sexta-feira, 11 de junho de 2021

 ANSIEDADES DUMA VELHA – XIII – As Histórias do Avozinho  

Judite, ontem à tarde, deu-lhe para verificar o conteúdo duma caixa há muito arrumada no fundo da dispensa, indicando que contém livros; se é isso que indica, outra coisa não será; mas que livros? Estão lá há tanto tempo que talvez já lá não estejam, levados aos poucos por algum rato leitor ou traças letradas. Foi averiguar. Retirou o forte adesivo com que estava selada: cheirava a livros; a indicação estava correcta, mas livros numa caixa durante anos não trazem proveito a ninguém. Os primeiros a que deitou mão, uma caixa dura de cartão amarelo condizente com as lombadas, em número de onze, eram “As Histórias do Avozinho”.

Que fazem aqui tais histórias? Recuou mais de quatro décadas, para recordar o dia em que a amiga Carolina lhe entrara em casa, esbaforida, com os dois filhos pela mão e a caixa de livros debaixo do braço, quase a esfrangalhar-se, e lhe pedira se poderia olhar por eles nesse dia, que a ama tivera que resolver um problema e ela própria tinha uma reunião importante; que não iriam dar muito trabalho, tinham aqueles livros para ler. A caixa, colocada sobre a mesa, ainda lá se encontrava, intacta, quando chegou a hora da partida. Durante o dia passaram-lhe a casa a pente-fino, indagaram sobre tudo e mais alguma coisa, mexeram em quase tudo e ela ia dando em louca, recorda. Levem a caixa dos livros.  Não, ficam cá para a outra vez. Outra vez?! Não!

A história repetia-se, de longe em longe, felizmente. E os livros iam ficando, intocados. As crianças cresceram e os livros ficaram. Intocáveis.

Judite abriu um e, por curiosidade, leu a primeira história: “Um Velho Rei Vaidoso”. Depois ficou a meditar se não seria mais dedicada aos avozinhos do que às crianças, pois que o rei vaidoso só se apercebeu de que era um velho, quando uma criança, que não sabia que ele era rei e, a quem perguntou se sabia quem ele era, lhe respondeu: sois um velho.

Vamos lá ver se a história seguinte, intitulada “Exemplo”, será mais apropriada. Nova estupefacção: um caranguejo velho que ao ver um jovem caranguejo andar de lado lho fez notar, insinuando não serem modos de o fazer, tendo o jovem replicado que igual reparo lhe fazia, pois também ele assim caminhava.

Judite não quer crer; ora que sentido ou que moral têm estas histórias que mostram às crianças como os velhos podem ser estúpidos. Agora compreende porque é que há velhos maltratados; eles é que tiveram a culpa de comprar livros daqueles e dá-los às crianças sem os terem lido primeiro.

Ora vamos lá ainda a outra história: um rato já velho ensinava aos pequenos que não deveriam ter medo, que não tinham que ser uns fugitivos, que encarassem os gatos de frente e nada lhes aconteceria; porém numa dessas aulas apareceu por ali, por acaso e despreocupadamente, um gato e logo, vergonhosamente, contra todo o discurso, o velho professor foi o primeiro a fugir.

E depois dizem que os alunos não respeitam os professores; os que leram esta história certamente que não: na sua ingenuidade e inexperiência poderão ser levados a pensar que assim são.

Judite leu ainda as duas últimas daquele volume, na esperança de que redimissem as anteriores. Em vão: os exemplos não eram melhores nem mais compreensíveis para uma criança, mas muito bem ilustrados, sim, todas as imagens são por demais apelativas.

Ora um livro não pode ser liquidado, muito menos uma dúzia, que a bem da verdade não sabe o que as outras histórias contam, mas livros que induzem os compradores em erro, não podem ir parar às mãozinhas de crianças que já saibam ler. Podem, e devem, sim, com as suas belíssimas ilustrações, servir para contar umas outras histórias às crianças pequenas, servindo-se delas para mais facilmente conduzirem a boas e oportunas histórias e assim que se aproximem da idade em que começam a soletrar, têm que lhes ser subtraídos e entregues a “avozinhos” que não tenham netos, para que não se corra o risco de um dia os lerem, por engano, quando ainda não têm entendimento para fazer a destrinça .

Ficariam muito bem na estante de um lar de idosos para serem lidos pelos netos adultos aos avôs, aquando das visitas, e se já não fizerem proveito ao velho, apesar de dizerem que se aprende até morrer, poderá ainda o neto, já adulto, retirar daí lições.

Judite não sabe ainda bem o que fazer com eles; nunca tinha pensado que inofensivos livros pudessem tornar-se perigosos. Tinham certamente sido escritos para os ditos avozinhos e o ilustrador terá levado em conta que os velhos também gostam de apreciar desenhos muito bem concebidos, mas depois algo terá corrido mal para irem parar, sem filtro, às mãozinhas dos netos.

Judite já não tem vontade de rever os outros; tem receio de ter mais livros perigosos guardados na despesa; talvez seja por isso que lá estão. Por serem perigosos quando mal utilizados. O melhor é não lhes mexer, mas guardar material perigoso na dispensa também não é aconselhável. Às vezes pensa que já não está boa da cabeça, mas também não tem a certeza.

Deve ser de ter lido muitos livros, talvez alguns perigosos também.