não, não eram quintas-feiras.
As aletrias iam-se acumulando, secas, no frigorífico e a avó
deixou de fazer aletria doce.
Agora as quintas-feiras pareciam não mais acontecer, graves,
paradas, sem alma.
Depois, não se sabe em que dia foi, a avó lembrou-se de que
os olhos do neto, naquela quinta-feira em que estava sem apetite, tinha os
olhos mais cintilantes e a vida cantava através dele, e que a Lena, ou seria a Leandra
ou a Ana, não tinha comido a aletria doce. Não gostava.
E foi então que compreendeu que também o neto já não gostava
de aletria doce. E que era por isso que ela já não a fazia. Como é que ainda
não tinha pensado nisso?! Precisava criar uma nova receita. Queria de volta as quintas-feiras, em que dias mágicos pousavam nos seus ombros, como
pássaros em gorjeio numa árvore de canela.