ANSIEDADES
DE UMA VELHA - XVI
Judite
sentou-se numa espécie de banco-sofá, sem encosto, melhor dizendo, encostado a
uma parede no Centro Comercial. Em napa laranja, ladeado por pines unidos por
correntes vermelho e branco, leves, de plástico, talvez. Noutros tempos estaria
ali objecto de contemplação pública em que não se deveria tocar. No presente
não passava dum desgraçado banco de napa, sem direito a encosto, tendo-lhe sido
em tempos apenas permitido usufruir da parte inferior de ocupantes de melhores
dias, sem direito a um braço e muito menos a um abraço. Judite não gosta
daqueles locais que para se encontrar o que se precisa tem-se de palmilhar
quilómetros. Doíam-lhe as velhas pernas.
Tinha
marcado manicure para as cinco, mas uma candidata a miss beleza levara mais
tempo que o suposto e passavam cinco minutos das cinco e ela, com a mania da
pontualidade antecipada viera outros cinco antes da hora. Depois de dez
minutos de pé, resolveu sentar-se à ponta do banco, sem retirar nada do lugar
nem forçar a corrente.
Ainda
não tinham passado trinta segundos, o jovem segurança, vindo do piso superior,
ou porque estivesse na hora da ronda ou por “denúncia”, pretendeu expulsá-la. “Não
pode sentar-se aí”. Não posso estar de pé e está na hora de ser atendida. “Aí
não pode estar”. Então sento-me onde, no chão?”. “Pode sentar-se na escada”.
Então na escada onde passa tanta gente é que me posso sentar? veja lá se tem
aqui mais bicho do que nos degraus. “Isso não sei, mas aí não se pode sentar”.
Não me diga que não pode olhar para o outro lado e passar sem me ver …, pois
chame a GNR para me tirar daqui antes que seja atendida.
O
jovem segurança, coitado, tinha que “cumprir” ordens (isto faz lembrar qualquer
coisa), zelar pela segurança dos cidadãos naquele espaço da sua responsabilidade e certamente uma família a sustentar, puxou da “arma”, diga-se, telemóvel, e ligou,
supostamente, para o chefe.
Felizmente
para todos, naquele momento miss beleza levantou-se, esticando langorosamente
ambas as mãos, satisfeita com o brilho e comprimento das suas garras sanguíneas
e despediu-se sem mais delongas.
Judite
pode, então, erguer-se e avançar, porém não deixou de meditar se teria o
jovenzinho ficado aliviado ou, pelo contrário, frustrado com um desfecho tão
sem sal. Restava saber outro tanto acerca do chefe. Mas isso é coisa para psicólogos. O que ela ia fazer era desencardir as unhas, depois da apanha dos figos.