quinta-feira, 14 de outubro de 2021

 

ANSIEDADES DE UMA VELHA - XVI

Judite sentou-se numa espécie de banco-sofá, sem encosto, melhor dizendo, encostado a uma parede no Centro Comercial. Em napa laranja, ladeado por pines unidos por correntes vermelho e branco, leves, de plástico, talvez. Noutros tempos estaria ali objecto de contemplação pública em que não se deveria tocar. No presente não passava dum desgraçado banco de napa, sem direito a encosto, tendo-lhe sido em tempos apenas permitido usufruir da parte inferior de ocupantes de melhores dias, sem direito a um braço e muito menos a um abraço. Judite não gosta daqueles locais que para se encontrar o que se precisa tem-se de palmilhar quilómetros. Doíam-lhe as velhas pernas.

Tinha marcado manicure para as cinco, mas uma candidata a miss beleza levara mais tempo que o suposto e passavam cinco minutos das cinco e ela, com a mania da pontualidade antecipada viera outros cinco antes da hora. Depois de dez minutos de pé, resolveu sentar-se à ponta do banco, sem retirar nada do lugar nem forçar a corrente.

Ainda não tinham passado trinta segundos, o jovem segurança, vindo do piso superior, ou porque estivesse na hora da ronda ou por “denúncia”, pretendeu expulsá-la. “Não pode sentar-se aí”. Não posso estar de pé e está na hora de ser atendida. “Aí não pode estar”. Então sento-me onde, no chão?”. “Pode sentar-se na escada”. Então na escada onde passa tanta gente é que me posso sentar? veja lá se tem aqui mais bicho do que nos degraus. “Isso não sei, mas aí não se pode sentar”. Não me diga que não pode olhar para o outro lado e passar sem me ver …, pois chame a GNR para me tirar daqui antes que seja atendida.

O jovem segurança, coitado, tinha que “cumprir” ordens (isto faz lembrar qualquer coisa), zelar pela segurança dos cidadãos naquele espaço da sua responsabilidade e certamente uma família a sustentar, puxou da “arma”, diga-se, telemóvel, e ligou, supostamente, para o chefe.

Felizmente para todos, naquele momento miss beleza levantou-se, esticando langorosamente ambas as mãos, satisfeita com o brilho e comprimento das suas garras sanguíneas e despediu-se sem mais delongas.

Judite pode, então, erguer-se e avançar, porém não deixou de meditar se teria o jovenzinho ficado aliviado ou, pelo contrário, frustrado com um desfecho tão sem sal. Restava saber outro tanto acerca do chefe. Mas isso é coisa para psicólogos. O que ela ia fazer era desencardir as unhas, depois da apanha dos figos.

 30 de Setembro de 2021