ANSIEDADES DE UMA VELHA – XIX – POESIA
Judite, hoje, lembrou-se de uma conversa com uma amiga, há menos de meia dúzia de anos, a propósito da elaboração de um poema de natal, proposto por uma editora, para publicação alusiva à época. A amiga propunha nesse suposto poema que, se havia tanta gente sem natal, se fechasse o natal para obras, até que estivesse em condições de ser aberto para todos.
O dito poema foi considerado, pela editora, com bastante qualidade para ser editado, mas a amiga de Judite não acreditou nessa tal "qualidade". Pois se ela o tinha elaborado como desafio a si mesma, já que lhe passava pelas mãos tanta poesia sem caracter poético, que mais parece ter sido fabricada para massajar o ego, porque não fazê-lo como quem joga na lotaria, sem nada esperar. E esqueceu o assunto.
Ironia do universo, ou seja lá do que for, o certo é que não tardou muito até o Natal ser fechado. Quem diria! Só que de obras, nem vê-las. E Judite preocupa-se pela “exigência” requerida no famigerado poema, sem ter sido mencionado um prazo para tal, já que vai no segundo ano em que está fechado, ou quase, e sem qualquer melhoria, antes pelo contrário. E para todos. Mais ou menos.
“Não fizeste as coisas como devias!”, disse à amiga, que por outra ironia qualquer, em breve verá publicado esse mesmo arremedo de poema e, ironia das ironias, pela mesma editora.
É por estas e por outras, que Judite pensa, com frequência, que a vida é uma ironia sem graça nenhuma, como os alegados poemas sem qualquer poesia, dessa tal amiga inconsequente, que faz propostas na lua e depois dá no que dá.
Dez/2021