sábado, 26 de setembro de 2020



DESILUSÕES 

Desprezou-lhe os sonhos. De que se podia ela agora queixar; de que ele lhos matara? Alguma vez lhe ocorreu que também ele poderia ter sonhos? Cuidou que os seus e os dele fossem os mesmos: de entre outros, mais discutíveis, o primeiro, o primordial, possuir uma casa, já que a palavra "casamento" deriva de casa. Os anos, as décadas, longas décadas passaram e, iludida com os seus sonhos, não logrou indagar os dele que, afinal, ao que lhe parece, se limitavam a usufruir o momento: nada fazer, não fazer nada e, em alternativa, pouco fazer, porque, de vez em quando, é preciso mostrar trabalho, neste mundo de aparências e de quando em vez vestir-se de concreto. Ter uma casa fora uma ilusão; uma desilusão. A sua vida uma ilusão, uma desilusão, uma dor. Um habitáculo que, em vez de vida, era desabitado ou mal-habitado. 
Nem um nem outro estava feliz, vendo no outro o próprio retrato amarelecido pelo tempo e emoldurado por algo que fora sonho e que se desfazia, tal como a vida. Dois simulacros de vida, que acordavam como espectros, andavam como gente que sabe que o chão lhes foge debaixo dos pés e se deitavam como moribundos. 
Os dias cinzentos, embora de sol, áridos desertos onde já vive o esquecimento, melhor que o desânimo ou a inquietação duma alma habitada por ilusões, numa vida onde a razão não passou de um sonho, de uma aspiração juvenil que se prolongou, como uma angústia ou como um ardente amor que se teima em não perder. 
Agora que esse amor morreu, levou consigo a coragem nem sabe de quê, de uma espécie de tempo e de vida provisória perdidos; todas as conversas lhe são indiferentes, sem vontade de participação, numa subtil sensação de mediocridade, de tristeza intensa, de quase ausência de pensamento. 
Mas os dias, esses, continuam a nascer; nascem manhãs, crescem como tardes e envelhecem como noites sem madrugada. Sucedem-se, inclementes, cruéis, patéticos. 
Apetece-lhe que não sejam reais, que seja antes invadida por uma calma indefinida, mesmo que próxima da apatia, numa fidelidade à triste inércia.