sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

 



ANSIEDADES DE UMA VELHA – XIX – POESIA

Judite, hoje, lembrou-se de uma conversa com uma amiga, há menos de meia dúzia de anos, a propósito da elaboração de um poema de natal, proposto por uma editora, para publicação alusiva à época. A amiga propunha nesse suposto poema que, se havia tanta gente sem natal, se fechasse o natal para obras, até que estivesse em condições de ser aberto para todos.
O dito poema foi considerado, pela editora, com bastante qualidade para ser editado, mas a amiga de Judite não acreditou nessa tal "qualidade". Pois se ela o tinha elaborado como desafio a si mesma, já que lhe passava pelas mãos tanta poesia sem caracter poético, que mais parece ter sido fabricada para massajar o ego, porque não fazê-lo como quem joga na lotaria, sem nada esperar. E esqueceu o assunto.
Ironia do universo, ou seja lá do que for, o certo é que não tardou muito até o Natal ser fechado. Quem diria! Só que de obras, nem vê-las. E Judite preocupa-se pela “exigência” requerida no famigerado poema, sem ter sido mencionado um prazo para tal, já que vai no segundo ano em que está fechado, ou quase, e sem qualquer melhoria, antes pelo contrário. E para todos. Mais ou menos.
“Não fizeste as coisas como devias!”, disse à amiga, que por outra ironia qualquer, em breve verá publicado esse mesmo arremedo de poema e, ironia das ironias, pela mesma editora.
É por estas e por outras, que Judite pensa, com frequência, que a vida é uma ironia sem graça nenhuma, como os alegados poemas sem qualquer poesia, dessa tal amiga inconsequente, que faz propostas na lua e depois dá no que dá.

Dez/2021

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

 ANSIEDADES DE UMA VELHA – XVIII - Saudade

Alguém definiu a saudade como uma doença remotamente contraída por antigos marinheiros, nalgum lugar distante e que, obviamente, estaria ligada às distâncias. Judite ficou a pensar nessa definição e noutras de que já nem se lembra; na sua opinião, há tantas "saudades", quantos os saudadosos. Quem não ouviu, ou disse, " Que saudades da minha infância … Que saudades dos tempos em que ... Que saudades disto ... Que saudades daquilo... desta ou daquela pessoa ...
Pode ser uma nostalgia … uma mágoa que aperta … uma melancolia … ou vagas memórias … Porém, Judite crê que pior do que isso tudo é a saudade do que nunca se teve. A saudade de alguém que todos os dias vemos e que lá não está e, sobretudo, a saudade de alguém que julgávamos saber quem era e que já não sabemos quem é.
Seremos também nós a saudade de alguém?
É especialmente nesta última questão que Judite se fixa. E quando tal acontece, o que sucede é que interrogações como esta, parecem estar grávidas: sempre que lhe surge uma vaga hipótese de resposta, logo é alertada para o "grito" de outra, e de outra. Até que, já meio atordoada, Judite exclama: Chega! Mas depois cai em si, e considera que, sempre que pronuncia ou escreve "Chega" ou "chega", tem que fazer uma ressalva: a política não é para aqui chamada!

Obrigam-nos a fazer com cada ressalva!